sábado, 25 de julho de 2026

 Ludi in Rio 2026

 

202607240900P6 – 24.122 D.V.

 

Na tarde da terça-feira passada, estive em um encontro com amigos na cafeteria da nova livraria Leonardo da Vinci, situada na galeria do subsolo do Edifício Marquês de Herval, atendendo à convocação de Ludimila Hashimoto, uma amiga carioca radicada há décadas em São Paulo, ora em visita ao Rio de Janeiro.

Como o trânsito fluiu relativamente bem naquela tarde, após o percurso de ônibus até a Voluntários da Pátria e o embarque na estação de metrô de Botafogo, valendo-me da vantagem das gratuidades recém-conquistadas, acabei chegando ao local do evento meia hora mais cedo, em relação ao horário marcado das 16h30.  Leitura de bordo: Dança Macabra (Francisco Alves, 1989), do Stephen King, um ensaio descompromissado do velho mestre sobre o Horror na literatura, no cinema e na TV.  Livro que comprei há trinta e poucos anos e que não havia lido até agora.  Ainda bastante pertinente, mas – obviamente – algo datado.  Culpa deste leitor ingrato ou, como os romanos costumam dizer, mea maxima culpa.

Saltando na Carioca, percebi que não visitava aquele trecho da Avenida Rio Branco desde a época pré-pandemia em que fazíamos os encontros mensais do Vórtice Rio no Centro Cultural da Caixa Econômica (que nem existe mais).  A estação em si se exibia cercada de barraquinhas de camelôs e assemelhados, numa densidade comparável à do calçadão da Praia de Copacabana.  Enfiei as mãos nos bolsos, afivelei minha pior cara de mau e cruzei aquele camelódromo improvisado em passos rápidos até alcançar a calçada oposta da avenida.

***

 

Cheguei no subsolo do Marquês de Herval (o bom e velho General Osório, para quem não sabe) e me dirigi ao tradicional sebo Berinjela, estabelecimento defronte à Da Vinci, no qual lançamos a antologia Outras Copas, Outros Mundos, pela Ano-Luz nos idos jurássicos de julho de 1998.  Fucei um pouco a prateleira dedicada à ficção científica, mas não comprei nada.

Luiz Felipe Vasques foi o segundo a chegar no fundo da galeria.  Antes de bater ponto no sebo Berinjela, avisou que já havia reservado uma mesa para oito pessoas na cafeteria da livraria.

Cinco minutos mais tarde, quando já estávamos aboletados em nossa mesa, o editor do Somnium, Rubens Angelo chegou à livraria.  Pouco depois, aparece Heitor Serpa, autor de literatura fantástica que eu ainda não conhecia pessoalmente.  Como eu, Heitor participa das iniciativas da Álamo Edições, capitaneada por Jean Gabriel Álamo.

Ana Lúcia Merege foi a próxima a chegar.  Aproveitei o ensejo e lhe presenteei com um exemplar capa dura autografado da minha coletânea de contos de viagens no tempo ambientados no universo Contingências Retrotemporais, Operação Arquimedes, pois, graças ao convite da Ana para participar de uma antologia uma três anos atrás, escrevi a noveleta que empresta seu título à coletânea.  De lá para cá, escrevi outros três contos neste U.F., dois dos quais inclusos na coletânea.

Octavio Aragão chegou minutos depois da Ana.  Trouxe consigo parte da produção atual do seu universo Intempol, destacando os três volumes da nova antologia gráfica, as duas versões do romance gráfico The Long Yesterday e a graphic novel do Carlos Felipe Figueiras, crossover do universo intempoliano com o Sítio do Picapau Amarelo do Monteiro Lobato.

Produção intempoliana de Octavio Aragão.

 

Por fim, vinda diretamente da Freguesia, Jacarepaguá, Ludimila, mentora do nosso encontro, chegou em companhia de sua filha de treze anos, Violeta.  Presenteei nossa anfitriã com um exemplar capa dura da minha noveleta de história alternativa com primeiro contato, O Preço da Sanidade.  Como psicóloga, Ludi se interessou quando lhe falei que o protagonista dessa narrativa foi submetido a tratamento numa clínica psiquiátrica durante o regime ditatorial que derrubou Luiza Erundina da presidência no Golpe de 2001.  Espero que continue gostando depois de ler a noveleta.

Dos amigos que Ludi convidou para o evento, batizado “Café com Bolinhos e Livros”, apenas Rafael Lupo Monteiro e Juliana Berlim não compareceram.  Essa última estava em São Paulo.  Ludi explicou que tentará encontrá-los numa segunda chamada do evento.

De pé (E/D): Felipe; GL-R; Heitor; Rubens; e Octavio.
Sentadas: Ana Merege; e Ludimila.

 

***

 

Já no início do bate-papo, Rubens nos contou sobre as vicissitudes de sua convalescença do tombo que levou no Aterro do Flamengo no ano passado, comparando essas experiências com o acidente que seu pai sofreu numa obra que comandava anos atrás.

Como a maioria dos presentes até então só conhecia o Heitor através das redes sociais, segundo ele, o encontro de transanteontem funcionou como uma espécie de comprovante da sua existência física perante testemunhas idôneas.  Humm, não sei, não.  Mas acho que esse negócio de “existência física” anda muito supervalorizado ultimamente...

Aproveitando que a cafeteria da livraria serve vinho em taça, experimentei um tinto.  Mais tarde, um branco e, mais tarde ainda, à guisa de saideira da livraria (que, afinal, cerra as portas às 18h30), retornei ao tinto.  Porém, como ninguém é de ferro, à guisa de prevenção, antes dessa farra etílica de caráter enológico, consumi um copo parrudo de chocolate gelado – dose generosa a ponto de causar inveja aos amigos – para contrabalançar o teor alcoólico das três taças de vinho que ingeriria mais tarde.

Ao longo do bate-papo vespertino, quando comentei com Octavio e Felipe que a maioria dos meus amigos de esquerda me consideram de direita e que a maioria dos meus amigos de direita me consideram de esquerda, Octavio afirmou que, até pelos temas das minhas histórias, minha orientação camba mais para a esquerda.  Quando repliquei que sou a favor da pena de morte, contra-argumentou que isso é apenas um ponto fora da curva.  Então, tá.[1]

Atendendo a pedidos, expliquei os motivos para o atraso da antologia de contos de história alternativa que organizei há tempos e que submeti no fim do ano passado a uma nova editora.  Entendedores entenderão.😉

Por volta das dezoito horas e vinte minutos fomos gentilmente convidados a abandonar a cafeteria, para que a livraria pudesse cerrar as portas.

Ainda permanecemos de pé na galeria do subsolo por uns dez minutos, batendo papo e nos despedindo da Ana Merege, que pediu um UBER para regressar a Niterói.  Então, resolvemos rumar até a Pizzaria Fontana, em Botafogo, para continuar o papo e, eventualmente, fazer uma boquinha.

Fontana é a enésima quarta encarnação do mesmíssimo estabelecimento na esquina da Mena Barreto com a Rua da Passagem que frequentamos há cerca de duas décadas e que já abrigou encontros e eventos memoráveis (e outros nem tanto) da comunidade FC&F carioca.

 

Ana Lúcia Merege; Ludimila Hashimoto; e Violeta.

Luiz Felipe Vasques; GL-R; e Rubens Angelo.

***

 

Caminhamos em caravana até a Estação Carioca e embarcamos no metrô rumo a Botafogo.  Demorei um pouco a validar meu cartão gratuidade e quase não consegui embarcar na mesma composição e vagão que meus amigos.  Porém, nada que uma corrida breve não resolvesse.

Durante a viagem, conversei com Ludimila sobre sua estada atual no Rio de Janeiro.  Ela e a filha estão hospedadas na casa da mãe dela, lá na Freguesia.  Ludi falou que, além de tradutora (de mão cheia, por sinal), está trabalhando como psicóloga especializada em portadores de TDAH, superdotados e autistas.

Uma vez na Fontana, talvez em virtude do dia e, sobretudo, da hora, não foi difícil conseguir uma mesa para nós sete.  Juro por Baco que não queria participar do irresistível rodízio de pizzas e massas do estabelecimento.  O que ocorreu foi que, quando fui pesar meu prato – repleto de corações de frango, fatias de carpaccio e outras iguarias e gordices correlatas – a balança registrou o peso, mas não emitiu a fatura.  Como o valor da mesma seria superior ao do rodízio e o sistema de rodízio facultava acesso aos pratos do buffet (exceto pelas carnes do churrasco), a funcionária propôs cortesmente que eu pagasse como se fosse rodízio.  Em minha defesa, declaro que não aceitei nem uma mísera daquelas fatias apetitosas que os garçons não se fartavam em oferecer com insistência malévola aos meus amigos.

Rubens nos contou sobre a experiência agridoce de assistir ao novo filme do He-Man ainda em exibição nos cinemas.  Comentei que só conhecia o personagem pelos desenhos animados que meus filhos mais velhos assistiam, se não me engano, no Show da Xuxa.  Ah, a juventude...

Comentei com o Felipe sobre a necessidade de alavancarmos nosso projeto conjunto no universo ficcional Terra Brasilis.  Já escrevi uma noveleta e uma novela nesse U.F. compartilhado e ele três contos.  Estimo que ainda precisamos de mais umas dez ou vinte mil palavras para fechar o livrinho.

Permanecemos na Fontana por quase duas horas.  Então, pagamos nossas comandas individuais e pedimos nossos veículos de aplicativo.  Na viagem de volta para casa, dividi um UBER com Felipe e Octavio.

Enfim, um encontro muito bom.  A questão agora é ver se conseguimos transformar essa efeméride numa tradição.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 24 de julho de 2026 (sexta-feira).

 


Participantes:

Ana Lúcia Merege.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Heitor Serpa.

Ludimila Hashimoto.

Luiz Felipe Vasques.

Octavio Aragão.

Rubens Angelo.

Violeta Hashimoto.



[1].  A verdade é que, em meados da terceira década do século XXI, em pleno Terceiro Milênio, os conceitos de “esquerda” e “direita” me soam tão ultrapassados que, se for para ser taxado de alguma coisa, prefiro que seja de anarquista.  Aliás, quando falei isso transanteontem, Ludi comentou que simpatizava com essa postura.

Um comentário:

  1. Mais uma excelente crônica do amigo Gerson Lodi-Ribeiro, que encontro legal. A elite (no melhor sentido da palavra) da ficção especulativa nacional!

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