terça-feira, 16 de julho de 2019


Casa Fantástica

na

FLIP 2019:


Dia 01 — 201907101325P4 — 21.551 D.V.

“Partiu, Paraty II, a Missão!”



Com nossas malas e bagagens de mão arrumadas de véspera, acordamos hoje às 04h00 para tomar o desjejum sem atropelos e nos deslocarmos até a rodoviária para viajar a Paraty, para assistir e participar das mesas-redondas, palestras e eventos que ocorrerão nos próximos dias sob os auspícios da Casa Fantástica, por ocasião da décima-sétima Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP 2019.

Durante o café da manhã, baixamos a edição digital de O Globo para ler durante a viagem de ônibus.

A fim de participar desse evento sem preocupações ou sentimento de culpa, solicitei a antecipação de cinco dias das minhas férias, aquelas mesmas que precisei adiar e que deverei remarcar tão logo a aposentadoria da Cláudia seja publicada no Diário Oficial da União.

Pedimos um UBER que nos pegou à porta de nosso prédio e nos conduziu à em segurança à Rodoviária Novo Rio pela madrugada escura e estrela deste inverno carioca, chegando lá em menos de quinze minutos.

Uma vez no terminal rodoviário, rumamos até o guichê da empresa Costa Verde, onde um funcionário da empresa retirou nossas passagens de ida e de volta para Paraty, que já havíamos adquirido coisa de quinze dias atrás pela internet.  Como havíamos chegado cedo, sentamo-nos próximos ao portão de embarque para aguardar o ônibus e nos dedicamos ao prazer da leitura por quarenta e cinco minutos prazerosos.  Leitura de espera: A Verdadeira História da Ficção Científica (Pensamento-Cultrix, 2018), do Adam Roberts, autor e estudioso do gênero que esgrime não sem certo brilhantismo e originalidade a tese heterodoxa, segundo a qual a gênese da ficção científica se teria dado no século XVI por causa da Reforma Protestante.  Como me encontro no capítulo um desse livro parrudo, ainda que um tanto céptico, resolvi conceder o benefício da dúvida sob condição resolutória à tese aparentemente estapafúrdia.

Durante essa espera, constatei que o aplicativo bloco de notas do meu celular está exibindo um defeito sui generis.  Cada nota se multiplicou alguns milhares de vezes e agora há cerca de trinta mil notas no aplicativo.  Num cálculo rápido, estimei que levaria pelo menos dez horas para deletá-las uma a uma.  Deve haver um método mais inteligente e prático de deletar tudo de uma vez, só que ainda não consegui descobri-lo.[1]

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Prevista para se iniciar às 07h00, a viagem começou com vinte minutos de atraso.  Em nossa parada às 08h50, lá pela altura de Itaguaí ou Coroa Grande, o motorista resolveu compensar, decretando que só permaneceríamos no restaurante de beira-de-estrada por quinze minutos.  Nessa parada, comemos pães-de-queijo e tomamos café preto.  O ônibus era climatizado e o ar-condicionado estava funcionando a contento.  Nem eu, nem Cláudia tiramos nossos casacos, pois o inverno no Rio de Janeiro chegou firme e forte nesta semana.  Dediquei o primeiro terço de nossa viagem à leitura da edição digital do jornal.  Então, atirei-me ao romance de ficção científica Blindsight (Tor Books, 2006), que consegui terminar meia hora antes de chegarmos a Paraty.  Uma narrativa tensa de primeiro contato entre humanos dotados de implantes bionanotecnológicos e uma espécie alienígena inteligente, porém desprovida de autoconsciência, em plena nuvem de Oort do Sistema Solar em fins do século XXI.  Instigante e original, mas com personagens com motivações para lá de mal explicadas.

Desembarcamos no terminal rodoviário de Paraty às 11h55, após quatro horas e trinta e cinco minutos de viagem, incluindo a parada técnica.

Recobramos nossas malas e nos dirigimos ao ponto de táxi da rodoviária.  A tarifa única sem taxímetro para o entorno do centro histórico continua sendo de vinte e cinco reais, como no ano passado.  Desta vez, nossa pousada não se localiza dentro desse centro histórico.  Em compensação, é bem melhor do que a do ano passado e as diárias foram mais baratas.

Chegando à Pousada Paisagem, fizemos o check-in com o funcionário Flávio, que nos conduziu ao quarto 221, situado no segundo piso do prédio anexo da pousada.  Verificamos o sinal de WiFi e demais comodidades de nossa habitação temporária, e colocamos nossos celulares e tablets para recarregar.  Liguei meu notebook pela primeira vez desde o fim de abril e ele exibiu certa resistência, ansioso por atualizar todos os seus pacotes de dados e programas antes de se dignar a permitir que eu iniciasse esta crônica, mas acabou se reconfigurando a ponto de me facultar a abertura do arquivo em que escrevo o texto presente.

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Saímos a pé da pousada, caminhando por um calçadão paralelo à margem do rio Perequê-Açú por cerca de oitocentos metros, até uma ponte que, uma vez cruzada, deixou-nos no fim da Rua do Comércio, onde se situa a Casa Fantástica.  Esse calçadão possui uma ciclovia segregada da pista para pedestres.

Caminhamos devagar por essa via de seixos rolados por uns quatro ou cinco quarteirões, até alcançar o número 90, sede da literatura fantástica brasileira na FLIP 2019.  No caminho, já de olho nos restaurantes em que poderíamos almoçar, cruzamos a Rua do Rozário, onde se situava a Casa Fantástica do ano passado.  Enfim, após uns duzentos metros de avanço vagaroso, encontramos a Casa Fantástica 2019.

Lá encontramos a Priscilla Lhacer, publisher da editora Presságio e organizadora da Casa Fantástica, o Raphael Fernandes, sócio e braço forte de Erick Santos Cardoso na Draco, e o Mário Bentes, publisher da editora Lendari.

Conhecemos as instalações da Casa Fantástica deste ano e conversamos um pouco com os amigos sobre nossas jornadas para Paraty e sobre a crise do comércio de livros no país.  Aproveitei o ensejo para deixar uns poucos exemplares de minha coletânea Histórias de Ficção Científica de Carla Cristina Pereira (Draco, 2012) e de meus romances A Guardiã da Memória (Draco, 2011) e Octopusgarden (Draco, 2017) no estande da editora, com o Raphael.  Quanto aos três exemplares que eu trouxe da antologia Fractais Tropicais (SESI-SP, 2018)[2], organizada pelo Nelson de Oliveira, finalista do Prêmio Argos 2019, nem serão postos à venda, pois Priscilla, Raphael e Mário já os compraram.

A verdade é que, por causa do volume ocupado na mala pelos três troféus do Prêmio Argos (categorias Melhor Romance, Melhor Conto e Melhor Antologia/Coletânea), não restou muito espaço para trazer livros à Casa Fantástica deste ano.  Uma pena, porque faturei uma graninha boa com as vendas do ano passado.  Enfim, tudo e mais um pouco pela causa.

Mais leves com a desova dos livros, despedimo-nos dos amigos por hoje e fomos à caça de um restaurante, pois já estávamos verdes de fome.

Voltamos pela Rua do Comércio até a Rozário, onde dobramos à direita, em direção à praia, em busca do restaurante Banana da Terra, especializado em frutos do mar.  Tentamos jantar nesse estabelecimento bem avaliado no ano passado, mas a casa estava lotada.  Para nossa surpresa, o Banana da Terra fechou às portas.  Desalentados, regressamos pela Rozário, mas dobramos à direita antes de chegar à Comércio.  Desembocamos na Praça da Matriz e dali seguimos até o restaurante Prosa, que Cláudia havia pesquisado no TripAdvisor.

Um funcionário do Prosa veio nos buscar literalmente no meio da rua, detalhando as iguarias do cardápio e nos convencendo a experimentá-las; a tarefa não foi das mais difíceis, considerando no estado de fome terminal.

Sentados numa mesa no fundo do restaurante, ilhota de penumbra aconchegante em meio a esta tarde ensolarada de inverno, pedimos casquinhas de siri de entrada e pratos executivos como principal: medalhão de filé mignon com fettuccini para mim e filé de peixe com purê de batata baroa para a Cláudia, repasto regado à água com gás e uma garrafa do vinho verde rosé QPA.  Foi a primeira vez que degustamos um vinho verde vinificado como rosé.  Para minha surpresa, embora não curta os verdes, Cláudia apreciou esse vinho fresco e fácil de beber.

Do Prosa, seguimos para a grande tenda de livros da Travessa, montada em frente ao restaurante, onde namoramos um monte de títulos apetitosos, mas, com a casa repleta de volumes e já comprometidos com a filosofia do livro digital, só compramos mesmos dois títulos para nossa filha Ursulla.


Vinho Verde Rosé: novidade saborosa!

Rua de seixos rolados no Centro Histórico de Paraty.


Ponte sobre o rio Perequê-Açú I.

Ponte sobre o rio Perequê-Açú II.


Almoço no Dia 1 no Prosa na Praça.

Anoitecer na ponte sobre o Perequê-Açú.






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Dali seguimos até a sorveteria Pistache, na esquina de Rozário com Comércio.  Sorvetes self-service deliciosos!  Escolhi os sabores pistache e chocolate com laranja, enquanto a Cláudia pegou limão, jabuticaba e chocolate 70%.  Havia um rapaz que se afirmou aficionado por ficção científica na Pistache, mas julguei melhor não puxar papo naquele instante.

Da sorveteria, começamos a voltar para a pousada, sem pressa, parando num ponto turístico ali, uma loja acolá, olhando vez por outra cardápios e preços, à procura de lugares para comer nos próximos dias.  Afinal de contas, a melhor ocasião para fazer esse tipo de pesquisa preliminar é quando estamos com os estômagos satisfeitos.

Por volta das 18h30, já noite cerrada, pegamos o mesmo calçadão da ida para enfim regressar à pousada e ao descanso merecido.

Pousada Paisagem, Paraty, 10 de julho de 2019 (quarta-feira).





Dia 02 — 201907110740P5 — 21.552 D.V.


“Em termos de plausibilidade científica, os cenários otimistas das narrativas solarpunks fazem todo o sentido do mundo.  Porque, do jeito como a civilização humana vem caminhando, não há como imaginar a continuidade da vida humana na Terra daqui a cinquenta ou cem anos sem assumir que algo irá melhorar bem antes disso.”



Acordamos hoje às 06h00 e, como o desjejum na pousada só abriria às 08h00, baixei a edição digital do jornal e comecei a lê-lo em jejum.  Esses hotéis e pousadas que só iniciam seus serviços de café da manhã lá pelas tantas baratinam um bocado a rotina matinal deste povinho que tem mania de acordar cedo…

Na dúvida entre dar uma última ensaiada na minha fala de abertura que apresentarei às 10h00 ou ler o jornal para relaxar, acabei optando pela segunda alternativa.

Ah, o café da manhã!  Um mês hospedado numa pousada aprazível como esta e eu não voltaria para o Rio andando, mas sim rolando.  Ovos mexidos com salsichas.  Fatias de lombo canadense e mozzarella dentro de um pão quentinho.  Café preto e suco de laranja.  Tudo do bom e do melhor.  Depois de saborear isto tudo, repetir e “trepetir” o que estava mais gostoso.

Após esse lauto desjejum, voltamos ao quarto e ainda tive tempo de concluir a leitura do jornal antes de caminharmos até a Casa Fantástica.

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Desta vez levamos apenas vinte minutos para ir a pé da pousada até a Casa Fantástica.  Dez minutos no calçadão que beira o Perequê-Açú e outros dez para caminhar pela Rua do Comércio, da ponte até o número 90.  Quando passamos pela Casa Folha, próximo à Igreja da Matriz, no início da Comércio, deparamo-nos com uma fila imensa, que se estendia por cerca de cem metros, até a Igreja do Rozário, para assistir não sei bem que atração prestes a rolar naquela casa.

Porém, como o nosso barato é literatura fantástica, não paramos para conferir o oba-oba e chegamos lá na Casa Fantástica, cerca de meia hora antes do evento, com um tempinho para colocar os pensamentos no lugar e conversar com os amigos presentes.

Minha fala de abertura, como todas as palestras e mesas que virão depois, aconteceu sob um telheiro acolhedor instalado aos fundos da edificação histórica que sedia a Casa Fantástica desta FLIP 2019.

Para minha alegria e surpresa, apesar de estarmos na manhã do primeiro dia de Casa Fantástica, quando comecei minha fala com meros cinco minutos de atraso, já havia cerca de vinte pessoas na plateia e ao fim do evento, chegamos a ter um público presente superior a trinta pessoas.  Semanas atrás, Priscilla já havia alertado que a nova Casa Fantástica não disporia de projetor e telão para exibir apresentações em PowerPoint.  Tudo bem.  Mesmo assim, levei meu tablet e planejei uma espécie de “PowerPoint de pobre”: eu consultaria a apresentação que preparei, just in case, e, sempre que pertinente, mostraria à plateia capas de livros e cartazes de filmes citados.

Priscilla Lhacer deu as boas-vindas ao público presente nesta manhã ensolarada de quinta-feira e em seguida me passou a palavra.  Apresentei-me como escritor e antologista de ficção científica em geral e história alternativa em particular, explanando uma definição brevíssima do subgênero da H.A. e exemplificando, por mera travessura, com o cenário da vitória paraguaia na Guerra da Tríplice Aliança.

Usei uma versão atualizada e turbinada da apresentação em PowerPoint Ficção Climática & Solarpunk, que mostrei no SESC-Santos em 2017.  Em termos de número de telas, essa nova versão é cerca de dez por cento maior do que a original.  Na introdução, falei da importância da ficção ecológica num país e num mundo onde tantos negam a realidade científica do aquecimento global antropogênico.  Na apresentação propriamente dita, expus os conceitos de ecoficção, ficção climática e ficção científica climática, bem como seu subgênero literário, o solarpunk.  Ilustrei o conteúdo com exemplos literários e cinematográficos de ficções climáticas.  Nas narrativas literárias, citei trabalhos de ficção especulativa e mainstream.  Em seguida, falei dos enredos clássicos de ficção climática, das antologias temáticas que reúnem a melhor ficção curta do subgênero, e então passei para os enredos recentes, com ênfase a trabalhos de Kim Stanley Robinson, Ursula K. Le Guin, Robert Silverberg, Paolo Bacigalupi, Margaret Atwood, Gregory Benford, Charlie Jane Anders e outras feras da ficção científica anglo-saxã.  Daí, apresentei o solarpunk como movimento cultural e subgênero literário, não resistindo à tentação de citar a coletânea City (1951), de meu autor predileto, Clifford D. Simak, como uma narrativa solarpunk avant la lettre e, então, enfim, detalhar a gênese e as narrativas da antologia Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável.  Na fase das perguntas e manifestações, a plateia participou ativamente, a ponto de nossa mestre-de-cerimônias, Priscilla, ter precisado interromper para dar início à mesa-redonda que se seguiria à abertura da Casa Fantástica.

Fiquei muito satisfeito e orgulhoso com o resultado dessa fala de abertura.  Bastante satisfeito e só um tiquinho orgulhoso.  Pois orgulho em demasia é soberba e em excesso vira arrogância.😊

Entre o fim da minha fala e o começo da mesa-redonda, Sabine Mendes Moura comentou comigo que havia lido meu romance curto de história alternativa, Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas (Draco, 2009) ontem e que gostou muito.

Chegada à Casa Fantástica.

Priscilla Lhacer na Abertura da Casa Fantástica.

Palestra de Abertura: Ficção Climática & Solarpunk.




Filmete da Abertura: "Ecoficção".




Filmete da Abertura: "Bem-vindos ao Antropoceno!".



Filmete da Abertura: "Solarpunk".

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A primeira mesa-redonda da Casa Fantástica, “Young Adult: “O que leem os jovens adultos de hoje?”, foi mediada pela própria Priscilla Lhacer, com a participação dos autores Felipe Sali e Thiago Lee.  Do ponto de vista de alguém que já curtiu mais infantojuvenis outrora do que hoje em dia, a parte mais importante dessa mesa para mim foi quando Felipe detalhou a mecânica de escrever no Wattpad.
Mesa "Young Adult": Felipe Sali e Thiago Lee.


Ao fim dessa primeira mesa, regressamos à pousada para descansar, pois, com os estômagos forrados pelo lauto café da manhã, ainda não nos sentíamos dispostos para o almoço.  Colocamos algumas coisas em dia e então retornamos à Casa Fantástica bem a tempo de assistirmos a segunda mesa-redonda, “Mitologia: as raízes do fantástico na literatura”, com mediação de Lucas Rafael Ferraz e participação dos autores Rosana Rios e Antonio Luiz M.C. Costa e do professor de história, Diego Amaro.

Ao ingressarmos na Casa Fantástica fomos avassalados por um aroma delicioso emanando da cozinha, o que nos fez perceber que não estávamos com tão pouca fome assim.  Entramos na cozinha e descobrimos a origem do aroma inebriante: uma fornada de croissants quentinhos acabando de sair do forno.  Compramos um de queijo e presunto para mim e um de frango para a Cláudia, com duas garrafas de água com gás para lubrificar as tripas.

A mesa de Mitologia bombou.  Estimo que houvesse um público presente de pelo menos cinquenta pessoas.  Quando cheguei, tive que permanecer de pé por alguns minutos até que uma jovem caridosa me cedeu o lugar.  Mesmo assim, meu assento era numa das últimas filas e por vezes precisei me esforçar um pouco para ouvir o que os participantes diziam.  Mas, valeu a pena!  Rosana e Antonio deram um verdadeiro banho de erudição ao discorrerem sobre as raízes mitológicas da literatura, remetendo os ouvintes à origem da escrita e da própria civilização na Suméria de seis ou sete milênios atrás.  Falou-se de tudo um pouco e sempre muito bem, desde as culturas matriarcais do mesolítico, até o machismo inerente ao mito de Héracles, das mudanças paulatinas no enfoque narrativo das deusas da mitologia greco-romana, até a origem da lenda urbana da loura do banheiro, que remonta ao Império do Brasil da segunda metade do século XIX.  Há muito tempo não assistia uma mesa tão instrutiva e interessante.  Show de bola!
Mesa "Mitologia": Lucas Rafael Ferraz, Antonio Luiz M.C. Costa, Rosana Rios, Diego Amaro.

Rosana Rios e GL-R no estande da Draco.


Ao fim dessa segunda mesa, quando já nos preparávamos para regressar à pousada, enquanto encomendávamos dois croissants e duas empanadas à cozinheira da Casa Fantástica, encontrei minha amiga Kyanja Lee e começamos a conversar sobre ficção científica.  Kyanja me apresentou às irmãs gaúchas, Evelyn e Ceres Postali.  Conversamos sobre o quadro atual da literatura fantástica nacional, em que o horror e a fantasia atraem mais leitores do que a ficção científica, ao contrário do que ocorria três ou quatro décadas atrás.  As duas irmãs acabaram adquirindo dois exemplares de meu romance de ficção científica A Guardiã da Memória (Draco, 2011), agraciado com o Argos 2012 na categoria Melhor Romance.

Antes de partir, ainda consegui bater um papo com a Rosana Rios, elogiei a mesa excelente e logrei tirar algumas fotos com ela.

Já na Rua do Comércio, caminhando em direção à ponte, encontramos com minha amiga, Maria José Gouveia, do curso de italiano a quem descrevi brevemente a variedade dos chapéus estou usando nesta Casa Fantástica da FLIP 2019.

De volta à Paisagem, pedimos duas taças de vinho na recepção, para não precisarmos degustar nossos tintos em copos de vidro como ontem à noite.

Depois que conclui o trabalho nesta crônica, assistimos o Em Pauta na GloboNews e os dois últimos episódios da primeira temporada de Big Little Lies.

Como pousada, a Paisagem constitui um problema: é muito aconchegante e confortável.  Mas, também é um pouco distante da Casa Fantástica.  Daí, quando voltamos para cá pela segunda ou terceira vez do dia ao longo da tarde, bate uma preguicinha gostosa que solapa nossa vontade de regressar ao bochicho outra vez.  Desta forma, infelizmente, perdemos as mesas vespertinas: “Clubes de Assinatura: Como a curadoria recorrente está mudando o mercado editorial” (17h00) e “Agenciamento Literário: como trabalha um agente literário?” (19h30).

Pousada Paisagem, Paraty, 11 de julho de 2019 (quinta-feira).





Dia 03 — 201907120640P6 — 21.553 D.V.


“— Quem você pensa que é para me falar assim?

“— Eu sou um monstro!”

(Cena do filme Jovem Frankenstein, de Mel Brooks)



Desjejum satisfatório, ainda que tardio, na Paisagem nesta sexta-feira de manhã.  Mais ou menos as mesmas escolhas gastronômicas apetitosas, mas não muito saudáveis, de ontem.  Antes da refeição matinal, ainda no quarto 221, baixamos e iniciamos a leitura da edição digital do jornal.

De volta ao quarto, conectei o celular e o tablet ao notebook para transferir o arquivo em epub do romance Echopraxia, do Peter Watts, continuação do Blindsight, cuja leitura concluí na viagem de ida para cá.

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Caminhamos da pousada até a Casa Fantástica e lá chegamos às 10h00, bem no início da mesa-redonda “Criaturas Fantásticas: Criando monstros, bestas-feras e outros bichos”, com mediação do autor Diego Guerra e participação dos autores Jana P. Bianchi, Claudia Dugim e Fernando Vugman.  A mesa abordou a questão do monstro na história humana e na literatura fantástica.  Fernando falou das origens históricas dos mitos e narrativas sobre monstros.  Discutiu-se o monstro no romance seminal Frankenstein, concluindo-se que  o verdadeiro monstro era Victor, pois a criatura, conquanto tenha praticado homicídios, começou sua vida como vítima de um abandono monstruoso.  Falou-se sobre os monstros clássicos: lobisomens, vampiros, zumbis e suas representações na literatura e no cinema.  Jana Bianchi contou-nos sobre o lobisomem em sua novela, Lobo de Rua (Dame Blanche, 2016) e Paola Siviero, abduzida da plateia para a mesa pelo mediatador Diego, falou-nos sobre os monstros de seu romance O Auto da Maga Josefa (Dame Blanche, 2018), finalista ao Prêmio Argos 2019.[3]  Na fase das perguntas, um rapaz da plateia indagou se um monstro ainda podia ser considerado como tal quando despertava desejo sexual em personagens humanos.  Resisti à tentação de comentar meu conto erótico “Para Agradar Amanda” que trata da relação sexoafetiva de um humano básico com uma lobisomem, mas não à tentação de falar sobre relações sexuais entre humanos e parceiros terrígenas e alienígenas em geral, uma das minhas temáticas favoritas na literatura fantástica.


Mesa "Criaturas Fantásticas": Diego Guerra, Fernando Vugman.

Mesa "Criaturas Fantásticas": Fernando, Jana P. Bianchi, Claudia Dugin.


Mesa "Criaturas Fantásticas": Paola Siviero.

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Ao fim dessa primeira mesa-redonda, regressamos brevemente à pousada e dali seguimos até o supermercado Carlão, próximo à rodoviária de Paraty, onde adquirimos alguns itens essenciais à sobrevivência da vida inteligente tal como a conhecemos: Activia, frutas, água com gás, uma garrafa do tinto Porca de Murça e outra de um espumante da Salton.  Também paramos numa farmácia para comprar silicone e desodorante.

De volta ao nosso lado do rio e à pousada, deixamos nossas compras e regressamos ao centro histórico de Paraty.  Separamo-nos na Rua da Lapa.  Cláudia seguiu para a mesa-redonda “Tecnologia na Educação” na Casa Santa Rita de Cássia e eu para a Casa Fantástica.

Cheguei às 14h00, bem a tempo de assistir o começo da mesa “O Medo como Inspiração: Horror e mistério na literatura nacional”, com mediação do escritor e acadêmico Oscar Nestarez e participação dos autores Carol Mancini e Hedjan Costa, do cineasta e autor Marcos Brito, do editor e roteirista de HQ Raphael Fernandes, e do livreiro e editor Cid Vale Ferreira.  Desta vez só consegui me sentar lá atrás.  Não que essa mesa estivesse mais concorrida do que a matinal, só que não consegui chegar nos cinco minutos antes regulamentares.  Os seis componentes da mesa – mediador e participantes – cultistas praticantes do horror literário em suas diversas manifestações, falaram das motivações e terrores noturnos que os atraíram para o gênero.  Também se falou, e muito, dos horrores da vida real, o que não deixa de ser um clichê em palestras e mesas sobre o horror literário.  Brito falou em como transformar temores pessoais em narrativas ficcionais.  Na fase das perguntas, os participantes explicaram o que um autor de horror inédito precisa fazer para ser publicado.


Mesa "Medo como Inspiração": Marcos Brito, Oscar Nestarez, Carol Mancini.

Mesa "Medo como Inspiração": Carol, Raphael Fernandes,  Hedjan Costa.


Mesa "Medo como Inspiração": Cid Vale Ferreira, Marcos Brito.





Finda a primeira mesa vespertina, bati um bom papo com Cláudia Dugim, autora do conto “Gente é Tão Bom”[4], sobre narrativas de literatura fantástica em geral e sobre um conto intrigante que ela escreveu, “O Desejo de Ser Como um Rio”.  Fiquei tão curioso que, chegando à nossa pousada, entrei na Amazon Brasil e comprei a coletânea em e-book O Desejo de Ser Como um Rio e Outras Histórias.[5]

Também cumprimentei minha amiga Ana Lúcia Merege que acabara de chegar à Casa Fantástica.

Mais tarde, travei conhecimento com o autor e publisher da Luva, Vitto Graziano, carioca residente no Méier, bairro em que nasci, que me falou, dentre várias coisas divertidas, algumas impublicáveis, da concepção de um romance “round-robin”, Rio Vermelho (Luva Editora, 2018), escrito por nada menos do que vinte e três autores, dentre os quais, Fábio Fernandes, Oscar Nestarez e Hedjan Costa.  Comprei-o de imediato.  Curiosíssimo para ler.

Cláudia me reencontrou na Casa Fantástica para almoçarmos.  Conseguimos enfim almoçar no Celeiro, um restaurante simpático bem próximo à sede da literatura fantástica brasileira na FLIP 2019.  Nossa mesa foi posta em plenos seixos rolados, bem no meio da Rua do Comércio, com direito a cachorro metendo o nariz na comida de nossos pratos e tudo o mais.  Mas, enfim, relaxa que é FLIP time, baby!  Pedi carne assada com molho negro (antigo molho Madeira) com purê de mandioquinha (vulga batata baroa), enquanto Cláudia degustou um risoto de filé mignon com shitake.  Se a comida não era farta, estava gostosa e os preços pareceram convidativos, ao menos pelos padrões de FLIP.

Do Celeiro, seguimos pela Rua Santa Rita até a igreja homônima, famosa por só possuir uma torre e por se situar junto à cadeia colonial da cidadezinha.  Como eu havia esquecido meu casaco na pousada e, às 17h30, já fazia um frio danado em Paraty (de minha perspectiva de carioca, é lógico), regressamos à Paisagem e por aqui ficamos.  Perdi as mesas-redondas “Misticismo e Literatura: O encontro da arte com o oculto” (17h00) e “O Futuro das Editoras Independentes” (19h30).

À noite no quarto, pedimos misto-quente e queijo-quente de lanche noturno, regado à Porca de Murça.  Mais tarde, li os outros dois contos da coletânea da Cláudia Dugim.  Em seguida, comecei a leitura da novela Lobo de Rua, da Jana Bianchi.

Pousada Paisagem, Paraty, 27 de julho de 2019 (sexta-feira).





Dia 04 — 201907130830P7 — 21.554 D.V.

“And the Argos goes to…”

[Priscilla Lhacer ao anunciar o vencedor na categoria Melhor Romance]



Acordamos hoje um pouco mais tarde.  Porém, mesmo assim, lá pelas 07h00 eu já havia concluído a leitura da edição digital do jornal.  Nesta manhã, havia os iogurtes Activia para quebrar nosso jejum ainda no quarto, antes de descermos para o lauto café da manhã no restaurantezinho à varanda da pousada.

O desjejum de hábito.  Ovos mexidos com fatias de lombo canadense.  Minirrabanadas, café preto e suco de laranja.  Hoje observamos vários passarinhos no gramado em torno da piscina da pousada, inclusive, uma saíra e um sabiá-laranjeira.

Às 08h30 já estávamos de volta ao 221 e eu comecei a planejar alguns detalhes da cerimônia de entrega do Prêmio Argos.  Relacionei os representantes dos finalistas que não poderão comparecer.  Até hoje de manhã, dos nove finalistas, apenas três compareceriam, enquanto seis nomearam representantes.  Contudo, hoje cedo li uma mensagem privada pelo FB do finalista na categoria Melhor Antologia, Nelson de Oliveira, antologista da Fractais Tropicais, avisando que sua carona e hospedagem haviam furado e que ele não poderia comparecer.  Pedi-lhe que designasse um representante com urgência e ele indicou Cláudia Dugim, já designada como representante de Ricardo Labuto Gondim, finalista na categoria Melhor Romance, com Corrosão (Caligari, 2018), e do Marcelo Galvão, finalista na categoria Melhor Conto, com “Sombras no Coração”.  Assim, Cláudia representará finalistas nas três categorias do Argos.

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Envolto com os preparativos da cerimônia de entrega do Argos, acabei perdendo a mesa-redonda matinal, “Literatura Juvenil: Como formar leitores (fantásticos) no século XXI”.

Saímos daqui da pousada por volta de quinze para o meio-dia.  Resolvemos adotar um caminho alternativo, cruzando a ponte de pedestres próxima à nossa base, em vez de seguir pelo calçadão do rio até a Rua do Comércio.  Ganhamos um bom tempo, pois, embora tivéssemos que cruzar uma via desprovida de calçada, chegamos ao quarteirão da Comércio que abriga a Casa Fantástica sem precisar enfrentar o furdunço que tomou conta daquela via histórica neste sábado.

Visitamos a cadeia colonial (transformada numa casa de cultura durante a FLIP) e o cais antes de nos dirigirmos à Casa Fantástica.  Pelo caminho, como ninguém é de ferro, fizemos uma parada técnica junto à sorveteria Pistache para tomar um sorvetinho esperto.  Nesse percurso, descobrimos o restaurante Banana da Terra, que agora se situa em um sítio mais nobre da Rua do Rozário, em relação ao seu endereço do ano passado.  É isto ou então simplesmente me enganei quanto à localização de que me lembrava do ano passado, hipótese que, considerando meu Alzheimer avançado, não é de todo improvável.

Uma vez na Casa Fantástica, encontramos nosso amigo Ricardo França, que chegou à FLIP 2019 numa viagem de bate-e-volta, devendo regressar hoje à noite para o Rio.  Conversamos um pouco com o França, até que ele saísse para almoçar com a Ana Merege e a Cláudia Dugim.  Aproveitei o ensejo para convidar a Ana Merege para entregar o Argos na categoria Melhor Conto.

Também revi minha amiga Ana Rusche e ainda o Paulo Vinicius, do Ficções Humanas, com quem bati bons papos e tirei fotos para postar no Instagram, com apoio dos ensinamentos providenciais do Raphael Fernandes.

Enfim, às 14h00 se iniciou a mesa-redonda “Crítica Literária x Influenciadores: Conflito ou convergência?”, com mediação da Clara Madrigano e participação de Filipe Laredo, publisher da Empíreo; do professor e escritor João Peçanha; do influenciador digital Paulo Vinicius; e da escritora e crítica Ana Rusche.  Se fosse necessário definir essa mesa numa única palavra, essa seria “pedaçuda”.  Como não é esse o caso, falarei um pouquinho sobre a mesa mais “tretada” da Casa Fantástica 2019.  O estímulo para propor essa mesa foi a treta surgida em fins de 2018, quando um autor emergente enviou um livro recém-lançado para ser resenhado por uma influenciadora digital – referida pela mesa simplesmente como “italiana”[6] – e, escandalizado com o preço cobrado pela profissional, em vez de simplesmente declinar da proposta, resolveu colocar a boca no trombone, divulgando a tabela de preços da moça.  Daí, a discussão se iniciou e seguiu firme, indo desde a pretensa rivalidade, até a possível convergência entre a crítica especializada dos cadernos literários dos jornais e revistas especializadas e os ditos influenciadores digitais.  Paulo Vinicius afirmou que cobra pelas resenhas, mas que deixa a critério do autor se as publica ou não.  Filipe Laredo comentou sua experiência como publisher em relação aos blogueiros e influenciadores.  Na fase das perguntas e manifestações, a plateia participou intensamente, levantando diversas questões quanto à ética de se pagar por essas críticas, sendo brilhantemente ripostadas pelos integrantes da mesa.





Finda essa mesa, antes de sair para o almoço, fechei algumas questões sobre a cerimônia do Argos com a Priscilla Lhacer e a convidei para entregar os diplomas na categoria Melhor Romance.

Saindo da Casa Fantástica, enfrentamos o engarrafamento de pedestres na Rua do Comércio até chegar ao restaurante Dolce Vita, onde já havíamos almoçado no sábado da FLIP 2018.  Hoje pedimos gnocchi ao molho de tomate com mozzarella de búfala e manjericão, regado por uma garrafa do tinto Porca de Murça e outra de água com gás.

Do restaurante, regressamos à Paisagem para pegar os troféus e certificados do Argos.  Com isto, perdi a mesa-redonda “História em Quadrinhos: Ascensão da nona arte no Brasil”.  Ah, o dever.  Sempre há que se cumprir com o dever.  Não permanecemos muito tempo na pousada e regressamos à Casa Fantástica por um atalho via ponte de pedestres sobre o rio Perequê-Açú que nos deixou tão próximo à sede da literatura fantástica brasileira na FLIP quanto o caminho escolhido pela manhã.

Uma vez lá, posicionamos os troféus e certificados à mesa em torno da qual receberíamos os finalistas, de forma que ocultasse os nomes dos finalistas e vencedores.

Minha amiga do Vórtice Literário, Juliana Berlim, apareceu nesta hora na Casa Fantástica.  Infelizmente, não houve oportunidade de tirarmos uma foto junto com o Ricardo França, outro companheiro do Vórtice.

GL-R e Ricardo França.

GL-R e Antonio Luiz M.C. Costa.

Apreensão antes da Cerimônia do Argos.

Juliana Berlim e GL-R.




Priscilla havia combinado comigo e com o Antonio Luiz que apresentássemos um panorama breve da ficção científica brasileira no século XXI.  Antonio falou sobre a diversidade de autores e narrativas nessas duas primeiras décadas.  Eu discorri sobre o boom da literatura fantástica brasileira nas duas últimas décadas e do predomínio relativo do horror e da fantasia sobre a ficção científica.

Em seguida, dei início à cerimônia do Argos 2019, narrando a história da premiação, com ênfase ao hiato de oito anos entre a primeira encarnação do prêmio (2000-2003) e a atual (2012-2019).  Aproveitei o ensejo para lembrar os presentes de que a continuidade do Argos dependerá das decisões da futura diretoria do Clube de Leitores de Ficção Científica.  Quem sabe não inspirei um certo senso patriótico pela causa no espírito da garotada?

Daí, passei à entrega da premiação na categoria Melhor Antologia.  Em primeiro lugar, anunciei a finalista 2084: Mundos Cyberpunk (Lendari), organizada pela Lídia Zuin, cujo certificado foi recebido pelo Mário Bentes.  Mário falou algumas palavras sobre a gênese da antologia.  Então, anunciei a finalista Aqui Quem Fala é da Terra (Plutão), organizada por André Caniato & Jana Bianchi.  Ambos compareceram para receber o diploma e proferiram um breve discurso conjunto de agradecimento.  Aproveitei a oportunidade para declarar que a Comissão Organizadora do Argos considera todos os nove finalistas vencedores do certame 2019.  Por fim, anunciei o vencedor da categoria: a antologia Fractais Tropicais (SESI-SP),organizada pelo Nelson de Oliveira.  Cláudia Dugim recebeu o troféu e o diploma em nome do Nelson que, devido à mudança de planos de última hora, não enviou discurso de agradecimentos.

Categoria Melhor Antologia.

Mário Bentes recebe o Argos em nome de Lídia Zuin por 2084: Mundos Cyberpunk (Lendari).

Jana Bianchi e André Caniato recebem o Argos por Aqui Quem Fala é da Terra (Plutão).

Claudia Dugin recebe o Argos em nome de Nelson de Oliveira por Fractais Tropicais (SESI-SP).





Para anunciar os vencedores da categoria Melhor Conto, convidei minha amiga, Ana Lúcia Merege, vencedora deste mesmo certame em anos anteriores.  Ana anunciou o finalista “A Noite Não me Deixa Dormir”, da Camila Fernandes, representada pelo Diego Guerra que, à ausência de um discurso da finalista, improvisou algumas palavras laudatórias de sua própria lavra.  Então, Ana Merege anunciou o finalista “Entre as Gotas de Chuva, Encruzilhada”, do Cirilo Lemos, representado pela Jana Bianchi, que leu o belo discurso de agradecimento enviado pelo finalista.  Enfim, Ana anunciou o vencedor da categoria, “Sombras no Coração”, de Marcelo Galvão, também representado pela Cláudia Dugim, que leu as palavras generosas do discurso de agradecimento do vencedor.

Categoria Melhor Conto: Claudia Dugin recebe o Argos em nome de Marcelo Galvão por "Sombras no Coração".




E, para anunciar os nomes dos vencedores da categoria Melhor Romance, convidei a fada-madrinha da literatura fantástica brasileira na FLIP, Priscilla Lhacer.  Ela anunciou o romance finalista Corrosão (Caligari), do Ricardo Labuto Gondim, igualmente representado pela representante sênior, Cláudia Dugim, que leu as palavras de agradecimento enviadas pelo finalista.  Daí, Priscilla anunciou o finalista O Auto da Maga Josefa (Dame Blanche), da Paola Siviero, que agradeceu, emocionada, falando que esse foi seu primeiro romance publicado profissionalmente.[7]  Finalmente, Priscilla anunciou o vencedor da categoria: A Mão que Pune: 1890 (Caligari), de Octavio Aragão.  Na ausência de um discurso de agradecimento, improvisei algumas palavras, sobre essa continuação da novela A Mão que Cria (Mercuryo, 2006), aproveitando para introduzir o conceito de ficção alternativa à plateia.

Categoria Melhor Romance: Claudia Dugin recebe o Argos em nome
de Ricardo Labuto Gondim por Corrosão (Caligari).

Paola Siviero recebe o Argos por O Auto da Maga Josefa (Dame Blanche).

GL-R recebe o Argos em nome de Octavio Aragão por A Mão que Pune: 1890 (Caligari).




Finda a parte formal da cerimônia de premiação, finalistas e seus representantes posaram para fotos dos presentes.

Logo depois, postei no grupo de WhatsApp do CLFC os títulos dos três trabalhos vencedores.

Vencedores do Argos 2019 e seus representantes.



*     *      *



Encerrada a cerimônia do Argos, passamos à área dos estandes de vendas de livros da Casa Fantástica.  Ali travei contato com Renata Assis, que me pediu para falar sobre a trama de meu romance de ficção científica, Octopusgarden (Draco, 2017), detentora do Argos 2018 na categoria Melhor Romance, solicitação que atendi com prazer.  Para minha alegria, Renata adquiriu um exemplar autografado desse far future.

Acertei as contas de minhas vendas de livros com Raphael Fernandes, responsável pelo estande da Draco, com Priscilla e Mário Bentes.  Juliana Berlim comprou um exemplar da minha coletânea Histórias de Ficção Científica de Carla Cristina Pereira.

Despedimo-nos dos amigos e caminhamos pela última vez pela via crucis da Rua do Comércio até a ponte que cruza para o outro lado do rio.  Uma vez ali, dirigimo-nos à pastelaria na qual estávamos de olho cobiçoso desde a quarta-feira passada, pelo fato de que o estabelecimento prometia pastéis de trinta centímetros de comprimento.  Chegado o grande dia, pedimos dois pastéis para viagem: calabresa com catupiry para mim e queijo com banana para a Cláudia.

*     *      *



Uma vez no quarto 221, degustamos nossos pastéis, ainda quentinhos, com o espumante moscatel da Salton que compramos ontem no Carlão, enquanto conferíamos as repercussões da entrega do Argos nas redes sociais.

Findos os folguedos, dediquei-me à escrita desta crônica e à leitura da novela Lobo de Rua, da Jana Bianchi.

Amanhã partiremos de Paraty pela manhã, perdendo as atividades dominicais da Casa Fantástica.

Pousada Paisagem, Paraty, 13 de julho de 2019 (sábado).





Dia 05 — 201907140830P1 — 21.555 D.V.


“Take the Long Way Home.”

[Supertramp]



Neste domingo acordamos mais tarde.  Porém, não tão tarde, pois precisamos fazer as malas e o nosso check-out da pousada.  Assim, levantamos por volta das 06h30, baixamos a edição digital do jornal para nossos tablets, arrumamos o grosso das malas e descemos para o desjejum.

Na volta do café da manhã, já adiantamos o check-out e agendamos nosso táxi na recepção.  Regressamos ao 221 para fechar as malas e, quinze minutos mais tarde, estávamos de volta à recepção.

Nosso táxi marcado para às 09h00 apareceu às 09h05 em ponto.  Horário mais do que adequado, pois a viagem curta até a rodoviária levou menos de cinco minutos.  Embarcamos nossas malas no bagageiro do ônibus e embarcamos às 09h15.  Com partida prevista para às 09h20, o busão partiu com pontualidade paratiense às 09h25.

Apesar de suas três paradas e três entradas em condomínios de casas ao longo da Rio-Santos, nossa viagem durou cinco horas cravadas.  Só vinte e cinco minutos a mais do que a viagem de ida, não obstante o desvio por ruelas estreitas, para contornar o trecho em obras da Avenida Brasil, já próximo ao Terminal Rodoviário Novo Rio.  As três paradas se deram nas rodoviárias de Angra dos Reis (onde embarcaram cinco passageiros), de Itaguaí (onde desembarcaram sete) e numa lanchonete de beira de estrada à altura da cidadezinha de Itacuruçá.  Os condomínios visitados, sem qualquer embarque ou desembarque de passageiros, foram os das usinas nucleares Angra I e II, e o dos funcionários do estaleiro Verolme (que agora possui outro nome).  Durante o início da viagem, li a edição digital de O Globo.  Findo o jornal, passei à leitura da novela Lobo de Rua.   Finda a leitura, meus dois grãos de sal: gostei muito da trama e do jeito que a Jana contou a história, mas considerei o fim um tanto ou quanto frustrante.  Enfim, concluída a novela, comecei a ler o romance da Paola Siviero, finalista do Argos 2019, O Auto da Maga Josefa.

Ao desembarcar na Novo Rio às 14h20, resgatamos nossas malas e tomamos um táxi pré-pago com bandeira 2 cuja corrida saiu por R$ 53,00.  Na altura do elevado Paulo de Frontin pegamos um bruto engarrafamento, por causa de um acidente quase à entrada do túnel Rebouças.  Apesar dos percalços, chegamos em casa incólumes e com o sentimento do dever cumprido.😉

Resumo da ópera: embora menos intensa do que a experiencia da Casa Fantástica 2018, nossa estada em Paraty para a FLIP 2019 foi mais relaxante e menos estressante.  Não obstante as responsabilidades de proferir a palestra de abertura e presidir a cerimônia de entrega do Prêmio Argos 2019, desta vez houve tempo para almoçar em ritmo slow food, apreciar uns poucos pontos turísticos do centro histórico e caminhar pelas belas tardes ensolaradas deste feriadão flipeiro.

Agora, é torcer para que no ano que vem haver mais Casa Fantástica na FLIP 2020.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 14 de julho de 2019 (domingo).




Participantes:

Ana Lúcia Merege.

Ana Rusche.

André Caniato.

Antonio Luiz M.C. Costa.

Berenice Young.

Carolina Mancini.

Ceres Postali.

Cid Vale Ferreira.

Clara Madrigano.

Cláudia Dugim.

Cláudia Pucci Abrahão.

Cláudia Quevedo Lodi.

Diego Amaro.

Diego Guerra.

Evelyn Postali.

Felipe Sali.

Fernando Vugman.

Filipe Laredo.

Gerson Lodi-Ribeiro.

Hedjan Costa.

Jana P. Bianchi.

João Peçanha.

Juliana Berlim.

Kyanja Lee.

Lucas Rafael Ferraz.

Maria José Gouveia (Italiano).

Marcos Brito.

Mário Bentes.

Oscar Nestarez.

Paola Siviero.

Paulo Vinicius (Ficções Humanas).

Priscilla Lhacer.

Raphael Fernandes.

Renata de Assis.

Ricardo França.

Rosana Rios.

Sabine Mendes Moura.

Sarah Helena.

Thiago Lee.



[1].  À noitinha, em nosso quarto na pousada de Paraty, depois de várias tentativas infrutíferas, logrei deletar as cópias das notas.  No entanto, o bug da geração espontânea de notas continua lá.  Só que agora, com três comandos rápidos, consigo deletar todas elas em questão de segundos.
[2].  Meu conto “Coleira do Amor” foi republicado nessa antologia.
[3].  À noite, de volta à pousada, adquiri os e-books do Lobo de Rua e d’O Auto da Maga Josefa.  Aos quais atribuí prioridade de leitura triplo zero.
[4].  Publicado na antologia Trasgo: Ficção Científica e Fantasia (Trasgo, 2017).
[5].  Já li o conto que empresta seu título à coletânea hoje à tardinha.  Gostei muito.  Cláudia conseguiu fazer mais com menos.
[6].  Termo que me remeteu de imediato às delações da Lava-Jato.  Mas, deixemos essas questões jurídico-políticas de lado, pois nosso negócio é literatura fantástica.
[7].  Fiz questão de mencionar que O Auto da Maga Josefa foi o grande vencedor na categoria Melhor Romance do prêmio André Leblanc deste ano.  O Leblanc é a outra grande premiação da literatura fantástica brasileira.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018


Primavera Literária 2018

Dia 1 (Sexta-feira – data estelar: 20181019P6 — 21.288 D.V.)
“Precisamos concordar em discordar.”


Nesta que é a septuagésima crônica pessoal da ficção científica que escrevo para este blogue, falarei sobre minhas experiências na Primavera Literária 2018.
Iniciei nesta tarde nublada de sexta-feira minha participação na Primavera Literária 2018.  Após uma estada na Casa França-Brasil no ano passado, esta feira literária regressa aos belos jardins do Palácio do Catete.  Esta é a quinta participação da editora Draco na Primavera Literária Carioca.

*     *     *

Segui para o Palácio do Catete de ônibus.  Pesquisando no aplicativo Mov it, descobri que vários troncais passam na Rua do Catete.  Legal!  Porém, na hora do vamos ver, nada dos ônibus de uma dessas novas linhas passarem no ponto onde eu esperava.  Sem alternativa, recorri ao bom e velho 409, torcendo para que o portão dos jardins do Palácio para a Praia do Flamengo estivesse aberto.  Estava!  Leitura de bordo: romance de ficção científica The Practice Effect (Bantam-Spectra, 1984), do David Brin.
O estande Nº 57 da Draco é um dos mais próximos ao acesso pela Praia do Flamengo.  Acabei chegando lá às 16h00 em ponto, horário combinado e que julguei que não conseguiria cumprir.  Presentes no estande estavam minha amiga Ana Lúcia Merege e a responsável pelo estande, Débora Marinho.
Pouco depois, Daniel Russell Ribas chegava ao estande da Draco.  Com seu histrionismo habitual, Ribas discorreu sobre seu pretenso talento para vendas de livros pelo método da insistência infinita.  Meia hora mais tarde, partiria numa heroica caminhada a pé rumo ao Centro Cultural da Caixa Econômica, na Rio Branco, para assistir uma palestra de Bráulio Tavares, embora o céu escuro dessa tarde primaveril prenunciasse chuva forte, que de fato cairia, insistente, no início da noite.
Quem chegou pouco antes da expedição autopunitiva do Ribas ao Centro da Cidade, foi o Luiz Felipe Vasques que, à semelhança da Ana Merege, já estivera na Primavera Literária na tarde de quinta-feira.

Débora Marinho faturando. Ana Lúcia Merege autografando.

Daniel Russell Ribas, Ana Merege, Luiz Felipe Vasques e GL-R.

Ana, Débora, Felipe e GL-R.

Hamilton Kabuna, Ana e Débora.


O assunto da tarde, como não poderia deixar de ser e como comumente acontece nas Primaveras Literárias, até por conta da época do ano em que ocorrem, foi a expectativa com o segundo turno das próximas eleições presidenciais e para governador, com a polarização inédita petismo vs. bolsonarismo.  Vários amigos, conhecidos e leitores externaram seus temores com a situação política do país após as eleições.  Aos poucos, nossos bate-papos se deslocaram desse tópico estressante para a literatura fantástica, com ênfase em worldbuilding, seara em que Felipe tem investido nos últimos tempos.  Citei os livros de referência da Writer’s Digest Books que li sobre o assunto há tempos: World-Building do Stephen L. Gillett; Alien and Alien Societies do Stanley Schmidt; e o The Writer’s Guide to Creating a Science Fiction Universe de George Ochoa & Jeffrey Osier.  As três obras foram publicadas dentro da coleção Science Fiction Writing Series.
À noitinha chegou o amigo Hamilton Kabuna.  Conversamos sobre os cursos transmidiáticos que ele está ministrando sobre criação de universo ficcional e também sobre a exacerbação do radicalismo político de direita e de esquerda.  Sempre bem-humorado, Kabuna confessou estar colecionando os posts descabelados de amigos e parentes nas redes sociais para, mais tarde, se e quando a situação político-econômica degringolar, esfregar na cara dos arrependidos e recalcitrantes que costumam fazer cara de paisagem, fingindo não terem afirmado “nada daquilo”.  Falou que comprou até um pen-drive novo para armazenar a besteirada toda.  Com a radicalização política atual, quem não tem fóruns e listas de parentes ou amigos tomadas pelas fake-news políticas?  Será que depois das eleições melhora?  Creio que não tão cedo.  Afinal de contas, essa polarização começou no fim das eleições de 2014 e suas sementes já haviam sido plantadas um ano antes, nas manifestações de junho de 2013.
Ao anoitecer, com Ana Merege já se preparando para ir embora, fomos eu, ela e Felipe tomar um café na cafeteria instalada no prédio histórico do Palácio do Catete.  Embora tivesse lotada, conseguimos descolar uma mesa ali.  Ao longo do caminho, passamos pelo estande da editora que vendia os romances de Fábio Kabral, jovem autor de afrofuturismo com quem eu e Ana travamos um contato breve na Casa Fantástica, durante a FLIP 2018.
Como não havia almoçado, comi dois pães de queijo, devidamente lubrificados por um cappuccino.  O papo voltou ao tema do worldbuilding e daí, conversamos sobre autoconsistência de universos ficcionais em geral e das franquias Star Wars e Star Trek em particular,[1] o que nos levou a um breve comentário elogioso à série The Orville, um misto de pastiche e homenagem à Jornada nas Estrelas, bem melhor do que a recente Star Trek: Discovery.  Felipe me perguntou sobre as repercussões internacionais da publicação da Solarpunk (World Weavers, 2018) no EUA.  Respondi que as críticas têm sido majoritariamente positivas, embora alguns resenhistas norte-americanos cheguem a confessar que perderam certas nuances de uma narrativa ou outra.
De volta ao estande da Draco, retomamos o bate-papo com a Débora e o Kabuna, que permanecera lá para fazer companhia à nossa gerente de vendas.  Conversamos sobre romances gigantescos, prolixos ou não, citando, favoravelmente ou não, algumas obras-primas de J.R.R. Tolkien, Stephen King e George R.R. Martin.  Durante esse papo desabou a já tradicional chuvarada dos jardins do Palácio do Catete, que costuma acometer pelo menos um dos dias de toda Primavera Literária que se preza.  Impulsionada por rajadas de vento frio, a chuva ameaçou molhar os livros do estande, mas Débora rapidamente os protegeu, mudando-os de lugar e cobrindo-os com capas de plástico.
Ao fim da jornada, eu, Felipe e Débora seguimos juntos até a estação de metrô do Catete, onde ela embarcou em direção à estação Uruguai e nós em direção a do Jardim Oceânico.  Saltei três estações mais tarde, em Botafogo, onde tomei o ônibus da integração para casa.  Leitura de bordo: The Practice Effect.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2018 (sexta-feira).



Dia 2 (Sábado – data estelar: 20181020P7 — 21.289 D.V.)

“Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-las.”
(Voltaire)


Hoje acordei tarde e me atrapalhei com meus horários, mas juro que teria conseguido chegar aos jardins do Palácio do Catete às 14h00, conforme o combinado, se o portão que dá para a Praia do Flamengo estivesse aberto, como ontem.
Como não rolou, tive que contornar todo o imenso terreno do Palácio, até a entrada principal, lá pela Rua do Catete.  Mesmo assim, só me atrasei uns cinco ou dez minutos.  Dentro da pontualidade carioca, portanto.

*     *     *

O Vórtice, clube de leitura em literatura fantástica do qual participo desde 2015, decidiu realizar sua reunião mensal nos jardins do Palácio e não no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, como de hábito.  Assim, pude comparecer ao evento.
O livro discutido neste mês de outubro foi o romance de fantasia Hex (Darkside, 2018), do autor holandês Thomas Olde Hevelt, com tradução de Fábio Fernandes.  Mergulhando em outras leituras irresistíveis, não consegui sequer comprar o romance.  Contudo, empolgado pela discussão de hoje, ao regressar ao lar doce lar, entrei no site da Amazon Brasil e já me redimi de parte do meu lapso.  O perdão final ser-me-á concedido após a conclusão da leitura.
Estiveram presentes à reunião, Ricardo França, Flora Pinheiro e Diego de Sousa, trio que encontrei junto ao portão principal do Museu do Catete.  Mayra Braga chegou logo depois e dali caminhamos até os jardins propriamente ditos, onde nos acomodamos num banco à sombra, pois a tarde estava ensolarada.  De nós cinco, apenas as meninas haviam lido o romance.
Eis que de repente avisto o histriônico herói das letras fantásticas cariocas, Daniel Russell Ribas e, num momento de fraqueza, acenei para ele.  Embora prestes a partir novamente para o Centro Cultural da Caixa (desta feita de metrô, porque, afinal, não ameaçava chuva), agora para assistir um filme, não se furtou a integrar-se brevemente ao debate sobre o Hex, uma vez que não só havia lido o romance, como ainda travara contato com o autor, quando da visita desse ao Brasil.  Soubemos que Hevelt reescreveu seu romance, ambientando-o na Costa Leste dos EUA e mudando radicalmente o clímax da narrativa.  Originalmente, a trama se passava numa cidadezinha holandesa.
Pouco após a partida agitada de Ribas, chega Renata Aquino, que também não havia lido o romance.  Daí, caminhamos do tal banquinho, onde não cabiam todos mesmo, até o gramado dos jardins, onde nos instalamos sobre as cangas levadas pelas meninas.  Minutos mais tarde, chegava Stella Rosemberg.
A protagonista dessa narrativa de fantasia (ou horror) criativa e original é a bruxa Catherine, que assombra a mesma cidadezinha da (agora) Nova Inglaterra há mais de três séculos.  Embora todos os residentes saibam da realidade dessa assombração (há até um aplicativo de celular para localizar a bruxa, que se materializa e desmaterializa a seu bel-prazer nos sítios mais diversos da cidadezinha, inclusive, dentro das residências dos habitantes), eles mantêm sigilo em relação ao mundo exterior.  O debate centrou-se na questão de se Catherine era de fato “do mal” ou apenas uma vítima da maldade humana.  A ré foi acusada pela promotora Flora e amparada pela defensora pública de entidades sobrenaturais, Mayra.  Enquanto o representante da Sociedade Protetora dos Animais, Diego, não dava a mínima para os malefícios que a entidade praticava contra seres humanos, mas se arrepiava contra os maus-tratos contra cachorros, pavões e outros bichos.
A reunião se mantinha de vento em popa até às 15h55, quando, não sem certo pesar, obriguei-me a partir rumo ao estande da Draco.

Vórtice discutindo HexRenata Aquino, Flora Pinheiro,

Stella Rosemberg, Mayra Braga, ??, Ricardo França e Diego de Sousa.


Vórtice discutindo Hex: Diego, GL-R e Renata.
Museu da República ao fundo.





*     *     *

Cheguei ao estande nº 57 às 16h00, lá encontrando Débora e Luiz Felipe.  Ao contrário de ontem, a feira de livros estava bombando.  O fita de concreto que percorre os jardins em seu comprimento maior estava inteiramente repleta de transeuntes, leitores, carrinhos de bebê, crianças correndo de um lado para outro, e demais obstáculos ao deslocamento célere deste autor já um bocado atrasado.
Mal cheguei à Draco, apareceram meu amigo de longa data, Ronaldo Fernandes, a esposa Simone e a filhinha Letícia que, aos cinco anos e meio me pareceu enorme.  A última vez que eu a vira foi na entrega do Prêmio Argos em 2016, quase dois anos atrás.
Enquanto Simone e Letícia foram passear pelos jardins do Palácio e pelos outros estandes da Primavera Literária, Ronaldo ficou conversando comigo e Felipe por mais de uma hora.  Falamos sobre política & eleições; ficção científica em geral e sobre a série The Expanse de James S.A. Corey (este é, na verdade, o pseudônimo de dois autores: Daniel Abraham & Ty Franck) em particular.  Ronaldo já leu os seis romances já escritos da série projetada de nove.  Embora eu tenha os seis livros em formato e-book, por enquanto, só conheço esse universo ficcional pelas três temporadas da série que assisti no Netflix.  Falamos também um bocado sobre os esforços para a reconstrução do Museu Nacional, pois Ronaldo é um dos hierarcas do departamento de herpetologia da instituição e tem se esforçando bastante nessa lida inicial de coligir recursos necessários para a reconstrução propriamente dita.  Contei-lhe sobre minhas perspectivas de aposentadoria e minha transferência da sede da Secretária Municipal de Fazenda para o posto de atendimento do Rio Sul.  O bate-papo com esse velho amigo estava tão animado que nem dei atenção ao que se passava à nossa volta no estande da Draco, embora estivéssemos os três dentro dele, junto com a Débora.  Felizmente, Felipe supriu minha deficiência momentânea com bravura inaudita.  Ronaldo adquiriu um exemplar da minha coletânea Histórias de Ficção Científica de Carla Cristina Pereira (Draco, 2012).
Um amigo que esteve no estande, mas com quem não tive tempo de conversar foi o Felipe Vina.  Mal consegui cumprimentá-lo.  Mais ou menos na mesma hora em que ele partia, chegaram o Flávio Lúcio Abal e Ricardo França, esse último, enfim emerso da reunião do Vórtice.

De volta ao estande da Draco: GL-R, Ronaldo Fernandes e Luiz Felipe Vasques.


*     *     *

Felipe, Abal e eu conversávamos animadamente sobre...  Adivinhem só?  Isto mesmo: política & eleições, quando chegaram André Orsolon, a esposa Flávia e a filha de dez anos, Chloe.  André chegou reclamando que não havia trazido bolsas, pois haviam combinado que não comprariam livro algum e, já nos dois primeiros estandes, as meninas haviam se locupletado com quatro volumes.  Colérico, esbravejou:
— Eu não vou carregar nada!
No entanto, a bravata se dissolveu no estande da Draco, pois compraram vários livros ali e, quando as meninas saíram para outros estandes, André permaneceu conosco, lépido e fagueiro, com uma sacola a tiracolo.  A tarde era uma criança e aquela sacola seria a primeira de muitas... J
Estávamos no bate-papo mais animado da Primavera Literária 2018, quando Felipe chegou com um exemplar do livro Bibliotecas do Mundo Antigo (Vestígio, 2018), de Lionel Casson.  Achei muito interessante e, quando ele falou que estava por vinte e dois reais, e a meros dois estandes de distância, saltei por cima do estande da Draco e corri até lá.  Só que, entre o nosso estande e meu objetivo, havia outro estande, onde tropecei num capa-dura lindíssimo: Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o Padre Inventor (Andrea Jakobsson, 2011).  André e Abal, que seguiam na minha cola, também arregalaram os olhos gulosos em direção compêndio.  O safado do gerente do estande afirmou que só restava um exemplar para venda.  Bradei:
— É meu!
— Amanhã posso trazer mais uns dois ou três. — O vendedor ofereceu, com simpatia capitalista.
— Rapazes, o livro está na minha mão.  Peguei primeiro. — Argumentei. — Além disso, sou mais velho, alquebrado e não posso vir amanhã!
Vencida essa disputa de pênaltis renhida, num abuso flagrante de poder econômico, abri logo a carteira e paguei o livraço pela bagatela de sessenta reais, antes que qualquer aventureiro arrebatasse o compêndio das minhas mãos ávidas.
De volta ao estande da Draco, exultante com minhas aquisições, deparei-me com o amigo Adílson Júnior, acompanhado da namorada e da filha.  A menina estabelecia uma lista de desejos literários, para depois revisitar os estandes e concretizar suas compras.  Estratégia inteligente bolada pelo Adílson, que, aliás, agora faz parte do nosso clube de leitura em literatura fantástica, o Vórtice Rio.  Conversamos por uns bons quinze minutos sobre literatura fantástica e eleições, os dois temas mais quentes e corriqueiros desta Primavera Literária.
Outro amigo da velha guarda da ficção científica carioca que encontrei no estande da Draco foi o Ygor Silva, acompanhado pelo filhinho, cuja baby-sitter era nada mais, nada menos do que a jovem Letícia, a filhinha do Ronaldo Fernandes.
Um amigo bibliófilo e bibliófago que também apareceu lá na Draco foi o Dino Freitas.  Com o Dino, conversei muito mais sobre enologia do que sobre literatura fantástica.  Uma vez mais rememoramos a excelência do Trapiche Malbec 2015 que servi durante o lançamento do meu História do Vinho no Mundo Romano: Vita Vinum Est! (Mauad X, 2016), que lancei lá na Blooks em fins de outubro de 2016 — exatos dois anos atrás.

*     *     *

Um velho amigo da Secretaria Municipal de Fazenda que encontrei no estande da Draco foi o Nelson Meirelles.  E foi justamente o Nelson que me falou que havia avistado exemplares da antologia Fractais Tropicais (SESI-SP, 2018), organizada por outro Nelson: o antologista Nelson de Oliveira.  Nem sabia que essa antologia já havia sido lançada, mas que o Nelson Meirelles identificou o exemplar no estande da SESI, informando, inclusive, que meu conto, “Coleira do Amor”, estava relacionado na Segunda Onda.  Depois fui lá conferir: não é que a capa e o acabamento ficaram supimpas mesmo.
Lá pelas 19h00, eu, Felipe, Abal, André, Flávia e a jovem e espevitada Chloe partimos em direção à cafeteria para aplacar nossas fomes.  O estabelecimento estava tão cheio quanto ontem, mas, também como ontem, logramos conquistar uma mesa, bravamente defendida pelas meninas, enquanto nós quatro assediávamos o guichê no encalço de nossos pedidos.  A conversa nessa mesa duramente conquistada foi a mais divertida desta Primavera.  Conversamos de tudo um pouco.  As implicâncias entre André e Chloe foram impagáveis.  André e Flávia esmiuçaram as atividades dos clubes literários que eles frequentam: declarações hilárias inacreditáveis, do tipo, autora de literatura vampírica declara que as narrativas mais profundas que assimilou antes de escrever seus próprios textos foram os romances de Anne Rice.  Senti uma pontada súbita de saudades da palestra de minha boa amiga Martha Argel, a maior especialista brasileira em narrativas vampíricas, ministrada na Casa Fantástica da FLIP 2018.  Bola quicando na pequena área, Felipe não resistiu em citar as boçalidades literárias de certo autor marqueteiro que se imagina capaz de escrever literatura fantástica.
Quando já estava quase na hora de lacrar os estandes, retornamos à Draco, para ajudar a Débora a fechar a casa.  Aproveitei o ensejo para presentear nossa gerente com um exemplar autografado da antologia Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002) e para comprar dois exemplares do meu romance curto de história alternativa, Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas (Draco, 2009), usando meu desconto de autor.  Felipe comprou um terceiro exemplar, que autografei para ele.  Aliás, também autografei o exemplar do A Guardiã da Memória (Draco, 2011) da Débora.  Enquanto o estande da Draco era fechado, na qualidade de astrofísico, fui convocado para dirimir uma grave questão de caráter planetológico: Chloe insistia que a Lua estava na fase crescente enquanto a mãe Flávia afirmava que era Lua Cheia.  Como nosso satélite natural estava quase no plenilúnio, salomonicamente, concedi a maior parte da razão à mãe em detrimento da filha, que ficou resmungando que eu não era astrônomo coisíssima alguma.  Criança adorável. J
Saímos todos juntos — eu, Felipe, Abal, André & Família, e Débora rumo à estação de metrô do Catete.  Débora desgarrou para uma comprinha rápida num mercado em frente ao Palácio, enquanto nós embarcávamos numa composição rumo ao Jardim Oceânico, conversando sobre política & eleições, como sempre.  Até a Chloe participou do debate.  Saltei na estação de Botafogo e peguei o ônibus da integração para o Jardim Botânico.  Leitura de bordo: o bom e velho The Practice Effect, do David Brin.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 20 de outubro de 2018 (sábado).




Participantes:
Adílson Júnior
Ana Lúcia Merege
André Orsolon
Chloe Orsolon
Daniel Russell Ribas
Débora Marinho
Diego de Sousa
Dino Freitas
Felipe Vina
Flávia Teresa Almeida
Flávio Lúcio Abal
Flora Pinheiro
Gerson Lodi-Ribeiro
Hamilton Kabuna
Letícia Fernandes
Luiz Felipe Vasques
Mayra Braga
Nelson Meirelles
Ricardo França
Renata Aquino
Ronaldo Fernandes
Simone Masruha Ribeiro
Stella Rosemberg
Ygor Silva




[1].  Na hora não lembrei o título de um artigo extremamente interessante que li recentemente e desejei comentar, sobre a autoconsistência e, sobretudo, sobre a falta dela, nas franquias Star Trek e Star Wars: “Hokey Religions: Star Wars and Star Trek in the Age of Reboots” do Gerry Canavan (in Extrapolation, volume 58, No. 2-3, Summer/Winter 2017).

terça-feira, 14 de agosto de 2018


Bate-e-Volta à Bienal SP 2018

201808112359P7 — 21.219 D.V.

Acordei hoje às 04h00 para tomar meu café da manhã sem pressa e me preparar com calma para a viagem de bate-e-volta para São Paulo a fim de comparecer ao estande da editora Draco na Bienal do Livro 2018.
Às 05h30 entrava no UBER rumo ao Santos Dumont.  Cidade escura e sem trânsito nesta manhã de sábado invernal.  Faria um dia ensolarado no Rio, só que eu iria para Sampa.  Menos de quinze minutos mais tarde, já estava no saguão de embarque do aeroporto.  Embora estivesse com o e-ticket da passagem no celular, just in case, como estava com tempo sobrando, extraí uma versão impressa do mesmo no totem de autoatendimento da Gol.  Daí, passei à área de embarque, ainda relativamente vazia e sossegada.  Sentei junto ao meu portão de embarque e coloquei o celular para recarregar numa porta USB.  Enquanto aguardava a chamada para embarcar, li dois capítulos do romance de ficção científica da Ann Leckie, laureado com o Hugo e o Nebula de 2014, Ancillary Justice (Orbit Books).  Enredo complexo e trama original.  Por enquanto, está do cacete.
O embarque se deu poucos minutos antes do horário marcado (07h00).  O voo G3 1005 decolou com alguns minutos de antecedência em relação ao horário previsto das 07h40 e se desenrolou sem percalços.  A Gol até distribuiu um minisanduíche aos passageiros, surpresa inesperada na classe econômica da ponte aérea Rio-São Paulo.  Leitura de bordo: romance de fantasia folclórica Araruama: o Livro das Sementes (Moinhos, 2017), do Ian Fraser.  Até agora estou gostando bastante.
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A aeronave pousou em Congonhas adiantada (o horário previsto era 08h40).  Caminhei até a área de desembarque.  Ainda cogitei chamar um UBER, mas achei melhor pagar um táxi do aeroporto até o Parque Anhembi, sede da edição 2018 da Bienal do Livro de São Paulo.  A viagem custou R$ 57,00 e transcorreu sem problemas.  Leitura de bordo: edição digital do jornal O Globo, que finalmente consegui baixar no táxi pelo 4G.
Cheguei ao Anhembi pouco depois das nove horas.  Para minha surpresa, embora já dispusesse da credencial de autor impressa e pendurada no pescoço, tive que amargar na fila durante quase uma hora, pois os portões ainda não haviam aberto para o público.  Nas Bienais do Livro do Rio de Janeiro, os portadores de credenciais impressas podem ingressar nos pavilhões antes da abertura oficial da feira às 10h00.  Pelo visto, em Sampa é diferente.  Fato que não observei na Bienal do Livro de 2016, pois então cheguei após a abertura dos portões.  Vou tentar me lembrar disso na Bienal de 2020.  Li mais um pouco do Ancillary Justice na fila e bati papo com um podcaster e blogueiro da área de métodos de educação.
Às 10h00, a fila começou a andar e daí a entrada no único pavilhão do evento se deu de forma rápida e sem maiores problemas.  Nem precisei mostrar um exemplar de livro de minha autoria para adentrar na Bienal.
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Dentro do pavilhão, caminhei pela rua B até o estande B-113, da editora Draco.  Lá encontrei os amigos Eduardo Massami Kasse e Raphael Fernandes.  Edu estava lançando seu romance histórico Vikings: Berserker (Draco, 2018), cujas tramas já havíamos discutido amiúde em encontros passados.  Por causa dessas conversas anteriores, estava ansioso para adquirir meu exemplar autografado desse livro.  De autoria do artista Erick Sama, que não é outro se não nosso grande amigo Erick Cardoso, publisher da Draco, a capa do livro ficou ainda mais bonita ao vivo e a cores do que as fotos de divulgação me fizeram supor.  Também adquiri os dois romances da duologia Metrópole, da Melissa de Sá: Metrópole: Despertar (Draco, 2016) e Metrópole: Caos (2018).  Conforme já havia combinado com a autora na Casa Fantástica da FLIP 2018, ela deixou meus exemplares autografados.

GL-R e Eduardo Kasse com o Vikings: Berserker.


Pouco depois, Erick chegou ao estande da editora, acompanhado pela mãe Isilda Cardoso e pelo filho Dudu.  Neste sábado, Erick estava de folga de seu trabalho na editora Panini e pôde permanecer no estande da Draco durante todo o tempo em que permaneci lá.  Enquanto Erick passeava com o Dudu pela Bienal, aproveitando que as ruas dessa feira literária ainda se encontravam parcialmente transitáveis, conversei bastante com Isilda sobre logística de armazenamento de livros, viagens a Portugal (pois ela e o marido estão planejando visitar a terrinha em breve) e, é claro, sobre nossos netos.  Avô coruja, mostrei para ela as fotos do Bernardo postadas no Instagram por minha nora Júlia.

Erick Cardoso, Dudu e Isilda Moraes.

Edu Kasse e seus fãs 1.

Edu Kasse e seus fãs 2.



Quando o Erick regressou ao estande, conversamos um bocado sobre a situação do mercado editorial brasileiro, com ênfase na situação crítica (pré-falimentar?) de duas das maiores cadeias de livrarias do país.  Uma delas está “prendendo” uma partida de exemplares de meu romance mais recente, Octopusgarden (Draco, 2017) há cinco meses: nem paga e nem devolve os livros.  Daí que não tinha esse título para vender na Bienal...L  Também conversamos um bocado sobre família, paternidade e relacionamentos.  Erick contou que está alugando cinco metros quadrados num depósito para armazenar o estoque de livros da editora.  O aluguel está saindo quatrocentos reais mensais, quantia que considerei módica em comparação com o aluguel de um imóvel inteiro para servir de depósito.
Pouco depois, chegava Antonio Luiz M.C. da Costa, que eu já havia encontrado na FLIP 2018.  Conversamos sobre os textos de ficção científica publicados por autores nacionais nos últimos anos.  Confessei-me algo decepcionado com o fim do romance As Águas-Vivas Não Sabem de Si (Rocco, 2016), da Aline Valek, incensado por diversos leitores e críticos, cuja leitura concluí menos de uma semana atrás.  Não sei se foi excesso de expectativa, mas suspeito de que esse romance seja do tipo “ficção científica para quem não gosta de ficção científica”.  Aliás, os dois livros que mais venderam neste sábado no estande da Draco, com exceção óbvia dos quadrinhos e romances gráficos da editora, foram o Vikings: Berserker do Edu Kasse e a obra de referência mais recente do Antonio Luiz, História do Dinheiro I: o valor das moedas, das coisas e do trabalho, da pré-história até o fim da Idade Média (Draco, 2018).  Os dois livros vendiam como sanduíches de tapioca preparados na hora nas feiras cariocas.
Ao contrário dos outros eventos literários dos quais participei nos últimos tempos, desta vez as antologias que organizei para a Draco venderam mais do que meus livros solo, sobretudo, os três livros que constituem a triantologia punk (Vaporpunk; Dieselpunk; e Solarpunk).  A campeã de vendas foi a Solarpunk: histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável, até então considerada o patinho feio das antologias punk da editora.  A situação parece ter mudado da água para o vinho depois dos anúncios e matérias sobre a compra dos direitos e a publicação desse livro pela editora World Weavers nos EUA.  Pelo visto, a notícia está convencendo os leitores brasileiros a conceder uma chance à antologia, a fim de conferir o conteúdo da edição original.J


Animação no estande da Draco: Erick,
Edu Kasse e Raphael Fernandes.

Pausa para descansar no estande da Draco:
Erick e Raphael 



Erick Cardoso e GL-R.


Por volta das 15h00, Cristina Lasaitis passou no estande da Draco para uma visita.  Conversamos sobre nossas experiências e participações na Casa Fantástica, por ocasião da FLIP 2018 há duas semanas.  Como eu, ela afirmou também ter curtido muito o ambiente informal daquele evento.  Mesas-redondas sem mesas!  Aliás, o Antonio Luiz comentou a mesma coisa, ao declarar que as mesas da Casa Fantástica foram em média muito mais interessantes do que as das antigas Fantasticons.  Tenho impressão de que todos que participaram da Casa Fantástica saíram de Paraty com um sentimento muito bom e o anseio de que o evento se torne anual.  Vamos torcer.
Conversei com o Erick sobre minhas perspectivas de carreira na Prefeitura do Rio de Janeiro para o ano vindouro, quando deverei decidir se me aposentarei no serviço público municipal ou se permanecerei mais alguns anos trabalhando com tarefas um pouco menos complexas do que meu cargo atual de titular da Gerência de Fiscalização e Revisão de Lançamentos do IPTU.
Cerca de meia hora antes da minha partida do Anhembi para o aeroporto, Ana Cristina Rodrigues pintou no estande da Draco.  Conversamos um bocado sobre a crise na Biblioteca Nacional, onde ela trabalha; oportunidades de residência, estudo e trabalho em Portugal; e sobre o tema recorrente da situação do mercado editorial brasileiro.  Também conversamos um pouco sobre a FLIP 2018.  Ela estava escalada para uma mesa sobre editoras independentes, mas não pôde comparecer por motivos de saúde.  Também falamos sobre o progresso de seu romance, ambientado no universo ficcional de Finisterra.  Ana Cris afirmou já ter cerca de quinze mil palavras escritas e estima que o romance deverá atingir pelo menos cem mil palavras.  Ana me detalhou a gênese do romance mainstream de Lucas Rocha, Você Tem a Vida Inteira (Galera Record, 2018), lançado nesta Bienal: uma história de amor entre portadores do HIV, inspirado no trabalho social que o autor realizou com soropositivos.  Lucas Rocha foi o autor da bela e pungente “Verdade sobre Raio Vermelho – Uma Biografia”, noveleta publicada na antologia Super-Heróis, que eu e Luiz Felipe Vasques organizamos para a Draco, lançada em 2012.
*     *      *

Às 17h00, despedi-me dos amigos e atravessei a maré revolta de seres humanos rumo à saída do pavilhão.  Nunca vi uma Bienal do Livro tão lotada quanto essa que enfrentei na ocasião da minha partida.  Levei cerca de dez minutos para percorrer os cem ou cento e cinquenta metros de distância que separavam o estande da Draco da saída.
Uma vez fora do pavilhão, caminhei até o ponto de táxis do Anhembi.  A fila para os veículos credenciados estava enorme e o pior é que os táxis não apareciam.  Cheguei a pedir um UBER, mas o motorista se perdeu ou não conseguiu chegar, pois, depois de estar a dois minutos de alcançar minha posição, passou para quinze minutos e depois para dezessete...  A situação da fila só começou a se resolver quando o responsável por sua organização resolveu permitir que os táxis não credenciados, que chegavam ao Anhembi para deixar passageiros, atendessem ao pessoal da fila.  A nova estratégia resultou, a fila começou a andar e logo pude embarcar num táxi rumo ao aeroporto.
A viagem de táxi de rua saiu mais barata do que o pré-pago da ida, embora tenha consumido mais tempo.  Cheguei ao aeroporto em torno das 18h00.  Novamente, embora possuísse o e-ticket no celular, imprimi a passagem por paranoia (a.k.a. “motivo de segurança”).  Passei logo para a área de embarque e, enquanto aguardava a hora de embarcar, recarreguei meu celular, concluí a leitura d’O Globo e li mais um pouco do Ancillary Justice.
O embarque no voo G3 1054 da Gol se deu no horário previsto das 19h30 e a decolagem ocorreu pontualmente às 20h10.  Mantive o romance da Ann Leckie como leitura de bordo.  A empresa aérea serviu outro minisanduíche e a viagem se efetuou sem problemas.
Ao desembarcar no Santos Dumont às 20h55, cruzei o aeroporto inteiro a pé até alcançar o fim do exterior à área de embarque, ponto em que os veículos da UBER pegam seus passageiros.  A operação dessa empresa no aeroporto pareceu mais organizada do que da última vez que usei o serviço ali.
Antes das 21h30, cheguei em casa, cansado e verde de fome.  Mais uma expedição exaustiva, mas divertida e proveitosa.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 11 de agosto de 2018 (sábado).


Participantes:
Ana Cristina Rodrigues
Antonio Luiz M.C. da Costa
Cristina Lasaitis
Eduardo Chervezan Cardoso
Eduardo Massami Kasse
Erick Cardoso
Fernando Barone
Gerson Lodi-Ribeiro
Isilda Moraes
Marcelo Galvão
Raphael Fernandes
Sílvio Lélis
Tiago P. Zanetic