Ludi in Rio 2026
202607240900P6 – 24.122 D.V.
Na tarde da
terça-feira passada, estive em um encontro com amigos na cafeteria da nova livraria
Leonardo da Vinci, situada na galeria do subsolo do Edifício Marquês de Herval,
atendendo à convocação de Ludimila Hashimoto, uma amiga carioca radicada há
décadas em São Paulo, ora em visita ao Rio de Janeiro.
Como o
trânsito fluiu relativamente bem naquela tarde, após o percurso de ônibus até a
Voluntários da Pátria e o embarque na estação de metrô de Botafogo, valendo-me
da vantagem das gratuidades recém-conquistadas, acabei chegando ao local do
evento meia hora mais cedo, em relação ao horário marcado das 16h30. Leitura de bordo: Dança Macabra
(Francisco Alves, 1989), do Stephen King, um ensaio descompromissado do velho
mestre sobre o Horror na literatura, no cinema e na TV. Livro que comprei há trinta e poucos anos e
que não havia lido até agora. Ainda
bastante pertinente, mas – obviamente – algo datado. Culpa deste leitor ingrato ou, como os
romanos costumam dizer, mea maxima culpa.
Saltando na
Carioca, percebi que não visitava aquele trecho da Avenida Rio Branco desde a
época pré-pandemia em que fazíamos os encontros mensais do Vórtice Rio no
Centro Cultural da Caixa Econômica (que nem existe mais). A estação em si se exibia cercada de
barraquinhas de camelôs e assemelhados, numa densidade comparável à do calçadão
da Praia de Copacabana. Enfiei as mãos
nos bolsos, afivelei minha pior cara de mau e cruzei aquele camelódromo
improvisado em passos rápidos até alcançar a calçada oposta da avenida.
***
Cheguei no
subsolo do Marquês de Herval (o bom e velho General Osório, para quem não sabe)
e me dirigi ao tradicional sebo Berinjela, estabelecimento defronte à Da Vinci,
no qual lançamos a antologia Outras Copas, Outros Mundos, pela Ano-Luz
nos idos jurássicos de julho de 1998.
Fucei um pouco a prateleira dedicada à ficção científica, mas não
comprei nada.
Luiz Felipe
Vasques foi o segundo a chegar no fundo da galeria. Antes de bater ponto no sebo Berinjela, avisou
que já havia reservado uma mesa para oito pessoas na cafeteria da livraria.
Cinco minutos
mais tarde, quando já estávamos aboletados em nossa mesa, o editor do Somnium,
Rubens Angelo chegou à livraria. Pouco
depois, aparece Heitor Serpa, autor de literatura fantástica que eu ainda não conhecia
pessoalmente. Como eu, Heitor participa
das iniciativas da Álamo Edições, capitaneada por Jean Gabriel Álamo.
Ana Lúcia
Merege foi a próxima a chegar.
Aproveitei o ensejo e lhe presenteei com um exemplar capa dura
autografado da minha coletânea de contos de viagens no tempo ambientados no
universo Contingências Retrotemporais,
Operação Arquimedes, pois, graças ao convite da Ana para participar de
uma antologia uma três anos atrás, escrevi a noveleta que empresta seu título à
coletânea. De lá para cá, escrevi outros
três contos neste U.F., dois dos quais inclusos na coletânea.
Octavio
Aragão chegou minutos depois da Ana.
Trouxe consigo parte da produção atual do seu universo Intempol, destacando os três volumes da
nova antologia gráfica, as duas versões do romance gráfico The Long
Yesterday e a graphic novel do Carlos Felipe Figueiras, crossover do
universo intempoliano com o Sítio do
Picapau Amarelo do Monteiro Lobato.
Por fim,
vinda diretamente da Freguesia, Jacarepaguá, Ludimila, mentora do nosso
encontro, chegou em companhia de sua filha de treze anos, Violeta. Presenteei nossa anfitriã com um exemplar
capa dura da minha noveleta de história alternativa com primeiro contato, O
Preço da Sanidade. Como psicóloga, Ludi
se interessou quando lhe falei que o protagonista dessa narrativa foi submetido
a tratamento numa clínica psiquiátrica durante o regime ditatorial que derrubou
Luiza Erundina da presidência no Golpe de 2001.
Espero que continue gostando depois de ler a noveleta.
Dos amigos
que Ludi convidou para o evento, batizado “Café com Bolinhos e Livros”, apenas
Rafael Lupo Monteiro e Juliana Berlim não compareceram. Essa última estava em São Paulo. Ludi explicou que tentará encontrá-los numa
segunda chamada do evento.
***
Já no início
do bate-papo, Rubens nos contou sobre as vicissitudes de sua convalescença do
tombo que levou no Aterro do Flamengo no ano passado, comparando essas
experiências com o acidente que seu pai sofreu numa obra que comandava anos
atrás.
Como a
maioria dos presentes até então só conhecia o Heitor através das redes sociais,
segundo ele, o encontro de transanteontem funcionou como uma espécie de
comprovante da sua existência física perante testemunhas idôneas. Humm, não sei, não. Mas acho que esse negócio de “existência
física” anda muito supervalorizado ultimamente...
Aproveitando
que a cafeteria da livraria serve vinho em taça, experimentei um tinto. Mais tarde, um branco e, mais tarde ainda, à
guisa de saideira da livraria (que, afinal, cerra as portas às 18h30), retornei
ao tinto. Porém, como ninguém é de
ferro, à guisa de prevenção, antes dessa farra etílica de caráter enológico, consumi
um copo parrudo de chocolate gelado – dose generosa a ponto de causar inveja
aos amigos – para contrabalançar o teor alcoólico das três taças de vinho que
ingeriria mais tarde.
Ao longo do
bate-papo vespertino, quando comentei com Octavio e Felipe que a maioria dos
meus amigos de esquerda me consideram de direita e que a maioria dos meus
amigos de direita me consideram de esquerda, Octavio afirmou que, até pelos
temas das minhas histórias, minha orientação camba mais para a esquerda. Quando repliquei que sou a favor da pena de
morte, contra-argumentou que isso é apenas um ponto fora da curva. Então, tá.[1]
Atendendo a
pedidos, expliquei os motivos para o atraso da antologia de contos de história
alternativa que organizei há tempos e que submeti no fim do ano passado a uma
nova editora. Entendedores entenderão.😉
Por volta das
dezoito horas e vinte minutos fomos gentilmente convidados a abandonar a cafeteria,
para que a livraria pudesse cerrar as portas.
Ainda
permanecemos de pé na galeria do subsolo por uns dez minutos, batendo papo e
nos despedindo da Ana Merege, que pediu um UBER para regressar a Niterói. Então, resolvemos rumar até a Pizzaria
Fontana, em Botafogo, para continuar o papo e, eventualmente, fazer uma
boquinha.
Fontana é a
enésima quarta encarnação do mesmíssimo estabelecimento na esquina da Mena
Barreto com a Rua da Passagem que frequentamos há cerca de duas décadas e que
já abrigou encontros e eventos memoráveis (e outros nem tanto) da comunidade
FC&F carioca.
***
Caminhamos em
caravana até a Estação Carioca e embarcamos no metrô rumo a Botafogo. Demorei um pouco a validar meu cartão
gratuidade e quase não consegui embarcar na mesma composição e vagão que meus
amigos. Porém, nada que uma corrida breve
não resolvesse.
Durante a
viagem, conversei com Ludimila sobre sua estada atual no Rio de Janeiro. Ela e a filha estão hospedadas na casa da mãe
dela, lá na Freguesia. Ludi falou que,
além de tradutora (de mão cheia, por sinal), está trabalhando como psicóloga
especializada em portadores de TDAH, superdotados e autistas.
Uma vez na
Fontana, talvez em virtude do dia e, sobretudo, da hora, não foi difícil
conseguir uma mesa para nós sete. Juro por
Baco que não queria participar do irresistível rodízio de pizzas e massas do
estabelecimento. O que ocorreu foi que,
quando fui pesar meu prato – repleto de corações de frango, fatias de carpaccio
e outras iguarias e gordices correlatas – a balança registrou o peso, mas não
emitiu a fatura. Como o valor da mesma
seria superior ao do rodízio e o sistema de rodízio facultava acesso aos pratos
do buffet (exceto pelas carnes do churrasco), a funcionária propôs cortesmente que
eu pagasse como se fosse rodízio. Em
minha defesa, declaro que não aceitei nem uma mísera daquelas fatias apetitosas
que os garçons não se fartavam em oferecer com insistência malévola aos meus
amigos.
Rubens nos
contou sobre a experiência agridoce de assistir ao novo filme do He-Man ainda
em exibição nos cinemas. Comentei que só
conhecia o personagem pelos desenhos animados que meus filhos mais velhos
assistiam, se não me engano, no Show da Xuxa.
Ah, a juventude...
Comentei com
o Felipe sobre a necessidade de alavancarmos nosso projeto conjunto no universo
ficcional Terra Brasilis. Já escrevi uma noveleta e uma novela nesse
U.F. compartilhado e ele três contos.
Estimo que ainda precisamos de mais umas dez ou vinte mil palavras para
fechar o livrinho.
Permanecemos
na Fontana por quase duas horas. Então,
pagamos nossas comandas individuais e pedimos nossos veículos de
aplicativo. Na viagem de volta para
casa, dividi um UBER com Felipe e Octavio.
Enfim, um
encontro muito bom. A questão agora é
ver se conseguimos transformar essa efeméride numa tradição.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 24 de julho de 2026 (sexta-feira).
Participantes:
Ana Lúcia Merege.
Gerson Lodi-Ribeiro.
Heitor Serpa.
Ludimila Hashimoto.
Luiz Felipe
Vasques.
Octavio
Aragão.
Rubens
Angelo.
Violeta Hashimoto.
[1]. A verdade é
que, em meados da terceira década do século XXI, em pleno Terceiro Milênio, os
conceitos de “esquerda” e “direita” me soam tão ultrapassados que, se for para
ser taxado de alguma coisa, prefiro que seja de anarquista. Aliás, quando falei isso transanteontem, Ludi
comentou que simpatizava com essa postura.




Mais uma excelente crônica do amigo Gerson Lodi-Ribeiro, que encontro legal. A elite (no melhor sentido da palavra) da ficção especulativa nacional!
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