segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dinossauros na Bienal 2016

Lançamento da Dinossauros na Bienal do Livro 2016

201609032359P7 — 20.512 D.V.

“— Se essa moda pega, como vou fazer com meu universo Reinos Eternos? — Beraldo, preocupado.
Ainda bem que publiquei o Guardiã da Memória quatro anos atrás. — GL-R, aliviado. — Eu não ia ficar bem de Clara e, quanto a um centauro... bem, é melhor nem pensar nessas coisas.”
(conversa sobre a perspectiva de que todos os autores da Draco tenham que montar cosplays sobre seus respectivos romances)


Compareci hoje no estande da Draco na Bienal do Livro 2016, em São Paulo, numa espécie de passagem-relâmpago para o lançamento da antologia Dinossauros, que organizei para a editora em meados de 2014 para publicação no segundo semestre deste ano.
Acordei quase duas horas antes do amanhecer para me preparar com calma para a viagem bate e volta à capital paulista.  No início da manhã desse dia ensolarado de inverno carioca, chamei um Uber e cheguei ao aeroporto Santos Dumont sem incidentes.  Como já havia feito o check-in, imprimido o bilhete de embarque de véspera e não precisava despachar bagagem, passei direto para a área de embarque.  Com tempo de sobra, sentei perto do portão correto e aproveitei para responder mensagens no celular e ler alguns capítulos do romance O Cair da Noite (Record, 1990), de Robert Silverberg, baseado na noveleta clássica homônima de Isaac Asimov.  Leitura inspirada pela análise do romance Esplendor (Draco, 2016) na sessão do Vórtice Fantástico no sábado passado.  Aliás, o romance de Silverberg me acompanharia nos táxis, salas de espera e aeronaves ao longo do dia.
O voo da Gol G-1007 decolou no horário e chegou a São Paulo às 09h00, quinze minutos antes do previsto.  No aeroporto de Congonhas, caminhei até o guichê de táxis comuns e, com o excesso de autoconfiança proverbial que me é peculiar e que ainda será a minha ruína, limitei-me a afirmar para a atendente que precisava de um táxi para me levar à Bienal.  Dito e feito.
Vinte minutos mais tarde, desembarcava do táxi no Parque Ibirapuera lépido e fagueiro, confiante de que me encontrava no lugar certo, pois, afinal, várias placas, faixas e setas esclareciam que ali se desenrolava a Bienal.  Credencial a mão, rumei para a entrada e fui gentilmente desiludido pela equipe de recepção: ali se dava a Bienal das Artes...  A Bienal do Livro se abriga no Parque Anhembi, muitos quilômetros dali.  Felizmente, os seguranças do local se apiedaram de minha ignorância carioca e solicitaram novo táxi para mim.  Outros trinta minutos de viagem e, agora sim, chegava à Bienal correta.

Capa da antologia Dinossauros.


*     *      *

Apesar dos percalços, cheguei ao Anhembi às 10h00, hora em que o penúltimo dia da Bienal do Livro 2016 abria suas portas ao público.  A fila de visitantes estava colossal.  Porém, com minha credencial de autor em punho, dirigi-me orgulhosamente a uma segunda fila, apenas marginalmente enorme.  Ali, fui barrado por um segurança, que afirmou que minha credencial era de visitante e não de autor.  Constatei que essa afirmação estava de fato correta.  Embora houvesse me cadastrado como autor na antevéspera, na versão impressa da credencial constata claramente visitante.  Imbuído de paciência infinita, expliquei àquele primeiro segurança que, não obstante a informação da credencial, eu era um autor e, inclusive, iria lançar um livro hoje e que era capaz de provar.  Atrapalhado com meu problema e, sobretudo, com o fato de eu estar entupindo a fila de acesso de credenciados, o segurança empurrou o problema para a instância superior, orientando-me a prosseguir até a central de segurança do evento.  Nessa central, expliquei o problema com clareza e serenidade, e fui autorizado a ingressar no pavilhão que abriga a Bienal do Livro sem nem ao menos precisar apresentar livro(s) de minha autoria.[1]  Na catraca da entrada, o funcionário olhou para minha credencial com cara feia e tentou me barrar, mas alguém da central de segurança gesticulou para ele, autorizando-o a facultar meu acesso.
Àquela hora, 10h20, as aleias e corredores da Bienal ainda estavam relativamente transitáveis, de forma que não houve maiores dificuldades em descobrir o estande da Draco, no número 070 da Rua “N”.  Ao contrário do que se deu no ano passado no Riocentro, lá em Sampa a Bienal se instalou num único pavilhão, maior do que qualquer um dos três que abrigaram a Bienal do Livro 2015 no Rio de Janeiro, mas menor em espaço total.  Não sei o que os paulistanos têm a dizer, mas, da minha opinião de turista, julguei o acesso ao Parque Anhembi hoje bem mais fácil e civilizado do que as touradas para alcançar o Riocentro durante a Bienal do Rio no ano passado, em pleno canteiro de obras das Olimpíadas.
Desta vez, a Draco está num estande maior, com mais do que o dobro da área do estande do ano passado.  Em compensação, dividiu o espaço com a editora Jambô, especializada em livros RPG com temáticas fantásticas.  Tanto Erick “Sama” Cardoso, proprietário da Draco, quanto Paloma Ceresani da Jambô pareceram bem à vontade com o acordo, talvez porque o conjunto-interseção dos públicos-alvo das duas editoras seja relativamente robusto.  Em diversas ocasiões vi leitores selecionando livros do lado direito do estande (Jambô) e do lado esquerdo (Draco), para então se dirigirem indiscriminadamente para uma das duas caixas de pagamento, onde eram orientados a quitar os produtos de cada editora em sua respectiva caixa.
Ao chegar à Draco, encontrei o publisher Erick Sama, sua mãe Isilda Moraes, que eu já havia conhecido na Bienal do Rio, e a autora e amiga carioca Ana Lúcia Merege.  Minha primeira providência após cumprimentá-los foi pôr minhas mãos ávidas num exemplar da antologia Dinossauros, que ainda não havia visto.  Orgulhoso pela beleza dessa cria caçula e a qualidade do acabamento (a Draco se superou mais uma vez!), fiz uma coisa que não é do feitio deste velho dinossauro: postei uma foto de sua bela capa no Facebook.  Mais de cento e cinquenta curtidas em poucas horas.

GL-R e antologia Dinossauros.

Autografando a Dinossauros.


Sinto que a Draco está crescendo e evoluindo, em vários sentidos.  É a segunda Bienal do Livro seguida de que participa.  Isto, para não falar nos eventos menores, nos quais também é presença assídua.  A perseverança e abnegação do proprietário começam a render frutos suculentos.  Quem sabe não estamos vivendo o início do apogeu de uma era do Dragão?
Pouco mais tarde, chegava o casal Eduardo Massami Kasse e Estela Burdin.  Aproveitei a oportunidade para conversar bastante com o Edu a respeito de nossas ideias para escrever romances históricos com e sem elementos fantásticos.  Falei de minha ideia, ainda embrionária, de escrever um romance histórico sobre a Guerra do Paraguai mais ou menos ao estilo de Michael Shaara em The Killer Angels (Ballantine, 1974).  Edu me incentivou bastante a prosseguir com o projeto, que só deverá decolar por volta de 2018 ou 2019.

Isilda Moraes, Eduardo Kasse e Raphael Fernandes.

GL-R e Erick Sama.


Paulo Elache, amigo da velha guarda do CLFC e da Intempol, brindou-me com sua presença no estande da Draco e adquiriu seu exemplar autografado da Dinossauros e a nova coletânea de Carlos Orsi Martinho, Mistérios do Mal (Draco, 2016), que colige os melhores trabalhos de horror que o autor produziu na década de 1990.  Conversamos muito sobre os velhos tempos heroicos da FCB, as convenções, os bate-papos divertidos à mesa de barzinhos e trocamos novidades sobre vários amigos comuns da comunidade.  Elache trouxe consigo o amigo Paulo Teixeira, com quem conversamos sob podcasts que falam de literatura fantástica em geral e do PodEspecular e do Leitor Cabuloso em particular.  Teixeira adquiriu um exemplar autografado de Estranhos no Paraíso.

Paulo Elache e GL-R.


Outro amigo velha-guarda que compareceu ao estande da Draco para adquirir sua Dinossauros foi Sergio Lins da Costa, um dos sócios fundadores do CLFC.  Não via o Serginho desde uma das últimas Fantasticons, coisa de quatro ou cinco anos atrás.  Desta vez, meu amigo compareceu escoltado por sua filha e pela netinha.  Confessei às meninas que já conhecia seu pai e avô antes do nascimento da mais velha, provocando certa surpresa e uma pitada de confusão momentânea.
Dentre os autores participantes da antologia Dinossauros, Rodrigo van Kampen foi o primeiro a comparecer no estande da Draco.  Mais tarde, ao longo do dia, apareceram João Beraldo; Bruno Anselmi; Flávio Medeiros e Sid Castro.[2]  Consegui coligir autógrafos dos cinco autores presentes ao evento em meu próprio exemplar da antologia.
Além de adquirir as edições impressas dos dois livros de referência do Antonio Luiz Costa — Títulos de Nobreza e Hierarquias (Draco, 2014) e o recém-lançado Armas Brancas — e da nova coletânea do Carlos Orsi Martinho, aproveitei meu desconto de autor para comprar também o novo romance de João Marcelo Beraldo, Último Refúgio (Draco, 2016), ambientado no mesmo universo ficcional de seu romance anterior, Império de Diamante (Draco, 2015), a narrativa se passa em Myambe, o continente original da humanidade, sendo calcada nos mitos, na história e no folclore das culturas africanas.  Gostei muito desse trabalho anterior e o considero esse texto original e bem escrito um forte candidato ao Argos deste ano na categoria Melhor Romance.

GL-R e João M. Beraldo.

Edu Kasse, Flávio Medeiros, Hugo Vera, GL-R e João Beraldo.

Hugo Vera, GL-R e Carlos Orsi.

GL-R, Sid Castro, Carlos Orsi, Hugo Vera, Marcelo Galvão e Flávio Medeiros.


O casal Bruno Anselmi e Carol Chiovatto também apareceu no estande da Draco, recém-chegados da pós-graduação dele no exterior, após uma ausência de um ano em Portugal e na França.  Bruno contou que a experiência foi muito proveitosa.  Também revi Cláudia Dugin, para quem autografei o prefácio da antologia Space-Opera 2, e conheci pessoalmente Vanessa Straioto, com quem já conversava via Facebook há tempos, e para quem tive o prazer de autografar um exemplar de meu romance de história alternativa Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).
Outra presença marcante nesta tarde de Bienal foi a de Flávio Medeiros, vindo direto de Belo Horizonte e que chegou após enfrentar cerca de noventa minutos de filas(!) até alcançar o estande da Draco.  Flávio me falou de um filme impressionante que assistiu há pouco tempo no Netflix, Ele Está de Volta (2015), narrativa fantástica em que Adolf Hitler reaparece sem maiores explicações em plena Berlim de hoje em dia e conquista rapidamente a atenção da mídia alemã e global, numa comédia crítica que levanta questões relevantes sobre a Alemanha e a Europa Ocidental contemporâneas.  Preciso assistir.
Flávio também nos descreveu, com riqueza de detalhes gustativos e salivares, sua recente viagem enogastronômica ao Uruguai, onde caiu de boca nos deliciosos churrascos dos restaurantes de Montevidéu e degustou tintos saborosos elaborados com a casta Tannat. 

Camisa de Flávio Medeiros faz sucesso.


Quem também apareceu no estande da Draco com sua indefectível camisa da antologia Space-Opera foi o antologista e autor Hugo Vera, com quem conversei bastante, matando as saudades, pois há muito tempo não o via.  Pouco mais tarde, chegava o casal Carlos Orsi & Renata Martinho, no instante exato em que Flávio Medeiros perguntava por eles e eu lhe respondia que eles haviam confirmado presença.  Aproveitei a oportunidade para pedir autógrafo em sua nova coletânea de contos de horror.
Beraldo e vários outros amigos comentaram que no sábado anterior, a Bienal do Livro não estava tão lotada quanto hoje.  Marcelo Galvão, Hugo Vera e diversos outros amigos me indagaram sobre como foi a experiência de viver durante quase um mês numa Cidade Olímpica.  Expliquei-lhes que a experiência foi válida, — pelo menos, da perspectiva de Conan o Bárbaro — porque, afinal, nós sobrevivemos.  Falei dos problemas de trânsito, locomoção e dos negócios e assuntos da cidade parados ao longo desse período.  Pelo lado positivo, destaquei que ninguém contraiu o vírus da zika, que os problemas de violência urbana foram em menor número e menos graves do que o normal (embora a imprensa lhes desse destaque maior) e que, ao fim e ao cabo, eles devolveram nossa cidade amada praticamente incólume.
Reencontrei Randolfo Medeiros, que me relatou novidades picantes sobre as aventuras de Mr. President Clinton nas plagas de Juiz de Fora.  Infelizmente, as mesmas são impróprias para menores de quarenta anos, além de passíveis de processos por injúria, calúnia e difamação, de forma que — excepcionalmente — não serão transcritas aqui.J
Também reencontrei as jovens autoras de fantasia da Draco, Melissa de Sá, Karen Álvares e Vivianne Fair.  Esta última, acompanhada pelo marido, fez um cosplay inspirado nos personagens de seus livros, desempenho que causou sensação, atraindo grande quantidade de público para o nosso estande.  Eu e Beraldo brincamos com os demais autores da casa, inventando que, de agora em diante, Erick exigirá que todos façamos cosplays de nossas narrativas ficcionais.  Beraldo emulou preocupação ante a possibilidade de encarnar os personagens de seu U.F. Império de Diamante.  Já eu suspirei aliviado ao me lembrar que já havia publicado meu Guardiã da Memória cinco anos atrás: escapei da ação lasciva dos tentáculos...

Cosplayers do U.F. de Vivianne Fair.


Alguns autores da ala de livros da Draco, enciumados com as atenções que a editora concede à ala de HQ, exigiu que o Imperador Ming Sama determinasse um julgamento por combate, no velho estilo de Game of Thrones, para dirimir a disputa.  Raphael Fernandes foi prontamente escalado como campeão da facção dos HQ, ao passo que eu fui indicado como cavaleiro da triste figura da causa dos livros.  Ainda tentei convencer meus amigos de que eu não constituía uma boa escolha, em virtude de minha idade provecta dinossáurica, cansaço momentâneo, covardia crônica e outros que tais, mas meu grande e fiel amigo Carlos Orsi Martinho acorreu ao meu socorro ou, pelo menos, em defesa de minha causa, lembrando aos membros de nossa facção que eu era o único presente que possuía experiência militar.  Felizmente, para minha saúde, o assunto não foi adiante.
Falando sério, ao longo de toda a tarde, Ana Merege, Edu Kasse, Estela Burdin, Dana Guedes e Raphael Fernandes trabalharam incansavelmente para atender todas as demandas do estande com a eficiência draconiana que já se tornou legendária.  Empenho profissional.
Quase na hora da minha partida, o autor Tiago Toy compareceu ao estande da Draco e Erick o apresentou aos demais, mas não houve oportunidade de conversar com ele.  Outra amiga com quem não tive tempo de conversar foi Dana Guedes.
*     *      *

Por volta das 17h00, despedi-me dos amigos e caminhei para a saída da Bienal.  Nesse instante, o pavilhão estava lotadíssimo, de forma que foi necessário exercer a nobre e sutil arte milenar das fintas, dribles, negaceios e desvios abruptos a fim de cortar caminho através da turba sem esbarrar em (quase) ninguém.
Uma vez fora do pavilhão (ufa!), resfolegante, consegui pegar um táxi em menos de dez minutos na fila.  Quarenta minutos mais tarde e sessenta reais mais pobre, saltava no aeroporto de Congonhas.  Bem que os amigos paulistanos comentam que as corridas em Sampa são as mais caras do Brasil.  Passei logo para a área de embarque e sentei junto ao meu portão para desfrutar de um período de leitura tranquila, enquanto a equipe de terra da Gol não convocava o embarque do meu voo.  Durante essa permanência, constatei ter esquecido meu casaco de estimação do Jardim Botânico no estande da Draco.  Entrei em contato com o Erick e o Edu Kasse por WhatsApp.  Felizmente, ele foi encontrado.  Ana Merege o trará para o Rio quando vier para cá amanhã.
O voo G-1054 transcorreu de forma tranquila com a duração irrisória de 36 minutos.  Tanto na ida quanto na volta, a Gol serviu um sanduíche nessa viagem curta.  Tanto na ida quanto na volta, usamos um ônibus para ter acesso as aeronaves no Santos Dumont e um finger para fazê-lo em Congonhas.
Desembarcando no Rio, ainda aferrado à leitura de O Cair da Noite, peguei um táxi no aeroporto e, vinte minutos mais tarde, chegava em casa.  Bate e volta é isto aí!
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 03 de setembro de 2016 (sábado).


Participantes:
Ana Lúcia Merege
Bruno Anselmi Matagrano
Carlos Orsi Martinho
Carol Chiovatto
Cláudia Dugin
Dana Guedes
Eduardo Massami Kasse
Erick Cardoso
Estela Burdin
Flávio Medeiros
Gerson Lodi-Ribeiro
Hugo Vera
João Marcelo Beraldo
Isilda Moraes
Karen Álvares
Marcelo Galvão
Melissa de Sá
Paloma Ceresani
Paulo Elache
Paulo Teixeira
Randolfo Medeiros
Raphael Fernandes
Renata Martinho
Rodrigo Fernandes
Rodrigo van Kampen
Sergio Lins da Costa
Sid Castro
Tiago Toy
Vanessa Straioto
Vivianne Fair




[1].  Como paranoia pouca é bobagem, apenas por medida de segurança, levei um exemplar de meu romance Estranhos no Paraíso (Draco, 2015) na mochila.
[2].  A Dinossauros abre com meu ensaio introdutório “Dinossauros e Outros Bichos Mais...”, que é uma versão atualizada do texto que escrevi para introdução de uma outra antologia sauriana, a Dinossauria Tropicália (GRD, 1994), organizada por Roberto de Sousa Causo.
Segue abaixo a ordem de batalha dos contos e noveletas da Dinossauros:
“Garota-Dinossaura e os Especistas” (Gerson Lodi-Ribeiro);
“Bandeirantes & Dinossauros” (Sid Castro);
“Atavismo – Um Estudo” (Bruno Anselmi Matagrano);
“Civilizado” (João M. Beraldo);
“Garra e Dente” (Nuno Almeida);
“O Domo, o Roubo e o Guia” (Roberta Splinder);
“Os Filhos que Te Dei, Oxalaia” (Cirilo Lemos);
“Homossauros” (João Raphael Ramos dos Santos);
“Pampa” (Priscila Barone);
“Pérola Intocável” (Félix Alba);
“Pobre Al” (Rodrigo van Kampen);
“O Relatório Veio do Espaço” (A.Z. Cordenonsi);
“Senhora Müller Vai de Ônibus” (Simone Saueressig);
“Uma Família Feliz” (Flávio Medeiros);
“Ainda Além de Taprobana” (Antonio Luiz M.C. Costa); e
“Emissários de Nêmesis” (Gerson Lodi-Ribeiro).
Minha noveleta que abre a antologia é uma prequel da novela “Emissários de Nêmesis”, que fecha a antologia, assim como fechou a Dinossauria Tropicália, e que é republicada no Brasil após 22 anos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

ESPLENDOR no Vórtice Fantástico

Esplendor no Vórtice Fantástico

201608272359P7 — 20.505 D.V.

“Se as estrelas aparecessem apenas por uma noite a cada mil anos, como os homens haveriam de crer e adorar, e preservar por muitas gerações a lembrança da cidade de Deus!”
(Ralph Waldo Emerson, trecho do poema que teria inspirado John Campbell a sugerir que Asimov escrevesse “Nightfall”.)[1]

Neste último sábado de agosto, o segmento carioca do Vórtice Fantástico se debruçou sobre os trabalhos previamente selecionados de dois autores brasileiros para leitura crítica: a coletânea de horror O Vilarejo (Objetiva, 2015) de Raphael Montes e o romance de ficção científica Esplendor (Draco, 2016) de Alexey Dodsworth.
À semelhança do que ocorreu nesta mesma época no ano passado, quando fui convidado para comparecer ao Vórtice Fantástico, por conta da escolha de meu romance de história alternativa Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014) no mês do autor brasileiro, aproveitando a janela de oportunidade da presença de Alexey no Brasil — pois ele está atualmente cursando doutorado em Veneza — entramos em contato com ele para convidá-lo para o mês do autor brasileiro 2016.
Inicialmente pensamos em escolher seu trabalho de estreia, Dezoito de Escorpião (Novo Século, 2014), vencedor do Argos 2015 na categoria melhor romance, mas, à época da seleção de trabalhos, os participantes do Vórtice esbarraram com dificuldades em adquirir o exemplar pela edição da Nova Século.  Daí, escolhemos o Esplendor, ambientado no mesmo universo ficcional e que, mais do que uma continuação do anterior, funciona como uma espécie de romance geminado daquele, uma vez que os dois trabalhos compartilham personagens e, em alguns casos, cenas, focadas sob ângulos distintos nos dois romances.
Renata Aquino moderou a análise informal de O Vilarejo e eu fiz o mesmo em relação ao Esplendor.
*     *      *

A inspiração de primeira ordem do Esplendor é a noveleta clássica de Isaac Asimov, “O Cair da Noite” (1941), onde o autor descreve as últimas horas de uma civilização de alienígenas, supostamente humanoides, que floresce no planeta Lagash, mundo biótico banhado pela luz de seis estrelas, onde não há noite e, portanto, os habitantes jamais experimentam momentos de escuridão.  O apocalipse cíclico atinge a civilização lagashiana a cada 2.049 anos, na ocasião em que o satélite invisível do planeta provoca um eclipse solar total da única estrela então acima da linha do horizonte.  O fenômeno apavorante da noite inaudita leva os nativos de Lagash à loucura e a civilização sucumbe, iniciando um novo ciclo.
A inspiração de segunda ordem de Alexey Dodsworth foi o romance O Cair da Noite (Record, 1990), de Robert Silverberg, escrito com consultoria de Asimov (que recebe os créditos de coautor tanto na edição original quanto na tradução brasileira de Ronaldo Sergio de Biasi), mas apenas publicado três anos e pouco após a morte do Bom Doutor.  Inteligente, Silverberg percebe que, passado meio século, o público leitor se tornou mais exigente e decerto não engolirá com tanta facilidade o fato de que um planeta alienígena, cujos habitantes, até onde se sabe, jamais estabeleceram contato com a humanidade, seja designado com o nome de uma cidade da antiga Suméria (Asimov provavelmente imaginou que seus leitores não dariam pela coisa...).  Daí, altera o nome do mundo biótico para “Kalgash” e também os nomes das estrelas do sistema sêxtuplo.  Asimov batizara apenas quatro delas: Alfa (o primário de Lagash, i.e, o astro ao redor do qual o planeta orbita), Beta, Gama e Delta.  Silverberg designa os seis astros: Onos (primário de Kalgash), Dovim, Trey, Patru, Tano e Sitha.[2]
*     *      *

Combinei almoçar com Alexey no restaurante Mauá, que funciona no último piso do Museu de Arte do Rio (MAR), situado na Praça Mauá.  No entanto, a equipe de TV para a qual ele estava gravando uma entrevista sobre Transhumanismo atrasou um pouco e, a bem da cautela, transferimos o almoço para o Cedro do Líbano, restaurante de gastronomia árabe que funciona na Senhor dos Passos, bem próximo à Biblioteca Parque, onde o Vórtice Fantástico se reuniria.
Optamos por um prato do tipo, monte-você-mesmo, em que podíamos escolher os quatro componentes.  No meu caso foram: folhas de parreira recheadas, quibe na chapa, tabule e fatias de cebola frita cortadas bem finas (certeza absoluta de que existe uma designação em árabe para o componente em questão).  Alexey pediu o mesmo, só que com cafta de frango em lugar do quibe.  Regamos a refeição com o tinto chileno Oops! Carmenère, bastante adequado.
Enquanto esperávamos a comida chegar, presenteei Alexey com exemplares autografados de meus romances A Guardiã da Memória (Draco, 2011) e Estranhos no Paraíso (Draco, 2015).  Ele retribuiu com um exemplar autografado de Esplendor, que eu só possuía em edição e-book.
Alexey me descreveu a gênese comum dos romances Esplendor e Dezoito de Escorpião, que surgiu num insight durante uma aula de astronomia na USP.  Conversamos sobre nossas formações acadêmicas correlatas.  Ele está iniciando um doutorado em filosofia na Itália na área de Transhumanismo, mas também se interessa bastante pelas pesquisas nas áreas de SETI e Astrobiologia.  Contou-me ainda de suas experiências nacionais e internacionais como assessor do Ministro da Educação, durante o mandato de Renato Janine Ribeiro, intelectual que chegou a proferir uma palestra versando sobre o futuro recheada de tópicos de ficção científica, naturalmente redigida por nosso amigo Alexey.  Falou da sua amizade com meu colega de graduação na Astronomia na UFRJ (Observatório do Valongo), Gustavo Porto de Mello e da experiência de usar esse amigo comum como personagem literário.  Falou ainda que é amigo do presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), Clinton Davisson, desde a adolescência de ambos.
Após o lauto repasto na gastronomia árabe, seguimos a pé até a Biblioteca Parque.  Fomos os primeiros a chegar, mas, pouco tempo depois, a galera começou a aparecer.  Embora pouco concorrida, com as ausências marcantes de Thaís Cavalcanti, Daniel Faleiro e Cláudio Manoel, a reunião foi um bocado divertida.  Afinal, não é todo dia que temos o privilégio de dialogar com um autor para nos ajudar a destrinchar seus processos de criação literária.
Renata abriu os trabalhos moderando a análise da coletânea O Vilarejo, de Raphael Montes.  Nosso consenso foi que a virtude principal desse trabalho não consiste nos contos em si, cujos enredos são, até certo ponto, previsíveis e banais.  O tchã reside justamente na concatenação dos contos entre si para montar o livro, que pode ser tranquilamente lido como um romance fix-up, ou, talvez, face ao tamanho reduzido, uma novela fix-up.  Outra crítica, feita tanto por mim quanto pela Mariana Rios, foi sobre a ambientação um tanto anêmica em termos de Rússia tsarista, a nosso ver fraca e pouco convincente.  Embora não tenha lido o fix-up, Alexey participou do debate, tecendo comentários pertinentes sobre o processo criativos dos escritores de maneira geral.

Alexey Dodsworth no Vórtice Fantástico RJ.



Em seguida, moderei a discussão sobre Esplendor.  Como era inevitável, falamos um bocado da noveleta de Asimov, do romance de Silverberg e, obviamente, de Dezoito de Escorpião.  Renata indagou se esse último romance era uma prequel do trabalho analisado e o autor confirmou minha tese de que se tratavam de romances geminados.  Comentamos amiúde as especificidades de Esplendor em relação aos textos dos autores anglo-saxões que o precederam: a adoção de humanoides negros e fotossintéticos como personagens; o emprego de nomes, topônimos e conceitos da cultura iorubá; a questão da ausência completa de privacidade na sociedade exibida no romance; a tirania exercida pela polícia do pensamento; as dificuldades do demiurgo-aprendiz que já havia aparecido sob uma encarnação diversa no trabalho anterior; o artifício do personagem bonzinho que se transforma em arquivilão e muito mais.
Minha conclusão da leitura de Esplendor e Dezoito de Escorpião é que, guardada a originalidade impactante da noveleta de Asimov e a exploração fiel e complementar do romance de Silverberg, Alexey Dodsworth inovou de forma inteligente e poderosa, além de também ser original e impactante a seu modo, insuflando alma nova nessa temática clássica da ficção científica.
Ao fim dessa reunião na parte descoberta da Biblioteca Parque, por volta das 18h00, alguns de nós seguimos para a casa histórica simpática de Santa Teresa, onde se deu o lançamento carioca dos dois romances de Alexey e fomos apresentados ao Dezoito de Escorpião já em sua edição da Draco.
Presentes nos lançamentos, geminados como os romances, estivemos eu, Renata Aquino e Ricardo França, já incorporado ao segmento carioca do Vórtice Fantástico.  Conversamos sobre a história da ficção científica brasileira, os velhos tempos da edição brasileira da Asimov’s, as perspectivas passadas, presentes e futuras em termos de carreira na área dos estudos de ficção científica e outros tantos que tais, enquanto degustávamos um guacamole saboroso, regado por diversas taças de espumante, algumas com pingos de chocolate belga em seu interior.

GL-R e Alexey Dodsworth no lançamento de Esplendor.


Por volta das 20h30 regressei para casa de UBER.  Depois de ler uma matéria na semana passada, segundo a qual os motoristas associados ao aplicativo não estariam pegando passageiros em Santa Teresa, preocupei-me e cogitei a hipótese de recorrer ao Easy Taxi.  De fato, o primeiro motorista solicitado declinou no meio da viagem, provavelmente, ao constatar para onde se dirigia.  Porém, o segundo aceitou a missão, conduzindo-me até em casa com segurança e cortesia habituais.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 27 de agosto de 2016 (sábado).


Participantes:
Alexey Dodsworth
Erick Massoto
Gerson Lodi-Ribeiro
Mariana Rio
Renata Aquino
Ricardo França
Stella Rosemberg




[1].  Dizem que Campbell, editor da Astounding Stories, teria discordado à citação de Emerson, retrucando: “Acho que os homens enlouqueceriam.”
[2].  No romance de Silverberg, Kalgash orbita ao redor de Onos, uma anã amarela similar ao Sol.  Por sua vez, Onos orbita em torno do sistema binário constituído por Trey e Patru, estrelas de tipo espectral A ou F, referidas como “brancas”.  O sistema sêxtuplo possui ainda outro subsistema binário, formado por Tano e Sitha, duas estrelas de tipo espectral A, B ou O, referidas como “azuis”, e pela anã vermelha Dovim.  Kalgash dista 1,2 unidade astronômica (dez minutos-luz) de Onos.  Onos dista 13,4 U.A. (110 minutos-luz) da binária Tano-Sitha.  Mais detalhes sobre a mecânica orbital desse sistema sêxtuplo podem ser conferidos no artigo “Nightfall: Can Kalgash Exist?”, de Smaran Deshmukh & Jayant Murphy (PDF disponível para download).  Esses autores creem que os quatro componentes das duas binárias possam ser anãs brancas.  Afirmam também que o eclipse total de Dovim poderia dar-se essencialmente como Silverberg o descreveu.  Porém, concluem que o sistema sêxtuplo não seria gravitacionalmente estável: seus componentes se afastariam uns dos outros em pouco tempo.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Guerra do Velho no Vórtice Fantástico

201606252359P7 — 20.442 D.V.

“— Ouvi dizer que eles são criados a partir dos mortos. — Cained falou. — O padrão genético de humanos mortos é fundido ao material genético de outras espécies, em busca de resultados.  Alguns desses resultados nem sequer parecem humanos, como vocês se reconhecem como tais.  Nascem como adultos, com destreza e habilidades, mas sem memórias.  E não é só sem memórias.  Sem identidade.  Sem moralidade.  Sem restrições.  Sem... — Ele parou, como se buscando a palavra correta. — Sem humanidade. — Ele a encontrou, finalmente. — Como vocês diriam.  Crianças-soldado em corpos de adultos.  Abominações.  Monstros.  Ferramentas que a sua União Colonial usa nas missões em que ela não deseja ou não pode empregar soldados que possuem experiência de vida e senso moral.  Ou que possam temer por suas almas, neste mundo ou no próximo.”
(John Scalzi, The Ghost Brigades)

Compareci neste fim de tarde de inverno para mais uma sessão mensal do núcleo carioca do Vórtice Fantástico.  Como desta vez nos reunimos duas horas mais tarde do que nosso horário habitual das 15h00, optamos por uma cafeteria do espaço Itaú Multiplex, na Praia de Botafogo, em detrimento de nosso sítio tradicional, na Biblioteca Parque Estadual, em frente ao Campo de Santana, no centro do Rio.
Talvez pelo horário diverso, talvez pelo local alternativo, a maioria dos participantes de certames anteriores não pôde comparecer desta vez.  Presentes apenas o casal Renata Aquino & Eliseu Ferreira; Stella Rosemberg; Erick Massoto; Daniel Faleiro e eu.  A namorada de Daniel, Carol Montenegro apareceu já ao fim da parte oficial do evento e participou bastante do bate-papo animado que se seguiu, mas não da análise do romance Guerra do Velho (Aleph, 2016), de John Scalzi.
A narrativa desse romance é apresentada sob o ponto de vista de John Perry, um cidadão norte-americano sênior e viúvo de setenta e cinco anos num futuro mais ou menos distante em que a humanidade domina técnicas de navegação superlumial e já coloniza outros sistemas estelares há pelo menos dois séculos.  Ao cruzar essa idade limite, ele decide abdicar da cidadania terrestre, para se tornar um recruta das Forças Coloniais.  Para tanto, como parte da barganha, Perry recebe um corpo jovem repleto de aperfeiçoamentos genéticos e um implante neural autoconsciente, para ajudá-lo a combater guerreiros de potências alienígenas hostis que ameaçam a diáspora humana periferia galáctica afora.
Scalzi estabelece um diálogo explícito profícuo com os romances Tropas Estelares de Robert A. Heinlein; The Forever War de Joe Haldeman; e O Jogo do Exterminador de Orson Scott Card, além de um outro diálogo, mais sutil, com a noveleta “The Civilization Game” de Clifford D. Simak.



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Em prol da pontualidade, dada a rarefação habitual dos ônibus da linha de conexão com o metrô nos fins de semana, fui obrigado a pegar um táxi para chegar ao Itaú Multiplex a tempo.  Fui o segundo a chegar, após Stella, que já se encontrava sentada à mesa de uma cafeteria em frente à livraria Blooks, na galeria do complexo e se deliciava com um drink quente e não alcoólico à base de café e chocolate, o Amor Perfeito, bebida tão atraente ao olfato e à visão, que resolvi pedir outro igual para mim antes mesmo de saber do que se tratava.  Não me arrependi.
Erick chegou pouco depois.  Conversa vai, conversa vem, descobri que Stella e Erick já se conheciam desde a adolescência e que foram apresentados um à outra por uma professora de inglês que possuíam em comum, embora nunca tenham frequentado as mesmas salas de aula.  A propósito, hoje em dia Stella é professora da Cultura Inglesa.
Renata chegou um pouco mais tarde e, em seguida, Daniel apareceu no pedaço.
Quitei meu Amor Perfeito e pedi uma taça do vinho tinto da casa antes de começarmos a destrinchar o romance do Scalzi.  Excepcionalmente, lembrei-me de anunciar minha participação numa das mesas-redondas do 1º Congresso da Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas na próxima sexta-feira e também o lançamento para breve de meu livro de não ficção Vita Vinum Est! — História do Vinho no Mundo Romano.
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Começamos nossa análise informal do romance assim que Daniel se sentou conosco à mesa da cafeteria.  Não obstante o número relativamente reduzido de debatedores, Guerra do Velho constituiu de longe a leitura que mais discussões suscitou — e discussões mais interessantes — de todas as sessões do Vórtice Fantástico de que participei desde julho do ano passado.
De minha parte, embora tenha adorado a narrativa de John Scalzi, tanto por sua verve e originalidade quanto pela temática de guerra estelar contra civilizações alienígenas, uma de minhas favoritas no domínio da ficção científica, ao concluir a leitura fiquei com uma série de dúvidas e impressões que cumpre registrar nesta crônica.

Alerta aos navegantes: os questionamentos a seguir estão coalhados de spoilers.  Se você ainda não leu o Guerra do Velho e não gosta de saber do fim da história antes de chegar à última página, sugiro que salte direto para o próximo trio de asteriscos.

Isto posto, a primeira questão é a seguinte: se a humanidade já possui tecnologias de registro de personalidade e de produção de clones, por que diabos os soldados não gozam de imortalidade?  Seria absurdamente fácil ressuscitá-los a partir de seus últimos registros, evitando que todas as experiências de combate que eles acumularam se perdessem à toa.  Foi exatamente este o passo lógico que decidimos implementar no universo ficcional Taikodom, cujas especificações (a famosa “bíblia”) foram estabelecidas um ano antes de John Scalzi publicar o primeiro romance da sequência Guerra do Velho.
Outra implicância relevante no âmbito da ficção científica hard: por que tanta ênfase em colonizar mundos bióticos?  Atavismo da Golden Age?  Qualquer civilização capaz de empreender viagens para outros sistemas estelares a velocidades acima da luz também deve ser capaz de construir habitats espaciais gigantescos com um pé nas costas.  Cada um desses habitats poderia abrigar centenas de milhares ou até mesmo milhões de habitantes.  Em seu conjunto, os habitats espaciais de determinado sistema estelar abrigariam bilhões de habitantes.  Afinal, uma vez conquistado o espaço, por que uma civilização madura desejaria regressar às velhas, sujas e inseguras biosferas planetárias?
No quesito motivação para engajar em conflitos interestelares contra espécies alienígenas, a própria noção de se travar guerra em âmbito estelar por recursos naturais não faz o mínimo sentido.  Afinal, civilizações avançadas a ponto de viajar entre as estrelas em velocidades superlumiais decerto dominariam técnicas de sintetizar qualquer recurso a partir de elementos simples, existentes em abundância universo afora.
Há ainda a questão da postura militarista, tipicamente norte-americana.  Ao retratar a humanidade em conflitos bélicos mais ou menos simultâneos com diversas civilizações alienígenas avançadas, pelo menos no que concerne a esse primeiro romance, Scalzi coloca os humanos como autênticos valentões da periferia galáctica.
No que diz respeito aos diálogos e pontes que o autor erige em direção a narrativas com temáticas semelhantes escritas por seus (nossos) antecessores, há os paralelismos mais explícitos e os mais sutis.
O diálogo mais óbvio, beirando a homenagem, é aquele estabelecido com o romance clássico de Robert A. Heinlein, Starship Troopers (1959), publicado entre nós como Tropas Estelares.  Tanto Heinlein quanto Scalzi definem a guerra contra potências alienígenas hostis como uma questão de sobrevivência para nossa espécie e, num nível ainda mais profundo, como uma questão de “nós contra eles”.  Heinlein deixa claro que o inimigo atacou primeiro.  Neste sentido, portanto, a humanidade estaria apenas reagindo aos ataques sofridos.  Já Scalzi, ao menos no romance que introduz seu universo ficcional, mostra os humanos como agressores contumazes.
The Forever War (1974) de Joe Haldeman é a antítese de Tropas Estelares e, portanto, de Guerra do Velho.  Aqui a humanidade se defronta com um único inimigo, os Tauranos.  Os soldados são selecionados entre os jovens mais capazes e inteligentes.  Em virtude dos efeitos relativísticos, do ponto de vista daqueles que permanecem no Sistema Solar, os militares humanos só regressam à Terra em seus períodos de licença uma vez a cada geração, fenômeno que os torna vítimas de choques culturais tão ou mais impressionantes do que as dificuldades que precisam enfrentar nos campos de batalha.
O Jogo do Exterminador (1985)[1] de Orson Scott Card dialoga com o clássico de Heinlein, mas inova ao propor uma guerra contra alienígenas insetoides hostis comandada por crianças geniais a partir de ambientes simulados.
Guerra do Velho interage com os três romances acima, mais intensamente com Tropas Estelares e O Jogo do Exterminador, ao propor conflitos estelares travados por cidadãos idosos transformados em supersoldados e também por crianças em corpos de adultos transformados em super-supersoldados (a famosa Brigada Fantasma), abordagem que suscita uma questão ética apavorante, de forma bem mais contundente e plausível do que a mostrada por Card em seu romance.
Cumpre mencionar ainda que a estratégia sábia exercitada pela humanidade no universo ficcional de Guerra do Velho, de manter as humanidades terrestre e solariana intocadas e o máximo possível afastadas dos conflitos estelares que grassam na periferia galáctica, como uma espécie de reserva de segurança para a espécie, já havia sido adotada na noveleta “The Civilization Game” (1958) de Clifford D. Simak.
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Eliseu chegou bem em meio ao debate sobre o Guerra do Velho e as comparações com os demais romances citados acima.  Mas ele e Renata não ficaram muito tempo, pois saíram para assistir uma peça de teatro.  Com cerca de 60% do romance lido, Renata se confessou “não muito empolgada” pelo texto de Scalzi, cujos personagens ela julgou pouco profundos.
Já no início do debate, Daniel nos havia indagado se nutríamos alguma restrição contra narrativas em estilo supostamente cinematográfico, como é o caso do exercitado em Guerra do Velho.  Todos os presentes afirmaram não ver grandes problemas nesta opção estratégica autoral.
Após a partida do casal, Carol chegou ao Itaú Multiplex e sentou conosco.  A partir daí, o papo passou da análise do romance em si para — sobretudo, mas não só — literatura e cinema fantásticos em geral.  Conversamos um bocado sobre a sexta temporada da série Game of Thrones, baseada no U.F. Canção de Gelo e Fogo, do George R.R. Martin, cujo último episódio será exibido amanhã à noite.  Falei do spoiler sobre a morte de Tommen Baratheon, vamos ver se rola.  Daniel me contou sobre um projeto de universo ficcional que ele anda lucubrando, envolvendo híbridos humanos gengenheirados e outros bichos mais.  Ainda neste tópico, ele me incentivou a comparecer à exposição Comciência, da Patricia Piccinini, atualmente em seus últimos dias no Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro da cidade.  Também falamos sobre pais & filhos, vida em família, práticas alimentares e preferências nutricionais, com ênfase particular às carnes bem temperadas, aos caldos verdes e aos cremes de batata-baroa.
Como o papo estava dos melhores, só saímos da galeria por volta das 20h00.  Uma das melhores reuniões até hoje.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 25 de junho de 2016 (sábado).





Participantes:
Carol Montenegro
Daniel Faleiro
Eliseu Ferreira
Erick Massoto
Gerson Lodi-Ribeiro
Renata Aquino
Stella Rosemberg




[1].  Esse romance é a expansão da noveleta homônima, “O Jogo do Exterminador” (1977), publicada em português na edição nº 14 da versão brasileira da revista Asimov’s.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Noite dos Três Gersons

201604232359P7 — 20.379 D.V.

“Nunca antes na história desta agremiação, tantos Gersons se reuniram num só evento.” (Presidente Bill Clinton Davisson)

Aproveitamos o ensejo da vinda do presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, Clinton Davison, ao Rio de Janeiro, para organizarmos um encontro informal nesta noite de sábado no restaurante Culinare (antigo Estação Gourmet).
Cheguei um pouco atrasado no Culinare, em relação ao horário marcado de 18h00.  Ao entrar no restaurante, encontrei por lá os amigos Eduardo Torres, Ricardo França e Jorge Pereira, além do Clinton e de Leyla Mattar, amiga do nosso presidente.  Pouco depois, chegavam Gerson Couto e Mariana “Belly” Gouveia.  Mais tarde, chegou Gerson Machado de Avillez, um sócio do CLFC que eu até então só conhecia de bate-papos na lista de discussão do CLFC.  Foi a primeira vez que nosso Triunvirato de Gersons se encontrou num mesmo evento.  Para que o leitor tenha ideia da dimensão exata da efeméride, basta frisar que um terço dos presentes à mesa eram Gersons.
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Em pleno feriadão de Corpus Christi, em meio a um outono onde já não chove há pelo menos dez dias na cidade, meros dois dias depois do desabamento da Ciclovia Tim Maia, fizemos nossa primeira reunião carioca de 2016, ou, ao menos, a primeira reunião deste ano que este cronista participou.
Mal sentei à mesa e fui brindado com a informação de que o pessoal da conexão Planetário da Gávea-JediCon convidou o CLFC para participar da organização da comemoração carioca do jubileu de ouro da franquia Star Trek.  Eduardo Torres e eu sugerimos o nome do sócio Luiz Felipe Vasques para coordenar a iniciativa em nome do clube.  A indicação foi aceita de pronto pelo presidente.  Como Felipe havia dito que devia comparecer ao encontro, Clinton afirmou que faria o convite pessoalmente.  Julguei melhor verificar a questão e confirmei por SMS que Felipe desistira de ir.  Para adiantar o serviço, transmiti-lhe pelo mesmo canal a notícia de que ele havia sido escalado como voluntário para a galharda missão.  Aflito e orgulhoso, Felipe me ligou, mas quem atendeu foi o Clinton, pois àquele instante eu estava me servindo no buffet do restaurante.  Assim, o presidente pôde nomear o bravo cavaleiro Luiz Felipe Vasques como coordenador plenipotenciário do clube para o evento comemorativo.  Eu e Eduardo nos oferecemos como voluntários para auxiliar Felipe no que se fizer necessário.

Nossa mesa - Panorâmica 1.

Nossa mesa - Panorâmica 2.



Clinton informou que a editoria da antologia comemorativa do CLFC, 30 Voltas ao Redor do Sol, está a cargo do amigo escritor Fábio Fernandes.  Também conversamos sobre uma nova antologia de ficção científica da Draco para a qual nós dois fomos convidados a submeter trabalhos.
Já não via a Belly há um bocado de tempo.  Tenho a impressão de que não conversávamos desde o lançamento carioca do meu romance Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014), durante a Primavera dos Livros do ano retrasado.  Ela contou que finalmente começou a lê-lo e que está gostando.  Falamos sobre política e governança em geral e corrupção em particular.  Abordamos en passant a polêmica recente nas redes sociais, “Bela, Recatada e do Lar”, envolvendo Marcela Temer e espoletada por uma matéria publicada na revista Veja desta semana.  Belly falou das mudanças em sua vida profissional e eu lhe contei da minha participação na seção carioca do clube de leitura de literatura FC&F, Vórtice Fantástico, e ela se mostrou interessada em participar.  Contei também da perspectiva da publicação de meu primeiro livro de não ficção, Cenários de História Alternativa e ela se mostrou interessada comparecer ao lançamento e adquirir a versão em e-book ou a versão impressa do trabalho.
Por volta das 20h50, Clinton e Leyla partiram de táxi para a rodoviária a fim de embarcar no ônibus na viagem de volta para Juiz de Fora.  Pouco mais tarde, os outros dois Gersons tiveram que nos deixar, mas não sem antes posar para uma pequena sessão de fotos para registrar a efeméride.  Jorge e Belly resistiram mais um pouco, saindo por volta das 22h00.


Triunvirato de Gersons: Couto, Machado de Avillez, Lodi-Ribeiro.


Edu Torres, Ricardo França e eu resistimos até às 22h40, conversando sobre as perspectivas futuras de aposentadoria, a crise advinda do aparelhamento da Petrobras e até, um pouco, sobre ficção científica.
Aliás, este foi um encontro em que, pelo menos no meu lado da mesa, falou-se relativamente pouco sobre ficção científica e gêneros correlatos.  Mesmo assim, foi uma boa oportunidade de rever e conversar com os amigos.
A ausência mais sentida e lamentada da noite foi a de nosso amigo Max Mallmann, que havia dado a entender que compareceria ao evento.L  Bem, fica para a próxima.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 23 de abril de 2016 (sábado).




Participantes:
Clinton Davisson
Eduardo Torres
Gerson Couto
Gerson Lodi-Ribeiro
Gerson Machado de Avillez
Jorge Pereira
Leyla Mattar
Mariana “Belly” Gouveia
Ricardo França