sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 

Escribas da Cinelândia

 

“Além de pseudociência, Psicanálise é uma religião.”

 

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Compareci hoje à noite no vigésimo encontro do Escribas da Cinelândia, grupo formado a partir de uma oficina literária da qual os membros fundadores participaram anos atrás.

O convite para participar do evento me foi feito por Anderson dos Santos Costa, amigo que conheci no fórum de assuntos gerais da antologia Fronteiras Siderais (Mundo, 2025), de que ambos participamos no ano passado.[1]

Ainda um pouco atrapalhado com meu pé direito convalescente, mas já liberto tanto da bota ortopédica quanto da bengala, saí de casa lépido como uma gazela de pata quebrada por volta das 18h20, consegui pegar o UBER sem problemas e, como o trânsito estava bom, cheguei lá no horário marcado das dezenove horas.  Leitura de bordo: noveleta de história alternativa “George Patton Slept Here”, de Roland J. Green, presente na antologia Alternate Generals II (Baen Books, 2004), organizada por Harry Turtledove & Martin H. Greenberg.

Saltei do veículo distante cem metros do Amarelinho, restaurante carioca legendário no qual os Escribas se reúnem mensalmente, e precisei caminhar até lá.

Já presentes à mesa do Escribas quando entrei no salão interno do restaurante, estavam, além do Anderson: Bruno Nogueira; Leo Azevedo; Daniel Silos; Carol Engel; João Gouvêa; para além de uma pilha de livros de quase meio metro de altura, entre romances e coletâneas de minha própria lavra e antologias de que organizei ou participei.  Descobri que a pilha pertencia ao Anderson.  Imagino que eu talvez devesse ter autografado os livros, mas o fato é que, em meio ao bate-papo animado, acabei esquecendo de indagar a respeito.  Enfim, se for o caso, ficará para a próxima ocasião.

Levei seis dos meus livrinhos para dar de lembrança aos novos amigos e foi a conta certa para os seis escribas que já se encontravam presentes.  Como primeiro a escolher, Anderson ficou com a coletânea Os Humanos Estão Chegando, com contos ambientados no U.F. Aeternum Sidus Bellum.  Daniel escolheu a noveleta de história alterativa de cunho ufológico O Preço da Sanidade.  João ficou com o romance de ficção científica Estranhos no Paraíso.  Carol escolheu um dos exemplares da Fronteiras Siderais.  O outro exemplar dessa antologia e a coletânea Histórias de Ficção Científica por Carla Cristina Pereira, que reúne as narrativas publicadas originalmente sob meu pseudônimo feminino, ficaram para o Bruno e o Leo, embora eu não consiga precisar qual dos dois ficou com a coletânea e com a antologia.

Autografei os livros para os amigos e o Anderson também autografou nos dois exemplares da nossa antologia.

Ao longo do evento, chegaram dois outros escribas: Athos Silva e Marcela Guimarães.  Infelizmente, não restaram exemplares para lhes ofertar.


Escribas da Cinelândia (sentido horário): Anderson; Bruno; Leo;
Daniel; Marcela; Carol; João; GL-R; Athos; e a pilha de livros.


***

 

Pela posição que ocupei na mesa, acabei conversando mais com Anderson, Bruno, Athos e João.  Ao longo de três horas de bate-papo divertido e estimulante, logrei vislumbrar uns poucos lances fugidios do jogo Botafogo x Volta Redonda pela terceira rodada do campeonato carioca que rolava – felizmente sem som – numa TV de tela plana do outro lado do salão em que nos reunimos.  A partida transcorreu no Nilton Santos.  Estreia da equipe principal do Glorioso na competição.  Placar final: Fogão 1x0, com um belo gol de Montoro por volta dos vinte minutos da etapa final.

Voltando ao que interessa, antes de mais nada, fui sabatinado por meus novos confrades com três questões cruciais, que encarei como ritual de iniciação.

Primeira questão: De que filme eu gostei mais: 2001: Uma Odisseia no Espaço ou O Senhor dos Anéis.  Respondi 2001.  Porque, embora não seja meu filme de FC predileto, é ficção científica.  Ao passo que a megassaga do Tolkien é apenas a minha narrativa de fantasia épica favorita em qualquer mídia.

Rogo que meus parcos leitores eventuais perdoem este cronista relapso e senil, pois que me esqueci qual foi a segunda pergunta.  Mas, juro que a terceira foi: Lula ou Bolsonaro?  Disparei à queima-roupa: nenhum dos dois.

Além dos filmes e livros de ficção científica e gêneros correlatos abordados amiúde, conversamos sobre filosofia, assunto no qual tanto Athos quanto Bruno teceram considerações instigantes.  Graduado em Filosofia e servidor público da Prefeitura do Rio de Janeiro, Bruno comentou sobre os males da corrente filosófica do relativismo, que nega a existência de verdades ou valores morais universais.  Ao passo que Athos – que é doutorando em Astronomia – apresentou argumentos relevantes, não só sobre esse tema filosófico, mas também sobre outros.  Falamos sobre Trump, religião, pseudociência (inclusive, sobre a psicanálise e a fúria que Carlos Orsi e Natalia Pasternak provocaram na comunidade psicanalítica brasileira com suas críticas pertinentes e certeiras àquela prática pseudocientífica em particular)[2], os males do fanatismo político (que, em seus extremos, assemelha-se um bocado ao religioso), bolsonaristas em nossas respectivas famílias; questões demográficas associadas à superpopulação e soluções eventuais para esse problema através da educação.

Quando mencionei que residia no Jardim Botânico, alguém me perguntou, creio que foi o João, se meu bairro sofria muitos problemas de enchentes e alagamentos durante as chuvas de verão.  Expliquei que sim, mas nem tanto.  O que ocorre de fato é que a Central de Jornalismo da Rede Globo se situa no Jardim Botânico e, quando chove muito, a água sobe e as equipes jornalísticas não conseguem sair de sua base, o jeito é gravar matérias em torno de sua sede mesmo.  Além disso, recitei o que todo residente deste bairro está farto de saber: quando a maré está baixa, pode chover desabar um dilúvio bíblico que os rios e canais do bairro irão desaguar direitinho na Lagoa Rodrigo de Freitas sem o menor problema e as ruas não vão encher.  Por outro lado, em momentos de maré alta, uma chuva relativamente moderada pode transformar nossas ruas em rios e os rios dos Macacos e Cabeças em genuínas Cataratas do Iguaçu.

Lá pelas tantas, seguindo a sugestão e, sobretudo, o exemplo do Anderson, resolvi encarar um sanduíche parrudo de filé-mignon guarnecido com uma montanha de batatas fritas.  Segundo João, Anderson teria uma sociedade com o Amarelinho e sugeriria aquele prato para todo mundo.  Graças à gentileza do Leo, que correu atrás do garçom para esclarecer que eu não queria abacaxi no sanduíche, a refeição se mostrou gostosa, aplacou minha fome e a conta não saiu caro.

Ao examinar um exemplar da antologia Erótica Fantástica 1 presente na pilha do Anderson, Marcela me perguntou se não houve um segundo volume.  Expliquei que, quando organizei aquela antologia para a Draco, coligi muitas histórias boas.  Daí, o livro ficou muito grande e precisou ser dividido em Erótica Fantástica 1 e Erótica Fantástica 2.  Infelizmente, somente o primeiro volume foi lançado como livro físico.  No entanto, os contos do segundo volume acabaram disponibilizados separadamente sob a forma de e-books na Amazon.  Não resisti ao ensejo e revelei que essas duas antologias (ou essa antologia dividida em duas) descendem de uma iniciativa pretérita, mais genial e inovadora (modéstia às favas), a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002), antologia que organizei para a editora da qual foi sócio mais de duas décadas atrás.  Como os presentes jamais haviam ouvido falar na Gostosa![3] (forma carinhosa & caliente pela qual essa iniciativa foi apelidada à época), prometi presenteá-los com exemplares dessa antologia seminal (com ou sem trocadilho, a critério do leitor) em nosso próximo encontro.

***

 

João me contou que possui um canal de YouTube, o Literanalise, onde veicula seus insights literários e matérias com autores e antologistas insignes, inclusive, uma entrevista com Italo Morriconi, o organizador da antologia magistral Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Objetiva, 2009).

Quando alguns amigos precisaram partir mais cedo, a mesa comprida ficou menor e pude conversar um pouco com Carol.  Ela contou que é dona da editora Janela Amarela, especializada em resgatar obras esgotadas de autoras brasileiras que não deveriam ter sido esquecidas.  Explicou que, muitas vezes, o mais difícil é encontrar um exemplar das edições originais, pois a maioria deles foi publicada em épocas em que o depósito legal na Biblioteca Nacional ainda não era exigido.

Ao perceber a curiosidade salutar dos meus novos amigos a respeito de algumas figuras legendárias da literatura fantástica brasileira, não sem certa relutância, acabei concordando em responder suas perguntas ávidas.  Infelizmente, por questão estatutária, lavrada como cláusula pétrea, nessa agremiação da qual pretendo fazer parte, a maioria dos segredos revelados nas reuniões dos Escribas da Cinelândia devem permanecer restrita às mesas de madeira escura daquele restaurante egrégio.  Contudo, posso adiantar ter revelado a ocasião em que recebi uma reprimenda de Jorge Luiz Calife por não o ter convidado a participar da Gostosa!, lapso que sanei in abruptu com um convite, a pronta aceitação de seu conto e a publicação na antologia referida.  Também apresentei estudos de personalidade resumidos de representantes ilustres da FC&F lusófona e, à guisa de orientação de sobrevivência, esclareci muito en passant as divisões ideológicas atuais presentes na literatura fantástica brasileira.

Quando o Leo ou o Bruno me perguntou se eu gostava de ficção científica humorística, respondi que sim, desde os tempos em que os livros do Douglas Adams foram publicados pela primeira vez em nosso país na década de 1980 pelo selo Circo das Letras da editora Brasiliense.  Aproveitei o ensejo para divulgar o romance Onde Kombi Alguma Jamais Esteve (edição do autor, 2019) do meu amigo dileto Gilson Luís da Cunha.  João indagou e eu confirmei: sim, é o livro que ganhou o Prêmio Argos 2020.  Aliás, naquele mesmo ano, Gilson também venceu na categoria Ficção Curta com a bela noveleta “A Mulher que Chora”.

A pilha de livros do Anderson...



***

 

Enfim, por volta das vinte e duas horas e vinte e poucos minutos, começamos a mobilizar nossas forças para deixar o Amarelinho.  Como já havíamos quitado as comandas coisa de uma hora antes, caminhamos até a frente do restaurante, de onde pedi meu UBER.  O veículo até que se prontificou rápido, mas precisei caminhar até defronte ao Teatro Municipal para embarcar.  Felizmente, Anderson e Daniel me escoltaram até lá.

A viagem de volta para casa foi ainda mais curta e mais barata do que a de ida.  Leitura de bordo: “George Patton Slept Here”.

Resumo da Ópera: gostei muito do pessoal dos Escribas da Cinelândia.  No que depender de mim, vou me tornar freguês.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2026 (quarta-feira).


Participantes:

Anderson dos Santos Costa.

Athos Silva.

Bruno Nogueira.

Carol Engel.

Daniel Silos.

Gerson Lodi-Ribeiro.

João Maselli Gouvêa.

Leo Azevedo.

Marcela Guimarães.



[1].  Anderson com o bom conto “Em Modo Automático” e eu com “Batismo de Fogo”, noveleta ambientada no mesmo universo ficcional Humanosfera do romance Quando Deus Morreu e da trilogia Labirintos de Knossos.

[2].  Entusiasmado, cheguei ao desatino de comentar de bate-pronto (postura não recomendada em primeiros contatos com novos amigos ou civilizações alienígenas) que a proposta freudiana de ego, id e superego carece de qualquer embasamento científico.  Aliás, já que é pra chutar o pau da barraca, no que me diz respeito, em termos de tríades capazes de nos ajudar a compreender o funcionamento da mente humana, prefiro mil vezes a teoria do cérebro trino, proposta por Paul MacLean e popularizada por Carl Sagan, que sugere que o cérebro humano exibe três camadas distintas: o complexo R (cérebro reptiliano), responsável pelos reflexos e comportamentos instintivos; o sistema límbico (cérebro emocional), responsável pelas emoções, memória, motivações e estabelecimento de laços sociais; e o neocórtex (cérebro racional), associado à linguagem, ao pensamento abstrato, à lógica, à criatividade e ao planejamento.  Essa teoria constitui uma simplificação?  Com certeza.  No entanto, explica o funcionamento da mente humana bem melhor do que esse papo pra lá de careca de ego-id-superego.

[3].  Costumo brincar falando a sério, quando afirmo que a historiografia da Ficção Científica Brasileira é uma arqueologia de Civilizações Perdidas...