terça-feira, 10 de setembro de 2019


Guerra Sem  Fim no Vórtice Rio.

201909072359P7 — 21.610 D.V.
“The war is hell.”
(William T. Sherman)

Compareci hoje à tarde à reunião mensal de agosto do grupo de discussão em literatura fantástica, Vórtice Rio.  A reunião deveria ter ocorrido no sábado passado, 31 de agosto.  Porém, como ninguém pôde comparecer, adiamos de comum acordo para o sábado seguinte, ou seja, hoje.  O trabalho escolhido para análise no mês de agosto foi o romance clássico de ficção científica militar, Guerra sem Fim (The Forever War), do Joe Haldeman, publicado inúmeras vezes em inglês e pelo menos três vezes em português (ao que me conste, uma vez em Portugal e duas no Brasil).
O adiamento se deu, sobretudo, em função da Bienal.
Sim.  Estamos em época de Bienal do Livro do Rio de Janeiro e, nesta última semana do certame, surgiu uma polêmica espúria inusitada, motivada por estratégias eleitoreiras rasteiras, iniciada pela tentativa de apreensão de um romance gráfico da Marvel, disparada pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que enviou, por pelo menos duas vezes, fiscais municipais para apreender a publicação, que todos sabiam esgotada já nas primeiras horas da polêmica, uma vez que o lançamento brasileiro original se dera em 2016 e a editora nem mandara tantos exemplares assim para seu estande na Bienal.  Depois da tradicional guerra de liminares, com direito à escalada ao STF, e da reação dos movimentos LGBT, do youtuber Felipe Neto e da sociedade organizada em geral contra a barbárie fundamentalista, Crivella foi proibido de proibir a venda do exemplar já esgotado.
Acompanhando essa polêmica de longe, segui o roteiro programado de ônibus e metrô, saltando na estação Botafogo e ali embarcando para o Centro, para participar da reunião que aconteceria, como de hábito, no segundo piso do Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, na Avenida Almirante Barroso, quase esquina com a Rio Branco.  Leitura de bordo: segunda edição do The History of Science Fiction (Palgrave MacMillan, 2016) do Adam Roberts.  Aliás, desisti de ler a edição brasileira pelo simples fato de que não aguento mais esbarrar com “novel” (“romance” em inglês) sendo impunemente traduzido por “novela”.
Cheguei lá às 15h00, com pontualidade mais britânica do que carioca.

*     *      *

Ricardo França já estava por lá quando ingressei no salão gigantesco situado no térreo do CC-CEF.  Conversamos um pouco sobre as teses do Roberts quanto à gênese da ficção científica moderna.  Ele falou que havia lido The Forever War há muito tempo e que não tivera tempo de reler o romance para a reunião de hoje.
Pouco depois chegava Renata da Conceição e eu lhe passei o exemplar de meu romance de história alternativa Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014) que ela havia pedido para dar de presente.  Uma vez autografado o livro, voltamos a falar das teses do Roberts, mas também comentamos a questão da censura homofóbica do Crivella na Bienal e da pechincha que encontrei por lá: uma coletânea reunindo toda a ficção curta de George R.R. Martin por vinte reais.
Por volta das 15h30, subimos ao segundo andar do centro cultural, onde costumamos fazer nossas reuniões mensais.
*     *      *

Enquanto esperávamos a chegada do Daniel Russell Ribas, que se afirmou disposto a participar de sua primeira sessão oficial no Vórtice[1], Renata contou que havia finalmente entregue sua dissertação de mestrado e que fará a defesa nos próximos dias.  Falou também de sua vontade de lecionar (ela é graduada e em breve será mestra em História) e que deverá prestar concurso em breve para dar aulas no ensino médio da rede pública municipal e/ou estadual.
Numa espécie de esquenta da reunião, repassamos a história de publicação do The Forever War.  O romance foi serializado a partir de 1971 na revista norte-americana Analog Science Fact & Fiction, então sob a direção do Ben Bova.  Em 1974 foi publicado como romance e recebeu os prêmios Hugo e Nebula em 1975.
Voltando a serialização: quando da publicação da noveleta correspondente ao regresso do protagonista William Mandella à Terra no início do século XXI — como veterano da campanha contra os alienígenas tauranos — Bova pediu que Haldeman reescrevesse o trabalho, pois o autor pintara um cenário bastante distópico para a Terra de 2007.  Nas cidades as pessoas não podiam sair de casa sem guarda-costas, todos os cidadãos andavam armados e mais da metade da população não tinha emprego, embora o governo sustentasse os desempregados em níveis acima da miséria.  Bova alegou que essa Terra distópica deprimiria um bocado os leitores da revista, sobretudo pela associação imediata que eles fariam com o regresso dos veteranos da Guerra do Vietnam, então em curso.  Haldeman aquiesceu e produziu uma noveleta menos distópica, que acabou sendo publicada na Analog.
Quando Haldeman reuniu suas novelas e noveletas para a publicação do romance, manteve a narrativa açucarada da Terra do início do século XXI.  Nessa versão, o romance foi agraciado com o Hugo, o Nebula e um punhado de outras premiações.  A edição impressa de The Forever War (Easton Press, 1987) que tenho em casa contém essa noveleta light.  Contudo, nas edições publicadas a partir de meados da década de 1990, Haldeman substituiu versão açucarada pela distópica, escrita originalmente, que ele preferia, levando o romance à versão que ele considera definitiva.  A edição digital do The Forever War (Ridan, 2011) que reli para a discussão de hoje, contém não só a versão definitiva do romance, como também introduções do autor e dos editores, esclarecendo essa história de publicação tortuosa e, mais importante, o prefácio de John Scalzi, autor de A Guerra do Velho (2005)[2], onde esse último autor esclarece uma velha polêmica ao afirmar que finalmente leu The Forever War e jurar de pés juntos pela enésima-quarta vez que não havia lido o clássico de Haldeman antes de escrever seu romance.  Como diria o Jack Palance, “Acredite, se quiser.”

Edição britânica da coleção SF Masterworks.

Edição digital norte-americana da Ridan (2011).



Por volta das 16h00 o Daniel Ribas chegou e eu lhe passei um exemplar da antologia Dinossauros (Draco, 2016) que organizei há tempos.  Após ele me pagar e eu autografar o livro, enfim, iniciamos a fase oficial da reunião.

Daniel Russell Ribas, Ricardo França e GL-R
(Foto de Renata da Conceição).


*     *      *

Depois de repassarmos brevemente a história de publicação do romance e as premiações que ele recebeu na década de 1970, Daniel levantou as dificuldades que encontrou com a tradução da edição que leu: Guerra sem Fim (Landscape, 2009).  Como eu, Renata e França havíamos lido o romance em inglês, ele esclareceu: a estrela gigante vermelha Albebaran (Alpha Tauri) foi traduzida como “Aldebarão”, em vez da forma correta em português, “Aldebarã”.  As superbombas de efeito catalítico, “Nova bombs” no original, viraram “bombas-novas”.  E por aí vai...  De qualquer forma, vale a pena frisar que, em primeiro lugar, a Landscape já fechou as portas.  Em segundo lugar, tais erros e más escolhas nada têm a ver com a tradução brasileira mais recente: Guerra sem Fim (Aleph, 2019), recomendada pelo Vórtice para a sessão de agosto.

Edição brasileira da Landscape (2009).

Edição brasileira da Aleph (2019).

Edição portuguesa.



Em seguida, destrinchamos o mecanismo de deslocamento interestelar proposto por Haldeman.  Saltos de centenas ou até milhares de anos-luz através de colapsares (supostamente buracos negros) conduzem as naves humanas e tauranas de um ponto a outro da Via Láctea e até a Grande Nuvem de Magalhães (uma galáxia-satélite da nossa) instantaneamente, ou quase.  Já os deslocamentos entre um colapsar e o seguinte se dão pelo espaçotempo normal a velocidades muito próximas à da luz.  É justamente esses deslocamentos pelo einsteiniano que provocam a dilatação temporal: enquanto se passam meses a bordo das naves estelares que conduzem os combatentes para o engajamento seguinte, passam-se décadas ou séculos na Terra.
A cada regresso da frente de combate, os soldados se sentem mais deslocados na sociedade humana do futuro remoto cujos cidadãos os tratam como heróis, mas não os compreendem e, sobretudo, não os aceitam como eles são.  As práticas e costumes sociais mudam ao longo dos séculos e os veteranos não se encaixam mais na vida civil, restando-lhes, portanto, apenas se realistar e regressar ao front.
Dos três grandes clássicos da ficção científica militar, Tropas Estelares (1959)[3] de Robert A. Heinlein; Guerra sem Fim (1974); e Guerra do Velho (2005) de John Scalzi, o romance de Joe Haldeman – escrito por um veterano da Guerra do Vietnam e não um civil, como os outros dois autores – é o único que pode ser considerado como um libelo antimilitarista e uma ode em louvor à inutilidade da guerra.
The Forever War teve uma continuação de verdade, Forever Free (1999)[4] e uma de mentirinha, Forever Peace (1997).  A de mentirinha não se passa no mesmo universo ficcional que o do clássico aclamado.  Trata-se da narrativa de uma guerra travada na Terra entre robôs controlados remotamente por militares das nações desenvolvidas contra movimentos guerrilheiros dos países pobres.  Já a de verdade, começa exatamente onde o clássico termina, no planeta Dedo Médio, onde Mandella, Marygay e outros veteranos da Guerra Eterna resolveram residir após o fim do conflito.

*     *      *

Ao término da sessão, cerca de 17h30, Renata se despediu de nós e partiu em companhia do namorado, Pedro, que havia se juntado a nós meia hora antes.  Dez ou quinze minutos mais tarde, nosso amigo Luiz Felipe Vasques chegava ao centro cultural direto da Bienal para participar do que restava do evento.  Retomamos a discussão e permanecemos no CC-CEF até as 18h30 ou mais tarde.
À noitinha, nós quatro caminhamos até a estação Carioca do metrô e embarcamos no sentido Jardim Oceânico.  Durante a viagem, Felipe e Ribas detalharam a trama de uma série de horror vampírico da qual eu já lera a respeito: What We Do in the Shadows.  Senti-me animado para assistir, porém, ao chegar em casa, descobri que não está disponível no Netflix e, na NET, está sendo exibida no canal Fox Premium, não disponível em nosso pacote.  Como já considero a assinatura NET demasiado cara pelo que ela oferece, não pretendo adicionar mais um canal por conta de uma única atração.  Cedo ou tarde, essa série aparecerá noutro veículo ou canal.  Assim espero.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 07 de setembro de 2019 (sábado).


Participantes:
Daniel Russell Ribas.
Gerson Lodi-Ribeiro.
Luiz Felipe Vasques.
Renata Aquino da Conceição.
Pedro.
Ricardo França.





[1].  Ribas participou informalmente de parte da reunião que fizemos em outubro do ano passado nos jardins do Palácio do Catete, por ocasião da Primavera dos Livros 2018, quando discutimos o romance de horror Hex (Darkside, 2018), do autor holandês Thomas Olde Hevelt.
[2].  Nanorresenha extraída do meu bunker de dados: Guerra do Velho (2005) – Viúvo sênior ingressa nas Forças de Defesa Colonial ao completar 75 anos, abdicando da cidadania terrestre, tornando-se um recruta e recebendo um corpo jovem repleto de aperfeiçoamentos genéticos, para ajudá-lo a combater as potências alienígenas que ameaçam a diáspora humana na periferia galáctica.  Scalzi estabelece um diálogo profícuo com Heinlein (Tropas Estelares); Haldeman (The Forever War) e Simak (“The Civilization Game”), mas comete alguns pecadilhos e incide em diversos clichês do gênero.  No todo, um enredo instigante, divertido e original com personagens extremamente bem construídos.
[3].  Outra nanorresenha: Tropas Estelares (1959) – Clássico da ficção científica militar e apologia patriótica sob a forma de ficção.  Visão pessoal de um fuzileiro espacial durante guerra contra alienígenas insetoides.  Heinlein em sua obra mais polêmica.
[4].  Forever Free (1999) – Continuação do romance clássico The Forever War.  William Mandela, a esposa Marygay Potter e outros veteranos da Guerra Eterna contra os tauranos colonizam o planeta gelado Middle Finger sob os auspícios de uma humanidade pós-singularidade, que se transformou em mente coletiva.  Cansado do paternalismo dessa mente suprema, Mandela lidera uma minoria de inconformados numa viagem estelar de ida e volta para lugar algum, disposta a retornar à região da periferia habitada pela humanidade e pelos tauranos somente após quarenta milênios.

terça-feira, 3 de setembro de 2019


Sábado na Bienal do Livro 2019

201908312359P7 — 21.603 D.V.

“Estou profundamente decepcionada com você.”
[Chloe Orsolon, durante o jantar, ao constatar minha paixão pelo vinho]


Neste sábado compareci à Bienal do Livro 2019, abrigada no Riocentro, lá no Recreio dos Bandeirantes, para autografar meus livros e papear com amigos e aficionados da literatura fantástica em geral e da ficção científica em particular.
Quando estava saindo de casa, por volta das 11h30, Luiz Felipe Vasques me ligou, perguntando se eu queria aderir a uma carona oferecida por seu amigo Daniel Braga.  Como carona até o longínquo e remoto recanto da região oeste (Far West?) onde se situa o Riocentro não é coisa que se recuse em sã consciência, topei na hora.  Apressei-me em tomar um táxi até o prédio do Felipe e lá aguardamos a chegada do Daniel.
Durante os oitenta minutos dessa jornada memorável do Leblon ao Recreio, não faltaram oportunidades para se falar de tudo um pouco.  Conversamos sobre a falta que fazem os agentes literários no mercado editorial brasileiro de literatura fantástica.  Daniel nos contou de seus esforços para ocupar esse nicho ecológico-literário até hoje vago no panorama da cultura nacional.  Também comentamos nossas experiências comuns com autores iniciantes que encaram seus textos como bebezinhos amados em vez de produtos em busca de um público para chamar de seu.  Falamos ainda de enredos de história alternativa, da série de animação de ficção científica da Netflix, Love, Death & Robots, da qual eu já havia ouvido falar, mas que ainda não assisti, e do site especializado em horror literário que Daniel mantém, o Canto do Gárgula (www.cantodogargula.com.br), estive lá e creio que vale a pena conferir.
*     *      *

Chegamos à Bienal em torno das 14h00.  Como Felipe já havia comparecido na véspera, dia de abertura do evento, ensinou-se o caminho das pedras para a entrada dos autores credenciados.  Mesmo assim, após cruzarmos um Pavilhão 1 (Laranja) superlotado, decidimos seguir por fora, contornando dois outros pavilhões, até chegar ao 4 (Verde), onde se situa pouca parte das editoras dedicadas à literatura fantástica, dentre elas, a Draco, ora aquartelada no estande O-83.
À entrada do Pavilhão 4, encontramos Gabriel Guimarães, que saía com uma mala abarrotada de livros.  Atitude que nos fez recordar do legendário Dino Freitas.  Após uma conversa breve com o Gabriel, despedimo-nos e seguimos até o estande da Draco.  No O-83, encontramos não só nosso amigo Erick Sama Cardoso, o publisher da editora, mas também sua mãe, Isilda Morais, a Débora Marinho, amiga que já conhecíamos do certame 2018 da Primavera dos Livros, lá no Palácio do Catete, e nossa amiga, a autora e antologista Ana Lúcia Merege.  Neste ano, o estande da Draco está situado em frente a um outro, de esquina, com um saldão de livros por vinte reais: qualquer título, até mesmo hardcovers de mais de mil páginas e encadernação requintada.  Concorrência desleal.
No estande da Draco dois livros se destacavam como lançamentos oriundos de processos de crowdfunding pela Catarse: as antologias Cyberpunk: Registros recuperados de futuros proibidos, organizada por Cirilo S. Lemos & Erick Santos Cardoso; e Duendes: Contos sombrios de reinos invisíveis, organizada por Ana Lúcia Merege.

GL-R e Erick Sama Cardoso.

Isilda Morais, Erick e Débora Marinho.


Mal chegamos lá e nossa amiga Flávia Cortes passou pela Draco.  Apressada, pois estava atrasadíssima para um outro evento na Bienal.  Mesmo assim, arranjamos tempo para alguns poucos e breves comentários sobre nosso interesse comum no comportamento dos cetáceos.
Paulo Vinicius, do site especializado em literatura fantástica, Ficções Humanas (www.ficcoeshumanas.com.br/), apareceu pouco depois da Flávia partir.  Ocasião em que Daniel Braga também já havia se reunido conosco no estande da Draco.  Conversamos um bocado sobre os lançamentos fantásticos da editora Morro Branco, sobretudo os romances da Octavia E. Butler, mas também sobre as novidades de outros autores que ainda estão para sair.  Também falamos da Odisseia Fantástica de Porto Alegre que ocorreu na semana passada na capital gaúcha, bem como sobre as instâncias passadas daquela convenção.  Falamos um pouco do Prêmio Odisseia, certame inaugurado neste ano, bem como da conveniência e da ética de se cobrar inscrições dos concorrentes às diversas categorias.

Ana Lúcia Merege, Daniel "Gárgula" Braga  e Luiz Felipe Vasques.
Às mãos de Daniel, a antologia recém-lançada Duendes (Draco, 2019), organizada pela Ana.

Daniel, Felipe e GL-R.


*     *      *

Embora ficção científica não seja bem a praia de Daniel Braga, ele adquiriu um exemplar de meu Octopusgarden (Draco, 2017), prêmio Argos 2018 na categoria Melhor Romance, para presentear um amigo.  Falei que ele talvez gostasse de meu romance fix-up de história alternativa Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014), o qual, infelizmente, não se encontrava à venda no estande.  Daí, expliquei a temática do vampirismo científico no universo ficcional Três Brasis com o exemplo do romance clássico Fome de Viver (Record, 1984)[1], do Whitley Strieber, que inspirou o filme homônimo (1983), dirigido por Tony Scott e estrelado por Catherine Deneuve (no papel da predadora Miriam Blaylock); David Bowie (marido humano de Miriam, John Blaylock, imortalizado por uns poucos séculos); e Susan Sarandon (bióloga Sarah Roberts).
Outra amiga que passou de passagem pela Draco foi Renata da Conceição, do Vórtice Rio, grupo de análise e discussão literária especializado em literatura fantástica do qual participo.  Renata queria adquirir um segundo exemplar do Aventuras do Vampiro de Palmares para presente.  Como não tinha, combinei com ela que levarei um exemplar daqui de casa para ela comprar na próxima reunião do Vórtice.[2]
Nosso amigo André Orsolon compareceu ao estande da Draco acompanhado da esposa, Flávia, e da filha pré-adolescente Chloe.  André adquiriu exemplares dos meus romances A Guardiã da Memória (Draco, 2011), agraciado com o Argos 2012, e Octopusgarden, que fiz questão de autografar.  Mais tarde, justo no momento de lotação máxima do Pavilhão Verde, esse pai extremado partiria do nosso estande em genuína expedição autopunitiva, no encalço de uma edição especial do romance Drácula, do Bram Stoker, publicada pela Darkside, para sua rebenta.
Mais tarde, André voltaria, sobrevivente vitorioso em sua expedição se não inglória, ao menos pírrica, em companhia do amigo Victor Miranda, pai da jovem adolescente Maria Luíza, uma menina superleitora que percorre os diversos estandes e pavilhões da Bienal à caça de seus livros favoritos, munida de uma lista detalhada de títulos e autores.  Tive o prazer de conversar com ela na Draco e, portanto, posso atestar que Luíza realmente sabe do que está falando quando discorre sobre suas narrativas prediletas.  A Incrível Menina da Lista.  Victor adquiriu um exemplar do meu romance de ficção científica hard cum história alternativa, Estranhos no Paraíso (Draco, 2015).
Como todo bom avô babão que se preza, deliciei-me ao mostrar as fotos de meu neto Bernardo para o Erick, a Isilda e a Débora.  Ainda me assusto um pouco quando me dou conta de que ele fará dois anos daqui a dois meses.
Na seção nostalgia, meio órfãos com o término da décima segunda e última temporada do seriado humorístico de apologia a nós nerds, The Big Bang Theory, eu, Erick e Felipe rememoramos aos sorrisos, risadas e gargalhadas, de alguns dos episódios mais marcantes da série.
Outro integrante do Vórtice que pintou lá no estande da Draco foi nosso velho amigo Ricardo França.  Ele chegou lá em torno das 17h00.  Conversamos sobre o romance Altered Carbon (Del Rey, 2003)[3], do Richard K. Morgan, que inspirou a série homônima da Netflix.  Incentivei-o a retomar as aventuras do sensacional Takeshi Kovacs e, se possível, ler o romance, depois que ele se declarou desmotivado com o ritmo narrativo do primeiro episódio.
Conheci hoje Maurício Falcketti, um sujeito que, como eu, é apaixonado pela temática de dinossauros na ficção científica.  Daí eu lhe mostrei a antologia Dinossauros (Draco, 2016), que organizei para a editora com dezesseis contos de quinze autores.[4]  Conversamos um bocado sobre as diversas subtemáticas saurianas, inclusive, aquela em que os dinos evoluem até a racionalidade e erigem uma civilização tecnológica no Mesozoico.  Ainda sobre dinos inteligentes, contei-lhe da novela The Homecoming (Walker, 1989)[5], do Barry B. Longyear.  Maurício foi a segunda pessoa nesta tarde que elogiou Love, Death & Robots.  Preciso começar a assistir essa série urgentemente!

Erick, Felipe, fã e GL-R.

Erick, Ricardo França, GL-R e Felipe.


*     *      *

Como ninguém é de ferro para resistir às tentações literárias, empreendi minha própria incursão ao estande do saldão e adquiri pela bagatela de vinte reais a coletânea portentosa George R.R. Martin: RRetrospectiva da Obra (Leya, 2017), que procura reunir em suas singelas mil e cem páginas, encadernadas em capa dura acolchoada, toda a ficção curta jamais produzida pelo autor da saga Canção de Gelo e Fogo.  Simplesmente de babar na gravata!
Outra figura legendária que apareceu no estande da Draco foi Marcelo Rodrigo “Mushi” Pereira, que nos brindou com a distribuição gratuita de seus fanzines, como faz invariavelmente, sempre que nos encontramos em feiras de livros ou convenções literárias.  Esta é a minha vez que me deparo com o Mushi e sua esposa no Rio de Janeiro.
Quando estávamos quase deixando o estande da Draco para jantar, eis que aparece Adilson Júnior, outro integrante do Vórtice.  Ele trouxe seu próprio exemplar do Octopusgarden, adquirido na Cultura, para que eu o autografasse.  Devemos nos rever no próximo sábado, ocasião em que destrincharemos a tradução brasileira do romance The Forever War[6], do Joe Haldeman.
Ao me despedir da Débora e da Isilda, aproveitei o ensejo para adquirir três exemplares da antologia Dinossauros com fins de revenda.  Afinal, a primeira tiragem se esgotou antes que eu pudesse fazê-lo.  Urge aproveitar essa segunda leva.
Já estávamos fora do Pavilhão 4 e caminhando para a saída do Riocentro a fim de sair para jantar, eu, Erick, Felipe, Ricardo França, André Orsolon e família, quando França recebe uma mensagem da filha — que também estava na Bienal, mas se desgarrara do pai — e então deserta do nosso grupo de aventureiros.
*     *      *

Defronte ao hotel Mercure junto à saída Salvador Allende do Riocentro, pedimos e aguardamos os UBER que nos conduziriam até o restaurante Empório Santa Therezinha, na vizinhança da rua em que meu filho Erich reside.  Após cerca de meia hora de espera, com direito à defecção de vários motoristas, enfim os veículos aparecem e nos levam até o Empório.  Quando o UBER que conduzia eu, Erick e Felipe finalmente nos desova no estacionamento do restaurante e nós adentramos no estabelecimento, deparamo-nos com a família Orsolon, que ainda não havia embarcado em seu próprio UBER quando partimos do Riocentro.  Eles nos aguardavam numa mesa redonda para seis pessoas.
Uma vez acomodados, minha primeira preocupação foi escolher um vinho BBB (bom-bonito-e-barato) para acompanhar nossos pratos.  Depois de visitar a enoteca do restaurante, acabei regressando de mãos vazias ao salão principal: o que era bom no acervo da enoteca não era barato e o que tinha preço razoável estava longe de ser bom.  No entanto, uma vez no salão, bati com os olhos numa promoção dos rótulos da vinícola chilena Ventisquero: a segunda garrafa de qualquer rótulo seria vendida pela metade do preço da primeira.  Confirmei este fato com o garçom e daí selecionei o Red Blend 2018, que agradou a mim, ao Erick e ao Felipe, embora a notícia de que iríamos degustar esse tinto tenha desagradado sobremodo a Chloe, que se declarou decepcionada conosco.  Quando lhe pedi uma explicação, ela elevou sua vozinha em crítica acerba, afirmando que o álcool faz muito mal à saúde.
Enquanto André & Flávia optaram por sanduíches caprichados, a Chloe por uma massa à bolonhesa e o Felipe ainda analisava as possibilidades gastronômicas do cardápio, eu e Erick partimos esfaimados para a seleção de queijos e frios do estabelecimento.  Uma vez lá, escolhemos porções de queijo (grana padano e gorgonzola) e frios (rosbife, presunto de Parma, e salames hamburguês e milanês), além de uma pasta de bacalhau que nos pareceu apetitosa e acabou se revelando a pedida mais saborosa do jantar.
Nossos papos durante esse ágape dos deuses girou em torno dos temas mais diversos.  Daqueles que ainda me recordo, destaco os seguintes: pais idosos e suas sequelas físicas e perdas cognitivas; a apologia tecida pelo casal Orsolon em relação a uma pizzaria mítica que ambos alegaram existir num shopping na rua de trás àquele trecho da Avenida das Américas (precisamos checar as evidências concretas dessas alegações do casal com a maior brevidade possível!); a excelência dos tintos da casta Primitivo que André vem experimentando ultimamente; a noção extremamente pertinente de um repórter da Folha de São Paulo, segundo o qual, após as eleições de 2018, nosso país estaria sendo governado “pelos últimos alunos da turma”; a série Chernobyl da Netflix, elogiada pelo Erick e que a minha caçula Ursulla já vem insistindo há tempos para que eu assista; percentuais dos isótopos de urânio nas bombas atômicas e reatores nucleares; diferença entre fissão e fusão nucleares.  Tudo isto adoçado pela marra ocasional e divertida da Chloe e a admoestação do André por eu ter declarado que era só um metido a entender de vinhos.
Erick precisou nos deixar mais cedo para ajudar sua mãe e a Débora a fechar o estande da Draco lá no Riocentro.  Porém, mal nos despedimos e já adentrava no estabelecimento nosso amigo Flávio Lúcio Abal.  O papo animado reacendeu e, por muito pouco, não partíamos para uma segunda rodada de comes-e-bebes.  Para bem de nossa saúde hepática, com o beneplácito tácito da Chloe, resistimos à tentação das tentações.
Por volta das 23h30 eu e Felipe pedimos nosso UBER.  Desta vez, o veículo apareceu rápido.  Cinquenta minutos mais tarde, eu desembarcava na calçada do meu prédio.
Mais uma excursão exaustiva, pero memorável à Bienal do Livro que ocorre no extremo posto da Cidade Maravilhosa, em relação à nossa posição geográfica atual.  Agora, é pensar na Primavera Literária, evento que, como no ano passado, decorrerá nos jardins do Palácio do Catete, no bairro epônimo.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 31 de agosto de 2019 (sábado).


Participantes:
Adilson Júnior.
Ana Lúcia Merege.
André Orsolon.
Chloe Orsolon.
Daniel Braga (Canto do Gárgula).
Débora Marinho.
Erick Sama Cardoso.
Flávia Cortes.
Flávia Orsolon.
Flávio Lúcio Abal.
Gabriel Guimarães.
Gerson Lodi-Ribeiro.
Isilda Moraes.
Luiz Felipe Vasques.
Marcelo Rodrigo Pereira (Mushi).
Maria Luiza Miranda.
Maurício Falcketti.
Paulo Vinicius (Ficções Humanas).
Renata da Conceição Aquino
Ricardo França.
Victor Miranda.



[1].  Nanorresenha extraída do meu bunker de dados sobre literatura fantástica: Fome de Viver (The Hunger, 1981) – Bióloga especializada em longevidade se depara com humanoide imortal que se alimenta dos fluidos vitais humanos e mimetiza perfeitamente a humanidade para melhor predá-la.
[2].  Aliás, por conta da Bienal e doutros eventos & motivos, resolvemos adiar nossa reunião de agosto para o dia 07 de setembro.  Sábado que vem.
[3].  Nanorresenha do bunker de dados: Altered Carbon (2002) – No século XXV a humanidade se espalhou num raio de 200 anos-luz do Sistema Solar, diáspora monitorada pelo olhar vigilante das Nações Unidas.  Apesar das diferenças de raça, classe e religião ainda existirem, avanços tecnológicos redefiniram o próprio conceito de vida.  Para quem pode bancar o procedimento, a consciência humana é armazenada numa unidade cortical instalada na base do cérebro e facilmente reencarnada num corpo novo, tornando a morte nada mais que uma piscadela numa tela de computador.  Nesse cenário futurista, após uma morte particularmente dolorosa, ex-comando diplomático do Protetorado Humano, Takeshi Kovacs reencarna na Terra do século XXV, a soldo de um dos maiores bilionários do Sistema Solar, para investigar a morte anterior desse contratante.  Os problemas de Kovacs começam quando o download de sua personalidade se faz no corpo de um tira injustamente condenado a duzentos anos de virtualidade (pena máxima) por corrupção e tem que enfrentar a hostilidade da ex-namorada do sujeito, a policial responsável pela investigação do homicídio ou suicídio de seu contratante.
[4].  Inclusive, minhas noveletas “Garota-Dinossaura e os Especistas” e “Os Emissários de Nêmesis”.  Esta última noveleta, em sua segunda publicação profissional, após a publicação original na antologia Dinossauria Tropicalia (GRD, 1994), organizada por Roberto de Sousa Causo, e a primeira republicação, na minha coletânea O Vampiro de Nova Holanda (Editorial Caminho, 1998).
[5].  Outra nano do bunker: The Homecoming (1989) – Dinossauros inteligentes regressam à Terra depois de setenta milhões de anos de exploração galáctica e a descobrem ocupada pela humanidade.  Um oficial da Força Aérea é enviado como emissário do governo dos EUA para contatar os pretensos alienígenas.
[6].  The Forever War (1974) – Clássico da FC militar.  Resposta perfeita ao romance de Robert A. Heinlein Tropas Estelares.  Saga de William Mandella, recruta da Força Espacial na guerra interestelar contra os Tauranos e seus problemas de adaptação social aos modos voláteis de uma sociedade terrestre em que, por causa da dilatação temporal, passam-se décadas ou séculos enquanto apenas meses decorreram para os combatentes.  Obra-prima da literatura militar e da ficção científica.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019


Beraldo in Rio:
Império de Diamante no Vórtice Rio.

201908032359P7 — 21.575 D.V.

“Quando o monarca imortal do Império de Diamante é ferido em batalha, a situação se desintegra e a maior potência de Myambe, o continente original da humanidade, recolhe-se dentro de si mesma, propiciando revoltas por todo o império.  Neste cenário de crise, um quarteto de mercenários desempenha várias façanhas, sempre visando o lucro, porém, inadvertidamente, influindo de forma decisiva no futuro do império.”


Hoje foi dia da reunião mensal do grupo de discussão especializado em literatura fantástica Vórtice Rio.  Só que não foi uma reunião normal, mas sim nossa homenagem anual ao autor fantástico brasileiro.[1]
João Beraldo aceitou nosso convite para falar um pouco de seu romance premiado Império de Diamante.  Embora tenha sido realizada hoje, por conveniência de datas e horários, esta foi a nossa reunião mensal de julho.  No fim do mês nos reuniremos de novo para discutir outro texto do fantástico nacional.
*     *      *

Tomei um busão aqui em casa e saltei na livraria Travessa, junto à estação de metrô Botafogo, para me encontrar com o amigo Luiz Felipe Vasques.  Dali pedimos um UBER que nos deixou na rodoviária Novo Rio com uma bela meia hora de antecedência em relação ao horário estimado para a chegada do Beraldo.  Enquanto aguardávamos o autor homenageado, conversamos sobre corrupção nas esferas municipal e federal, dando nomes aos bois, e analisamos as questões científicas inovadoras subjacentes nos enredos dos romances Blindsight (2006) e Echopraxia (2014), ambos do Peter Watts, que constituem a duologia Firefall.  Concordamos que, embora as ideias desse autor sejam geniais  — de vampiros científicos que evoluem e se extinguem pelas leis da seleção natural, só para serem recriados pelas artes da gengenharia de fins do século XXI até o primeiro contato traumático da humanidade com alienígenas inteligentes, mas desprovidos de autoconsciência — o andamento das duas narrativas é um tanto arrastado.
Beraldo desembarcou na Novo Rio dez minutos antes do horário previsto de 13h00.  Dali caminhamos por uns cinquenta ou setenta metros, até a estação Rodoviária do VLT e embarcamos na linha com destino ao aeroporto Santos Dumont.  Coisa de meia hora mais tarde, após um passeio aprazível e algo turístico (não obstante o tempo feioso) por regiões antigas (algumas das quais revitalizadas) do Rio, desembarcávamos na Avenida Rio Branco, próximo ao Edifício Avenida Central.  Ao longo dessa viagem, conversamos sobre as séries fantásticas Penny Dreadful, As Crônicas de Frankenstein e a sensacional minissérie britânica de ficção científica política, Years and Years, que estou assistindo e recomendo com o máximo empenho, pois é atualíssima em relação aos últimos acontecimentos políticos brasileiros, britânicos e norte-americanos.
Dirigimo-nos ao Avenida Central sob uma chuvinha fina nesta tarde nublada de inverno.  Lá encontramos o esperado restaurante ainda aberto em plena tarde de sábado, ocorrência relativamente incomum no Centro da Cidade.  Depois de uma análise acurada das opções gastronômicas do cardápio, nós três acabamos resolvendo pelo mesmo prato, espaguete à parisiense (com molho branco, frango desfiado, bacon, champignon e gratinado), que se revelou simples, saboroso e na quantidade certa.  Ainda no quesito coincidências, eu e Felipe descobrimos que estávamos com o mesmo título em nossas mochilas, A Verdadeira História da Ficção Científica (Pensamento-Cultrix, 2018), do Adam Roberts.  Conversamos um bocado sobre as teses heterodoxas desse autor e estudioso quanto à origem histórica do gênero e a qualidade da tradução presente para o português.  Tópicos candentes que nos levaram à própria definição do que seria ficção científica.  Também especulamos sobre as prováveis diferenças cognitivas existentes entre neandertais e humanos anatomicamente modernos e sobre as contribuições genéticas que herdamos desses nossos primos extintos.
Saímos do restaurante rumo ao Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, um quarteirão distante do Avenida Central, por volta das 14h45, pois Ricardo França e Juliana Berlim haviam postado que já se encontravam no local.
*     *      *

Foi um evento em petit committee, pois vários membros tradicionais assíduos — como Renata Aquino, Flora Pinheiro, Adilson Júnior e Diego de Souza — não pudessem comparecer.  Mesmo assim, como todas as reuniões do Vórtice em que se discutiu a obra com o autor presente, esta reunião de julho em agosto para abordar Império de Diamante, do J.M. Beraldo, foi de alto nível e uma das mais saborosas de que participei nestes últimos quatro anos.
Demos início aos trabalhos assim que Mayra Braga chegou ao CC-CEF.  Embora Beraldo já fosse conhecido da maioria dos presentes, como rezam as tradições da vorticidade, falei um pouco do autor, lembrando a ocasião em que o conheci, durante a Semana Jules Verne, patrocinada pela PUC-RJ em 2005; da época em que trabalhávamos juntos no departamento de universo ficcional da Hoplon Infotainment, na elaboração do jogo massivo online Taikodom; de seus romances de ficção científica Véu da Verdade (Eridanus, 2005)[2] e Taikodom: Despertar (Devir, 2008)[3]; e do universo ficcional de fantasia que se iniciou com o romance abordado este mês.
Com a palavra, Beraldo delineou os passos para o estabelecimento desse U.F. Reinos Eternos, caminhada iniciada no fim da década passada, época em que ele ainda residia em Florianópolis e trabalhava na Hoplon.  Falou do mapa instigante que ilustra a edição impressa do romance.  Neste ponto, Mayra lamentou que o mapa não se expandia legal na edição em ebook do seu Kindle.  Beraldo também destacou os estudos da historiografia dos povos africanos que precisou empreender para escrever o romance, bem como os elementos indianos e asiáticos presentes nas narrativas desse U.F.  Ainda deu uma palinha sobre os dois romances que se seguem a esse primeiro, Último Refúgio (Draco, 2016), finalista ao Argos 2017 na categoria melhor romance, e o terceiro livro, ainda sem título definitivo, no prelo da mesma editora.  Embora ainda não tenha lido esses dois romances, por conversas com o autor, tanto em certames anteriores quanto hoje à tarde, percebi que, ao contrário do que ocorre em Império de Diamante, nessas narrativas a ação é ambientada noutros continentes que não Myambe.
Em sua primeira participação no Vórtice, Luiz Felipe conduziu o papo para um de seus objetos de estudo favoritos, a questão do worldbuilding, aplicada ao Reinos Eternos.  Provocação que nos levou a comparar esse universo ficcional a vários outros da fantasia, dentre os quais a Terra Média, de J.R.R. Tolkien, e a Canção de Gelo e Fogo, do George R.R. Martin.  Tais comparações nos levaram a abordar o paradigma do iceberg em termos de conteúdo do universo ficcional: nove décimos dos elementos desenvolvidos para enriquecer a narrativa deveriam ser mantidos não só no background, mas, de preferência, fora no texto publicado.
Beraldo nos contou sobre seus trabalhos passados e atuais na indústria de jogos digitais, falou-se um bocado de RPG, Dungeons & Dragons e outros que tais.  Também conversamos bastante sobre a adaptação de romances para filmes e séries, o que nos conduziu, naturalmente, às já legendárias diatribes de Stephen King e Alan Moore.  Citei que a adaptação mais perfeita e enxuta que já vi foi a do romance A Mulher do Viajante no Tempo (original: 2003; edição brasileira: Objetiva, 2009), da Audrey Niffenegger, no filme homônimo de 2009, lançado no Brasil sob o título piegas de Te Amarei para Sempre.  Aliás, a narrativa de viagem temporal mais bem amarrada que já li e assisti.  Falamos também dos pitacos do King nas capas das edições brasileiras de seus livros.  Discorremos por alguns (ou muitos) minutos sobre a crise do mercado editorial brasileiro e o fenômeno de logística Amazon Brasil, sobretudo no que tange à literatura fantástica nacional.
Por volta das 18h30 começamos a nos movimentar para encerrar o evento.  Porém, todos sabem como esses bate-papos hipersuperanimados sobre narrativas fantásticas custam a perder o embalo: deixamos o segundo piso do centro cultural, mas levamos uma boa meia nas despedidas junto à porta do prédio da CEF.  Ali, o papo divagou para aqueles autores que escrevem ficção científica mas não se assumem como escritores do gênero, inspirado por nossa escolha para a leitura de dezembro próximo, o romance de história alternativa, Máquinas como Eu (Companhia das Letras, 2019), do Ian McEwan.  Daí, Felipe lembrou do Kurt Vonnegut e eu da Doris Lessing, nobelista e autora da série Canopus em Argos.  Daí, citei que o melhor texto que já li dessa autora não tem nada a ver com literatura fantástica.  É a novela The Grandmothers (2003), publicada no Brasil pela Companhia das Letras em 2013, por ocasião do lançamento do filme nela baseado Amor sem Pecado (título original: Adoration).  É a história pungente e bem escrita de duas mulheres australianas, amigas de infância que, nutrindo uma paixão recolhida mútua, tornam-se amantes uma do filho adolescente da outra, em relacionamentos cadentes que o quarteto mantém durante uma década e meia, até os rapazes se casarem e se tornarem pais (daí o título do romance), em meio à vida tranquila de uma cidadezinha praiana do sul da Austrália.

Mayra Braga, Juliana Berlim, Luiz Felipe Vasques, João Marcelo Beraldo, Ricardo França.

Felipe, Juliana, GL-R, Beraldo, Mayra, Ricardo França (recurso tecnológico da "mãozinha").



*     *      *

Em torno das 19h00, já estávamos caminhando pela Rio Branco, quando Beraldo verificou que seu embarque para São Paulo não seria às 20h00, mas sim, às 19h30 e que, portanto, não seria viável seguir para a rodoviária de VLT, ainda mais porque a próxima composição só passaria dentro em dez minutos.  Felizmente, havia um táxi vazio dando sopa na esquina da Rio Branco com a Almirante Barroso.  Ele logrou pegar esse táxi e embarcar no ônibus rumo a Sampa, segundo soubemos pelo WhatsApp, “por um triz”.
Na vinda para casa de metrô, Felipe me contou nuances e detalhes de uma série de ficção científica instigante, Humans: um presente alternativo em que as pessoas já contam com androides nos lares e no trabalho para executar as tarefas que humano orgânico algum se disporia a fazer.  Fiquei muito interessado em assistir as três temporadas dessa série (2015, 2017 e 2018, vinte e quatro episódios no total). Saltando do metrô na estação Botafogo, tomei o ônibus da integração para o Jardim Botânico.  Nessa segunda perna do regresso para casa, retomei a leitura de A Verdadeira História da Ficção CientíficaQuando cheguei em casa, procurei no IMDb, no NOW e no Netflix, mas, ao que parece, não está disponível.  Tentarei baixá-los da internet.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 03 de agosto de 2019 (sábado).




Participantes:
Gerson Lodi-Ribeiro.
João Marcelo Beraldo.
Juliana Berlim.
Luiz Felipe Vasques.
Mayra Braga.
Ricardo França.




[1].  Na verdade, era para ser anual, mas, desde 2015 até hoje, só conseguimos fazer três dessas homenagens: na primeira, em julho de 2015, eu fui o convidado, com Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014) e acabei ingressando nesse grupo de discussão.  Na segunda, em agosto de 2016, convidamos o Alexey Dodsworth, com Esplendor (Draco, 2016).  Finalmente, hoje, recebemos o João Marcelo Beraldo para discutir Império de Diamante (Draco, 2015).  Reparem que esses dois últimos trabalhos se sagraram vencedores na categoria Melhor Romance do Prêmio Argos, respectivamente, em 2017 e 2016.
[2].  Resenha registrada em meu bunker de dados (livros lidos): “Em universo ficcional onde os humanos são os párias da periferia galáctica, nave estelar obsoleta tripulada por humanos e alienígenas trafega pelos sistemas próximos conduzindo cargas e passageiros e se metendo em encrencas, enquanto o pau come entre as diversas potências terrestres e um caçador de recompensas com poderes paranormais anda à caça do comandante da nave (leitura concluída em 26 de março de 2006).
[3].  Idem acima: Primeiro romance da Coleção Taikodom com histórias, enredos, ambientações e personagens do universo ficcional desenvolvido para a Hoplon Infotainment para o MSG homônimo.  Narrativa de dois pilotos brasileiros da União do Centro colocados sob animação suspensa pouco após a Restrição da Terra, que despertam 150 anos mais tarde e são obrigados a se adaptar ao presente hipertecnológico do Taikodom, tomando partidos antagônicos no período formativo do Consortium.  Introdução, orelhas e quarta capa escritos por Gerson Lodi-Ribeiro (leitura concluída em 07 de novembro de 2008).