quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 

Nossos Universos Ficcionais

no Esquenta da Acaso Cultural

 

 

“Em que hora você dorme, Gerson?”

(Guilherme Rezk)

 

202608162359P1 – 24.145 D.V.

 

Participei hoje à tarde do primeiro Esquenta da Rio Neon no segundo andar da Acaso Cultural, centro de cultura simpático e acolhedor situado na Rua Vicente de Sousa, nº 16, a duas quadras da estação de metrô de Botafogo.

A primeira parte desse Esquenta se centrou em torno da leitura do conto “O Grande Mar de Aadmir”, recém-publicado na coletânea Novos Desertos (Acaso Cultural, 2026), de Leonardo Nahoum, e na segunda parte a autora Carol Façanha e eu discorremos sobre nossas carreiras, publicações e universos ficcionais.

***

 

Saí de casa às 13h15, após uma última conferida na apresentação em PowerPoint que preparei para o evento e na colinha do que eu desejava falar sobre o conto e a coletânea do Leo Nahoum.  Quinze minutos de UBER mais tarde, chegava à Acaso Cultural.  Brevíssima leitura de bordo: parte de um conto da coletânea Sonhos de Vidro em Sombras de Concreto (Acaso Cultural, 2022), do Pedro Sasse.

Velho gato escaldado que sou, planejei chegar cedo para conferir se o arquivo da apresentação abriria direitinho no notebook da Acaso.  E, como paranoia pouca é bobagem, levei uma cópia desse arquivo num pendrive.  Just in case.😉[1]

Como gestor da instituição, Pedro já estava presente.  Aproveitei o ensejo e lhe pedi que complementasse o autógrafo da Sonhos de Vidro..., cujo exemplar recebi ao participar da campanha de apoio da Novos Desertos na Catarse.

Uns minutinhos mais tarde, Leo chegou armado com um tripé oblonguíssimo para espetar o banner da Novos Desertos que trouxe consigo.  Pouco mais tarde, chegou Nelson Job, escritor, professor e agitador cultural que eu já não encontrava pessoalmente desde o lançamento da antologia Intempol (Ano-Luz, 2000) na Casa da Matriz, mais de um quarto de século atrás.  Nelson me presenteou com um exemplar de seu romance recente Pulsares (Mondru, 2025).  Infelizmente, não tive um exemplar do meu romance recém-lançado Mundo-sem-Volta 1: Atrações do Zoológico (Edições Cosmos, 2026) para retribuir.[2]  Fico na dívida.

Nelson indagou se eu também estava participando da antologia Vampiros, edição especial da Revista Literatura Fantástica, organizada por Jean Gabriel Álamo para a sua Álamo Publicações.  Quando confirmei que participarei com a noveleta de vampirismo científico e história oculta “Caminho da Verdade”[3], perguntou se eu sabia quando a antologia seria lançada.  Respondi que não sabia, mas que torcia para que o lançamento se desse em breve.  O que eu realmente sei é que, com mais de quatro mil páginas, a antologia muito provavelmente não será publicada como livro físico, mas apenas como e-book.

Como participante do Esquenta desta tarde, tive prioridade em escolher um dos livros disponíveis na Feira de Trocas que rolaria depois da parte oficial do evento.  Escolhi o romance A Nova América (Parágrafo, 2022), do Pedro.  Em seu lugar, deixei um exemplar da minha coletânea Histórias de ficção científica por Carla Cristina Pereira (Draco, 2012) e outro, da antologia Não Mais (Histórias Incompletas, 2022), da qual participo com a noveleta “Apagão”, ambientada no universo ficcional Terra Brasilis.  Leo pegou o livro da Carla para si.

Outros amigos e conhecidos foram chegando aos poucos, com destaque para as autoras de literatura fantástica Carol Façanha e Luiza Rosa; o bom amigo das lides do Clube de Leitores de Ficção Científica Eric David Hart; e os confrades do Escribas da Cinelândia, Marcos de Queiroz e Guilherme Rezk.

Demos início aos trabalhos no horário combinado das 14h00.

***

 

A primeira atividade dessa sessão de estreia do Esquenta Neon Rio foi a leitura do conto “O Grande Mar de Aadmir” pelo próprio autor, Leonardo Nahoum.

Leo leu seu conto (pelo tamanho, desconfio que possa ser uma noveleta) com voz firme e impostada por quase uma hora.  Pedro falou conosco que, se o autor se cansasse, outro leitor poderia assumir.  Sentado à mesa ao lado do autor, voluntariei-me para essa ajuda eventual.  Porém, Leo aguentou firme sem fraquejar até o ponto final e foi melhor assim.  Porque acho que leitor algum consegue imprimir uma entonação tão boa às vozes dos personagens quanto o próprio autor.

Leitura concluída, falei brevemente sobre o conto em si, uma história apresentada por um narrador alienígena não humanoide de uma espécie desprovida do sentido da visão, que se orienta em seu ambiente através do olfato e da audição.  Declarei que, na minha opinião, “O Grande Mar de Aadmir” é a melhor história de narrador alienígena já escrita em português.  Confessei minha inveja pelo fato de Leo ter conseguido escrever um conto mais simakiano do que eu, que tenho Clifford D. Simak como meu autor predileto.  Lembrei que esse conto foi originalmente publicado na antologia amadora Verde... Verde..., lançada pelos associados ao grupo carioca do CLFC em 1989.  Afirmei que por serem ambientadas no mesmo universo ficcional, os contos dessa coletânea podem ser lidos em conjunto como um romance fix-up.  Aproveitei para tecer uns comentários breves sobre alguns dos outros trabalhos da coletânea, com ênfase ao diálogo entre duas crianças de culturas humanas muito diferentes no belo e pungente “O Farol das Esquinas de Marte”; e ao “Controlador”, noveleta cujo enredo e temática dialogam com o universo de pós-humanos poderosíssimos delineado por Michael Moorcock na série Dancers at the End of Time.  Enfim, falei da importância histórica da Acaso  Cultural ter resgatado essa coletânea, escrita originalmente entre o fim da década de 1980 e o início da de 1990, tornando-a acessível aos leitores da terceira década do século XXI.[4]

Após essas considerações, Leo respondeu às perguntas de uma plateia impressionada e entusiasmada.  Em uma das respostas, declarou que, à época em que os contos da Novos Desertos foram escritos, sua maior influência literária era Ray Bradbury.  Faz sentido.  Pois alguns dos trabalhos da coletânea realmente têm um quê daquele autor estadunidense.


Leitura do conto "O Grande Mar de Aadmir".


***

 

Quando Leonardo terminou, perguntei à Carol se ela preferia falar antes ou depois.  Ela preferiu falar primeiro.  Como eu, também trouxe uma apresentação em PowerPoint.

Um problema que pairou em minha mente (e, de repente, na da Carol também), foi o do cronômetro.  Porque, em princípio, nosso evento como um todo deveria se estender das 14h00 às 16h00.  Então, imaginei, deveria ser uma hora para a leitura do conto do Leo e, daí, meia hora para a apresentação da Carol e outra meia hora para a minha.  No entanto, a leitura, mais minha fala sobre o conto e as perguntas da galera consumiram, grosso modo, uma hora e vinte minutos.  Felizmente, no papel de salvador da periferia galáctica, Pedro declarou que não havia pressa alguma, que nós dois poderíamos fazer nossas apresentações com calma e que depois ainda seria concedido tempo bastante para as perguntas da plateia.

Isso posto, Carol começou sua apresentação num ritmo ágil e veloz com um pitch bem elaborado, com sete minutos de duração (ela afirmou; eu não conferi, mas confio nela) sobre uma narrativa fantástica a ser veiculada como série de animação num canal de streaming.  Pela qualidade elevada da proposta, intuo que se trata de uma mera cabeça-de-ponte para um projeto multimídia mais amplo.

Em seguida, falou de seus livros já publicados, que não são poucos.  Um deles foi o romance A Ilha das Nuvens Cadentes (Flyve, 2025), uma trama criativa inovadora, inspirada na mitologia grega, em que mortais podem assumir os atributos e as responsabilidades dos deuses do panteão olímpico.  Senti-me um bocado curioso sobre esse romance.[5]

Ainda na apresentação, também abordou um conceito interessantíssimo “Da vítima ao Monstro”, em que protagonistas femininas vítimas de bullying e agressões, sexuais ou não, convertem-se em monstros vingadores.  Quem dera se essa moda pegasse no Brasil do Mundo Real™...

A partir de uma pergunta da plateia, Carol falou sobre sua tese de doutorado em Literatura Inglesa que, naturalmente, versou sobre narrativas fantásticas.

Ao término de sua apresentação, a autora respondeu com presteza cerca de uma dezena de perguntas da plateia.

Apresentação de Carol Façanha.

***

 

Como último evento desse Esquenta inaugural, comecei enfim a apresentação “Universos ficcionais de um velho dinossauro da ficção científica brasileira”.

Antes de falar dos meus universos ficcionais, lembrei os primórdios, quando fiz parte de um grupo de amigos e conhecidos que publicava ficção curta nos fanzines (imagino que tenha soado como pincelada de uma genuína aula de pré-história da FCB aos mais jovens).  Em seguida, após esclarecer que a maioria dos meus escritos está inserida em U.F. extensos, apresentei seis desses doze ou treze universos.  Quatro de ficção científica convencional e dois no subgênero da história alternativa.

Comecei pelo space opera Aeternum Sidus Bellum, citando sem grandes detalhes a coletânea e os três romances.[6]  Daí, abordei o Humanosfera, detalhando um pouco a pegada new space opera e antepondo o fim da civilização global terrestre ao florescimento das diversas facções da humanidade espacial, em seguida, falando brevemente do romance curto, do romance e da trilogia.[7]  Nesse instante, ao contemplar a capa do terceiro romance dessa trilogia – que tenta retratar algo da interação romântica candente entre a almirante da estirpe espacial Natasha Morgan e a senatora neorromana plebeia Camilla Alba – Carol não resistiu e perguntou se havia relacionamentos sáficos nesse U.F.  Confirmei o insight dela e prossegui com um sorrisinho no canto dos lábios.

Daí, abordei en passant o U.F. Imortais Efêmeros, enfatizando tão só a novela Quando os Humanos Foram Embora, em virtude de sua proposta original do primeiro contato estabelecido pela humanidade daquele futuro remoto com inteligências que evoluíram no fundo do oceano interno de um satélite tipo-Europa.

Por causa de sua complexidade, tentei detalhar melhor o quarto e último U.F. de ficção científica convencional, Tramas de Ahapooka.  Falei das noveletas publicadas em revistas profissionais: “Alienígenas Mitológicos” na edição brasileira da Asimov’s em 1991 e a infantojuvenil “A Filha do Predador” na Sci-Fi News Contos dez anos mais tarde.  Então falei dos romances eróticos publicados pela Draco: A Guardiã da Memória (2011) e Octopusgarden (2017).  Enfim, abordei os romances da trilogia Mundo-sem-Volta, afirmando considerá-los minha obra magna: Atrações do Zoológico; Magos Humanos; e Párias da Periferia.  Citei também o “quarto” romance da trilogia, Lady Europa de Rhea.  Esses quatro romances que mostram as aventuras de Europa, Spartacus e da Nave em Ahapooka saíram em e-book pela Amazon KDP em 2025 e Atrações do Zoológico acabou de sair como livro impresso na Edições Cosmos.

Em seguida, passei às duas linhas históricas alternativas, só que, antes disso, delineei os conceitos de história alternativa, ponto de divergência e linha alternativa.

Primeiro falei da LHA Pax Paraguaya, estabelecida quando escrevi a noveleta “A Ética da Traição”.  Detalhei a história de publicação desse que é meu trabalho mais conhecido e republicado em vários países e idiomas.  Daí, mencionei que todas as narrativas dessa LHA estão reunidas na coletânea Fantasmas num Velho Cronovisor (Amazon KDP, 2023).

Enfim, falei da minha LHA mais complexa, a Três Brasis.  Primeiro mostrei a divergência, suas consequências de curto prazo e de longo prazo.  Então, enfatizei que, para além de história alternativa, a maioria dos trabalhos publicados nessa LHA constituem narrativas de vampirismo científico, sem me preocupar muito em conceituar esse termo de maneira explícita.  Apresentei o romance fix-up Aventuras do Vampiro de Nova Holanda (Draco, 2014).  Citei a inspiração arqueológica a posteriori que descobri no sítio mochica Huaca de la Luna em janeiro de 2000 e que decidi incorporar a esse U.F.  Em seguida, detalhei o romance de passado alternativo Consciências de Ébano (2022) e o romance de presente alternativo Palmares Solariana (2023).  Falei ainda das narrativas dessa linha alternativa em que os filhos-da-noite não aparecem: a novela A Traição de Palmares (2023) e a noveleta “Pátrias de Chuteiras” (1998).

Encerrada a apresentação, passei as referências e meus contatos à galera.

Respondi umas dez ou doze perguntas da plateia.

Luiza Rosa indagou sobre as cronologias internas das obras que abordei.  Respondi que procurei citar na apresentação os trabalhos dentro das cronologias internas de seus respectivos U.F., mas me coloquei à disposição para maiores detalhamentos.

Guilherme Rezk me arremessou a pergunta-clichê sobre processo criativo.  Respondi que não existe uma receitinha de bolo simples que funcione para todos os casos e preparos, pois cada narrativa costuma exigir uma estratégia distinta.  Foi o que pude avançar, dada a exiguidade do tempo para perguntas & respostas.  De todo modo, confessei que meu primeiro rascunho é sempre manuscrito.  Só a partir do segundo é que surgem as versões digitalizadas.

Quando comentei que o U.F. Humanosfera foi gerado a partir da destaikodonização do U.F. inativo Taikodom, Álvaro Filippe teceu comentários saudosos em relação àquele universo que estabeleci para a Hoplon Infotainment entre 2004 e 2010.

Alguém me indagou se eu já havia cogitado a escrever um crossover, misturando personagens e ambientes de dois ou mais universos ficcionais distintos.  Achei não a pergunta, mas a situação engraçada, porque uma questão bem parecida com essa me havia sido feita numa live de que participei no canal Café Especulativo na semana passada, sobre o lançamento da edição física de Atrações do Zoológico.  Respondi lá na Acaso de forma similar à réplica da live: embora tanto Asimov quanto Heinlein tenham publicado crossovers de seus U.F. ao fim de suas carreiras literárias, considero isso um sinal inequívoco de senilidade.  Só dessa vez fui mais longe: autorizei todo e qualquer dos presentes à inauguração do Esquenta a me abater a tiros se algum dia eu anunciar que pretendo publicar um crossover.  Creiam, será um gesto supremo de amizade.  Uma eutanásia piedosa, por assim dizer, a fim de evitar um mal maior.😊

Ao fim das perguntas, Juliana Cunha veio comentar comigo que trabalha na Wikipédia, pelo fato de eu ter citado como uma das referências, aos interessados pelos meus escritos, meu verbete na Enciclopédia Livre.  Eu e os demais nos surpreendemos.  Porque todo mundo conhece a Wikipédia e muitos usam essa enciclopédia online, mas nenhum de nós já havia travado contato com alguém que trabalhasse lá!



Apresentação de GL-R.

***

 

Finda a parte formal do Esquenta, Pedro nos convidou para passarmos a uma outra sala daquele mesmo andar, onde foi servido café (infelizmente, sem bolo).  Aproveitei aquele momento informal para conversar mais um pouco com o Leo, o Eric Hart e com meu confrade do Escribas, Marcos de Queiroz, que me mostrou um exemplar de seu último lançamento, o romance de ficção científica, com temática de inteligência artificial, G.I.N.A. (Flyve, 2026), cuja chamada de capa é “a jornada de uma robô-menina para se tornar uma menina humana”.



Luiza Rosa e Carol Façanha.

Plateia durante a leitura.

Bate-papo com Leo no cafezinho.


Quase no apagar das luzes, Álvaro me fez uma pergunta que ninguém me fazia há uns bons trinta e poucos anos: se o hífen que emprego em meu nome é de verdade ou se faz parte de meu nome artístico.  Expliquei que adotei esse hífen em fins da década de 1980, época em que cogitei seguir a carreira científica na Astronomia.  Como imaginei que houvesse mais artigos publicados por pesquisadores com sobrenome “Ribeiro” do que com o “Lodi”, adotei o hífen para que minhas publicações acadêmicas saíssem sob o nome “Lodi-Ribeiro, Gerson”.  De lá para cá, como comecei a publicar profissionalmente como “Gerson Lodi-Ribeiro”, resolvi deixar como estava.  Afinal de contas, não se mexe em time que está ganhando ou, pelo menos, empatando.  Ao ouvir minha explicação, Leo externou uma indignação branda e bem-humorada pelo fato de eu nunca lhe haver revelado esse fato.

***

 

Quando o pessoal começou a se evadir rumo às suas casas e/ou às baladas domingueiras, eu, Leo e Eric dirigimo-nos ao Nonô, restaurante simpático instalado no andar térreo da Acaso Cultural que, segundo eu ouvira dizer, possuiria uma carta de vinhos de responsa.

Dividimos um tinto chileno e uns belisquetes enquanto conversávamos sobre defeitos de pais idosos, preocupações com os filhos, viagens ao exterior (com ênfase ao Egito e à Grécia), convenções de ficção científica em que estivemos, romances e ficção curta que apreciamos – com destaques para os romances de Jack McDevitt, o clássico Masters of the Maze do Avram Davidson e o delicioso U.F. Murderbot da Martha Wells.


GL-R, Leo e Eric:
Bate-papo com vinho no Nonô.



Enfim, por volta das 19h00, pedimos nossos UBER e nos despedimos.

Vinte minutos mais tarde, cheguei em casa.  Então, descrevi as experiências memoráveis dessa tarde para Cláudia.  Daí, enquanto Morfeu não dava o ar de sua graça, assisti ao primeiro episódio da terceira temporada do Silo e o décimo primeiro episódio da série clássica O Túnel do Tempo.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2026 (domingo).

 


Participantes:

Álvaro Filippe.

Carol Façanha.

Eric David Hart.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Guilherme Rezk.

Juliana Cunha.

Leonardo Nahoum.

Luiza Rosa.

Marcos de Queiroz.

Nelson Job.

Pedro Sasse.



[1].  As precauções se revelaram desnecessárias: o arquivo da apresentação que eu havia mandado ao Pedro na antevéspera abriu e rodou direitinho.

[2].  Levei os dois únicos exemplares de que dispunha aqui em casa (além daquele que mereceu um lugar de honra na prateleira dos meus livrinhos em meu humilde bunker de dados) para presentear Carol Façanha, que dividiria a mesa de Universos Ficcionais comigo, e o próprio Pedro Sasse, a quem todos devemos a iniciativa inspirada maravilhosa que é a Neon Rio.

[3].  Embora ambientada na linha histórica alternativa Três Brasis, não considero essa noveleta de onze mil palavras história alternativa, porque a ação se passa quase um milênio antes do ponto de divergência, em pleno apogeu da civilização mochica no norte do Peru.

[4].  Então um adolescente de dezoito anos, Leo escreveu e montou essa coletânea para concorrer ao Prêmio Caminho de Ficção Científica, concurso bienal promovido pela Editorial Caminho, de Portugal.  Em 1989, o prêmio havia sido abiscoitado por Bráulio Tavares com a coletânea Espinha Dorsal da Memória.  No certame que Leo participou, o vencedor foi o (então) jovem autor português Luís Filipe Silva, com a coletânea Futuro à Janela.  Anos mais tarde, Filipe se tornaria coautor, junto com João Barreiros, do grande clássico da ficção científica lusófona, o romance Terrarium (Caminho, 1996).

[5].  Felizmente, poderei aplacar essa curiosidade em breve: em troca de uma cópia autografada de Atrações do Zoológico, Carol me brindou com um exemplar, igualmente autografado, de A Ilha das Nuvens Cadentes.

[6].  Coletânea: Os Humanos Estão Chegando, que reúne toda a ficção curta desse U.F.  Romances: Decisão em Capella (ambientado no início da Guerra Eterna); Simbiontes (no auge da Guerra); e Germes Mortais (infantojuvenil ambientado num futuro pós-guerra remotíssimo).

[7].  Romance curto Pecados Terrestres (Draco, 2022); romance com uma abordagem heterodoxa da temática “Eram os Deuses Astronautas”, Quando Deus Morreu (Amazon KDP, 2024); e trilogia Labirintos de Knossos: 1. Legados; 2. Litígios; e 3. Luminares (Amazon KDP, 2025).

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 

Atrações do Zoológico

no Café Especulativo

 

A Guardiã da Memória é uma obra que permite leituras em várias camadas.  Inclusive, sobre questões de gênero/sexualidade e questões filosóficas sobre existência e transitoriedade.”

(Hidemberg Alves da Frota)

 

“Quando li A Guardiã da Memória, o que me capturou foi a riqueza criativa daquele universo ficcional.  Agora, ouvindo o Gerson, sinto que era somente a ponta de um iceberg.”

(Flávio de Mello)

 

“Esse lance de não dar spoiler está muito chato!”

(Romy Schinzare)

 

“Quanto do seu senso de humor você colocou na consciência artificial que comanda a Nave?”

(Leonardo Bussadori)

 

 

202608081010P7 – 24.137 D.V.

 

Ontem à noite participei de mais uma live no canal Café Especulativo, mantido por meu amigo Edgar Smaniotto no YouTube.  Só que essa live foi muito especial, pois foi a primeira vez em que tive a oportunidade de falar sobre um de meus universos ficcionais e não um U.F. qualquer, mas meu U.F. favorito, o Tramas de Ahapooka.

O convite do Edgar surgiu em virtude do lançamento da edição impressa do meu romance Atrações do Zoológico (Mundo-sem-Volta 1) pela Edições Cosmos, capitaneada por Marcus Chiado Garrett e Leonardo Bussadori, editora que já havia lançado meu romance de ficção científica teológica Novas do Purgatório no ano passado.

Além da minha participação e da presença da equipe titular do Café Especulativo – Edgar, Carlos Relva e Paulo Elache – o canal convidou Leonardo como representante da Cosmos.

Aos interessados, segue o link da live: https://www.youtube.com/watch?v=GVOTJFB5zoA&t=9997s

***

 

Conforme o combinado com o Edgar, conectei-me ao Streamyard do canal às 20h50, dez minutos antes do horário marcado para o início da transmissão pelo Youtube.  Edgar e Paulo já estavam presentes.  Carlos entrou exatamente na mesma hora que eu.  Leonardo chegou uns minutinhos mais tarde.

Combinamos entre nós que eu mostraria as capas dos romances Atrações do Zoológico e A Boneca do Destino (Hemus, 1975) do Clifford D. Simak, que eu pretendia citar no início da live, enquanto Paulo Elache mostraria as capas da décima quinta edição da revista Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica (Record, 1991), da noveleta A Filha do Predador (Amazon KDP, 2023), dos romances A Guardiã da Memória e Octopusgarden (Draco, 2011 e 2017, respectivamente) e do que mais ele quisesse mostrar.

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Às 21h03 entramos em campo lá no YouTube.  Quando chegamos oficialmente, os amigos Hidemberg Alves da Frota, Marcelo Piropo Garnet, Luiz Felipe Vasques, Carlos Rocha, Dioberto Souza e Flávio de Mello já estavam presentes no chat do canal.

Findas as apresentações iniciais, Edgar me passou a palavra.  Iniciei os trabalhos falando sobre a gênese do universo ficcional Tramas de Ahapooka, começando pela inspiração insuflada pelo romance Boneca do Destino do Simak, que li pela primeira vez no dia do meu décimo quinto aniversário.  Nessa narrativa, o Velho Mestre propôs a existência de um planeta misterioso que atraía naves estelares que, uma vez aterradas em sua superfície, não conseguiam mais decolar.  Daí surgiu a sementinha da ideia para criar um mundo-zoológico para abrigar criaturas racionais.

Capa da primeira edição brasileira de Boneca do Destino.

 

Em seguida, falei das tentativas frustradas de escrever uma narrativa extensa sobre uma expedição estelar ao Mundo-sem-Volta.  Após cento e muitas laudas datilografadas em espaço um, senti que ainda faltava muita coisa para concluir aquele romance interminável.

Então, falei da primeira narrativa lançada dentro desse universo ficcional, que também constituiu minha estreia profissional.  “Alienígenas Mitológicos”, a noveleta publicada na edição brasileira da Asimov’s em julho de 1991; um texto ficcional escrito sob a forma de um artigo de divulgação científica, com referências bibliográficas e tudo.  Falei também da noveleta de ficção científica infantojuvenil “A Filha do Predador”, vencedora do Prêmio Nautilus em 1997 e posteriormente publicado número inaugural da revista SciFi News Contos sob o pseudônimo de Daniel Alvarez.[1]  A protagonista e narradora dessa noveleta é a pré-adolescente Clara, filha do predador humano Aeneas.[2]

 


Capa e ilustração interna da noveleta “Alienígenas Mitológicos”



Capa da edição e-book de A Filha do Predador (Amazon KDP, 2023).

 

Mencionei também a escrita e a publicação dos romances A Guardiã da Memória e Octopusgarden ambientados no U.F. Tramas de Ahapooka, detentores do Prêmio Argos na categoria Melhor Romance em 2012 e 2018, respectivamente.  A Guardiã da Memória é uma narrativa erótica e uma história de amor que se passa quase inteiramente a bordo de um navio alienígena descomunal, onde Clara (agora adulta) interage com Genteel, um hemicentauro da espécie dos renatos que enfrenta os últimos meses de sua primeira vida.  A maior parte de Octopusgarden não é ambientada em Ahapooka, mas sim em um planeta oceânico que a humanidade do Sistema Gigante de Olduvaii dá de presente aos dolfinos, uma espécie de golfinhos que eles promoveram à racionalidade.


   Guardiã da Memória (2011)

Octopusgarden (2017)

 

 

Após abordar brevemente essas outras ficções publicadas no Tramas de Ahapooka, falei da minha experiência de trabalho como consultor técnico no departamento de universo ficcional da Hoplon Infotainment, empresa responsável pelo jogo social massivo Taikodom, onde, depois de estabelecer a especificação técnica (Bíblia) daquele U.F., dentre outras atribuições, fui incumbido de escrever uma trilogia ambientada no Taikodom.  A trilogia foi concluída depois de três anos de trabalho árduo.  Contudo, o D.U.F. acabou fechado e os livros nunca foram publicados.  De positivo, além da grana, aprendi a escrever trilogias.  Quando me desvinculei da Hoplon em 2010, foquei esses novos conhecimentos no Tramas de Ahapooka, pegando aquele velho calhamaço de folhas datilografadas.  Após um processo maciço de reescrita, aquela pilha de folhas amareladas se transformou no Atrações do Zoológico, primeiro romance da trilogia Mundo-sem-Volta, cuja escrita foi concluída em dezembro de 2010.  Os dois romances seguintes precisaram ser escritos do zero.  Concluí o segundo, Magos Humanos, em maio de 2014 e o terceiro, Párias da Periferia, em agosto de 2017.

 


Atrações do Zoológico (Mundo-sem-Volta 1)
Edições Cosmos, 2026.

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Findo esse preâmbulo inicial, expliquei a natureza de Ahapooka até onde os protagonistas desse primeiro romance sabiam no começo da narrativa e mencionei en passant os malogros das duas expedições olduvaicas anteriores, conduzidas até seu destino a bordo das naves Lungfish e Startide, respectivamente.[3]  Tais fracassos motivaram as mudanças estratégicas que culminaram nos conceitos de um novo tipo de nave estelar e um novo tipo de tripulação.

Em Ahapooka em si, expliquei as diferenças entre as culturas monoespecíficas e as poliespecíficas e apresentei as diferentes designações do planeta que postulei nos diversos vernáculos: “Skirmish” (ânglico olduvaico); “Ahapooka” (looson); “Zoo” (ânglico da Banda Oriental do Grande Continente); e, naturalmente, “Mundo-sem-Volta” (Intercosmo).  Também citei o mantra “Rhea se lembra”, ao mencionar a Nação Humana do extremo norte da Banda Ocidental.  Nesse ponto, lá do chat, Hidemberg nos lembrou de ter lido “A Filha do Predador” para sua irmã mais nova quando ela tinha seis anos.

Falei sobre a hiperconsciência que comanda a nave estelar da Terceira Expedição de Olduvaii e sobre seus tripulantes: o artificial Spartacus e a orgânica Europa.  Essa última nasce a bordo da Nave no último terço da viagem rumo ao Sistema Lobster, que abriga os mundos bióticos Ahapooka e Anhangah (Enigma, em ânglico).

***

 

Ao fim dessa fala inicial, quando eram decorridos cinquenta minutos da live, Edgar trouxe à baila algumas questões do público presente no chat.

Hidemberg indaga se o pseudônimo Daniel Alvarez seria uma homenagem ao físico Luís Walter Alvarez, autor da hipótese de que a extinção em massa do fim do Cretáceo foi provocada pelo impacto de um asteroide contra a Terra.  Expliquei o emprego do pseudônimo originalmente pertencente a um personagem de “A Ética da Traição”.  Porém, aqui entre nós, o sobrenome do pseudônimo do tal personagem, esse sim, foi uma homenagem ao físico citado e a seu filho e coautor no artigo clássico que propôs a hipótese, o geólogo Walter Alvarez.  Hidemberg também perguntou se eu faço anotações sobre o detalhamento dos meus universos ficcionais e, em especial, o Tramas de Ahapooka.  Confessei que elaborei até um mapa detalhado do Grande Continente.  Em seguida, ele perguntou sobre Rhea e eu falei um pouco a respeito da Nação Humana, esclarecendo que Rhea é em verdade bem mais antiga do que Tannhöuser, o Planeta dos Sábios, sede da civilização olduvaica.

Dioberto Souza indagou se haveria seres com percepção extrassensorial em Ahapooka.  Respondi monossilabicamente a fim de evitar spoilers.

Fábio de Mello apresentou o comentário que fiz questão de colocar em epígrafe.  Expliquei que tanto o detalhamento quanto a complexidade se dão pelo fato de esse universo ter sido criado não para contar a história da “Filha do Predador” ou a história dos dolfinos em Octopusgarden, mas sim a história de Europa, Spartacus e seus amigos e aliados na exploração do Mundo-sem-Volta.

Dioberto perguntou em que data se passava a narrativa.  Respondi o melhor possível sem spoilers, fornecendo as datas de algumas ocorrências pretéritas: chegada das primeiras naves de colonização a Olduvaii; Clara ter conhecido Genteel cerca de meio milênio após a aterragem da nave da terceira expedição em Ahapooka etc.

Quando deu uma hora do início da live, Edgar passou a palavra ao Leonardo Bussadori.  Leo falou sobre sua experiência no mercado editorial, sobretudo, como editor de arte da legendária revista Planeta.  Explicou que agora, com sua própria editora, a Cosmos, pretende resgatar os tempos áureos da editora Hemus e da redação da Planeta.  Revelou ter entrado em contato com meu trabalho quando atuou na revista Histórias Extraordinárias e no esforço conjunto que desenvolvemos na elaboração do universo Guanabara Metamórfica.  Defendeu a qualidade das narrativas da literatura fantástica nacional, inclusive, para adaptação noutras mídias, citando especificamente os canais de streaming.  Também revelou ter herdado boa parte do acervo bibliográfico da Planeta.

***

 

Quinze minutos mais tarde, meu universo volta à berlinda, agora com perguntas orientadas a partir dos participantes fixos do Café Especulativo.

A pedido de Paulo Elache, teci uma comparação rápida entre os pseudônimos de Daniel Alvarez e Carla Cristina Pereira.

Recém-chegada à live, Romy Schinzare indagou sobre as diferenças entre nós e os humanos do futuro remoto do Tramas de Ahapooka.  Expliquei que eles são muito mais longevos e, em média, mais inteligentes do que nós.  Esclareci que os rheanos são mais durões e mais pragmáticos do que os olduvaicos.

Hidemberg indagou se, ao criar Rhea, eu teria me inspirado nas diferenças entre Atenas e Esparta.  Opinei que Rhea está muito mais para Atenas do que para Esparta.  Até porque, tal como Atenas, Rhea apoia a maior parte de sua força militar no poderio naval.  Aproveitei para esclarecer que a questão principal em Ahapooka é a dicotomia entre monoespecificidade e poliespecificidade.

Paulo Elache me pediu para explicar as diferenças entre os astronautas centauroides que visitam a Terra primitiva em “Alienígenas Mitológicos” e o Genteel que se apaixona por Clara em A Guardiã da Memória.  Essa questão me deu a oportunidade de estabelecer a diferença entre centauros (como as figuras clássicas da mitologia greco-romana) e os hemicentauros (como os renatos e os Magos Negros), que possuem quatro patas articuladas, mas tentáculos em lugar de braços.

Dioberto indagou se existem alienígenas aquáticos em Ahapooka, questão que me levou a falar sobre as paracrustáceas, às quais os humanos nativos em ambas as bandas do Grande Continente se referem como “marítimas”.  Lembrei-lhes que Clara e Genteel passam a maior parte do A Guardiã da Memória a bordo de uma vasta nau multipropósito das marítimas.

A partir de uma pergunta do Paulo, falei um pouquinho sobre o Pequeno Continente ou Antípodas.  Também citei as mochilas a jato empregadas pelo casal olduvaico da terceira expedição e os turbocópteros de carga dos wingfalls.

Quando Leo apresentou a pergunta colocada em epígrafe, respondi que a hiperconsciência que governa a Nave da terceira expedição não é sarcástica e ranzinza à toa.  Afinal, essas são facetas proeminentes da minha personalidade.  Esclareci que a Nave não possui a menor noção de privacidade e que bisbilhota as mentes de sua tripulação ambulante o tempo todo.

Paulo indagou sobre as referências ao fim da noveleta “Alienígenas Mitológicos”.  Confirmei que se trataram de homenagens a membros destacados do subfandom carioca da década de 1980.

Edgar questionou se todos os humanos daquele futuro remoto ignoram a existência e a localização da Terra.  Recorri a meu direito de permanecer calado a fim de evitar spoilers.

Carlos perguntou se existe alguma espécie alienígena autóctone de Ahapooka.  Expliquei que várias espécies alegam serem nativas do Mundo-sem-Volta, mas não existem evidências científicas inatacáveis a esse respeito.  Apesar de certos estudiosos advogarem que os insetoides oriundos da Grande Floresta da Banda Oriental são autóctones, outros tantos rejeitam essa hipótese.

Carlos me pediu alguns esclarecimentos adicionais sobre culturas monoespecíficas e poliespecíficas.  Expliquei à medida do possível.  Tal questão se tornará clara aos leitores já a partir do primeiro romance da trilogia.

Aproveitei o ensejo para falar um pouco sobre minha nova novela, “A Neta da Estadista”, continuação direta de “A Filha do Predador”.

Carlos solicitou a cronologia interna desse universo ficcional, para estabelecer uma ordem de leitura para quem está chegando agora ao Tramas de Ahapooka.  Forneci a relação seguinte:

1)      “Alienígenas Mitológicos”.

2)      Octopusgarden.

3)      Atrações do Zoológico (Mundo-sem-Volta 1).

4)      Magos Humanos (Mundo-sem-Volta 2).

5)      Párias da Periferia (Mundo-sem-Volta 3).

6)      Lady Europa de Rhea.

7)      A Filha do Predador.

8)      A Neta da Estadista.

9)      A Guardiã da Memória.

Por enquanto, é isso.

***

 

Paulo comentou que a relação sexoafetiva da Clara com o Genteel o fez lembrar de um conto do Robert Silverberg, “Thesme e o Ghayrog”, incluindo na coletânea As Crônicas de Majipoor, em que uma humana se envolve sexualmente com um humanoide reptiliano.  Com uma piscada sacana, repliquei que, ao contrário dos ghayrogs, os renatos são hemicentauros.  Portanto, não humanoides.  Não possuem pênis, mas dispõem de seis tentáculos bastante habilidosos.  Daí, adentramos no conceito de “rishatra” concebido pelo autor estadunidense Larry Niven, para justificar as cópulas entre humanoides de espécies diferentes em seus romances na série Ringworld.

Carlos se questionou sobre as motivações que levam expedicionários humanos e alienígenas a viajar até o Sistema Lobster e aterrar num planeta do qual, com toda a probabilidade, jamais conseguirão escapar.  Advoguei que, embora os riscos sejam enormes, os lucros eventuais também são descomunais.  Declarei que há sempre naves novas chegando a Ahapooka.  Expliquei a dinâmica dos predadores, das tribos bárbaras e dos citadinos na Grande Planície Vermelha.

Paulo indagou sobre outros universos ficcionais em que tenho trabalhado ultimamente.  Comentei sobre a linha de história natural alternativa Guanabara Metamórfica e o universo dos viajantes do tempo Contingências Retrotemporais.  Esclareci meu postulado para o surgimento de um novo universo ficcional: o U.F. surge quando o autor escreve a segunda narrativa em uma mesma ambientação.

Revelei que, nos romances da trilogia Mundo-sem-Volta, compartilho alguns segredos com os leitores.  Conhecimentos que a maioria dos personagens ignora.

Daí, decorridas mais de duas horas de live, o bate-papo derivou um pouco para outros assuntos.  Falamos do vício renitente na série alemã Perry Rhodan.  Edgar comparou minhas narrativas no U.F. Aeternum Sidus Bellum às histórias contidas em Perry Rhodan.  Faz sentido.  Afinal de contas, na época que comecei a delinear aquele universo, era um adolescente cheio de Perry Rhodan na cabeça...

Voltando ao Mundo-sem-Volta, Dioberto indagou se os descendentes dos alienígenas aprisionados em Ahapooka mantêm o mesmo nível intelectual/tecnológico, progridem ou sofrem regressão e/ou involução.  Respondi que no Grande Continente já foram registradas ocorrências dos três casos.  Enquanto os wingfalls passaram por um florescimento científico e cultural sem precedentes desde que aterraram na Banda Oriental há setenta ou oitenta milênios, os centauroides kironianos, detentores de uma civilização cósmica sofisticada e pacífica em seus sistemas estelares, transformaram-se nos bárbaros daakis, uma tribo aguerrida e cruel.  Enfim, há culturas radicadas, humanas e alienígenas, que lutam para manter seus valores e conhecimentos ancestrais intactos.

Flávio perguntou se a(s) entidade(s) que concebeu(ram) Ahapooka será(ão) abordada(s) em algum dos romances.  Prometi que a natureza e o propósito do Mundo-sem-Volta serão esclarecidos ao fim da trilogia.

Dioberto mencionou que essa mistura de muitas civilizações alienígenas o lembrou de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.  Recordei que a fonte de inspiração original veio do romance Boneca do Destino.

Eram decorridas duas horas e vinte minutos de live quando Leonardo Bussadori se despediu de nós e da plateia do chat.  À guisa de pergunta de despedida, Carlos indagou ao Leo se havia previsão de lançamento dos romances dois e três da trilogia.  O publisher se esquivou de fornecer detalhes da estratégia editorial da Cosmos.  Assim que Leo se foi, nomeamos Paulo como Guardião dos Spoilers.

A partir de uma indagação de Vic Fargas, acabei revelando a existência do romance Lady Europa de Rhea, que é uma espécie de quarto livro da trilogia Mundo-sem-Volta, pois a narrativa é retomada do ponto exato em que Párias da Periferia se conclui.

Paulo perguntou sobre o universo Imortais Efêmeros.  Expliquei que todas as narrativas desse U.F., estão reunidas na coletânea homônima, com exceção da novela Quando os Humanos Foram Embora[4], que mereceu um livro solo, aliás, com um belo prefácio escrito pelo amigo Edgar Smaniotto.

Quando Paulo comentou sobre meu universo Humanosfera, confessei que ele se originou das ideias que tive quando formulei as especificações do universo Taikodom para a Hoplon Infotainment em 2004.

Carlos questionou se eu já havia experimentado crossovers entre personagens e ambientes de vários universos ficcionais diferentes.  Respondi que não gosto de misturar meus U.F., pois cada um tem suas propriedades e especificidades distintas.  Falei que tanto Isaac Asimov quanto Robert Heinlein fizeram isso ao fim de suas carreiras literárias, mas considero isso um sinal de senilidade.  Pronto.  Falei.  Informo que ovos podres e cartas-bomba eventuais serão prontamente restituídos aos remetentes.😊

Só para não dizer que eu nunca fiz isso, citei que em 2000 escrevi uma noveleta para o universo Intempol, criado pelo Octavio Aragão, “São os Deuses Crononautas?”, publicada na antologia Intempol (Ano-Luz, 2000), em que inseri alguns personagens dos meus U.F., com destaque para o filho-da-noite Dentes Compridos, naquela trama intempoliana.

Quase ao apagar das luzes, Paulo se recorda do enredo da minha noveleta pós-apocalíptica Postdomini, publicada originalmente na antologia Depois do Fim (Draco, 2013) e republicada sob a forma de e-book na Amazon KDP.

Flávio se confessou ansioso para ler o “quarto” livro da trilogia, Lady Europa de Rhea.  Vamos ver como as coisas se desenrolam.

Paulo exibiu a Edgar o autógrafo que lhe concedi na novela “A Predadora e o Renato”[5], publicado na antologia que organizei em priscas eras, Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002).  O detalhe foi que assinei como “Daniel”.😊

Ao fim e ao cabo, acabei explicando um pouco do percalço que os olduvaicos Pandora e Talleyrand passaram com a Penny Lane, que os fizeram perder a corrida para se tornar da terceira expedição ao Sistema Lobster.

Quase que em tom de despedidas, prometi aos amigos que novas histórias virão.  Tanto no universo Tramas de Ahapooka como fora dele e ainda confessei o título da narrativa que estou escrevendo no momento.  Também falei um pouco sobre meu banco de ideias.

Enfim, despedimo-nos da plateia e uns dos outros após incríveis duas horas e cinquenta e seis minutos de live.  De todas as lives que participei na vida, essa foi sem dúvida a mais emocionante.  Pois não só falei de um universo que eu criei, como falei durante quase três horas do universo ficcional pelo qual nutro mais afeto.  Talvez pelo fato de ser aquele que guardo comigo há mais tempo.


Da extremidade superior esquerda, em sentido horário: Edgar Smaniotto; GL-R; Leonardo Bussadori; Paulo Elache; e Carlos Relva.

 

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 08 de agosto de 2026 (sábado).

 


Participantes:

Carlos Relva.

Carlos Rocha.

Cláudia Quevedo Lodi.

Dioberto Souza.

Edgar Smaniotto.

Flávio de Mello.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Hidemberg Alves da Frota.

Leonardo Bussadori.

Luiz Felipe Vasques.

Marcelo Piropo Garnet.

Paulo Elache.

Renan Augusto.

Robson Michel.

Romy Schinzare.

Rubens Angelo.

Vic Fargas.



[1].  Tirei esse pseudônimo da minha noveleta “A Ética da Traição” (publicada no número 25 da Asimov’s brasileira em janeiro de 1993).  Naquela narrativa de história alternativa, havia um espião da Confederação Germânica que gostava de escrever ciéncia fictícia.  Como o mercado editorial de literatura fantástica era dominado por editores, publicações e autores paraguayos, esse dublê de agente secreto e escritor resolveu adotar o pseudônimo de “Daniel Alvarez”.

[2].  No Mundo-sem-Volta ou Ahapooka, predadores são profissionais que retiram equipamentos, artefatos e gêneros de alta tecnologia das naves estelares sinistradas no Grande Continente e os distribuem a preço de neutrônio pelas comunidades nativas.

[3].  As designações dessas naves estelares olduvaicas constituem referências óbvias e homenagens mais do que merecidas ao escritor estadunidense de FC David Brin, conforme detalhei na live.

[4].  Em Quando os Humanos Foram Embora, propus a existência de uma civilização alienígena que evoluiu nas profundezas escuras do oceano interno de um mundo tipo Europa, um dos quatro satélites galileanos de Júpiter, os ilianos.  Nessa novela, os ilianos estabelecem seu primeiro contato com representantes da humanidade quando uma expedição científica iliana perfura a crosta de gelo de seu mundo, alcançando a superfície.

[5].  Mais tarde, expandi essa novela e a publiquei como A Guardiã da Memória.