Escribas da Cinelândia
“Além de pseudociência, Psicanálise é uma religião.”
202601212359P4 – 23.938 D.V.
Compareci hoje
à noite no vigésimo encontro do Escribas da Cinelândia, grupo formado a partir
de uma oficina literária da qual os membros fundadores participaram anos atrás.
O convite
para participar do evento me foi feito por Anderson dos Santos Costa, amigo que
conheci no fórum de assuntos gerais da antologia Fronteiras Siderais
(Mundo, 2025), de que ambos participamos no ano passado.[1]
Ainda um
pouco atrapalhado com meu pé direito convalescente, mas já liberto tanto da
bota ortopédica quanto da bengala, saí de casa lépido como uma gazela de pata
quebrada por volta das 18h20, consegui pegar o UBER sem problemas e, como o
trânsito estava bom, cheguei lá no horário marcado das dezenove horas. Leitura de bordo: noveleta de história
alternativa “George Patton Slept Here”, de Roland J. Green, presente na
antologia Alternate Generals II (Baen Books, 2004), organizada por Harry
Turtledove & Martin H. Greenberg.
Saltei do
veículo distante cem metros do Amarelinho, restaurante carioca legendário no
qual os Escribas se reúnem mensalmente, e precisei caminhar até lá.
Já presentes
à mesa do Escribas quando entrei no salão interno do restaurante, estavam, além
do Anderson: Bruno Nogueira; Leo Azevedo; Daniel Silos; Carol Engel; João Gouvêa;
para além de uma pilha de livros de quase meio metro de altura, entre romances
e coletâneas de minha própria lavra e antologias de que organizei ou
participei. Descobri que a pilha pertencia
ao Anderson. Imagino que eu talvez devesse
ter autografado os livros, mas o fato é que, em meio ao bate-papo animado,
acabei esquecendo de indagar a respeito.
Enfim, se for o caso, ficará para a próxima ocasião.
Levei seis
dos meus livrinhos para dar de lembrança aos novos amigos e foi a conta certa
para os seis escribas que já se encontravam presentes. Como primeiro a escolher, Anderson ficou com
a coletânea Os Humanos Estão Chegando, com contos ambientados no U.F. Aeternum Sidus Bellum. Daniel escolheu a noveleta de história
alterativa de cunho ufológico O Preço da Sanidade. João ficou com o romance de ficção científica
Estranhos no Paraíso. Carol
escolheu um dos exemplares da Fronteiras Siderais. O outro exemplar dessa antologia e a
coletânea Histórias de Ficção Científica por Carla Cristina Pereira, que
reúne as narrativas publicadas originalmente sob meu pseudônimo feminino,
ficaram para o Bruno e o Leo, embora eu não consiga precisar qual dos dois
ficou com a coletânea e com a antologia.
Autografei os
livros para os amigos e o Anderson também autografou nos dois exemplares da
nossa antologia.
Ao longo do
evento, chegaram dois outros escribas: Athos Silva e Marcela Guimarães. Infelizmente, não restaram exemplares para lhes
ofertar.
***
Pela posição
que ocupei na mesa, acabei conversando mais com Anderson, Bruno, Athos e João. Ao longo de três horas de bate-papo divertido
e estimulante, logrei vislumbrar uns poucos lances fugidios do jogo Botafogo x
Volta Redonda pela terceira rodada do campeonato carioca que rolava –
felizmente sem som – numa TV de tela plana do outro lado do salão em que nos
reunimos. A partida transcorreu no
Nilton Santos. Estreia da equipe
principal do Glorioso na competição.
Placar final: Fogão 1x0, com um belo gol de Montoro por volta dos vinte
minutos da etapa final.
Voltando ao
que interessa, antes de mais nada, fui sabatinado por meus novos confrades com três
questões cruciais, que encarei como ritual de iniciação.
Primeira questão:
De que filme eu gostei mais: 2001: Uma Odisseia no Espaço ou O Senhor
dos Anéis. Respondi 2001. Porque, embora não seja meu filme de FC
predileto, é ficção científica. Ao passo
que a megassaga do Tolkien é apenas a minha narrativa de fantasia épica
favorita em qualquer mídia.
Rogo que meus
parcos leitores eventuais perdoem este cronista relapso e senil, pois que me esqueci
qual foi a segunda pergunta. Mas, juro
que a terceira foi: Lula ou Bolsonaro? Disparei
à queima-roupa: nenhum dos dois.
Além dos
filmes e livros de ficção científica e gêneros correlatos abordados amiúde, conversamos
sobre filosofia, assunto no qual tanto Athos quanto Bruno teceram considerações
instigantes. Graduado em Filosofia e
servidor público da Prefeitura do Rio de Janeiro, Bruno comentou sobre os males
da corrente filosófica do relativismo, que nega a existência de verdades ou
valores morais universais. Ao passo que
Athos – que é doutorando em Astronomia – apresentou argumentos relevantes, não
só sobre esse tema filosófico, mas também sobre outros. Falamos sobre Trump, religião, pseudociência
(inclusive, sobre a psicanálise e a fúria que Carlos Orsi e Natalia Pasternak
provocaram na comunidade psicanalítica brasileira com suas críticas pertinentes
e certeiras àquela prática pseudocientífica em particular)[2],
os males do fanatismo político (que, em seus extremos, assemelha-se um bocado
ao religioso), bolsonaristas em nossas respectivas famílias; questões
demográficas associadas à superpopulação e soluções eventuais para esse
problema através da educação.
Quando
mencionei que residia no Jardim Botânico, alguém me perguntou, creio que foi o
João, se meu bairro sofria muitos problemas de enchentes e alagamentos durante
as chuvas de verão. Expliquei que sim,
mas nem tanto. O que ocorre de fato é
que a Central de Jornalismo da Rede Globo se situa no Jardim Botânico e, quando
chove muito, a água sobe e as equipes jornalísticas não conseguem sair de sua
base, o jeito é gravar matérias em torno de sua sede mesmo. Além disso, recitei o que todo residente deste
bairro está farto de saber: quando a maré está baixa, pode chover desabar um dilúvio
bíblico que os rios e canais do bairro irão desaguar direitinho na Lagoa
Rodrigo de Freitas sem o menor problema e as ruas não vão encher. Por outro lado, em momentos de maré alta, uma
chuva relativamente moderada pode transformar nossas ruas em rios e os rios dos
Macacos e Cabeças em genuínas Cataratas do Iguaçu.
Lá pelas
tantas, seguindo a sugestão e, sobretudo, o exemplo do Anderson, resolvi
encarar um sanduíche parrudo de filé-mignon guarnecido com uma montanha de
batatas fritas. Segundo João, Anderson
teria uma sociedade com o Amarelinho e sugeriria aquele prato para todo
mundo. Graças à gentileza do Leo, que
correu atrás do garçom para esclarecer que eu não queria abacaxi no sanduíche, a
refeição se mostrou gostosa, aplacou minha fome e a conta não saiu caro.
Ao examinar um
exemplar da antologia Erótica Fantástica 1 presente na pilha do
Anderson, Marcela me perguntou se não houve um segundo volume. Expliquei que, quando organizei aquela
antologia para a Draco, coligi muitas histórias boas. Daí, o livro ficou muito grande e precisou
ser dividido em Erótica Fantástica 1 e Erótica Fantástica 2. Infelizmente, somente o primeiro volume foi
lançado como livro físico. No entanto, os
contos do segundo volume acabaram disponibilizados separadamente sob a forma de
e-books na Amazon. Não resisti ao ensejo
e revelei que essas duas antologias (ou essa antologia dividida em duas)
descendem de uma iniciativa pretérita, mais genial e inovadora (modéstia às
favas), a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002),
antologia que organizei para a editora da qual foi sócio mais de duas décadas
atrás. Como os presentes jamais haviam
ouvido falar na Gostosa![3]
(forma carinhosa & caliente pela qual essa iniciativa foi apelidada à
época), prometi presenteá-los com exemplares dessa antologia seminal (com ou
sem trocadilho, a critério do leitor) em nosso próximo encontro.
***
João me
contou que possui um canal de YouTube, o Literanalise, onde veicula seus
insights literários e matérias com autores e antologistas insignes,
inclusive, uma entrevista com Italo Morriconi, o organizador da antologia magistral
Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Objetiva, 2009).
Quando alguns
amigos precisaram partir mais cedo, a mesa comprida ficou menor e pude
conversar um pouco com Carol. Ela contou
que é dona da editora Janela Amarela, especializada em resgatar obras esgotadas
de autoras brasileiras que não deveriam ter sido esquecidas. Explicou que, muitas vezes, o mais difícil é
encontrar um exemplar das edições originais, pois a maioria deles foi publicada
em épocas em que o depósito legal na Biblioteca Nacional ainda não era exigido.
Ao perceber a
curiosidade salutar dos meus novos amigos a respeito de algumas figuras legendárias
da literatura fantástica brasileira, não sem certa relutância, acabei concordando
em responder suas perguntas ávidas.
Infelizmente, por questão estatutária, lavrada como cláusula pétrea,
nessa agremiação da qual pretendo fazer parte, a maioria dos segredos revelados
nas reuniões dos Escribas da Cinelândia devem permanecer restrita às mesas de
madeira escura daquele restaurante egrégio.
Contudo, posso adiantar ter revelado a ocasião em que recebi uma
reprimenda de Jorge Luiz Calife por não o ter convidado a participar da Gostosa!,
lapso que sanei in abruptu com um convite, a pronta aceitação de seu
conto e a publicação na antologia referida.
Também apresentei estudos de personalidade resumidos de representantes
ilustres da FC&F lusófona e, à guisa de orientação de sobrevivência, esclareci
muito en passant as divisões ideológicas atuais presentes na literatura
fantástica brasileira.
Quando o Leo
ou o Bruno me perguntou se eu gostava de ficção científica humorística,
respondi que sim, desde os tempos em que os livros do Douglas Adams foram
publicados pela primeira vez em nosso país na década de 1980 pelo selo Circo
das Letras da editora Brasiliense.
Aproveitei o ensejo para divulgar o romance Onde Kombi Alguma Jamais
Esteve (edição do autor, 2019) do meu amigo dileto Gilson Luís da
Cunha. João indagou e eu confirmei: sim,
é o livro que ganhou o Prêmio Argos 2020.
Aliás, naquele mesmo ano, Gilson também venceu na categoria Ficção Curta
com a bela noveleta “A Mulher que Chora”.
***
Enfim, por
volta das vinte e duas horas e vinte e poucos minutos, começamos a mobilizar
nossas forças para deixar o Amarelinho.
Como já havíamos quitado as comandas coisa de uma hora antes, caminhamos
até a frente do restaurante, de onde pedi meu UBER. O veículo até que se prontificou rápido, mas
precisei caminhar até defronte ao Teatro Municipal para embarcar. Felizmente, Anderson e Daniel me escoltaram
até lá.
A viagem de
volta para casa foi ainda mais curta e mais barata do que a de ida. Leitura de bordo: “George Patton Slept Here”.
Resumo da
Ópera: gostei muito do pessoal dos Escribas da Cinelândia. No que depender de mim, vou me tornar
freguês.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2026 (quarta-feira).
Participantes:
Anderson
dos Santos Costa.
Athos
Silva.
Bruno
Nogueira.
Carol
Engel.
Daniel
Silos.
Gerson
Lodi-Ribeiro.
João Maselli
Gouvêa.
Leo Azevedo.
Marcela
Guimarães.
[1]. Anderson com o
bom conto “Em Modo Automático” e eu com “Batismo de Fogo”, noveleta ambientada
no mesmo universo ficcional Humanosfera
do romance Quando Deus Morreu e da trilogia Labirintos de Knossos.
[2]. Entusiasmado,
cheguei ao desatino de comentar de bate-pronto (postura não recomendada em
primeiros contatos com novos amigos ou civilizações alienígenas) que a proposta
freudiana de ego, id e superego carece de qualquer embasamento científico. Aliás, já que é pra chutar o pau da barraca,
no que me diz respeito, em termos de tríades capazes de nos ajudar a
compreender o funcionamento da mente humana, prefiro mil vezes a teoria do
cérebro trino, proposta por Paul MacLean e popularizada por Carl Sagan, que
sugere que o cérebro humano exibe três camadas distintas: o complexo R (cérebro
reptiliano), responsável pelos reflexos e comportamentos instintivos; o sistema
límbico (cérebro emocional), responsável pelas emoções, memória, motivações e
estabelecimento de laços sociais; e o neocórtex (cérebro racional), associado à
linguagem, ao pensamento abstrato, à lógica, à criatividade e ao
planejamento. Essa teoria constitui uma
simplificação? Com certeza. No entanto, explica o funcionamento da mente
humana bem melhor do que esse papo pra lá de careca de ego-id-superego.
[3]. Costumo
brincar falando a sério, quando afirmo que a historiografia da Ficção
Científica Brasileira é uma arqueologia de Civilizações Perdidas...


Que crônica legal! Esse encontro foi mesmo memorável. Questões polêmicas foram tratadas com muito respeito, camaradagem e muitas risadas; o papo foi inesquecível. O cronista, um dos grandes mestres da ficção científica, é uma verdadeira enciclopédia — que baita cara legal! Gerson, você já é um membro dos Escribas da Cinelândia. Até os próximos encontros!
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