sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 

Escribas da Cinelândia

 

“Além de pseudociência, Psicanálise é uma religião.”

 

202601212359P4 – 23.938 D.V.

 

Compareci hoje à noite no vigésimo encontro do Escribas da Cinelândia, grupo formado a partir de uma oficina literária da qual os membros fundadores participaram anos atrás.

O convite para participar do evento me foi feito por Anderson dos Santos Costa, amigo que conheci no fórum de assuntos gerais da antologia Fronteiras Siderais (Mundo, 2025), de que ambos participamos no ano passado.[1]

Ainda um pouco atrapalhado com meu pé direito convalescente, mas já liberto tanto da bota ortopédica quanto da bengala, saí de casa lépido como uma gazela de pata quebrada por volta das 18h20, consegui pegar o UBER sem problemas e, como o trânsito estava bom, cheguei lá no horário marcado das dezenove horas.  Leitura de bordo: noveleta de história alternativa “George Patton Slept Here”, de Roland J. Green, presente na antologia Alternate Generals II (Baen Books, 2004), organizada por Harry Turtledove & Martin H. Greenberg.

Saltei do veículo distante cem metros do Amarelinho, restaurante carioca legendário no qual os Escribas se reúnem mensalmente, e precisei caminhar até lá.

Já presentes à mesa do Escribas quando entrei no salão interno do restaurante, estavam, além do Anderson: Bruno Nogueira; Leo Azevedo; Daniel Silos; Carol Engel; João Gouvêa; para além de uma pilha de livros de quase meio metro de altura, entre romances e coletâneas de minha própria lavra e antologias de que organizei ou participei.  Descobri que a pilha pertencia ao Anderson.  Imagino que eu talvez devesse ter autografado os livros, mas o fato é que, em meio ao bate-papo animado, acabei esquecendo de indagar a respeito.  Enfim, se for o caso, ficará para a próxima ocasião.

Levei seis dos meus livrinhos para dar de lembrança aos novos amigos e foi a conta certa para os seis escribas que já se encontravam presentes.  Como primeiro a escolher, Anderson ficou com a coletânea Os Humanos Estão Chegando, com contos ambientados no U.F. Aeternum Sidus Bellum.  Daniel escolheu a noveleta de história alterativa de cunho ufológico O Preço da Sanidade.  João ficou com o romance de ficção científica Estranhos no Paraíso.  Carol escolheu um dos exemplares da Fronteiras Siderais.  O outro exemplar dessa antologia e a coletânea Histórias de Ficção Científica por Carla Cristina Pereira, que reúne as narrativas publicadas originalmente sob meu pseudônimo feminino, ficaram para o Bruno e o Leo, embora eu não consiga precisar qual dos dois ficou com a coletânea e com a antologia.

Autografei os livros para os amigos e o Anderson também autografou nos dois exemplares da nossa antologia.

Ao longo do evento, chegaram dois outros escribas: Athos Silva e Marcela Guimarães.  Infelizmente, não restaram exemplares para lhes ofertar.


Escribas da Cinelândia (sentido horário): Anderson; Bruno; Leo;
Daniel; Marcela; Carol; João; GL-R; Athos; e a pilha de livros.


***

 

Pela posição que ocupei na mesa, acabei conversando mais com Anderson, Bruno, Athos e João.  Ao longo de três horas de bate-papo divertido e estimulante, logrei vislumbrar uns poucos lances fugidios do jogo Botafogo x Volta Redonda pela terceira rodada do campeonato carioca que rolava – felizmente sem som – numa TV de tela plana do outro lado do salão em que nos reunimos.  A partida transcorreu no Nilton Santos.  Estreia da equipe principal do Glorioso na competição.  Placar final: Fogão 1x0, com um belo gol de Montoro por volta dos vinte minutos da etapa final.

Voltando ao que interessa, antes de mais nada, fui sabatinado por meus novos confrades com três questões cruciais, que encarei como ritual de iniciação.

Primeira questão: De que filme eu gostei mais: 2001: Uma Odisseia no Espaço ou O Senhor dos Anéis.  Respondi 2001.  Porque, embora não seja meu filme de FC predileto, é ficção científica.  Ao passo que a megassaga do Tolkien é apenas a minha narrativa de fantasia épica favorita em qualquer mídia.

Rogo que meus parcos leitores eventuais perdoem este cronista relapso e senil, pois que me esqueci qual foi a segunda pergunta.  Mas, juro que a terceira foi: Lula ou Bolsonaro?  Disparei à queima-roupa: nenhum dos dois.

Além dos filmes e livros de ficção científica e gêneros correlatos abordados amiúde, conversamos sobre filosofia, assunto no qual tanto Athos quanto Bruno teceram considerações instigantes.  Graduado em Filosofia e servidor público da Prefeitura do Rio de Janeiro, Bruno comentou sobre os males da corrente filosófica do relativismo, que nega a existência de verdades ou valores morais universais.  Ao passo que Athos – que é doutorando em Astronomia – apresentou argumentos relevantes, não só sobre esse tema filosófico, mas também sobre outros.  Falamos sobre Trump, religião, pseudociência (inclusive, sobre a psicanálise e a fúria que Carlos Orsi e Natalia Pasternak provocaram na comunidade psicanalítica brasileira com suas críticas pertinentes e certeiras àquela prática pseudocientífica em particular)[2], os males do fanatismo político (que, em seus extremos, assemelha-se um bocado ao religioso), bolsonaristas em nossas respectivas famílias; questões demográficas associadas à superpopulação e soluções eventuais para esse problema através da educação.

Quando mencionei que residia no Jardim Botânico, alguém me perguntou, creio que foi o João, se meu bairro sofria muitos problemas de enchentes e alagamentos durante as chuvas de verão.  Expliquei que sim, mas nem tanto.  O que ocorre de fato é que a Central de Jornalismo da Rede Globo se situa no Jardim Botânico e, quando chove muito, a água sobe e as equipes jornalísticas não conseguem sair de sua base, o jeito é gravar matérias em torno de sua sede mesmo.  Além disso, recitei o que todo residente deste bairro está farto de saber: quando a maré está baixa, pode chover desabar um dilúvio bíblico que os rios e canais do bairro irão desaguar direitinho na Lagoa Rodrigo de Freitas sem o menor problema e as ruas não vão encher.  Por outro lado, em momentos de maré alta, uma chuva relativamente moderada pode transformar nossas ruas em rios e os rios dos Macacos e Cabeças em genuínas Cataratas do Iguaçu.

Lá pelas tantas, seguindo a sugestão e, sobretudo, o exemplo do Anderson, resolvi encarar um sanduíche parrudo de filé-mignon guarnecido com uma montanha de batatas fritas.  Segundo João, Anderson teria uma sociedade com o Amarelinho e sugeriria aquele prato para todo mundo.  Graças à gentileza do Leo, que correu atrás do garçom para esclarecer que eu não queria abacaxi no sanduíche, a refeição se mostrou gostosa, aplacou minha fome e a conta não saiu caro.

Ao examinar um exemplar da antologia Erótica Fantástica 1 presente na pilha do Anderson, Marcela me perguntou se não houve um segundo volume.  Expliquei que, quando organizei aquela antologia para a Draco, coligi muitas histórias boas.  Daí, o livro ficou muito grande e precisou ser dividido em Erótica Fantástica 1 e Erótica Fantástica 2.  Infelizmente, somente o primeiro volume foi lançado como livro físico.  No entanto, os contos do segundo volume acabaram disponibilizados separadamente sob a forma de e-books na Amazon.  Não resisti ao ensejo e revelei que essas duas antologias (ou essa antologia dividida em duas) descendem de uma iniciativa pretérita, mais genial e inovadora (modéstia às favas), a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002), antologia que organizei para a editora da qual foi sócio mais de duas décadas atrás.  Como os presentes jamais haviam ouvido falar na Gostosa![3] (forma carinhosa & caliente pela qual essa iniciativa foi apelidada à época), prometi presenteá-los com exemplares dessa antologia seminal (com ou sem trocadilho, a critério do leitor) em nosso próximo encontro.

***

 

João me contou que possui um canal de YouTube, o Literanalise, onde veicula seus insights literários e matérias com autores e antologistas insignes, inclusive, uma entrevista com Italo Morriconi, o organizador da antologia magistral Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Objetiva, 2009).

Quando alguns amigos precisaram partir mais cedo, a mesa comprida ficou menor e pude conversar um pouco com Carol.  Ela contou que é dona da editora Janela Amarela, especializada em resgatar obras esgotadas de autoras brasileiras que não deveriam ter sido esquecidas.  Explicou que, muitas vezes, o mais difícil é encontrar um exemplar das edições originais, pois a maioria deles foi publicada em épocas em que o depósito legal na Biblioteca Nacional ainda não era exigido.

Ao perceber a curiosidade salutar dos meus novos amigos a respeito de algumas figuras legendárias da literatura fantástica brasileira, não sem certa relutância, acabei concordando em responder suas perguntas ávidas.  Infelizmente, por questão estatutária, lavrada como cláusula pétrea, nessa agremiação da qual pretendo fazer parte, a maioria dos segredos revelados nas reuniões dos Escribas da Cinelândia devem permanecer restrita às mesas de madeira escura daquele restaurante egrégio.  Contudo, posso adiantar ter revelado a ocasião em que recebi uma reprimenda de Jorge Luiz Calife por não o ter convidado a participar da Gostosa!, lapso que sanei in abruptu com um convite, a pronta aceitação de seu conto e a publicação na antologia referida.  Também apresentei estudos de personalidade resumidos de representantes ilustres da FC&F lusófona e, à guisa de orientação de sobrevivência, esclareci muito en passant as divisões ideológicas atuais presentes na literatura fantástica brasileira.

Quando o Leo ou o Bruno me perguntou se eu gostava de ficção científica humorística, respondi que sim, desde os tempos em que os livros do Douglas Adams foram publicados pela primeira vez em nosso país na década de 1980 pelo selo Circo das Letras da editora Brasiliense.  Aproveitei o ensejo para divulgar o romance Onde Kombi Alguma Jamais Esteve (edição do autor, 2019) do meu amigo dileto Gilson Luís da Cunha.  João indagou e eu confirmei: sim, é o livro que ganhou o Prêmio Argos 2020.  Aliás, naquele mesmo ano, Gilson também venceu na categoria Ficção Curta com a bela noveleta “A Mulher que Chora”.

A pilha de livros do Anderson...



***

 

Enfim, por volta das vinte e duas horas e vinte e poucos minutos, começamos a mobilizar nossas forças para deixar o Amarelinho.  Como já havíamos quitado as comandas coisa de uma hora antes, caminhamos até a frente do restaurante, de onde pedi meu UBER.  O veículo até que se prontificou rápido, mas precisei caminhar até defronte ao Teatro Municipal para embarcar.  Felizmente, Anderson e Daniel me escoltaram até lá.

A viagem de volta para casa foi ainda mais curta e mais barata do que a de ida.  Leitura de bordo: “George Patton Slept Here”.

Resumo da Ópera: gostei muito do pessoal dos Escribas da Cinelândia.  No que depender de mim, vou me tornar freguês.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2026 (quarta-feira).


Participantes:

Anderson dos Santos Costa.

Athos Silva.

Bruno Nogueira.

Carol Engel.

Daniel Silos.

Gerson Lodi-Ribeiro.

João Maselli Gouvêa.

Leo Azevedo.

Marcela Guimarães.



[1].  Anderson com o bom conto “Em Modo Automático” e eu com “Batismo de Fogo”, noveleta ambientada no mesmo universo ficcional Humanosfera do romance Quando Deus Morreu e da trilogia Labirintos de Knossos.

[2].  Entusiasmado, cheguei ao desatino de comentar de bate-pronto (postura não recomendada em primeiros contatos com novos amigos ou civilizações alienígenas) que a proposta freudiana de ego, id e superego carece de qualquer embasamento científico.  Aliás, já que é pra chutar o pau da barraca, no que me diz respeito, em termos de tríades capazes de nos ajudar a compreender o funcionamento da mente humana, prefiro mil vezes a teoria do cérebro trino, proposta por Paul MacLean e popularizada por Carl Sagan, que sugere que o cérebro humano exibe três camadas distintas: o complexo R (cérebro reptiliano), responsável pelos reflexos e comportamentos instintivos; o sistema límbico (cérebro emocional), responsável pelas emoções, memória, motivações e estabelecimento de laços sociais; e o neocórtex (cérebro racional), associado à linguagem, ao pensamento abstrato, à lógica, à criatividade e ao planejamento.  Essa teoria constitui uma simplificação?  Com certeza.  No entanto, explica o funcionamento da mente humana bem melhor do que esse papo pra lá de careca de ego-id-superego.

[3].  Costumo brincar falando a sério, quando afirmo que a historiografia da Ficção Científica Brasileira é uma arqueologia de Civilizações Perdidas...

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

 

Elache in Rio 2025

 

202512272359P7 – 23.913 D.V.

 

Saí da toca nesta tarde de verão carioca, pé imobilizado e tudo, na terceira escapadela desta convalescência[1], para encontrar com meu amigo de longa data Paulo Elache Duarte, que conheci em Sumaré, cidadezinha do interior de São Paulo, por ocasião da primeira InteriorCon em 1990.

Não é a primeira vez que Paulo Elache visita o Rio de Janeiro na semana de interregno entre o Natal e o Réveillon.  Longe disso.  Como tem parentes aqui, de vez em quando ele e a esposa aproveitam esta época do ano para visitá-los.  Contudo, essa foi a primeira vez em que tive a oportunidade de encontrá-lo em plagas cariocas nesta época.  Pois, como nunca pude tirar as minhas férias em janeiro por causa do meu antigo trabalho no IPTU e Cláudia, como professora universitária só podia tirar as dela naquele mês (vivemos por mais de três décadas presos nessa espécie de Feitiço de Áquila), só podíamos viajar juntos na última quinzena do ano e olhe lá.

***

 

Por conta das minhas dificuldades de locomoção, saí de casa cedo, devidamente acompanhado por minhas novas amigas indefectíveis, a bota RoboCop e a bengala de indaiá (uma palmeira do gênero Attalea, endêmica nas regiões Sul e Sudeste) adquirida na ABBR.

Saí à rua a passos curtos e me dirigi à Rua Pacheco Leão, onde peguei um Uber.  Como o trânsito estava maravilhoso, a viagem até a Pizzaria Fontana (antigo Espaço Culinare), na junção entre a Rua da Passagem e a Mena Barreto durou míseros doze minutos.

Como acabei chegando trinta minutos antes do horário combinado, baixei o romance All Better Now (Simon & Schuster, 2025) do Neil Shusterman no Kindle do celular para me fazer companhia enquanto aguardava a chegada dos amigos.

***

 

Desde a manhã do dia de Natal tentei incentivar os colegas do Vórtice Rio (clube de leitura especializado em literatura fantástica do qual eu e Elache fazemos parte) e outros amigos chegados do CLFC-RJ a comparecer ao evento.  Inicialmente, alguns até se mostraram propensos, mas compromissos diversos ou surtos de preguiça pós-natalina inconfessáveis acabaram fazendo a maioria declinar do convite.

***

 

Como mora perto, Eduardo Torres chegou a pé pontualmente às dezesseis horas.  Após nos cumprimentarmos, partiu incontinente em direção ao buffet a quilo, pois ainda não havia almoçado (não tive esse problema porque, para não me exceder na Fontana, almocei um pouquinho de risoto de aspargos com linguiça em casa).  Antes que regressasse à mesa, Paulo Elache saltou de seu Uber, procedente do Grajaú.

Assim que encerramos as sessões de cumprimentos, fui ao buffet me abastecer com carpaccio, nacos de provolone e gorgonzola, além de salgados diversos.

Paulo Elache também se serviu no buffet.  Os dois beberam chopes.  Sujeito bem comportado que sou (quem não me conhece que me compre), permaneci nas garrafinhas de água com gás.

Antes de mais nada, distribuí lembrancinhas natalinas aos amigos.  Uma edição em capa dura da noveleta O Preço da Sanidade (Amazon KDP, 2024) ao Paulo Elache e uma edição brochura da coletânea Relatos Desgarrados (UICLAP, 2025) para o Edu.  Atendendo aos pedidos deles, solicitei uma caneta à garçonete e autografei os exemplares.  Infelizmente, a caneta era do tipo hidrocor e borrou um pouco os versos das páginas em que escrevi.

 


Paulo Elache, Eduardo Torres, GL-R.

 

***

 

Das dezesseis às dezenove horas, conversamos um bocado sobre ficção científica, mas não só.

Por causa do meu pé imobilizado, contamos sobre os acidentes, domésticos ou não, que sofremos ao longo dos anos.  Eduardo falou de um acidente de trabalho: um tombo sofrido durante uma inspeção que fazia quando trabalhava como engenheiro da Petrobras.  Fraturou a extremidade do rádio junto ao punho e precisou engessar.  O acidente de trabalho do Paulo foi mais sério: durante um vendaval, a porta gigantesca de um hangar se soltou, atingiu a escada de um avião estacionado lá dentro e essa o derrubou, lançando-o para baixo da aeronave.  Só por muita sorte nosso amigo não foi pro beleléu.

Encerrado o papo dos acidentes, comentamos brevemente o assunto da semana, a citar: o envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal e seus parentes com tentativas de impedir a liquidação judicial do Banco Master.

Porém, como ninguém é de ferro para discutir as asneiras e falcatruas típicas da política e da justiça à brasileira a tarde inteira, de comum acordo tácito, ingressamos em nosso assunto favorito, elencando as diversas modalidades de imortalidade propostas pela ciência e pela ficção científica, falamos de registros de personalidade (ligados a sistemas de teleporte ou não) e citamos exemplos descritos em várias séries da Jornada nas Estrelas.  Essa franquia nos fez lembrar dos universos simulados, consensuais ou não.  Rememoramos o universo Matrix e o filme 13º Andar (1999), inspirado no romance Simulacron-3 (1968), de Daniel F. Galouye.  Concordamos que esse é um dos raros exemplos em que o filme ficou melhor do que o romance original.[2]

Esses temas nos levaram naturalmente à temática da Inteligência Artificial na FC e os aplicativos com rudimentos de IA existentes no mundo real™, papo que nos conduziu inevitavelmente ao HAL-9000 do 2001, uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke.  Já que falávamos em Kubrick e IA, lembramos do filme Inteligência Artificial em si, inspirado num conto até meio fraquinho, quando comparado ao filme, do Brian W. Aldiss, “Superbrinquedos Duram o Verão Todo”.  Daí, lembramos das adaptações dos contos e do romance do Philip K. Dick, exceções célebres à regra comentada acima, por se revelarem invariavelmente superiores às narrativas literárias originais.

***

 

Descrevi aos amigos minha própria experiência arrepiante com aplicativos de IA.

No início deste mês, estava escrevendo um conto sobre viagens retrotemporais ambientado no fim do século XIV, “Lapsos em Aljubarrota”.  Para escrever determinada cena, precisei confirmar quais eram as condições noturnas em determinada data.  Por isso, indaguei ao Gemini do meu smartphone:

— Qual era a fase lunar na noite de 14 de agosto de 1385?

Ao que o rudimento de IA respondeu:

“Quarto Crescente.”

Daí, eu perguntei:

— Em que período dessa noite a Lua esteve visível acima do horizonte na região de Lisboa?

Ao que o programinha respondeu:

“Na região de Lisboa, na noite de 14 de agosto de 1385, a Lua esteve visível no céu desde o pôr do sol (aproximadamente 20h00) até se pôr no horizonte, pouco depois da meia-noite.”

Só que não parou nisso, mas continuou, sem que eu lhe houvesse perguntado mais coisíssima alguma:

“O Impacto na Batalha: este período de cerca de 4 a 5 horas de luar após o pôr do sol foi crucial para o desfecho da Batalha de Aljubarrota.  A luz da lua permitiu que as tropas portuguesas, lideradas por Nuno Álvares Pereira, perseguissem os castelhanos em fuga durante as primeiras horas da noite, maximizando as baixas inimigas e impedindo a reorganização do exército adversário.  Se fosse uma noite de Lua Nova (escuridão total), a perseguição teria sido muito mais difícil e perigosa.”

Ou seja, a partir das duas perguntas iniciais, o Gemini deduziu o que eu realmente almejava confirmar.  Embora não chegue a ser uma Skynet – e, não, eu não creio que as IA irão dominar o mundo e extinguir ou escravizar a humanidade – mas, fiquei um bocado impressionado.

***

 

Também comentamos o streaming de ficção científica que se tornou a sensação deste fim de ano, Pluribus, cuja primeira temporada acabou de se encerrar na Apple TV.  Como nós três já havíamos assistido aos nove episódios, não houve a menor preocupação com spoilers.  Para quem ainda não assistiu, só falo que a série deixa no ar um cheirinho que sabe ao conto clássico de Isaac Asimov, “Abutres Bondosos”, para além de flertar com questões filosóficas correlatas, mas não idênticas, às abordadas no romance recente All Better Now, citado acima.

Enfim, por volta das dezenove horas, quando a pizzaria quase vazia no meio da tarde começou a lotar e a cacofonia resultante a se elevar exponencialmente, por conta do rodízio de pizzas & massas que começara uma hora antes, resolvemos encerrar os trabalhos.

Quitamos nossas respectivas comandas.  Edu regressou para casa da mesma forma que chegara à pizzaria enquanto Paulo e eu continuamos batendo papo junto à entrada do estabelecimento até que meu Uber aparecesse.  A leitura de bordo durante a viagem de volta para casa não podia ser outra se não o All Better Now.

Resumo da ópera: apesar das dificuldades temporárias de deslocamento, apreciei bastante esse bate-papo sobre meu assunto predileto com velhos e bons amigos.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 27 de dezembro de 2025 (sábado).

 


[1].  A primeira foi para assistir à cerimônia de entrega do Prêmio Argos no Acaso Cultural e a segunda para comemorar o Natal com a família estendida na casa da minha mãe.

[2].  Como exemplo adicional, citei “A Boy and His Dog” (1969) do Harlan Ellison, que gerou o filme homônimo (1975).  Daí, lembrei que, numa releitura recente dessa novela, percebi diversas nuances e sutilezas instigantes que não havia reparado à primeira leitura e retirei o que disse.  A novela é um clássico sensacional, mas é preciso um estômago forte para lê-la e apreciá-la até o fim.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

 

Argos 2025

no Acaso Cultural

 

“É sempre bom conferir o que consta no certificado, porque acidentes acontecem...”

(GL-R, ao receber o primeiro certificado como representante de Carlos Relva).

 

“Desde os doze anos eu sonhava com esse prêmio.”

(Jean Gabriel Álamo, citado por Caio Bessa Lima).

 

“O legal do Argos é que você não tem concorrentes, tem amigos.”

(Alexey Dodsworth)

 

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Compareci neste domingo ao Acaso Cultural para assistir e participar da cerimônia de entrega do Prêmio Argos neste certame de 2025.

Por conta de uma fratura no dedo mínimo do pé direito, foi difícil me deslocar até Botafogo, mas nada que a ajuda decidida de Cláudia e o uso da bengala e de uma bota ortopédica high-tech não resolvessem.

Como a cerimônia começaria às 16h00, considerando minhas limitações temporárias de locomoção, saímos daqui de casa às 15h10, mesmo sabendo que o Acaso Cultural é relativamente perto e que as condições de trânsito do Jardim Botânico e bairros adjacentes costumam ser boas aos domingos.  Ida e volta de UBER.

***

 

Quando chegamos à sala-auditório do evento (a mesma em que as mesas da RioNeon transcorreram no mês passado), o palco, o estande de venda de livros, as cadeiras e os sistemas de áudio e vídeo já estavam montados.  Naturalmente, os membros da comissão organizadora do Prêmio Argos, Eduardo Torres e Luiz Felipe Vasques já se encontravam presentes, bem como Pedro Sasse, o gestor da Acaso Cultural.  Além desses, já estavam presentes os amigos Alexey Dodsworth; Carlos Hollanda; Flávio Mello; e o casal de confrades do Vórtice Rio, Jessica Tarine & Daniel Balard.

Pouco depois chegavam Bráulio Tavares e Octavio Aragão.  Os amigos Ricardo França e Rubens Angelo só apareceram mais tarde.

Ao longo do evento, precisei repetir algumas vezes a explicação sobre a natureza da minha contusão.[1]

Já nos primeiros minutos de auditório, antes do começo da cerimônia, autografei cerca de quinze ou vinte livros para Flávio Mello (tudo bem: confesso que perdi a conta), dentre coletâneas de ficção curta – inclusive a vetusta Vampiro de Nova Holanda (Editorial Caminho, 1998) que publiquei em Portugal no milênio passado e Taikodom: Crônicas (Devir, 2009) – antologias (Dinossauros, Vaporpunk e Dieselpunk, dentre outras) e vários e vários romances, dentre os quais A Guardiã da Memória, Aventuras do Vampiro de Palmares, Estranhos no Paraíso, Octopusgarden, Pecados Terrestres e até mesmo o recente Novas do Purgatório (Cosmos, 2025), cujo e-book concorria naquela tarde ao Argos na categoria Melhor Romance.  Deu trabalho autografar aquela pilha de livros, mas também deu um prazer enorme.  É gratificante (para não falar, emocionante) encontrar com um leitor que aparece de repente com boa parte da produção que você lançou no mercado no último quarto de século.  Da cadeira ao lado, Carlos Hollanda brincou que eu iria ficar com a mão cansada.  Repliquei que esse é o tipo de cansado que todo escritor quer sentir.😉  Meu muitíssimo obrigado, Flávio Mello!

 

Autógrafos em série para Flávio Mello.

 

Enquanto autografava, troquei ideias com Alexey e Eduardo sobre a série de ficção científica Pluribus; cenário pós-apocalíptico cum conquista alienígena (em termos audiovisuais, o mais original dos últimos tempos) que se tornou sucesso de público e de crítica, e cuja primeira temporada está prestes a se encerrar na Apple TV.  Recomendo enfaticamente a todos os amantes do gênero que se interessam não só por tiroteios e ação desenfreada, mas também por questões filosóficas relacionadas à liberdade, felicidade e livre arbítrio.  Aproveitei o ensejo para comentar sobre o romance de Neal Shusterman que estou lendo, All Better Now (Simon & Schuster, 2025), que discute basicamente essas mesmas questões com uma abordagem algo diferente, igualmente original, e cuja leitura também recomendo com o máximo empenho.  Sem grandes spoilers: não se trata de invasão alienígena, mas de um novo coronavírus cuja infecção deixa todos os sobreviventes permanentemente focados e felizes.

Poucos minutos mais tarde, Eduardo e Felipe deram início à cerimônia do Argos 2025.  O evento foi transmitido ao vivo no YouTube e pode ser assistido a qualquer hora pelo link:

https://www.youtube.com/watch?v=EMJF1JN-tP8

***

 

Após as palavras iniciais de apresentação do Pedro Sasse, como rezam as tradições milenares das cerimônias de entrega do Argos, os comissários Edu e Felipe começaram os trabalhos falando umas poucas palavras rituais sobre o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) em si e sobre o Prêmio Argos em particular.

Após esse preâmbulo cabalístico inicial, sem mais delongas, anunciaram os resultados da categoria Melhor Antologia ou Coletânea.

Em quinto lugar, ficou a coletânea de minicontos, microcontos e haicais de Carlos Relva, Cristalina como as Lágrimas (edição do autor).  Munido de minha briosa muleta de madeira de lei adquirida a preço módico na ABBR, dirigi-me à borda do palco (não ousei escalá-lo) e li as breves palavras de agradecimento do autor, meu bom amigo e confrade no clube de leitura Vórtice Rio.

Em quarto lugar, a ficou a antologia No Limiar: Contos de Sci-fi Folclórica, organizada por Lu Evans (edição da organizadora).

Em terceiro lugar, a antologia Além do Véu da Verdade, organizada por João M. Beraldo, com contos ambientados no universo Véu da Verdade, criado pelo organizador.  Outra edição bancada pelo organizador.

Em segundo lugar, a antologia 2057 (Verter), organizada por Carlos Hollanda e Rafael Senra.  Carlos compareceu para receber o certificado e fazer um breve, pero entusiasmado discurso de agradecimento.


 Carlos Hollanda: medalha de prata pela antologia 2057.

 

O vencedor do certame foi a Revista Literatura Fantástica Vol. 20, organizada e editada por Jean Gabriel Álamo, em mais uma edição do organizador.  O representante nomeado Caio Bessa Lima recebeu o certificado e o troféu em nome da Álamo Produções.  Caio fez um belo discurso e descreveu brevemente os esforços do empreendimento capitaneado pelo Jean Álamo.

 


Caio Bessa Lima, enviado especial da Álamo Produções, recebe o ARGOS.

 

Nessa categoria em que só um dos cinco finalistas não foi edição do autor ou organizador, minhas lealdades estiveram divididas entre três desses cinco.  Acabou que gostei do resultado.  Afinal, como Alexey bem disse ao receber um dos certificados em nome de nosso amigo comum Fábio Fernandes, “o legal do Argos é que você não tem concorrentes, você tem amigos”.

***

 

A segunda categoria a ter seus resultados anunciados foi “Melhor Conto”, por vezes referida nesta e noutras premiações como “Melhor Ficção Curta”, uma vez que inclui contos e noveletas.

O quinto lugar foi do conto “Mensagem Instantânea” do Fábio Fernandes, publicado na antologia Além do Véu da Verdade, do João Beraldo.[2]

Em quarto lugar ficou o conto “Alexandra, a Grande”, de Carlos Relva, publicado na Cristalina como as Lágrimas.  Mais uma vez, li as palavras de agradecimento do amigo e confrade.

Em terceiro lugar, “Um Vínculo Inquebrável”, de Renan Bernardo, na antologia Além do Véu da Verdade.  A autora Lis Vilas Boas recebeu o certificado em nome do autor.

Em segundo lugar, outro conto publicado em Além do Véu da Verdade.  Dessa vez, “Pulsão de Morte”, de Alexey Dodsworth, que regressou ao palco para receber seu certificado.  Em seu discurso, Alexey agradeceu ao João Beraldo pelo convite para participar da antologia.

O vencedor na categoria Melhor Conto foi “Pista Norte”, de Ursulla Mackenzie, publicado na antologia Cidades Inversas (edição da organizadora), organizada por Lu Evans.  A vencedora encarregou o próprio Comissário Eduardo Torres para receber o certificado e o troféu.

Classificado em terceiro lugar da categoria anterior, a antologia Além do Véu da Verdade conseguiu emplacar três finalistas na Melhor Conto: segundo, terceiro e quinto lugares, respectivamente.  Posso estar enganado, mas creio que uma goleada desse gênero não ocorria desde o arquirremoto Argos 2003, ocasião em que, nessa mesma categoria, três contos da antologia Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002), abiscoitaram os três primeiros lugares.

***

 

Enfim, chegamos à categoria Melhor Romance.

O quinto colocado foi O Torneio de Sombras: As Aventuras de January Purcell vol. 1 (AVEC), de Fábio Fernandes.  Mais uma vez, Alexey recebeu o certificado em nome do nosso amigo Fábio.

A versão e-book do meu romance de ficção científica teológica Novas do Purgatório (edição do autor) ficou na quarta colocação.  Não me senti muito decepcionado, porque não alimentei grandes esperanças de vencer.  Não só por ser um e-book autopublicado competindo contra livros físicos lançados por editoras de renome, mas, sobretudo, por filosofia de vida: o pessimista não se decepciona, suas surpresas são sempre alegrias.  Em meu discurso de agradecimento, revelei estar emocionado por estar recebendo um certificado de finalista pela primeira vez com uma edição do autor.


 GL-R recebe o certificado por Novas do Purgatório.

 

O terceiro lugar foi para o romance Sentinela (Malê), de Juliane Vicente, que já havia sido finalista nos certames de 2021 e 2023, nas categorias Melhor Antologia e Melhor Conto, respectivamente.

Em segundo lugar, o romance Kerigma: A Conclusão de Pantokrátor (AVEC) de Ricardo Labuto Gondim.  Presente ao evento, Gondim recebeu seu certificado e agradeceu ao publisher da AVEC, Arthur Vecchi, por ter não só publicado o Kerigma, mas também republicado o romance Pantokrátor original.


Ricardo Gondim recebe o certificado por Kerigma: a Conclusão de Pantokrátor.

 

O grande vencedor na categoria Melhor Romance foi Garras (Rocco), de Lis Vilas Boas, a história de um casamento arranjado entre uma bruxa e um lobisomem.  Em seu discurso de agradecimento, Lis se confessou surpresa, pois não acreditou que venceria com seu romance de estreia.


Lis Vilas Boas vence com Garras.

***

Finda a cerimônia de entrega do Argos 2025, aproveitei o ensejo para conversar com alguns amigos que ainda não havia falado como Ricardo França e Rubens Angelo, para comprar meu exemplar de Garras e pegar meu autógrafo com Lis Vilas Boas.



Autógrafo de Garras com Lis Vilas Boas.

 

Cláudia sugeriu tirar fotos minhas com Rubens Angelo, que também se encontrava contundido.  O caso dele foi bem mais heroico do que o meu.  Minha mulher amada comentou que a nave estelar que nós dois tripulávamos realizou uma aterragem forçada.  Enfim...



Rubens Angelo e GL-R nas Quebradas da FCB...



Galera do Vórtice Rio: Ricardo, Felipe, GL-R, Jessica & Daniel.

 

Rubens me apresentou à jovem autora Maira M. Moura.  Foi um prazer conhecê-la.  Pois, poucas semanas atrás li o conto dela, “As torres de cápsulas Mirai”, um dos incluídos na antologia comemorativa Voltas ao Redor do Sol – 40 Anos (CLFC, 2025), organizada pelo próprio Rubens, que me convidou para prefaciar o livro.  Maira nos brinda com uma narrativa de viagem no tempo enxuta e minimalista, mas também intrigante e original, preparada com pitadas generosas do subgênero New Weird.  Foi um dos três contos de que mais gostei na antologia.  Aliás, nessa antologia emplaquei um conto ambientado na linha histórica alternativa Três Brasis, “Para um Brasil Melhor”, onde mostro o que aconteceu ao filho-da-noite Dentes Compridos após o clímax da novela “Azul Cobalto e o Enigma”.

Eu e Cláudia ainda conversamos por cerca de meia hora com alguns amigos, mas, em virtude da minha condição física, declinamos do convite para esticar o evento num barzinho próximo e pedimos nosso UBER para casa.

Enfim, tudo correu bem nesta primeira saída da toca após meu acidente doméstico.  O pé contundido me incomodou menos do que eu esperava.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 2025 (domingo).

 


Participantes:

Alexey Dodsworth.

Bráulio Tavares.

Caio Bessa Lima.

Carlos Hollanda.

Cláudia Quevedo Lodi.

Daniel Balard.

Eduardo Torres (Comissão do Argos).

Flávio Mello.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Jessica Tarine.

Lis Vilas Boas.

Luiz Felipe Vasques (Comissão do Argos).

Maira M. Moura.

Octavio Aragão.

Pedro Sasse (organizador).

Ricardo França.

Ricardo Labuto Gondim.

Rubens Angelo.



[1].  Aos interessados em acidentes domésticos prosaicos e questões médicas deles advindas: na noite de domingo, dia 07 de dezembro, cismei de subir num banquinho em nosso quarto para resetar o sistema de TV a cabo do aposento.  Apesar de tudo o que ensinamos aos filhos sobre o assunto, não considerei os riscos óbvios envolvidos.  Afinal, eu quase conseguia alcançar a tomada do dispositivo sem o banco e só precisaria de três ou quatro segundos em cima dele para desligar e tornar a ligar a caixinha da NET.  Ocorre que o banco traiçoeiro só precisou de um décimo de segundo para cambalhotar sob meus pés.  Meros milissegundos mais tarde, quando dei por mim, já estava estatelado no chão com uma dor de ver estrelinhas piscando latejando na lateral do pé direito.  Enfim, precisarei pagar por minha burrice como algumas semanas de imobilidade, de castigo em casa.  Pensando bem, podia ter sido pior.

[2].  Tive um conto publicado nessa mesma coletânea, “Mergulho em Pitfall”.  Infelizmente, não foi eleito como finalista.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

 

              RioNeon em Botafogo 2025

 

“O fandom não conhece o fandom.”

(Luiz Felipe Vasques)

 

202511170530P2 – 23.873 D.V.

 

Agradecimento: esta é a centésima crônica da ficção científica brasileira que publico no blogue.  Aqueles que me acompanharam ao longo desse percurso tortuoso, meu muito obrigado!

 

Na manhã da quarta-feira passada, o amigo Luiz Felipe Vasques mandou o link seguinte pelo WhatsApp: https://www.acasocultural.com/rioneon

Enfim, descobrimos um encontro, quase uma convenção, dedicada às narrativas fantásticas em pleno Rio de Janeiro.  Para quem tanto se deslocou para Sampa, Porto Alegre e até Lisboa e Gainesville atrás de convenções de ficção científica e gêneros afins, parecia o sonho dourado: comparecer a um encontro de FC&F chegando até lá num simples busão e, melhor ainda, com a gratuidade recém-adquirida do Jaé?  Parecia aquele sonho em que você sente medo de acordar.  Curioso para conferir o que rolaria nessa miniconvenção, planejei a ida até a casa nº 16 da Vicente de Sousa no início da tarde de domingo.  Os amigos Felipe, Eduardo Torres e Octavio Aragão também confirmaram presença e já sabíamos que encontraríamos nossa amiga comum Ana Lucia Merege no evento, pois ela faria parte de uma mesa.

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Por conta da minha rotina pessoal, sabia que não conseguiria chegar àquela ruazinha tranquila de Botafogo para assistir à abertura dos trabalhos às 11h00.  Daí, preparei-me para estar lá uns minutos antes da mesa das 14h30.

Como domingo há menos ônibus nas ruas, saí de casa um pouco mais cedo e, de fato, não havia ônibus algum na Jardim Botânico.  Temendo me atrasar, acabei pegando o primeiro coletivo que passou após dez incríveis minutos de espera no ponto, mesmo que fosse um intermunicipal para Niterói.  O ruim é que intermunicipais não aceitam o Jaé.  Felizmente, descobri um Riocard antigo na carteira.  Viagem rápida e tranquila.  Leitura de bordo: o clássico de horror semidesconhecido Damon (G.P. Putnam’s Sons, 1975), do Terry Cline, Jr.[1]

Saltei na São Clemente e, após cinco minutos de caminhada, cheguei ao número 16 da ruazinha, uma casa antiga reformada para receber o restaurante Nonô na frente (especializado em parrilla e gastronomia contemporânea, segundo o Edu, tem uma carta de vinhos de responsa) e o centro de eventos Acaso Cultural aos fundos.

 

Restaurante Nonô e Acaso Cultural.

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A primeira pessoa que encontrei na miniconvenção foi a autora Jana Bianchi, que eu já conhecia dos nossos tempos de Casa Fantástica nas FLIP 2018 e 2019.  Jana me apresentou seu companheiro, o autor Diogo Ramos, e comentou que conhecia minha prima Fabiana Poppius no projeto Fantástico Guia (que Jana coordena).  Em seu aniversário, mais ou menos um ano atrás, Fabiana me havia falado a respeito.[2]

 

Renan Bernardo, Jana Bianchi, Diogo Ramos e GL-R.

 

Em seguida, encontrei Octavio Aragão e aproveitei o ensejo para adquirir um exemplar autografado de sua coletânea de ficção curta, Alguém em Guernica olha para mim (Avec, 2025), onde ele reuniu os contos até então dispersos, publicados desde o início da sua carreira.  Para quem não sabe, o autógrafo do Octavio é uma obra de arte por si só: ele não “escreve” o autógrafo, mas o desenha caprichosamente.

Eduardo Torres, Luiz Felipe Vasques e Fred Furtado apareceram pouco depois.  Ana Merege chegou no comecinho da primeira mesa que assisti.  Avistei outras pessoas que já conhecia, porém, infelizmente, não houve oportunidade de cumprimentá-las e muito menos conversar com elas, tais como Carlos Felipe Figueiras e Clara Monnerat.  Já o Eric Hart e o Renan Bernardo, eu consegui cumprimentar, mas não deu tempo de conversar.  É pena, mas, outros encontros virão.

 

Octavio Aragão autografando.

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Às 14h30 começou a mesa “Um Brasil a ser exportado: a ficção especulativa brasileira em publicações anglófonas”, com a participação do ilustrador e autor Claudio Pozas; e dos autores Diogo Ramos; Jana Bianchi; e Renan Bernardo, sob a mediação do também autor, para além de organizador do evento, Pedro Sasse.

Estimulados pelo mediador, os autores falaram de suas experiências em publicar no mercado internacional.  Começou por Claudio, que falou do seu trabalho de um quarto de século no mercado estadunidense, produzindo material para os RPG Dungeons & Dragons; Magic: The Gathering e outros.  Em seguida, os três autores mais jovens contaram à plateia de suas agruras, peripécias e alegrias em publicar ficção curta em revistas conceituadas do mercado editorial anglo-saxão, tais como Clarkesworld e Imagine 2200.

Da Jana eu já li muita coisa, pois ela publicou bastante material em português e eu já a conheço desde 2018.  Do Renan, só li os trabalhos da sua coletânea solarpunk Different Kinds of Defiance (Android Press, 2024)[3] e o conto “Um Vínculo Inquebrável”, publicado na antologia Além do Véu da Verdade, organizada pelo amigo João M. Beraldo.  Ainda não li trabalhos do Diogo; mas essa é uma lacuna que devo preencher cedo ou tarde.

 

Diogo Ramos, Jana Bianchi, Pedro Sasse, Renan Bernardo e Claudio Pozas.

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Entre o fim da mesa sobre publicações brasileiras em revistas anglófonas por volta das 15h30 e o começo da seguinte, Ana, Eduardo, Felipe, Octavio e eu batemos um papo delicioso sobre publicações no Brasil e lá fora, sobre editoras e autores, para além de ficção especulativa de maneira geral.  Afinal de contas, como todos sabem ou deveriam saber, o melhor dessas convenções, seminários e encontros sobre ficção especulativa é justamente os bate-papos paralelos que rolam durante os intervalos.  Nesse intervalo, Ana nos apresentou a um casalzinho para lá de simpático que representa a sucursal carioca da Tolkien Society.  Infelizmente, não registrei o nome dela, mas Octavio lembrou que é Isa.  Já o nome dele é impossível de esquecer: Erick, um quase homônimo do meu filho Erich.

Como membro da comissão organizadora do Prêmio Argos, Eduardo Torres trocou ideias com o organizador da RioNeon, Pedro Sasse, e conseguiu apalavrar a cerimônia de entrega do Argos 2025 na Acaso Cultural para a segunda quinzena de dezembro.  Grande iniciativa, pois o espaço é bem adequado ao tipo de evento que o CLFC tem organizado nos últimos certames da premiação.

Às 16h30 começou a mesa “Desafios do fantástico nos trópicos”, com a participação dos autores Ana Lucia Merege; Bernardo Stamato; Diogo Andrade; e Pedro Sasse, sob a batuta do mediador Bruno Leandro.  Os autores falaram da ambientação de narrativas fantásticas (com ênfase fortíssima em fantasia, algumas pinceladas no horror e nem cheiro de ficção científica) em cenários brasileiros em geral e cariocas e/ou fluminenses em particular.  Gostei mais dessa segunda mesa do que da primeira.

 

Bernardo Stamato, Ana Lucia Merege, Bruno Leandro, Diogo Andrade e Pedro Sasse.

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Ao fim dessa segunda mesa, após meia hora de bate-papo final, Ana, Edu, Felipe e eu nos despedimos dos demais.  Ao contrário dos demais, Octavio permaneceu lá firme e forte.  Ana pediu um Uber para Niterói.  Depois que ela embarcou, caminhamos até a São Clemente, onde Felipe tomou o metrô, Edu foi a pé para casa e eu peguei um ônibus, aí sim, gratuidade com o Jaé.  Leitura de bordo: mais um capítulo do Damon.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2025 (segunda-feira).


Participantes:

Ana Lucia Merege.

Bernardo Stamato.

Bruno Leandro.

Carlos Felipe Figueiras.

Clara Monnerat.

Claudio Pozas.

Diogo Andrade.

Diogo Ramos.

Eduardo Torres.

Eric David Hart.

Fred Furtado.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Jana Bianchi.

Luiz Felipe Vasques.

Octavio Aragão.

Pedro Sasse (organizador).

Renan Bernardo.



[1].  Quando era garoto, tentei ler esse romance numa edição brasileira da Record, publicada por aqui sob o título enganoso (?) de Demon, mas não consegui terminar a leitura.  Não que o livro fosse ruim.  O caso é que o tipo de horror descrito me impressionou muitíssimo e olha que aos catorze anos eu não me impressionava com qualquer coisinha, não.  Enfim, lembrei-me desse romance arrepiante umas semanas atrás e tentei comprá-lo num sebo.  O problema foi que a edição da Record de 1975 está sendo vendida por uma exorbitância nas estantes virtuais da vida.  Daí, a solução foi comprar o livro num sebo estadunidense; transação intermediada pela Amazon.  O livro em saiu por míseros três dólares e o frete também não foi caro.

[2].  Embora nunca tenha criado uma personagem feminina baseada diretamente na Fabiana, em minha noveleta de história alternativa “O Preço da Sanidade”, escrita e publicada no Somnium 60 em 1993 e republicada na Amazon KDP em 2024, o protagonista Geraldo Lopes Ramos, em meio a suas agruras, refere-se insistentemente à sua prima bióloga Fabiana que vivia no bunker universitário da Unicamp.  Quando escrevi a noveleta, minha prima já se graduara em Biologia.

[3].  Um dos que mais gostei, “Presságio de solidão”, já havia lido em português na antologia Como Aprendi a Amar o Futuro (Plutão, 2023), organizada por Francesco Verso e Fábio Fernandes.