terça-feira, 8 de abril de 2014

O Rubicão do Romance Fix-up DE História Alternativa

Recebi ontem os primeiros exemplares de meu romance fix-up de história alternativa Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014), ambientado no universo ficcional dos Três Brasis.  A publicação desse trabalho em particular me deixou extremamente feliz, pelo fato de concretizar o sonho de quase vinte anos de publicar sob a forma de romance a saga de meu personagem Dentes Compridos, fundindo suas várias aventuras numa obra que fizesse sentido.  Com essa publicação, sinto como se houvesse finalmente cruzado uma espécie de Rubicão em minha carreira literária.
Porém, como diria Jack o Estripador, que também tem algo a ver com essa história, “Vamos por partes”.
Meu périplo pessoal em termos de narrativas extensas dentro desse universo ficcional começou no fim de 1995, época em que concluí minha primeira tentativa de produzir um fix-up, um romance de 67 mil palavras, constituído por versões bem anteriores as atuais das noveletas “Crepúsculo Matutino”; “O Vampiro de Nova Holanda”; e “A Traição de Palmares”.  Por volta de 1997, sob o título de Filhos da Noite, esse romance teve sua publicação aprovada na Coleção Visões, então recém-lançada pela editora da Universidade de São Carlos.  Ótimo!  Não poderia ser melhor: teria meu primeiro livro solo publicado por uma editora séria e esse livro seria um romance.[1]


Capa do romance fix-up Filhos da Noite.



*     *     *

Estaria mentindo descaradamente se afirmasse que o malogro da iniciativa da Universidade de São Carlos não me desanimou um bocado.  Afinal, teria representado a publicação do meu primeiro romance profissional, já que até então eu só havia publicado três trabalhos na revista francesa de ficção científica Antàres[2] e duas noveletas na versão brasileira da Asimov’s.[3]
Desanimei, mas não desisti.  Porque, dois anos mais tarde, quando precisei escrever uma noveleta de história alternativa para a antologia Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000), que organizei com Carlos Orsi Martinho, não hesitei em escrever a noveleta “Capitão Diabo das Geraes”, recorrendo uma vez mais ao bom e velho Dentes Compridos, agora mais conhecido pela alcunha de “Capitão Diabo”, para perturbar a mando de Palmares as partidas de diamantes do Distrito Defeso do Arraial do Tijuco dos tempos de Chica da Silva e do Real Contratador João Fernandes de Oliveira.[4]
*     *     *

Na esteira de “Capitão Diabo das Geraes”, escrevi três outros trabalhos, novas aventuras do último filho-da-noite: “Morcego do Mar”; “Consciência de Ébano”[5]; e “Azul Cobalto e o Enigma”[6].  Juntos, esses quatro trabalhos constituem um subtexto à parte dentro do U.F. Três Brasis, um quarteto que batizei Saga do Salteador, conforme detalhado na crônica homônima.
Contudo, bem antes desse quarteto, lá por idos de 1994, escrevi a noveleta “Assessor para Assuntos Fúnebres”, uma aventura de Dentes Compridos na Londres vitoriana, ocasião em que o protagonista trava contato com um Jack o Estripador reinterpretado à luz da ficção científica e da história alternativa.
*     *     *

Quando surgiu a oportunidade de publicar pela Editora Draco meu romance de história alternativa e vampirismo científico contando as aventuras de Dentes Compridos, aquele fix-up original, velho de uma década e meia, já não parecia adequado.  A expectativa de concretizar o sonho antigo, frustrado pelo malogro da coleção universitária de literatura fantástica, soou-me em 2012 como uma nova chance de atravessar esse Rubicão literário pessoal.
O primeiro passo foi excluir a novela “A Traição de Palmares”[7].  Porque, afinal de contas, meu protagonista favorito não dava as caras naquela narrativa.  Era tão somente referido de forma indireta.
O segundo passo foi incluir três outros trabalhos: a noveleta “Capitão Diabo das Geraes”; a novela inédita “Morcego do Mar”; e a noveleta “Assessor para Assuntos Fúnebres”.
Por último, cumpria reescrever o novo fix-up para lhe conceder sentido e consistência.
No que diz respeito às histórias de publicação profissional, os cinco trabalhos que constituem esse novo romance fix-up, tanto “Crepúsculo Matutino” quanto “Morcego do Mar” são inteiramente inéditas.  Já “Capitão Diabo das Geraes” só foi publicada na Phantastica Brasiliana, há quase quinze anos e numa edição de meros quinhentos exemplares.  Por outro lado, “O Vampiro de Nova Holanda” e “Assessor para Assuntos Fúnebres” foram publicados diversas vezes, no Brasil e em Portugal.  No âmbito lusófono, “Assessor...” apareceu inicialmente em minha primeira coletânea de ficção curta publicada em Portugal, Outras Histórias... (Editorial Caminho, 1997) e “O Vampiro de Nova Holanda” na coletânea homônima, publicada pela mesma editora no ano seguinte.  Tempos mais tarde, essas duas narrativas fariam seu debut em nosso país em grande estilo, quando da publicação da minha coletânea de história alternativa Outros Brasis (Mercuryo, 2006).

Capa do romance fix-up Aventuras do Vampiro de Palmares.

*     *     *

Escrita em setembro de 1995 e reescrita pelo menos duas vezes desde então, com 18.000 palavras em sua versão atual, a novela “Crepúsculo Matutino” fala da gênese e dos mitos de Criação do Povo Verdadeiro, também conhecidos como filhos-da-noite, humanoides que evoluíram como nossos predadores.  Mostra o apogeu e a queda dessa cultura não humana na América do Sul pré-colombiana, a guerra secreta que travaram contra o Império Inca e a fuga em marcha lenta do jovem filho-da-noite Dentes Compridos Brasil Colonial adentro, até trombar, dois séculos mais tarde, com a República de Palmares, então já sob forte influência cultural de Nova Holanda.  Dentre os trabalhos incluídos no Aventuras do Vampiro de Palmares, “Crepúsculo Matutino” é o único que não possui o caráter de história alternativa, mas antes o de história oculta, isto é, a história não acontece exatamente como aprendemos na escola, embora ninguém a não ser o leitor saiba disso.
Escrita em abril de 1994, com 20.400 palavras em sua versão atual, a novela “O Vampiro de Nova Holanda” foi reescrita três ou quatro vezes, em geral por conta de uma nova publicação.  É a narrativa dos primeiros anos de Dentes Compridos como agente secreto da Confederação de Palmares.  A ação se desenrola por volta de 1675, época em que ele atua no Recife — cidade que, nessa linha histórica alternativa, permaneceu sob o domínio holandês e se tornou não só uma grande metrópole, mas também o maior porto açucareiro do mundo.
Escrita em maio de 1999, com 12.300 palavras, “Capitão Diabo das Geraes” é a primeira estrofe do quarteto de narrativas sobre as quais discorri na crônica “A Saga do Salteador”.  A narrativa se passa em 1754, três décadas após a proclamação da república em Palmares.  Uma época em que a Coroa Portuguesa intervém de forma velada na guerra civil palmarina entre facções iorubas católicas e pagãs, um conflito de baixa intensidade que grassa na província republicana da Bahia do Norte.  Em represália, a Primeira República envia um comando de elite encabeçado por Dentes Compridos para, disfarçados de salteadores, atrapalhar o fluxo de diamantes no Arraial do Tijuco, pois era o Contratador João Fernandes que financiava o apoio aos iorubas pagãos em nome da Coroa.
Escrita em abril de 2003, com 25.200 palavras, a novela “O Morcego do Mar” constitui a narrativa mais longa escrita neste universo ficcional.  A ação se passa em 1775, época em que a Primeira República presta apoio aos rebeldes das Treze Colônias em sua luta pela independência.  A história reúne outra vez os personagens João Fernandes e Anduro, criados em “Capitão Diabo das Geraes” e que agora atuam como diplomatas de Palmares junto aos rebeldes.  Dentes Compridos ressurge sob a identidade de José Meia-Noite, comandante da fragata palmarina que empresta seu nome à novela, vaso que engajará contra a frota da Royal Navy que conduz os reforços necessários para debelar a rebelião.
Escrita em agosto de 1994 e reescrita diversas vezes desde então, com 12.300 palavras em sua versão atual, a noveleta “Assessor para Assuntos Fúnebres” se passa durante um período de férias de Dentes Compridos na Londres vitoriana na penúltima década do século XIX, época em que o último filho-da-noite se envolve com as atividades literárias de Bram Stoker, autor de Drácula, e com a série de crimes perpetrada por Jack o Estripador.
*     *     *

A publicação do Aventuras do Vampiro de Palmares reúne enfim a maioria das narrativas de Dentes Compridos num único volume.  Foram deixadas propositalmente de fora as duas narrativas mais recentes do personagem, a noveleta “Consciência de Ébano” (2006) e a novela “Azul Cobalto e o Enigma” (2012), publicadas em volumes distintos da triantologia punk que organizei para a Draco entre 2010 e 2012.
Há ainda as narrativas ambientadas no U.F. Três Brasis em que Dentes Compridos não aparece, como, por exemplo, “A Traição de Palmares” (1994); “Pátrias de Chuteiras” (1998); “Gigante dos Pés de Barro” (2000); e “O Caminho da Verdade” (2002).  Ambientada no norte do Peru, cerca de nove séculos antes da chegada dos europeus, essa última noveleta fala das peripécias de filhos-da-noite que viveram quase um milênio antes do protagonista do romance fix-up.
Além das cinco narrativas descritas acima, essa primeira edição bem-acabada do Aventuras do Vampiro de Palmares contém dois apêndices: “Argumento Ficcional” e “História que Não Aprendemos na Escola”.  O primeiro apêndice delineia o universo ficcional em termos de história alternativa, vampirismo científico e história oculta.  O segundo detalha a linha histórica alternativa do Três Brasis, desde 600 a.d. até 1986.
Cada comemoração tem o seu momento, suas particularidades e sua personalidade própria.  Gosto de beber bons vinhos, porém, um vinho realmente bom não pode (ou, pelo menos, minha situação financeira não permite) ser bebido todos os dias.  Portanto, para comemorar o lançamento do Aventuras do Vampiro de Palmares, após a odisseia de quase duas décadas que lhes narrei acima, uma vez cruzado o Rubicão, nada melhor do que brindar a façanha com um tinto californiano de escol que tem tudo a ver: Rubicon 2004, produzido pela Rutherford, Napa Valley.  Um corte bordalês você pode assumir tranquilamente como varietal: Cabernet Sauvignon (96%); Petit Verdot (2%); Merlot (1%); e Cabernet Franc (1%).  Resumo da ópera?  O melhor californiano que já provei, superando até mesmo o mítico Artemis 2004, da Stag’s Leap, a vinícola que derrotou os melhores tintos de Bordeaux duas vezes seguidas no Julgamento de Paris, numa degustação às cegas com juízes franceses.  Desta forma, meu primeiro romance fix-up teve a comemoração que merecia!





Gerson Lodi-Ribeiro
Abril de 2014.




[1]Filhos da Noite seria o segundo volume da Visões, que estreou com a coletânea de André Carneiro, A Máquina de Hyerônimus (Editora da UFSCar, 1997).  Infelizmente, a coleção foi descontinuada após a publicação desse primeiro título.
[2].  “Xenopsicólogos na Fase Crítica” (Antarès 35, 1989); “Quando os Humanos Foram Embora” (Antarès 37-38, 1991); e “A Ética da Traição” (Antarès 41-42, 1992).
[3].  “Alienígenas Mitológicos” (Isaac Asimov Magazine # 15, julho 1991) e “A Ética da Traição” (Isaac Asimov Magazine # 25, janeiro de 1993).
[4].  Aos interessados em saber mais sobre a gênese desta noveleta e sua relação com a música “The Highwayman”, de Jimmy Webb, sugiro a leitura de minha crônica “A Saga do Salteador”: http://www.alternative-highwayman.blogspot.com.br/.
[5].  A noveleta “Consciência de Ébano” foi publicada na antologia de história alternativa Vaporpunk (Draco, 2010).
[6].  A novela “Azul Cobalto e o Enigma” foi publicada na antologia de história alternativa Solarpunk (Draco, 2012).
[7].  Essa novela foi publicada pela Editora Writers em 2000 numa das primeiras encarnações brasileiras do sistemas de impressão por demanda.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Saga do Salteador

Concluí há coisa de um ano a saga iniciada exatos treze anos atrás quando escrevi “Capitão Diabo das Geraes”, uma noveleta de história alternativa passada na linha histórica Três Brasis, publicada originalmente na antologia Phantastica Brasiliana, que organizei com Carlos Orsi Martinho para a editora Ano-Luz.

Capa e contracapa da antologia Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000).


Desejava escrever um trabalho de história alternativa no universo ficcional que havia estabelecido cinco anos antes para a novela “O Vampiro de Nova Holanda” (abril 1994)[1] e que eu já havia revisitado na noveleta “Assessor Para Assuntos Fúnebres” (agosto 1995)[2] e, naquele primeiro semestre de 1999, eu estava ouvindo bastante o CD áudio Ten Easy Pieces, do Jimmy Webb, particularmente a música “The Highwayman”, que, além de uma melodia belíssima, possui uma letra inspiradora que, como diversas outras letras desse compositor, parece falar direto aos amantes de ficção científica e fantasia.
Ou, no caso, de história alternativa.
Porque, prestando atenção na letra de “The Highwayman” (algo como “O Salteador” em português), senti que tinha tudo a ver com o personagem que atua como protagonista de “O Vampiro de Nova Holanda”, Dentes Compridos, o último dos filhos-da-noite — um exemplar de vampiro natural (em oposição aos vampiros sobrenaturais) cuja espécie evoluiu como predadora de seres humanos.
Daí, retornei ao universo dos Três Brasis para escrever uma noveleta inspirada na primeira estrofe dessa obra-prima de Jimmy Webb, cuja letra original segue abaixo:

THE HIGHWAYMAN (Jimmy Webb © 1977)

I was a highwayman
Along the coach roads I did ride
With sword and pistol by my side
Many a young maid lost her baubles to my trade
Many a soldier shed his life blood on my blade
The bastards hung me in the spring of '25
But I am still alive

I was a sailor
I was born upon the tide
And with the sea I did abide
I sailed a schooner 'round the horn to México
I went aloft to furl the mainsail in a blow
And when the yards broke off they said that I got killed
But I am living still

I was a dam builder
Across the river deep and wide
Where steel and water did collide
A place called Boulder on the wild Colorado
I slipped and fell into the wet concrete below
They buried me in that great tomb that knows no sound
But I am still around...
I'll always be around, and around, and around, and around, and around...

I'll fly a starship
Across the Universe divide
And when I reach the other side
I'll find a place to rest my spirit if I can
Perhaps I may become a highwayman again
Or I may simply be a single drop of rain
But I will remain
And I'll be back again
and again, and again, and again, and again...

*     *     *

“Capitão Diabo das Geraes” (maio 1999) se inspirou na primeira das quatro estrofes de “The Highwayman”, aquela que apelidei “Salteador”[3].
Como poucos anos antes havia assistido a telenovela Chica da Silva na finada Rede Manchete e lido o romance histórico Chica que Manda (Itatiaia, 1966), de Agripa Vasconcelos, percebi que poderia ambientar a ação nos sertões de Minas Gerais de meados do século XVIII, mais especificamente, no Distrito Defeso do Tijuco dos tempos do Real Contratador dos Diamantes João Fernandes de Oliveira e sua mulata bem-amada, Chica da Silva.  Só que num sertão mineiro diferente, pois ao norte daquela província, havia um Estado que não existiu como tal em nosso mundo, a primeira nação soberana das Américas: Palmares, que já teria conquistado sua independência há coisa de setenta ou oitenta anos e se transformado de reino em república algumas décadas antes.

Miniatura mochica de divindade hematófaga pré-colombiana. Pseudoinspiração
para a saga do último filho-da-noite. Pois a novela "O Vampiro de Nova Holanda
foi escrita em 1994 e só descobri a divindade mochica  em janeiro de 2000...


Após atuar durante décadas como espião e agente secreto de Palmares, Dentes Compridos é enviado ao Tijuco com a missão de perturbar ou interromper o fluxo de diamantes que partia do distrito defeso para a metrópole portuguesa, em represália ao apoio velado de Lisboa à rebelião de colonos iorubas, assentados décadas antes pela elite palmarina na região da Primeira República então designada como “Bahia do Norte”.
Sob a alcunha de “Capitão Diabo”, o filho-da-noite lidera um bando de salteadores, em verdade, militares do bem treinado Exército de Palmares, cujo objetivo último consiste em persuadir a Coroa Portuguesa, lá representada na figura do Real Contratador dos Diamantes, a cessar sua intervenção na guerrilha que os iorubas travavam ao sul da República em prol da liberdade religiosa — visto que esses colonos professavam seus cultos africanos, em desacordo com as leis palmarinas, que adotaram a fé católica como religião oficial.  Tal persuasão se dá através de atos de terror contra as autoridades do Tijuco e a população do distrito.  A situação se agrava com a chegada do novo contratador, um vida-curta sagaz, oponente à altura da astúcia e experiência que Dentes Compridos acumulou ao longo de séculos de convívio com humanos de diversas etnias.
“Capitão Diabo das Geraes” foi publicada originalmente na antologia de história alternativa Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000) e será relançada no meu romance fix-up Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2013).
*     *     *

“Morcego do Mar” (abril 2003) se inspirou na segunda estrofe da música de Jimmy Webb, apelidada “Comandante”[4].
A motivação precípua para escrever essa novela foi o convite de César R.T. Silva para compor uma história alternativa mais encorpada para uma coleção de novelas que ele pretendia publicar sob a forma de livros-solo.  Infelizmente, o projeto não emplacou, mas, de todo modo, a novela foi escrita.  Com mais de 25 mil palavras, “Morcego do Mar” é de longe a maior das quatro peças literárias que compõem a Saga do Salteador.[5]
Agora a serviço da Primeira República, João Fernandes, vira-casaca e ganga branco de Palmares, é enviado para as Treze Colônias Inglesas em plena insurreição que culminaria na Guerra de Independência.  Uma vez lá, ele firma tratados para apoiar os rebeldes norte-americanos, só para descobrir que parte desse apoio consistia em embarcar na Morcego do Mar, fragata da Marinha Palmarina sob o comando de José Meia-Noite, que não é outro se não seu velho desafeto, o Capitão Diabo...
“Morcego do Mar” permanece inédita até hoje.  Será publicada em breve no Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2013).

Cenário Naval da novela "O Morcego do Mar", publicada em Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014)

*     *     *

A inspiração para escrever “Consciência de Ébano” (maio 2006) veio da terceira estrofe de “The Highwayman”, aquela a que me refiro como “Engenheiro”[6].
Já a motivação surgiu com o convite para publicar um romance fix-up sobre as aventuras de Dentes Compridos para o selo Unicórnio Azul da editora Mercuryo, então sob comando de Fábio M. Barreto.  Embora o selo tenha publicado apenas dois títulos — a novela de ficção alternativa A Mão que Cria (Mercuryo, 2006), de Octavio Aragão, e minha coletânea de histórias alternativas Outros Brasis (idem) — embalado pelas perspectivas otimistas propaladas pela Unicórnio Azul, acabei escrevendo “Consciência de Ébano”.
Agora a ação se passa na primeira metade do século XIX.  Palmares dispõe de uma malha ferroviária extensa, seus cientistas aceitaram há décadas a Evolução pela Seleção Natural como fato concreto e seus engenheiros começam a cogitar aplicações práticas para a eletricidade.  Nesse clima de avanços científicos e tecnológicos, Dentes Compridos, ora na pele do engenheiro José Trevoso, propõe a construção da primeira represa hidroelétrica de história em pleno rio São Francisco.
No entanto, nem tudo são flores nos rincões da Primeira República.  Pois essa também é a história de João Anduro, neto de João Fernandes e membro do Círculo de Ébano, organização secreta criada pouco antes de Palmares se tornar uma república para proteger o segredo da existência de Dentes Compridos.  Anduro é um mbundo de lealdades divididas.  Por um lado, prestou juramento para defender o filho-da-noite com sua própria vida.  Por outro, julga a proteção que a pátria faculta ao monstro imortal uma abominação e considera a dependência que a República desenvolveu em relação à eficiência mortífera do protegido um sacrilégio.  Esse dilema ético atroz é a mola que propulsiona a narrativa da noveleta.
“Consciência de Ébano” foi publicada originalmente na antologia de história alternativa Vaporpunk (Draco, 2010).

A novela “Azul Cobalto e o Enigma” (maio 2012) foi inspirada na quarta e última estrofe da música de Webb, aquela em que costumo pensar como “Astronauta”[7].
Foi de longe a peça mais difícil de escrever do quarteto e por um motivo muito simples: pelo fato de se passar na época atual de uma linha histórica em que a ciência e a tecnologia se desenvolveram mais rápido do que na nossa, a narrativa praticamente abandona as sendas da história alternativa propriamente dita para ingressar na seara da ficção científica hard.  Seria, portanto, a primeira narrativa no universo ficcional dos Três Brasis com mais cara de FC do que de história alternativa e eu nutria dúvidas se uma narrativa desse gênero funcionaria na prática.  Talvez essa incerteza ajude a explicar o intervalo de seis anos entre a conclusão da terceira peça e a dessa novela.
Depois de matutar durante esse período de tempo sobre como escrever tal narrativa, senti que o momento ideal para concretizá-la havia enfim chegado quando organizava a Solarpunk.  Como antologista, desejava propor um trabalho diferente no livro que estava montando, um texto capaz de fugir um pouco à mesmice das energias alternativas e seres humanos fotossintéticos que, suspeitei, seriam onipresentes na maioria das submissões aprovadas.  Daí, veio a ideia de mandar Dentes Compridos para uma aventura final no espaço interplanetário.
Parte da motivação para escrever essa peça veio de um desafio lançado pelo fã paulistano Ivo Heinz há coisa de quinze anos, quando de nossas andanças pelos sebos da capital paulista numa manhã chuvosa de sábado.  Lá pelas tantas, ele me questionou sobre a ausência de protagonistas brasileiros nas histórias alternativas ambientadas no universo ficcional dos Três Brasis.  Sem pensar demasiado no assunto, comentei que a ideia de um protagonista brasileiro era fascinante, mas que não sabia se teria inspiração para desenvolver uma narrativa plausível a partir da mesma.  Pois bem.  Década e meia se passou até que eu lograsse produzir outro herói brasileiro viável nesta linha alternativa, que não o meu João Fernandes ficcional.  Jonas Aranha surgiu para cumprir esta nobre missão, de todo modo, mais nobre do que a de encontrar e aniquilar o último filho-da-noite.  Pois, em pleno século XXI, Dentes Compridos ainda constitui fonte de preocupações para a comunidade da inteligência militar brasileira.  Aranha é o Azul Cobalto do título: um oficial tetraplégico tornado em super-herói graças à sua armadura invencível, uma espécie de Homem-de-Ferro brasileiro alternativo.  Lógico que “Enigma” é como o Serviço de Inteligência Brasileiro designa seu pior inimigo.
Embora parte da narrativa de “Azul Cobalto e o Enigma” se passe na Terra, as cenas de ação mais intensas são ambientadas num satélite de Júpiter, num veleiro espacial e na estação orbital São Paulo.  O próprio o confronto crucial entre os dois “heróis” não ocorre em nosso planeta.  Concluída a novela, percebi que ela também se encaixaria bem na Super-Heróis, antologia que preparei para a Draco em parceria com Luiz Felipe Vasques.
Além do herói brasileiro, também fiz uso em “Azul Cobalto e o Enigma” da dupla de amigos escritores, Gilson Pellegrino e Carlos Fernandes, que já havia aparecido num conto desta linha histórica, “Gigante dos Pés de Barro” (Megalon, 59 — Dezembro 2000).  Pellê e Fernandes agora se arvoram em investigadores, correlacionando dados para tentar provar a existência de um assassino serial imortal que vem atuando contra o Brasil há séculos.
“Azul Cobalto e o Enigma” foi publicada na Solarpunk (Draco, 2012), terceiro e último volume do projeto de triantologia punk sui generis que organizei para a editora.
*     *     *

Quem sabe um dia não consigo reunir este “Quarteto do Salteador” num único volume?
Se tal acontecesse, como sonhar não custa, o ideal seria que tal coletânea fix-up fosse prefaciada pelo próprio Jimmy Webb.  Seria a glória.

Gerson Lodi-Ribeiro
Maio de 2013.




[1].  Todas as datas publicadas entre parênteses no formato (mês ano) se referem à época da conclusão da peça literária em questão.
[2].  Esses trabalhos foram publicados profissionalmente no bojo das duas coletâneas que lancei em Portugal pela Editorial Caminho.  “Assessor para Assuntos Fúnebres” saiu na Outras Histórias... (1997) e “O Vampiro de Nova Holanda” saiu na coletânea homônima (1998).  Ambas as narrativas foram publicadas em nosso país na minha coletânea de história alternativa Outros Brasis (Mercuryo, 2006).
[3] Fui Salteador
Pelas estradas cavalguei
De espada e pistola à cinta
E muitas donzelas perderam seus adornos em minha lida
E muitos soldados verteram sangue em minha lâmina
Os patifes me enforcaram na primavera de ‘25
Mas eu sobrevivi.
[4]. Fui Homem do Mar
Nasci na preamar
E no mar permaneci
Velejei numa escuna à volta do Cabo Horn, até o México
Numa tormenta, subi o mastro para colher a vela-mor
E quando as vergas quebraram, disseram que morri
Porém, sobrevivi
Quiçá eu viva pra sempre...  Não sei.
[5]. “Capitão Diabo das Geraes” (12.300 palavras); “Morcego do Mar” (25.200 palavras); “Consciência de Ébano” (14.800 palavras); e “Azul Cobalto e o Enigma” (19.600 palavras).
[6]. Fui um Construtor de Represas
Sobre o rio largo e profundo
Onde aço e água se entrebatem
Num lugar chamado Boulder, no Colorado bravio
Escorreguei e despenquei dentro do betão fresco
Eles me sepultaram naquela vasta tumba silenciosa
Mas ainda estou por perto.
[7]. Voarei numa nave
Até o limite do universo
E quando eu chegar do outro lado
Descobrirei um lugar para repousar meu espírito, se puder
Talvez eu possa me tornar um salteador outra vez
Ou talvez eu possa ser apenas uma gota de chuva
Mas sobreviverei
E retornarei
De novo, de novo, de novo e de novo...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Primeiro Encontro do Ano da Copa

201401252359P7 — 19.560 D.V.

“Minha maior preocupação não é com a questão da bestialidade, mas sim com a do incesto.” (Bruno Littlemore)
 


Estive hoje à noite no restaurante Estação Gourmet no primeiro encontro de 2014 da comunidade carioca de literatura fantástica, com a presença de nosso amigo Clinton Davison, atualmente presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC).
Cheguei com dez minutos de atraso.  Portanto, segundo os cânones da pontualidade carioca, estava pelo menos quinze minutos adiantado.  Por isto não me surpreendi ao não encontrar ninguém no Estação.  Ante os garçons desconfiados, pedi mesa para dez pessoas e logrei resistir sozinho ao canto da sereia do magnífico rodízio de pizzas e crepes do estabelecimento.  Tentação contra a qual brandi o romance xenofílico de Benjamin Hale, The Evolution of Bruno Littlemore (Atlantic Books, 2011), leitura na tela do celular, interrompida com a chegada dos amigos Jorge Pereira, Carlos Patati com sua filha de sete anos, Sofia, e Marcos Archanjo.
*     *      *

Pouco depois chegava Clinton, com os alforjes repletos de camisas do CLFC para vender ao preço unitário de R$ 30,00.  Junto com Clinton chegava Alberto Oliveira acompanhado por um grupo de amigos que ancorou na extremidade direita de nossa mesa, por essa altura já expandida para dezesseis ou vinte lugares.
Leio ficção científica e me orgulho disso!


Sofia "Patatinha" a caráter, com o papai orgulhoso ao fundo.



Ocupando uma mesa anexada, logo apelidada de “A Diretoria”, Clinton iniciou a venda das camisas negras com os dizeres “EU LEIO FICÇÃO CIENTÍFICA”.  Comprei duas tamanho GG.  Após grande insistência junto ao pai, Sofia conseguiu ganhar uma camisa tamanho P que lhe assentou perfeitamente sob a forma de um vestidinho.
Max Mallmann, Osmarco Valladão, Ricardo França e Raul Avelar chegaram mais ou menos por essa hora.  Max contou ter recebido as provas do romance de continuação ao seu aclamado Centésimo em Roma.  Só que, infelizmente, o revisor implementou algumas correções erradas, de modo que o romance teve que ser descorrigido.  Mesmo assim, o lançamento parece estar assegurado ainda para este primeiro semestre.
Marcos Archanjo e Ricardo França.

Tanto Max quanto Jorge Pereira elogiaram bastante o filme de FC Gravidade, que eu ainda não assisti.  Preciso arrumar tempo para fazê-lo.
Conversei com o Jorge e o Archanjo sobre a obra de Gene Wolfe, sobretudo, o romance Soldado da Névoa (Europa-América, 1988), sobre Latro, um mercenário romano que, após lutar ao lado do Império Persa na Segunda Guerra Médica em 480 a.C., perde a memória na Batalha de Platea e acaba se tornando escravo, primeiro de um comandante ateniense e mais tarde de um general espartano.  Wolfe escreveu dois romances de continuação, transformando esse clássico numa trilogia.  Também falamos sobre a tetralogia do Novo Sol do Wolfe, escrita dentro do Urth Cycle, e eu acabei confessando ter cometido uma noveleta de FC wolfeniana, travestida de fantasia tolkieniana coisa de dez anos atrás, “Intruso em Valmar”, publicado no fanzine Somnium em 2005.


Osmarco Valladão e Jorge Pereira.


Papeei com o Osmarco e o Jorge sobre as diferenças nos enredos dos romances do ciclo Crônicas de Gelo e Fogo, do George R.R. Martin, em relação às temporadas já exibidas pela HBO.  Manifestei minhas dúvidas quanto à possibilidade de conciliação narrativa entre as duas mídias.  Contudo, como o próprio Martin está atuando como consultor da série televisiva, creio que tudo irá se acertar no fim da história.
Clinton trouxe à baila a perspectiva de se organizar uma miniconvenção de literatura fantástica no Planetário da Gávea, aproveitando a abertura proporcionada pela organização da JediCon nesse mesmo espaço cultural.
*     *      *

Por volta das 21h00, quando eu já pensava em tirar o time, chegou o casal Ana Cristina Rodrigues e Estevão Ribeiro, diretamente de uma renhida partida de boliche disputada nas pistas do Shopping São Gonçalo.  Trouxeram consigo meu exemplar autografado do romance Filhos do Fim do Mundo (Casa da Palavra, 2013), do amigo Fábio M. Barreto.  Embora lançado aqui no Rio em julho do ano passado, como estávamos em Manaus por ocasião do lançamento, só agora esse livro badalado me chega às mãos.  Li a primeira parte do romance na época em que o Fábio estava escrevendo, mas devo retomar a leitura desde o início, para montar a história direitinho na cabeça.
Ana Cris e Estevão também trouxeram um exemplar da edição portuguesa da revista Bang!, publicada, tanto lá quanto cá, pela Saída de Emergência.  Essa edição contém uma tira de Os Passarinhos do Estevão, usando o George R.R. Martin como personagem.
Estevão confirmou que sua graphic novel, Da Terra à Lua, sairá pela Ediouro ainda este ano.  Tive acesso aos originais, constatando que os quadrinhos em si já estão executados.  O autor está colorizando o trabalho.  A narrativa é uma fusão dos romances Da Terra à Lua de Jules Verne com Os Primeiros Homens na Lua de H.G. Wells, com uma homenagem ao pioneiro do cinema, Georges Méliès.
Lá pelas tantas, a pauta da mesa se centrou sobre o Prémio Bang! 2014, patrocinado pela editora (agora) luso-brasileira Saída de Emergência.  O prêmio é de 3.000€ e a proposta da editora é descobrir o novo Stephen King, George R.R. Martin ou Isaac Asimov do fantástico lusófono.  Embora me considere um pessimista convicto, pelo sim, pelo não, decidi conferir o regulamento da premiação para dar uma conferida sem compromisso.
Contei aos amigos da empolgação com a leitura atual do romance The Evolution of Bruno Littlemore, que narra as memórias de um chimpanzé genial que aprende a falar, apaixona-se pela primatologista que o ensina (sendo correspondido!) e acaba se tornando dramaturgo e ator shakespeariano.  Infinitamente mais bem escrito do que as tramas pueris de sexo com sasquatches ou pteranodontes que hoje abundam em e-books vendidos pela Amazon.

Max Mallmann, Clinton Davison e Raul Avelar.

Clinton, Raul Avelar, Alberto Oliveira e Ana Cristina Rodrigues.


Esta foi a primeira reunião de nossa comunidade em que Raul Avelar compareceu acompanhado de sua esposa.[1]  O motivo dessa presença simpática era triste.  Por conta de problemas de saúde, o decano da FC&F carioca não deverá mais comparecer nos próximos encontros.  Nesse clima de despedida, o presidente do CLFC presenteou nosso decano com uma camisa e Estevão Ribeiro com um de seus únicos dois exemplares da edição portuguesa da Bang!  Porém, ao término deste encontro, bolamos um esquema de voluntários para buscar e levar Raul Avelar em casa, para que ele possa continuar participando de nossas reuniões.  Além disso, ressuscitamos aquela ideia velha de uma década de gravar uma entrevista com ele sobre suas experiências durante o Simpósio de Ficção Científica.  Vamos ver se desta vez esse projeto decola.
Saí do Estação Gourmet com Ricardo França por volta das 23h20.  Dez minutos e uma viagem de táxi mais tarde, chegava em casa neste quase início de madrugada tórrida do verão carioca.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2014 (sábado).


Participantes:
Alberto Oliveira
Ana Cristina Rodrigues
Carlos Eugênio Patati
Clinton Davison
Estevão Ribeiro
Gerson Lodi-Ribeiro
Jorge Pereira
Marcos Archanjo
Max Mallmann
Osmarco Valladão
Raul Avelar & esposa
Ricardo França
Sofia Patatinha



[1].  Raul Avelar é o único ou, pelo menos, o último remanescente do subfandom carioca que assistiu o Simpósio de Ficção Científica, que transcorreu no Rio ao fim da década de 1960, por conta do êxito comercial do clássico 2001, uma Odisseia no Espaço.  Organizado pelo crítico e tradutor José Sanz, o evento contou com a presença de Robert A. Heinlein, Arthur C. Clarke, Harlan Ellison, Philip José Farmer, dentre outros monstros sagrados da FC anglo-saxã.