segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 

Atrações do Zoológico

no Café Especulativo

 

A Guardiã da Memória é uma obra que permite leituras em várias camadas.  Inclusive, sobre questões de gênero/sexualidade e questões filosóficas sobre existência e transitoriedade.”

(Hidemberg Alves da Frota)

 

“Quando li A Guardiã da Memória, o que me capturou foi a riqueza criativa daquele universo ficcional.  Agora, ouvindo o Gerson, sinto que era somente a ponta de um iceberg.”

(Flávio de Mello)

 

“Esse lance de não dar spoiler está muito chato!”

(Romy Schinzare)

 

“Quanto do seu senso de humor você colocou na consciência artificial que comanda a Nave?”

(Leonardo Bussadori)

 

 

202608081010P7 – 24.137 D.V.

 

Ontem à noite participei de mais uma live no canal Café Especulativo, mantido por meu amigo Edgar Smaniotto no YouTube.  Só que essa live foi muito especial, pois foi a primeira vez em que tive a oportunidade de falar sobre um de meus universos ficcionais e não um U.F. qualquer, mas meu U.F. favorito, o Tramas de Ahapooka.

O convite do Edgar surgiu em virtude do lançamento da edição impressa do meu romance Atrações do Zoológico (Mundo-sem-Volta 1) pela Edições Cosmos, capitaneada por Marcus Chiado Garrett e Leonardo Bussadori, editora que já havia lançado meu romance de ficção científica teológica Novas do Purgatório no ano passado.

Além da minha participação e da presença da equipe titular do Café Especulativo – Edgar, Carlos Relva e Paulo Elache – o canal convidou Leonardo como representante da Cosmos.

Aos interessados, segue o link da live: https://www.youtube.com/watch?v=GVOTJFB5zoA&t=9997s

***

 

Conforme o combinado com o Edgar, conectei-me ao Streamyard do canal às 20h50, dez minutos antes do horário marcado para o início da transmissão pelo Youtube.  Edgar e Paulo já estavam presentes.  Carlos entrou exatamente na mesma hora que eu.  Leonardo chegou uns minutinhos mais tarde.

Combinamos entre nós que eu mostraria as capas dos romances Atrações do Zoológico e A Boneca do Destino (Hemus, 1975) do Clifford D. Simak, que eu pretendia citar no início da live, enquanto Paulo Elache mostraria as capas da décima quinta edição da revista Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica (Record, 1991), da noveleta A Filha do Predador (Amazon KDP, 2023), dos romances A Guardiã da Memória e Octopusgarden (Draco, 2011 e 2017, respectivamente) e do que mais ele quisesse mostrar.

***

 

Às 21h03 entramos em campo lá no YouTube.  Quando chegamos oficialmente, os amigos Hidemberg Alves da Frota, Marcelo Piropo Garnet, Luiz Felipe Vasques, Carlos Rocha, Dioberto Souza e Flávio de Mello já estavam presentes no chat do canal.

Findas as apresentações iniciais, Edgar me passou a palavra.  Iniciei os trabalhos falando sobre a gênese do universo ficcional Tramas de Ahapooka, começando pela inspiração insuflada pelo romance Boneca do Destino do Simak, que li pela primeira vez no dia do meu décimo quinto aniversário.  Nessa narrativa, o Velho Mestre propôs a existência de um planeta misterioso que atraía naves estelares que, uma vez aterradas em sua superfície, não conseguiam mais decolar.  Daí surgiu a sementinha da ideia para criar um mundo-zoológico para abrigar criaturas racionais.

Capa da primeira edição brasileira de Boneca do Destino.

 

Em seguida, falei das tentativas frustradas de escrever uma narrativa extensa sobre uma expedição estelar ao Mundo-sem-Volta.  Após cento e muitas laudas datilografadas em espaço um, senti que ainda faltava muita coisa para concluir aquele romance interminável.

Então, falei da primeira narrativa lançada dentro desse universo ficcional, que também constituiu minha estreia profissional.  “Alienígenas Mitológicos”, a noveleta publicada na edição brasileira da Asimov’s em julho de 1991; um texto ficcional escrito sob a forma de um artigo de divulgação científica, com referências bibliográficas e tudo.  Falei também da noveleta de ficção científica infantojuvenil “A Filha do Predador”, vencedora do Prêmio Nautilus em 1997 e posteriormente publicado número inaugural da revista SciFi News Contos sob o pseudônimo de Daniel Alvarez.[1]  A protagonista e narradora dessa noveleta é a pré-adolescente Clara, filha do predador humano Aeneas.[2]

 


Capa e ilustração interna da noveleta “Alienígenas Mitológicos”



Capa da edição e-book de A Filha do Predador (Amazon KDP, 2023).

 

Mencionei também a escrita e a publicação dos romances A Guardiã da Memória e Octopusgarden ambientados no U.F. Tramas de Ahapooka, detentores do Prêmio Argos na categoria Melhor Romance em 2012 e 2018, respectivamente.  A Guardiã da Memória é uma narrativa erótica e uma história de amor que se passa quase inteiramente a bordo de um navio alienígena descomunal, onde Clara (agora adulta) interage com Genteel, um hemicentauro da espécie dos renatos que enfrenta os últimos meses de sua primeira vida.  A maior parte de Octopusgarden não é ambientada em Ahapooka, mas sim em um planeta oceânico que a humanidade do Sistema Gigante de Olduvaii dá de presente aos dolfinos, uma espécie de golfinhos que eles promoveram à racionalidade.


   Guardiã da Memória (2011)

Octopusgarden (2017)

 

 

Após abordar brevemente essas outras ficções publicadas no Tramas de Ahapooka, falei da minha experiência de trabalho como consultor técnico no departamento de universo ficcional da Hoplon Infotainment, empresa responsável pelo jogo social massivo Taikodom, onde, depois de estabelecer a especificação técnica (Bíblia) daquele U.F., dentre outras atribuições, fui incumbido de escrever uma trilogia ambientada no Taikodom.  A trilogia foi concluída depois de três anos de trabalho árduo.  Contudo, o D.U.F. acabou fechado e os livros nunca foram publicados.  De positivo, além da grana, aprendi a escrever trilogias.  Quando me desvinculei da Hoplon em 2010, foquei esses novos conhecimentos no Tramas de Ahapooka, pegando aquele velho calhamaço de folhas datilografadas.  Após um processo maciço de reescrita, aquela pilha de folhas amareladas se transformou no Atrações do Zoológico, primeiro romance da trilogia Mundo-sem-Volta, cuja escrita foi concluída em dezembro de 2010.  Os dois romances seguintes precisaram ser escritos do zero.  Concluí o segundo, Magos Humanos, em maio de 2014 e o terceiro, Párias da Periferia, em agosto de 2017.

 


Atrações do Zoológico (Mundo-sem-Volta 1)
Edições Cosmos, 2026.

***

 

Findo esse preâmbulo inicial, expliquei a natureza de Ahapooka até onde os protagonistas desse primeiro romance sabiam no começo da narrativa e mencionei en passant os malogros das duas expedições olduvaicas anteriores, conduzidas até seu destino a bordo das naves Lungfish e Startide, respectivamente.[3]  Tais fracassos motivaram as mudanças estratégicas que culminaram nos conceitos de um novo tipo de nave estelar e um novo tipo de tripulação.

Em Ahapooka em si, expliquei as diferenças entre as culturas monoespecíficas e as poliespecíficas e apresentei as diferentes designações do planeta que postulei nos diversos vernáculos: “Skirmish” (ânglico olduvaico); “Ahapooka” (looson); “Zoo” (ânglico da Banda Oriental do Grande Continente); e, naturalmente, “Mundo-sem-Volta” (Intercosmo).  Também citei o mantra “Rhea se lembra”, ao mencionar a Nação Humana do extremo norte da Banda Ocidental.  Nesse ponto, lá do chat, Hidemberg nos lembrou de ter lido “A Filha do Predador” para sua irmã mais nova quando ela tinha seis anos.

Falei sobre a hiperconsciência que comanda a nave estelar da Terceira Expedição de Olduvaii e sobre seus tripulantes: o artificial Spartacus e a orgânica Europa.  Essa última nasce a bordo da Nave no último terço da viagem rumo ao Sistema Lobster, que abriga os mundos bióticos Ahapooka e Anhangah (Enigma, em ânglico).

***

 

Ao fim dessa fala inicial, quando eram decorridos cinquenta minutos da live, Edgar trouxe à baila algumas questões do público presente no chat.

Hidemberg indaga se o pseudônimo Daniel Alvarez seria uma homenagem ao físico Luís Walter Alvarez, autor da hipótese de que a extinção em massa do fim do Cretáceo foi provocada pelo impacto de um asteroide contra a Terra.  Expliquei o emprego do pseudônimo originalmente pertencente a um personagem de “A Ética da Traição”.  Porém, aqui entre nós, o sobrenome do pseudônimo do tal personagem, esse sim, foi uma homenagem ao físico citado e a seu filho e coautor no artigo clássico que propôs a hipótese, o geólogo Walter Alvarez.  Hidemberg também perguntou se eu faço anotações sobre o detalhamento dos meus universos ficcionais e, em especial, o Tramas de Ahapooka.  Confessei que elaborei até um mapa detalhado do Grande Continente.  Em seguida, ele perguntou sobre Rhea e eu falei um pouco a respeito da Nação Humana, esclarecendo que Rhea é em verdade bem mais antiga do que Tannhöuser, o Planeta dos Sábios, sede da civilização olduvaica.

Dioberto Souza indagou se haveria seres com percepção extrassensorial em Ahapooka.  Respondi monossilabicamente a fim de evitar spoilers.

Fábio de Mello apresentou o comentário que fiz questão de colocar em epígrafe.  Expliquei que tanto o detalhamento quanto a complexidade se dão pelo fato de esse universo ter sido criado não para contar a história da “Filha do Predador” ou a história dos dolfinos em Octopusgarden, mas sim a história de Europa, Spartacus e seus amigos e aliados na exploração do Mundo-sem-Volta.

Dioberto perguntou em que data se passava a narrativa.  Respondi o melhor possível sem spoilers, fornecendo as datas de algumas ocorrências pretéritas: chegada das primeiras naves de colonização a Olduvaii; Clara ter conhecido Genteel cerca de meio milênio após a aterragem da nave da terceira expedição em Ahapooka etc.

Quando deu uma hora do início da live, Edgar passou a palavra ao Leonardo Bussadori.  Leo falou sobre sua experiência no mercado editorial, sobretudo, como editor de arte da legendária revista Planeta.  Explicou que agora, com sua própria editora, a Cosmos, pretende resgatar os tempos áureos da editora Hemus e da redação da Planeta.  Revelou ter entrado em contato com meu trabalho quando atuou na revista Histórias Extraordinárias e no esforço conjunto que desenvolvemos na elaboração do universo Guanabara Metamórfica.  Defendeu a qualidade das narrativas da literatura fantástica nacional, inclusive, para adaptação noutras mídias, citando especificamente os canais de streaming.  Também revelou ter herdado boa parte do acervo bibliográfico da Planeta.

***

 

Quinze minutos mais tarde, meu universo volta à berlinda, agora com perguntas orientadas a partir dos participantes fixos do Café Especulativo.

A pedido de Paulo Elache, teci uma comparação rápida entre os pseudônimos de Daniel Alvarez e Carla Cristina Pereira.

Recém-chegada à live, Romy Schinzare indagou sobre as diferenças entre nós e os humanos do futuro remoto do Tramas de Ahapooka.  Expliquei que eles são muito mais longevos e, em média, mais inteligentes do que nós.  Esclareci que os rheanos são mais durões e mais pragmáticos do que os olduvaicos.

Hidemberg indagou se, ao criar Rhea, eu teria me inspirado nas diferenças entre Atenas e Esparta.  Opinei que Rhea está muito mais para Atenas do que para Esparta.  Até porque, tal como Atenas, Rhea apoia a maior parte de sua força militar no poderio naval.  Aproveitei para esclarecer que a questão principal em Ahapooka é a dicotomia entre monoespecificidade e poliespecificidade.

Paulo Elache me pediu para explicar as diferenças entre os astronautas centauroides que visitam a Terra primitiva em “Alienígenas Mitológicos” e o Genteel que se apaixona por Clara em A Guardiã da Memória.  Essa questão me deu a oportunidade de estabelecer a diferença entre centauros (como as figuras clássicas da mitologia greco-romana) e os hemicentauros (como os renatos e os Magos Negros), que possuem quatro patas articuladas, mas tentáculos em lugar de braços.

Dioberto indagou se existem alienígenas aquáticos em Ahapooka, questão que me levou a falar sobre as paracrustáceas, às quais os humanos nativos em ambas as bandas do Grande Continente se referem como “marítimas”.  Lembrei-lhes que Clara e Genteel passam a maior parte do A Guardiã da Memória a bordo de uma vasta nau multipropósito das marítimas.

A partir de uma pergunta do Paulo, falei um pouquinho sobre o Pequeno Continente ou Antípodas.  Também citei as mochilas a jato empregadas pelo casal olduvaico da terceira expedição e os turbocópteros de carga dos wingfalls.

Quando Leo apresentou a pergunta colocada em epígrafe, respondi que a hiperconsciência que governa a Nave da terceira expedição não é sarcástica e ranzinza à toa.  Afinal, essas são facetas proeminentes da minha personalidade.  Esclareci que a Nave não possui a menor noção de privacidade e que bisbilhota as mentes de sua tripulação ambulante o tempo todo.

Paulo indagou sobre as referências ao fim da noveleta “Alienígenas Mitológicos”.  Confirmei que se trataram de homenagens a membros destacados do subfandom carioca da década de 1980.

Edgar questionou se todos os humanos daquele futuro remoto ignoram a existência e a localização da Terra.  Recorri a meu direito de permanecer calado a fim de evitar spoilers.

Carlos perguntou se existe alguma espécie alienígena autóctone de Ahapooka.  Expliquei que várias espécies alegam serem nativas do Mundo-sem-Volta, mas não existem evidências científicas inatacáveis a esse respeito.  Apesar de certos estudiosos advogarem que os insetoides oriundos da Grande Floresta da Banda Oriental são autóctones, outros tantos rejeitam essa hipótese.

Carlos me pediu alguns esclarecimentos adicionais sobre culturas monoespecíficas e poliespecíficas.  Expliquei à medida do possível.  Tal questão se tornará clara aos leitores já a partir do primeiro romance da trilogia.

Aproveitei o ensejo para falar um pouco sobre minha nova novela, “A Neta da Estadista”, continuação direta de “A Filha do Predador”.

Carlos solicitou a cronologia interna desse universo ficcional, para estabelecer uma ordem de leitura para quem está chegando agora ao Tramas de Ahapooka.  Forneci a relação seguinte:

1)      “Alienígenas Mitológicos”.

2)      Octopusgarden.

3)      Atrações do Zoológico (Mundo-sem-Volta 1).

4)      Magos Humanos (Mundo-sem-Volta 2).

5)      Párias da Periferia (Mundo-sem-Volta 3).

6)      Lady Europa de Rhea.

7)      A Filha do Predador.

8)      A Neta da Estadista.

9)      A Guardiã da Memória.

Por enquanto, é isso.

***

 

Paulo comentou que a relação sexoafetiva da Clara com o Genteel o fez lembrar de um conto do Robert Silverberg, “Thesme e o Ghayrog”, incluindo na coletânea As Crônicas de Majipoor, em que uma humana se envolve sexualmente com um humanoide reptiliano.  Com uma piscada sacana, repliquei que, ao contrário dos ghayrogs, os renatos são hemicentauros.  Portanto, não humanoides.  Não possuem pênis, mas dispõem de seis tentáculos bastante habilidosos.  Daí, adentramos no conceito de “rishatra” concebido pelo autor estadunidense Larry Niven, para justificar as cópulas entre humanoides de espécies diferentes em seus romances na série Ringworld.

Carlos se questionou sobre as motivações que levam expedicionários humanos e alienígenas a viajar até o Sistema Lobster e aterrar num planeta do qual, com toda a probabilidade, jamais conseguirão escapar.  Advoguei que, embora os riscos sejam enormes, os lucros eventuais também são descomunais.  Declarei que há sempre naves novas chegando a Ahapooka.  Expliquei a dinâmica dos predadores, das tribos bárbaras e dos citadinos na Grande Planície Vermelha.

Paulo indagou sobre outros universos ficcionais em que tenho trabalhado ultimamente.  Comentei sobre a linha de história natural alternativa Guanabara Metamórfica e o universo dos viajantes do tempo Contingências Retrotemporais.  Esclareci meu postulado para o surgimento de um novo universo ficcional: o U.F. surge quando o autor escreve a segunda narrativa em uma mesma ambientação.

Revelei que, nos romances da trilogia Mundo-sem-Volta, compartilho alguns segredos com os leitores.  Conhecimentos que a maioria dos personagens ignora.

Daí, decorridas mais de duas horas de live, o bate-papo derivou um pouco para outros assuntos.  Falamos do vício renitente na série alemã Perry Rhodan.  Edgar comparou minhas narrativas no U.F. Aeternum Sidus Bellum às histórias contidas em Perry Rhodan.  Faz sentido.  Afinal de contas, na época que comecei a delinear aquele universo, era um adolescente cheio de Perry Rhodan na cabeça...

Voltando ao Mundo-sem-Volta, Dioberto indagou se os descendentes dos alienígenas aprisionados em Ahapooka mantêm o mesmo nível intelectual/tecnológico, progridem ou sofrem regressão e/ou involução.  Respondi que no Grande Continente já foram registradas ocorrências dos três casos.  Enquanto os wingfalls passaram por um florescimento científico e cultural sem precedentes desde que aterraram na Banda Oriental há setenta ou oitenta milênios, os centauroides kironianos, detentores de uma civilização cósmica sofisticada e pacífica em seus sistemas estelares, transformaram-se nos bárbaros daakis, uma tribo aguerrida e cruel.  Enfim, há culturas radicadas, humanas e alienígenas, que lutam para manter seus valores e conhecimentos ancestrais intactos.

Flávio perguntou se a(s) entidade(s) que concebeu(ram) Ahapooka será(ão) abordada(s) em algum dos romances.  Prometi que a natureza e o propósito do Mundo-sem-Volta serão esclarecidos ao fim da trilogia.

Dioberto mencionou que essa mistura de muitas civilizações alienígenas o lembrou de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.  Recordei que a fonte de inspiração original veio do romance Boneca do Destino.

Eram decorridas duas horas e vinte minutos de live quando Leonardo Bussadori se despediu de nós e da plateia do chat.  À guisa de pergunta de despedida, Carlos indagou ao Leo se havia previsão de lançamento dos romances dois e três da trilogia.  O publisher se esquivou de fornecer detalhes da estratégia editorial da Cosmos.  Assim que Leo se foi, nomeamos Paulo como Guardião dos Spoilers.

A partir de uma indagação de Vic Fargas, acabei revelando a existência do romance Lady Europa de Rhea, que é uma espécie de quarto livro da trilogia Mundo-sem-Volta, pois a narrativa é retomada do ponto exato em que Párias da Periferia se conclui.

Paulo perguntou sobre o universo Imortais Efêmeros.  Expliquei que todas as narrativas desse U.F., estão reunidas na coletânea homônima, com exceção da novela Quando os Humanos Foram Embora[4], que mereceu um livro solo, aliás, com um belo prefácio escrito pelo amigo Edgar Smaniotto.

Quando Paulo comentou sobre meu universo Humanosfera, confessei que ele se originou das ideias que tive quando formulei as especificações do universo Taikodom para a Hoplon Infotainment em 2004.

Carlos questionou se eu já havia experimentado crossovers entre personagens e ambientes de vários universos ficcionais diferentes.  Respondi que não gosto de misturar meus U.F., pois cada um tem suas propriedades e especificidades distintas.  Falei que tanto Isaac Asimov quanto Robert Heinlein fizeram isso ao fim de suas carreiras literárias, mas considero isso um sinal de senilidade.  Pronto.  Falei.  Informo que ovos podres e cartas-bomba eventuais serão prontamente restituídos aos remetentes.😊

Só para não dizer que eu nunca fiz isso, citei que em 2000 escrevi uma noveleta para o universo Intempol, criado pelo Octavio Aragão, “São os Deuses Crononautas?”, publicada na antologia Intempol (Ano-Luz, 2000), em que inseri alguns personagens dos meus U.F., com destaque para o filho-da-noite Dentes Compridos, naquela trama intempoliana.

Quase ao apagar das luzes, Paulo se recorda do enredo da minha noveleta pós-apocalíptica Postdomini, publicada originalmente na antologia Depois do Fim (Draco, 2013) e republicada sob a forma de e-book na Amazon KDP.

Flávio se confessou ansioso para ler o “quarto” livro da trilogia, Lady Europa de Rhea.  Vamos ver como as coisas se desenrolam.

Paulo exibiu a Edgar o autógrafo que lhe concedi na novela “A Predadora e o Renato”[5], publicado na antologia que organizei em priscas eras, Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002).  O detalhe foi que assinei como “Daniel”.😊

Ao fim e ao cabo, acabei explicando um pouco do percalço que os olduvaicos Pandora e Talleyrand passaram com a Penny Lane, que os fizeram perder a corrida para se tornar da terceira expedição ao Sistema Lobster.

Quase que em tom de despedidas, prometi aos amigos que novas histórias virão.  Tanto no universo Tramas de Ahapooka como fora dele e ainda confessei o título da narrativa que estou escrevendo no momento.  Também falei um pouco sobre meu banco de ideias.

Enfim, despedimo-nos da plateia e uns dos outros após incríveis duas horas e cinquenta e seis minutos de live.  De todas as lives que participei na vida, essa foi sem dúvida a mais emocionante.  Pois não só falei de um universo que eu criei, como falei durante quase três horas do universo ficcional pelo qual nutro mais afeto.  Talvez pelo fato de ser aquele que guardo comigo há mais tempo.


Da extremidade superior esquerda, em sentido horário: Edgar Smaniotto; GL-R; Leonardo Bussadori; Paulo Elache; e Carlos Relva.

 

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 08 de agosto de 2026 (sábado).

 


Participantes:

Carlos Relva.

Carlos Rocha.

Cláudia Quevedo Lodi.

Dioberto Souza.

Edgar Smaniotto.

Flávio de Mello.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Hidemberg Alves da Frota.

Leonardo Bussadori.

Luiz Felipe Vasques.

Marcelo Piropo Garnet.

Paulo Elache.

Renan Augusto.

Robson Michel.

Romy Schinzare.

Rubens Angelo.

Vic Fargas.



[1].  Tirei esse pseudônimo da minha noveleta “A Ética da Traição” (publicada no número 25 da Asimov’s brasileira em janeiro de 1993).  Naquela narrativa de história alternativa, havia um espião da Confederação Germânica que gostava de escrever ciéncia fictícia.  Como o mercado editorial de literatura fantástica era dominado por editores, publicações e autores paraguayos, esse dublê de agente secreto e escritor resolveu adotar o pseudônimo de “Daniel Alvarez”.

[2].  No Mundo-sem-Volta ou Ahapooka, predadores são profissionais que retiram equipamentos, artefatos e gêneros de alta tecnologia das naves estelares sinistradas no Grande Continente e os distribuem a preço de neutrônio pelas comunidades nativas.

[3].  As designações dessas naves estelares olduvaicas constituem referências óbvias e homenagens mais do que merecidas ao escritor estadunidense de FC David Brin, conforme detalhei na live.

[4].  Em Quando os Humanos Foram Embora, propus a existência de uma civilização alienígena que evoluiu nas profundezas escuras do oceano interno de um mundo tipo Europa, um dos quatro satélites galileanos de Júpiter, os ilianos.  Nessa novela, os ilianos estabelecem seu primeiro contato com representantes da humanidade quando uma expedição científica iliana perfura a crosta de gelo de seu mundo, alcançando a superfície.

[5].  Mais tarde, expandi essa novela e a publiquei como A Guardiã da Memória.

sábado, 25 de julho de 2026

 Ludi in Rio 2026

 

202607240900P6 – 24.122 D.V.

 

Na tarde da terça-feira passada, estive em um encontro com amigos na cafeteria da nova livraria Leonardo da Vinci, situada na galeria do subsolo do Edifício Marquês de Herval, atendendo à convocação de Ludimila Hashimoto, uma amiga carioca radicada há décadas em São Paulo, ora em visita ao Rio de Janeiro.

Como o trânsito fluiu relativamente bem naquela tarde, após o percurso de ônibus até a Voluntários da Pátria e o embarque na estação de metrô de Botafogo, valendo-me da vantagem das gratuidades recém-conquistadas, acabei chegando ao local do evento meia hora mais cedo, em relação ao horário marcado das 16h30.  Leitura de bordo: Dança Macabra (Francisco Alves, 1989), do Stephen King, um ensaio descompromissado do velho mestre sobre o Horror na literatura, no cinema e na TV.  Livro que comprei há trinta e poucos anos e que não havia lido até agora.  Ainda bastante pertinente, mas – obviamente – algo datado.  Culpa deste leitor ingrato ou, como os romanos costumam dizer, mea maxima culpa.

Saltando na Carioca, percebi que não visitava aquele trecho da Avenida Rio Branco desde a época pré-pandemia em que fazíamos os encontros mensais do Vórtice Rio no Centro Cultural da Caixa Econômica (que nem existe mais).  A estação em si se exibia cercada de barraquinhas de camelôs e assemelhados, numa densidade comparável à do calçadão da Praia de Copacabana.  Enfiei as mãos nos bolsos, afivelei minha pior cara de mau e cruzei aquele camelódromo improvisado em passos rápidos até alcançar a calçada oposta da avenida.

***

 

Cheguei no subsolo do Marquês de Herval (o bom e velho General Osório, para quem não sabe) e me dirigi ao tradicional sebo Berinjela, estabelecimento defronte à Da Vinci, no qual lançamos a antologia Outras Copas, Outros Mundos, pela Ano-Luz nos idos jurássicos de julho de 1998.  Fucei um pouco a prateleira dedicada à ficção científica, mas não comprei nada.

Luiz Felipe Vasques foi o segundo a chegar no fundo da galeria.  Antes de bater ponto no sebo Berinjela, avisou que já havia reservado uma mesa para oito pessoas na cafeteria da livraria.

Cinco minutos mais tarde, quando já estávamos aboletados em nossa mesa, o editor do Somnium, Rubens Angelo chegou à livraria.  Pouco depois, aparece Heitor Serpa, autor de literatura fantástica que eu ainda não conhecia pessoalmente.  Como eu, Heitor participa das iniciativas da Álamo Edições, capitaneada por Jean Gabriel Álamo.

Ana Lúcia Merege foi a próxima a chegar.  Aproveitei o ensejo e lhe presenteei com um exemplar capa dura autografado da minha coletânea de contos de viagens no tempo ambientados no universo Contingências Retrotemporais, Operação Arquimedes, pois, graças ao convite da Ana para participar de uma antologia uma três anos atrás, escrevi a noveleta que empresta seu título à coletânea.  De lá para cá, escrevi outros três contos neste U.F., dois dos quais inclusos na coletânea.

Octavio Aragão chegou minutos depois da Ana.  Trouxe consigo parte da produção atual do seu universo Intempol, destacando os três volumes da nova antologia gráfica, as duas versões do romance gráfico The Long Yesterday e a graphic novel do Carlos Felipe Figueiras, crossover do universo intempoliano com o Sítio do Picapau Amarelo do Monteiro Lobato.

Produção intempoliana de Octavio Aragão.

 

Por fim, vinda diretamente da Freguesia, Jacarepaguá, Ludimila, mentora do nosso encontro, chegou em companhia de sua filha de treze anos, Violeta.  Presenteei nossa anfitriã com um exemplar capa dura da minha noveleta de história alternativa com primeiro contato, O Preço da Sanidade.  Como psicóloga, Ludi se interessou quando lhe falei que o protagonista dessa narrativa foi submetido a tratamento numa clínica psiquiátrica durante o regime ditatorial que derrubou Luiza Erundina da presidência no Golpe de 2001.  Espero que continue gostando depois de ler a noveleta.

Dos amigos que Ludi convidou para o evento, batizado “Café com Bolinhos e Livros”, apenas Rafael Lupo Monteiro e Juliana Berlim não compareceram.  Essa última estava em São Paulo.  Ludi explicou que tentará encontrá-los numa segunda chamada do evento.

De pé (E/D): Felipe; GL-R; Heitor; Rubens; e Octavio.
Sentadas: Ana Merege; e Ludimila.

 

***

 

Já no início do bate-papo, Rubens nos contou sobre as vicissitudes de sua convalescença do tombo que levou no Aterro do Flamengo no ano passado, comparando essas experiências com o acidente que seu pai sofreu numa obra que comandava anos atrás.

Como a maioria dos presentes até então só conhecia o Heitor através das redes sociais, segundo ele, o encontro de transanteontem funcionou como uma espécie de comprovante da sua existência física perante testemunhas idôneas.  Humm, não sei, não.  Mas acho que esse negócio de “existência física” anda muito supervalorizado ultimamente...

Aproveitando que a cafeteria da livraria serve vinho em taça, experimentei um tinto.  Mais tarde, um branco e, mais tarde ainda, à guisa de saideira da livraria (que, afinal, cerra as portas às 18h30), retornei ao tinto.  Porém, como ninguém é de ferro, à guisa de prevenção, antes dessa farra etílica de caráter enológico, consumi um copo parrudo de chocolate gelado – dose generosa a ponto de causar inveja aos amigos – para contrabalançar o teor alcoólico das três taças de vinho que ingeriria mais tarde.

Ao longo do bate-papo vespertino, quando comentei com Octavio e Felipe que a maioria dos meus amigos de esquerda me consideram de direita e que a maioria dos meus amigos de direita me consideram de esquerda, Octavio afirmou que, até pelos temas das minhas histórias, minha orientação camba mais para a esquerda.  Quando repliquei que sou a favor da pena de morte, contra-argumentou que isso é apenas um ponto fora da curva.  Então, tá.[1]

Atendendo a pedidos, expliquei os motivos para o atraso da antologia de contos de história alternativa que organizei há tempos e que submeti no fim do ano passado a uma nova editora.  Entendedores entenderão.😉

Por volta das dezoito horas e vinte minutos fomos gentilmente convidados a abandonar a cafeteria, para que a livraria pudesse cerrar as portas.

Ainda permanecemos de pé na galeria do subsolo por uns dez minutos, batendo papo e nos despedindo da Ana Merege, que pediu um UBER para regressar a Niterói.  Então, resolvemos rumar até a Pizzaria Fontana, em Botafogo, para continuar o papo e, eventualmente, fazer uma boquinha.

Fontana é a enésima quarta encarnação do mesmíssimo estabelecimento na esquina da Mena Barreto com a Rua da Passagem que frequentamos há cerca de duas décadas e que já abrigou encontros e eventos memoráveis (e outros nem tanto) da comunidade FC&F carioca.

 

Ana Lúcia Merege; Ludimila Hashimoto; e Violeta.

Luiz Felipe Vasques; GL-R; e Rubens Angelo.

***

 

Caminhamos em caravana até a Estação Carioca e embarcamos no metrô rumo a Botafogo.  Demorei um pouco a validar meu cartão gratuidade e quase não consegui embarcar na mesma composição e vagão que meus amigos.  Porém, nada que uma corrida breve não resolvesse.

Durante a viagem, conversei com Ludimila sobre sua estada atual no Rio de Janeiro.  Ela e a filha estão hospedadas na casa da mãe dela, lá na Freguesia.  Ludi falou que, além de tradutora (de mão cheia, por sinal), está trabalhando como psicóloga especializada em portadores de TDAH, superdotados e autistas.

Uma vez na Fontana, talvez em virtude do dia e, sobretudo, da hora, não foi difícil conseguir uma mesa para nós sete.  Juro por Baco que não queria participar do irresistível rodízio de pizzas e massas do estabelecimento.  O que ocorreu foi que, quando fui pesar meu prato – repleto de corações de frango, fatias de carpaccio e outras iguarias e gordices correlatas – a balança registrou o peso, mas não emitiu a fatura.  Como o valor da mesma seria superior ao do rodízio e o sistema de rodízio facultava acesso aos pratos do buffet (exceto pelas carnes do churrasco), a funcionária propôs cortesmente que eu pagasse como se fosse rodízio.  Em minha defesa, declaro que não aceitei nem uma mísera daquelas fatias apetitosas que os garçons não se fartavam em oferecer com insistência malévola aos meus amigos.

Rubens nos contou sobre a experiência agridoce de assistir ao novo filme do He-Man ainda em exibição nos cinemas.  Comentei que só conhecia o personagem pelos desenhos animados que meus filhos mais velhos assistiam, se não me engano, no Show da Xuxa.  Ah, a juventude...

Comentei com o Felipe sobre a necessidade de alavancarmos nosso projeto conjunto no universo ficcional Terra Brasilis.  Já escrevi uma noveleta e uma novela nesse U.F. compartilhado e ele três contos.  Estimo que ainda precisamos de mais umas dez ou vinte mil palavras para fechar o livrinho.

Permanecemos na Fontana por quase duas horas.  Então, pagamos nossas comandas individuais e pedimos nossos veículos de aplicativo.  Na viagem de volta para casa, dividi um UBER com Felipe e Octavio.

Enfim, um encontro muito bom.  A questão agora é ver se conseguimos transformar essa efeméride numa tradição.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 24 de julho de 2026 (sexta-feira).

 


Participantes:

Ana Lúcia Merege.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Heitor Serpa.

Ludimila Hashimoto.

Luiz Felipe Vasques.

Octavio Aragão.

Rubens Angelo.

Violeta Hashimoto.



[1].  A verdade é que, em meados da terceira década do século XXI, em pleno Terceiro Milênio, os conceitos de “esquerda” e “direita” me soam tão ultrapassados que, se for para ser taxado de alguma coisa, prefiro que seja de anarquista.  Aliás, quando falei isso transanteontem, Ludi comentou que simpatizava com essa postura.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 

Escribas da Cinelândia

 

“Além de pseudociência, Psicanálise é uma religião.”

 

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Compareci hoje à noite no vigésimo encontro do Escribas da Cinelândia, grupo formado a partir de uma oficina literária da qual os membros fundadores participaram anos atrás.

O convite para participar do evento me foi feito por Anderson dos Santos Costa, amigo que conheci no fórum de assuntos gerais da antologia Fronteiras Siderais (Mundo, 2025), de que ambos participamos no ano passado.[1]

Ainda um pouco atrapalhado com meu pé direito convalescente, mas já liberto tanto da bota ortopédica quanto da bengala, saí de casa lépido como uma gazela de pata quebrada por volta das 18h20, consegui pegar o UBER sem problemas e, como o trânsito estava bom, cheguei lá no horário marcado das dezenove horas.  Leitura de bordo: noveleta de história alternativa “George Patton Slept Here”, de Roland J. Green, presente na antologia Alternate Generals II (Baen Books, 2004), organizada por Harry Turtledove & Martin H. Greenberg.

Saltei do veículo distante cem metros do Amarelinho, restaurante carioca legendário no qual os Escribas se reúnem mensalmente, e precisei caminhar até lá.

Já presentes à mesa do Escribas quando entrei no salão interno do restaurante, estavam, além do Anderson: Bruno Nogueira; Leo Azevedo; Daniel Silos; Carol Engel; João Gouvêa; para além de uma pilha de livros de quase meio metro de altura, entre romances e coletâneas de minha própria lavra e antologias de que organizei ou participei.  Descobri que a pilha pertencia ao Anderson.  Imagino que eu talvez devesse ter autografado os livros, mas o fato é que, em meio ao bate-papo animado, acabei esquecendo de indagar a respeito.  Enfim, se for o caso, ficará para a próxima ocasião.

Levei seis dos meus livrinhos para dar de lembrança aos novos amigos e foi a conta certa para os seis escribas que já se encontravam presentes.  Como primeiro a escolher, Anderson ficou com a coletânea Os Humanos Estão Chegando, com contos ambientados no U.F. Aeternum Sidus Bellum.  Daniel escolheu a noveleta de história alterativa de cunho ufológico O Preço da Sanidade.  João ficou com o romance de ficção científica Estranhos no Paraíso.  Carol escolheu um dos exemplares da Fronteiras Siderais.  O outro exemplar dessa antologia e a coletânea Histórias de Ficção Científica por Carla Cristina Pereira, que reúne as narrativas publicadas originalmente sob meu pseudônimo feminino, ficaram para o Bruno e o Leo, embora eu não consiga precisar qual dos dois ficou com a coletânea e com a antologia.

Autografei os livros para os amigos e o Anderson também autografou nos dois exemplares da nossa antologia.

Ao longo do evento, chegaram dois outros escribas: Athos Silva e Marcela Guimarães.  Infelizmente, não restaram exemplares para lhes ofertar.


Escribas da Cinelândia (sentido horário): Anderson; Bruno; Leo;
Daniel; Marcela; Carol; João; GL-R; Athos; e a pilha de livros.


***

 

Pela posição que ocupei na mesa, acabei conversando mais com Anderson, Bruno, Athos e João.  Ao longo de três horas de bate-papo divertido e estimulante, logrei vislumbrar uns poucos lances fugidios do jogo Botafogo x Volta Redonda pela terceira rodada do campeonato carioca que rolava – felizmente sem som – numa TV de tela plana do outro lado do salão em que nos reunimos.  A partida transcorreu no Nilton Santos.  Estreia da equipe principal do Glorioso na competição.  Placar final: Fogão 1x0, com um belo gol de Montoro por volta dos vinte minutos da etapa final.

Voltando ao que interessa, antes de mais nada, fui sabatinado por meus novos confrades com três questões cruciais, que encarei como ritual de iniciação.

Primeira questão: De que filme eu gostei mais: 2001: Uma Odisseia no Espaço ou O Senhor dos Anéis.  Respondi 2001.  Porque, embora não seja meu filme de FC predileto, é ficção científica.  Ao passo que a megassaga do Tolkien é apenas a minha narrativa de fantasia épica favorita em qualquer mídia.

Rogo que meus parcos leitores eventuais perdoem este cronista relapso e senil, pois que me esqueci qual foi a segunda pergunta.  Mas, juro que a terceira foi: Lula ou Bolsonaro?  Disparei à queima-roupa: nenhum dos dois.

Além dos filmes e livros de ficção científica e gêneros correlatos abordados amiúde, conversamos sobre filosofia, assunto no qual tanto Athos quanto Bruno teceram considerações instigantes.  Graduado em Filosofia e servidor público da Prefeitura do Rio de Janeiro, Bruno comentou sobre os males da corrente filosófica do relativismo, que nega a existência de verdades ou valores morais universais.  Ao passo que Athos – que é doutorando em Astronomia – apresentou argumentos relevantes, não só sobre esse tema filosófico, mas também sobre outros.  Falamos sobre Trump, religião, pseudociência (inclusive, sobre a psicanálise e a fúria que Carlos Orsi e Natalia Pasternak provocaram na comunidade psicanalítica brasileira com suas críticas pertinentes e certeiras àquela prática pseudocientífica em particular)[2], os males do fanatismo político (que, em seus extremos, assemelha-se um bocado ao religioso), bolsonaristas em nossas respectivas famílias; questões demográficas associadas à superpopulação e soluções eventuais para esse problema através da educação.

Quando mencionei que residia no Jardim Botânico, alguém me perguntou, creio que foi o João, se meu bairro sofria muitos problemas de enchentes e alagamentos durante as chuvas de verão.  Expliquei que sim, mas nem tanto.  O que ocorre de fato é que a Central de Jornalismo da Rede Globo se situa no Jardim Botânico e, quando chove muito, a água sobe e as equipes jornalísticas não conseguem sair de sua base, o jeito é gravar matérias em torno de sua sede mesmo.  Além disso, recitei o que todo residente deste bairro está farto de saber: quando a maré está baixa, pode chover desabar um dilúvio bíblico que os rios e canais do bairro irão desaguar direitinho na Lagoa Rodrigo de Freitas sem o menor problema e as ruas não vão encher.  Por outro lado, em momentos de maré alta, uma chuva relativamente moderada pode transformar nossas ruas em rios e os rios dos Macacos e Cabeças em genuínas Cataratas do Iguaçu.

Lá pelas tantas, seguindo a sugestão e, sobretudo, o exemplo do Anderson, resolvi encarar um sanduíche parrudo de filé-mignon guarnecido com uma montanha de batatas fritas.  Segundo João, Anderson teria uma sociedade com o Amarelinho e sugeriria aquele prato para todo mundo.  Graças à gentileza do Leo, que correu atrás do garçom para esclarecer que eu não queria abacaxi no sanduíche, a refeição se mostrou gostosa, aplacou minha fome e a conta não saiu caro.

Ao examinar um exemplar da antologia Erótica Fantástica 1 presente na pilha do Anderson, Marcela me perguntou se não houve um segundo volume.  Expliquei que, quando organizei aquela antologia para a Draco, coligi muitas histórias boas.  Daí, o livro ficou muito grande e precisou ser dividido em Erótica Fantástica 1 e Erótica Fantástica 2.  Infelizmente, somente o primeiro volume foi lançado como livro físico.  No entanto, os contos do segundo volume acabaram disponibilizados separadamente sob a forma de e-books na Amazon.  Não resisti ao ensejo e revelei que essas duas antologias (ou essa antologia dividida em duas) descendem de uma iniciativa pretérita, mais genial e inovadora (modéstia às favas), a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002), antologia que organizei para a editora da qual foi sócio mais de duas décadas atrás.  Como os presentes jamais haviam ouvido falar na Gostosa![3] (forma carinhosa & caliente pela qual essa iniciativa foi apelidada à época), prometi presenteá-los com exemplares dessa antologia seminal (com ou sem trocadilho, a critério do leitor) em nosso próximo encontro.

***

 

João me contou que possui um canal de YouTube, o Literanalise, onde veicula seus insights literários e matérias com autores e antologistas insignes, inclusive, uma entrevista com Italo Morriconi, o organizador da antologia magistral Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Objetiva, 2009).

Quando alguns amigos precisaram partir mais cedo, a mesa comprida ficou menor e pude conversar um pouco com Carol.  Ela contou que é dona da editora Janela Amarela, especializada em resgatar obras esgotadas de autoras brasileiras que não deveriam ter sido esquecidas.  Explicou que, muitas vezes, o mais difícil é encontrar um exemplar das edições originais, pois a maioria deles foi publicada em épocas em que o depósito legal na Biblioteca Nacional ainda não era exigido.

Ao perceber a curiosidade salutar dos meus novos amigos a respeito de algumas figuras legendárias da literatura fantástica brasileira, não sem certa relutância, acabei concordando em responder suas perguntas ávidas.  Infelizmente, por questão estatutária, lavrada como cláusula pétrea, nessa agremiação da qual pretendo fazer parte, a maioria dos segredos revelados nas reuniões dos Escribas da Cinelândia devem permanecer restrita às mesas de madeira escura daquele restaurante egrégio.  Contudo, posso adiantar ter revelado a ocasião em que recebi uma reprimenda de Jorge Luiz Calife por não o ter convidado a participar da Gostosa!, lapso que sanei in abruptu com um convite, a pronta aceitação de seu conto e a publicação na antologia referida.  Também apresentei estudos de personalidade resumidos de representantes ilustres da FC&F lusófona e, à guisa de orientação de sobrevivência, esclareci muito en passant as divisões ideológicas atuais presentes na literatura fantástica brasileira.

Quando o Leo ou o Bruno me perguntou se eu gostava de ficção científica humorística, respondi que sim, desde os tempos em que os livros do Douglas Adams foram publicados pela primeira vez em nosso país na década de 1980 pelo selo Circo das Letras da editora Brasiliense.  Aproveitei o ensejo para divulgar o romance Onde Kombi Alguma Jamais Esteve (edição do autor, 2019) do meu amigo dileto Gilson Luís da Cunha.  João indagou e eu confirmei: sim, é o livro que ganhou o Prêmio Argos 2020.  Aliás, naquele mesmo ano, Gilson também venceu na categoria Ficção Curta com a bela noveleta “A Mulher que Chora”.

A pilha de livros do Anderson...



***

 

Enfim, por volta das vinte e duas horas e vinte e poucos minutos, começamos a mobilizar nossas forças para deixar o Amarelinho.  Como já havíamos quitado as comandas coisa de uma hora antes, caminhamos até a frente do restaurante, de onde pedi meu UBER.  O veículo até que se prontificou rápido, mas precisei caminhar até defronte ao Teatro Municipal para embarcar.  Felizmente, Anderson e Daniel me escoltaram até lá.

A viagem de volta para casa foi ainda mais curta e mais barata do que a de ida.  Leitura de bordo: “George Patton Slept Here”.

Resumo da Ópera: gostei muito do pessoal dos Escribas da Cinelândia.  No que depender de mim, vou me tornar freguês.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2026 (quarta-feira).


Participantes:

Anderson dos Santos Costa.

Athos Silva.

Bruno Nogueira.

Carol Engel.

Daniel Silos.

Gerson Lodi-Ribeiro.

João Maselli Gouvêa.

Leo Azevedo.

Marcela Guimarães.



[1].  Anderson com o bom conto “Em Modo Automático” e eu com “Batismo de Fogo”, noveleta ambientada no mesmo universo ficcional Humanosfera do romance Quando Deus Morreu e da trilogia Labirintos de Knossos.

[2].  Entusiasmado, cheguei ao desatino de comentar de bate-pronto (postura não recomendada em primeiros contatos com novos amigos ou civilizações alienígenas) que a proposta freudiana de ego, id e superego carece de qualquer embasamento científico.  Aliás, já que é pra chutar o pau da barraca, no que me diz respeito, em termos de tríades capazes de nos ajudar a compreender o funcionamento da mente humana, prefiro mil vezes a teoria do cérebro trino, proposta por Paul MacLean e popularizada por Carl Sagan, que sugere que o cérebro humano exibe três camadas distintas: o complexo R (cérebro reptiliano), responsável pelos reflexos e comportamentos instintivos; o sistema límbico (cérebro emocional), responsável pelas emoções, memória, motivações e estabelecimento de laços sociais; e o neocórtex (cérebro racional), associado à linguagem, ao pensamento abstrato, à lógica, à criatividade e ao planejamento.  Essa teoria constitui uma simplificação?  Com certeza.  No entanto, explica o funcionamento da mente humana bem melhor do que esse papo pra lá de careca de ego-id-superego.

[3].  Costumo brincar falando a sério, quando afirmo que a historiografia da Ficção Científica Brasileira é uma arqueologia de Civilizações Perdidas...