domingo, 29 de abril de 2012


1ª odisseia fantástica
de porto Alegre
2012


201204290742P1    18.923 D.V.

“O fator que mais me motivou a me tornar escritora foi a preguiça.” [Simone Saueressig]



“O mais importante para escrever bem é ter prazer em escrever.  Porque, se você não gostar do que está criando, como esperar que o leitor goste?” [Giulia Moon]



“Revise sempre seu texto, revise muito” [Georgette Silen]



Regressei hoje de um sábado memorável vivido na cidade de Porto Alegre, pela qual já havia passado diversas rumo a Bento Gonçalves ou à Serra Gaúcha, mas onde nunca havia permanecido mais do que o tempo necessário para embarcar num ônibus, van ou avião.

Desta vez foi diferente.  O motivo foi a Primeira Odisseia de Literatura Fantástica, organizada por Cesar Alcázar, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão.  O evento se desenrolou no Memorial do Rio Grande do Sul, um belo prédio histórico situado no centro de Porto Alegre.

*     *      *



Deixei o Rio no voo 1452 da Gol que decolou pontualmente às 09:52h do Aeroporto Internacional Galeão Tom Jobim com míseros 28 minutos de atraso.  Aproveitei o tempo no aeroporto e durante o voo para revisar alguns contos da antologia Erótica Fantástica 1, que estou organizando para a editora Draco.  Trabalho produtivo: para o livro ficar pronto só falta escrever o prefácio.  Assim que o fizer, atacarei sua irmã gêmea, a Erótica Fantástica 2.

Felizmente, o voo não sofreu maiores atrasos, pois minha participação como mediador de uma mesa-redonda se daria às 13:00h.  De todo modo, julguei prudente ir direto para o Memorial sem passar no Hotel Lido para efetuar o check-in.

Saí pelo portão de desembarque do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre às 11:50h.  Quinze minutos mais tarde, descia do táxi na Sete de Setembro, a um quarteirão do Memorial, com a recomendação de uma churrascaria tipicamente gaúcha, a Galpão Crioulo.

Já à entrada do Memorial, travei conhecimento com Cesar Alcázar, um dos organizadores do evento.  Cesar me conduziu à área de vendas de livros, bem mais extensa que a da Fantasticon.  Ali, no estande dos livros independentes, descarreguei cinco exemplares da Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002), antologia de contos eróticos fantásticos que organizei há uma década e que hoje serve de benchmarking para as Eróticas Fantásticas.

Encontrei minha amiga Ana Cristina Rodrigues no estande em frente, que a Editorial Llyr dividia com a Ornitorrinco, editora que lançou a 2013: Ano Um, antologia de contos pós-apocalípticos organizada por Alicia Azevedo e Daniel Borba, que abre com meu “Terra Brasilis”, minha humilde resposta aos romances Choice of Gods, de Clifford D. Simak, e Darwinia, de Robert Charles Wilson.  Como a 2013: Ano Um já estava à venda no estande, aproveitei e dei uma folheada no livro: está bonito e bem acabado.  Aproveitei o ensejo e comprei, da mesma editora, a antologia Bestiário, organizado pela Ana Cristina e pela Ana Lúcia Merege.  Conheci também o Henrique de Lima, publisher da Ornitorrinco.

Nessa área de vendas também encontrei os editores Samir Machado de Machado e Douglas Quintas Reis, além dos autores Rober Pinheiro, Mustafá Ali Kanso, Roberto Sousa Causo e Douglas MCT.  Revi minha amiga Simone Saueressig, que já não via desde sua visita ao Rio oito ou dez anos atrás.  Apresentei Simone ao Erick Sama, que apareceu com seu new look careca de futuro papai, e travei contato com o autor Felipe Castilho, que ainda não conhecia pessoalmente.  Felipe constará da Erótica Fantástica 1 com o divertido “Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias” onde o narrador é um motel que assiste uma cópula fatídica de uma gostosa com um batedor alienígena; ecos do “Saving the World at the New Moon Motel”, da Roberta Lannes, só que mais hilário.


Estevão Ribeiro, GL-R e Simone Saueressig.


Outros sujeitos simpáticos que adorei conhecer foram Daniel Borba e Roberto Belli, ambos bastantes ativos nos Facebooks e listas de discussão da vida, mas que ainda não havia visto nas convenções presenciais.  A outra coantologista da 2013: Ano Um, Alícia Azevedo, eu já conhecera na Fantasticon passada, mas o Daniel foi agora na Odisseia.

Roberto Belli, GL-R e Daniel Borba.


Daniel Borba, Suzy Hekamiah e Amanda Reznor.

Mais tarde também conheceria Daniel Dutra e Estevan Lutz, outros dois autores que participam da Erótica Fantástica 1 com trabalhos interessantíssimos.  Daniel submeteu quatro trabalhos ambientados no mesmo universo ficcional, todos dignos de ingressar na antologia.  Acabei optando por “A Mulher Imperfeita”, noveleta que discute discriminação contra minorias sexuais e o impacto social da adoção da prática de sexo com robôs.  Já “A Cópula dos Devoradores de Mundos” do Estevan trata do acasalamento e da reprodução de entidades autoconscientes de dimensões cósmicas que habitariam o espaço interestelar.  Tive oportunidade de conversar bastante com os dois autores.  Daniel contou que começou a escrever ficção há relativamente pouco tempo.  Pelo pouco que li dele, foi um começo com o pé direito.  Estevan Lutz confessou preferir FC hard clássica de Asimov e Clarke nos tempos áureos desses autores.  Falou de sua ideia de um romance de história alternativa e eu lhe contei sobre o filme de história alternativa Nação do Medo, baseado no romance Pátria Amada, do Robert Harris.  No original, romance e filme são homônimos, sob o título Fatherland.  Aproveitei o ensejo da presença do autor para adquirir um exemplar autografado de O Voo de Icarus (Novo Século, 2010), de Estevan Lutz.

GL-R e Estevan Lutz.


Também conheci pessoalmente o sócio do CLFC Leo Carrion, que atuava como gerente do estande de livros independentes.  Leo me contou os detalhes da aquisição da vasta biblioteca da família de um sócio fundador do CLFC paulistano.  A manobra incluiu o aluguel de um caminhão de mudança para trazer os 40.000 itens do acervo desde São Paulo até Porto Alegre.  Segundo ele, uma pechincha.

Pouco antes de nossa mesa-redonda, Estevão Ribeiro me autorizou a divulgar seu projeto de reinterpretação quadrinizada do romance Da Terra à Lua, de Jules Verne, em que ele pretende misturar elementos do filme clássico de George Méliès e de Os Primeiros Homens na Lua, do H.G. Wells.  Estevão me convidou para prefaciar o livro, que sairá por uma editora do Grupo Ediouro (Agir ou Nova Fronteira).

Da Terra à Lua, de Estevão Ribeiro & Jules Verne.


Esta Primeira Odisseia de Literatura Fantástica decorreu em dois dias: anteontem e ontem.  A programação abriu às 19:00h de sexta-feira com a palestra “Simões Lopes e o Fantástico em Lendas do Sul”, de Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, que não tive oportunidade de assistir.  Após essa palestra houve um jantar de gala com cerca de quarenta presentes.

A abertura oficial do evento deu-se no sábado às 10:30h com a participação dos três organizadores, Alcázar, Kastensmidt e Falcão.  Em seguida, às 11:00h, houve uma mesa-redonda, “Fantastchê!  Escritores Gaúchos de Fantasia”.


Às 13:00h deu-se a atividade seguinte, a mesa-redonda que moderei: “Literatura Fantástica Além dos Livros”.  Originalmente, a mesa seria composta por Estevão Ribeiro, Max Mallmann e pelo cineasta Pedro Zimmermann.  No entanto, Max nos desfalcou ao receber o convite para participar de uma feira do livro em Bogotá com despesas pagas.  Daí, os organizadores convidaram o escritor e especialista em RPG, Bruno Schlatter.  Embora tal convite tenha chegado meio de última hora, Bruno pegou o touro pelos chifres, discorrendo com propriedade sobre os RPG com argumentos fantásticos, com direito a um apanhado histórico resumido sobre o desenvolvimento desse tipo de jogo.  Após as apresentações iniciais efetuadas pelo Christopher, tomei a palavra para discorrer brevemente sobre a presença prevalente da literatura em outras mídias, como fontes de inspiração nos roteiros de filmes, jogos e novelas.  Em seguida, passei a palavra a Estevão, que discorreu sobre a inserção dos super-heróis nas HQ e da evolução nas explicações científicas fantásticas para seus superpoderes ao longo do século XX.  Pedro Zimmermann falou sobre o cinema fantástico brasileiro com ênfase na ficção científica, subgênero cinematográfico do qual ele é um dos poucos cultores no Brasil.  Em seguida debatemos a presença, normalmente incidental, da ficção científica nas novelas da Globo, citando como exemplos O Clone e Morde e Assopra (cujo título provisório chegou a ser Robôs e Dinossauros).  Observei que, de maneira geral, os elementos de FC aparecem inseridos nas novelas globais como uma espécie de balão de ensaio.  À menor suspeita de rejeição dos telespectadores, os elementos são atenuados ou até mesmo varridos para fora do enredo.  Comentou-se também a ousadia temática do ciclo de novelas da Record iniciado com Os Mutantes.  Daí, abrimos para as produções dessa emissora calcadas em épicos do Antigo Testamento.  Enfim, roubando dois minutinhos do tempo que pretendia dedicar às perguntas e comentários da plateia, falei um pouco sobre a experiência de criar o universo ficcional de um projeto multimídia como o Taikodom da Hoplon Infotainment e dos tipos de compromissos que é necessário estabelecer quando o consumidor final se torna personagem do enredo.  Quando passamos a palavra à plateia, Ana Carolina Silveira comentou sobre as temáticas bíblicas da dramaturgia da Record, afirmando tratar-se mais de épico do que religião.  Faz sentido, porque, no fundo, muito do Antigo Testamento constitui mitologia hebraica, semelhante às mitologias nórdica, greco-romana e hindu em sua capacidade de atuar como gerador perpétuo de tramas épicas.


Momento de Epifania: "São Verne, iluminai nossas palavras!"


Mesa-Redonda: Literatura Fantástica Além dos Livros.
GL-R, Estevão Ribeiro, Bruno Schllatter e Pedro Zimmermann.

Mesa em Ação I: Prolegômenos.
Mesa em Ação II: FC nas telenovelas.

Encerrada nossa mesa-redonda, eu e Estevão nos dirigimos à nossa mesa de autógrafos, onde contamos com a companhia agradável da escritora Gislene Vieira de Lima.  Os pontos brilhantes dessa sessão foram os bate-papos com Pedro Zimmermann e com o Christopher sobre minha participação no Projeto Taikodom, bem como poder ouvir em primeira mão do Estevão, o detalhamento do Da Terra à Lua.  O lado chato foi que perdemos o painel das 14:00h sobre o mercado editorial da literatura fantástica no Brasil, com a participação dos publishers Guilherme Dei Svaldi, Cesar Alcázar, Erick Sama, Samir Machado de Machado e Douglas Quintas Reis.  Aliás, esse é o mais problema dessas convenções: às vezes há duas atividades legais rolando em simultâneo e o fã se vê obrigado a escolher uma em detrimento da outra.  Durante nossa permanência à mesa de autógrafos, várias pessoas sorridentes — não sabemos se curiosos ou fãs — passaram em frente e tiraram nossas fotos, sem falar conosco.  Direto da seção, “em breve num Facebook perto de você...”

Mesa de Autógrafos: Gislene Vieira de Lima, GL-R e Estevão Ribeiro.



Sentei para assistir a mesa-redonda “Crítica Literária e o Fantástico”, mas daí lembrei que ainda não havia feito o check-in no Lido e, o pior, nem sequer tinha certeza de que sabia chegar lá.  Felizmente, Ana Cris se dispôs a ir até lá comigo, uma vez que estávamos hospedados no mesmo hotel e ela precisava deixar algum material e buscar outro em seu quarto.

Realmente, o Lido é bem próximo do Memorial.  O Google Maps afirma que se trata de uma caminhada de cerca de 350 metros.  Porém, mesmo sob chuva fina (ambos estávamos sem guarda-chuvas), não pareceram mais do que duzentos metros.  O quarto 901 era amplo, limpo, com uma boa cama, uma televisão de tela grande que não liguei e um frigobar à disposição do hóspede que nem sequer tive tempo de examinar.  Com diária inferior a cem reais, já foi eleito como favorito para as próximas Odisseias Literárias.

De volta ao Memorial do Rio Grande do Sul, sentei para assistir o painel “Brasil Fantástico”, moderado por Roberto de Sousa Causo, com a participação de Simone Saueressig, Ana Lúcia Merege e Rober Pinheiro.  Antes de abrir a palavra para os outros fantasistas, Causo apresentou um apanhado histórico sobre os enredos de fantasia na literatura brasileira.  Em seguida passou a palavra a Simone, que discorreu sobre sua carreira e sua motivação para escrever fantasia.  Então, Ana Cristina falou sobre os tipos de fantasia que ela costuma escrever e, enfim, Rober delineou seu principal universo ficcional, definitivo por ele próprio como uma fusão de elementos de folclore e fantasia brasileiros e estrangeiros, estabelecendo um amálgama consistente.  Embora fantasia não seja a minha praia, estou curioso para conhecer esse universo ficcional.

Painel "Brasil Fantástico": Roberto Sousa Causo (mediador),
Ana Lúcia Merege, Rober Pinheiro e Simone Saueressig.

Brasil Fantástico - Rober e Simone pensativa.


Antes da mesa-redonda das 17:00h saí para trocar uma ideia rápida com o Silvio Alexandre.  Não encontrei meu amigo, incidi em bate-papos interessantes com Daniel Dutra, Estevan Lutz e Roberto Belli, e, em consequência, acabei perdendo uns dois terços da atividade, um dos temas mais instigantes e recorrentes dos nossos congressos literários fantásticos, “Quero Escrever Meu Livro, Quero Escrever Meu Conto”, moderado pela Giulia Moon, com a participação dos autores Rosana Rios, Douglas MCT, Chico Medina e Eddie Van Feu.  Como costuma acontecer nesse tipo de mesa ou debate, as dicas motivacionais dos autores mais experientes aos mais jovens não se limitou à parte formal de suas falas, estendendo-se também à sessão de perguntas & respostas do fim da mesa.  Neste sentido, a frase mais emblemática e lapidar da Odisseia foi proferida pela Giulia Moon: “para escrever bem é preciso ter prazer com o que se está escrevendo.  Porque, se o autor não estiver gostando do que escreve, como esperar que o leitor goste?”

A mesa-redonda das 18:00h, a última da Odisseia, constituiu uma espécie de gêmea siamesa da anterior.  Sob o título de “Quero Publicar Meu Livro, Quero Publicar Meu Conto”, versou essencialmente sobre submissão de originais de ficção fantástica a editores e antologistas.  A mesa contou com a participação da antologista Georgette Silen, o publisher Marcelo D. Amado, o promotor de evento e parecerista Silvio Alexandre.  A mediação foi exercida com mão de ferro por Ana Cristina Rodrigues.  A participação do Silvio foi importante também porque ele já foi organizador de várias coleções de ficção científica publicadas no Brasil.  Amado, por sua vez, é dublê de antologista e publisher na Estronho.  Já Georgette atua mais ou menos como eu: autora e antologista, especialista, portanto, na análise e seleção de textos de ficção curta, ao passo que Sílvio e Ana Cris estão mais acostumados a analisar e selecionar romances de literatura fantástica.  No entanto, os conselhos desses selecionadores aos jovens autores foram essencialmente semelhantes, não importando se falavam de ficção curta ou romances.  Todos os quatro dedilharam as mesmas teclas: revise sempre e revise muito; mantenha um mínimo aceitável de apuro ortográfico; observe as recomendações constantes das guidelines (antologias) e as políticas editoriais (submissão de romances); não julgue que se tornará a próxima J.K. Rowling ou André Vianco, pois fenômenos editoriais como esses constituem a exceção da exceção; não se preocupem em lucubrar a narrativa mais original do mundo: é de todo provável que a roda só tenha sido inventada uma vez, mas ela vem sendo aperfeiçoada até hoje.  A título de brincadeira, a mesa sugeriu que o autor inexperiente evite tentar subornar o editor ou antologista com bombons, chocolates e outros que tais.  Os chocolates serão apreciados, mas os trabalhos serão rejeitados.  Mais sérios, pontificaram: não tentem impressionar o editor/antologista: ele(a) provavelmente tem muito mais experiência de leitura que você e, a menos que você seja um autêntico gênio literário, daqueles que só surgem século sim, século não, você só logrará deixá-lo(a) mal impressionado.  Após ter sido identificado na plateia pela mediadora, comentei brevemente sobre o esforço para organizar antologias sob regime de submissões abertas.  Falou-se muito da necessidade de um bom começo, o primeiro capítulo do romance seria fundamental para o leitor decidir se prossegue ou não na leitura.  Daí, nos dez minutinhos dedicados a perguntas e comentários, sugeri o recurso surrado, mas sempre efetivo, do prólogo, quando a autor iniciante não dispõe de um primeiro capítulo matador.

Mesa-Redonda: "Quero Publicar Meu Livro/Meu Conto" -
M.D. Amado, Ana Cristina Rodrigues (mediadora), Georgette Silen e Silvio Alexandre.

Erick Sama, Organizadores e participantes da última mesa-redonda.


Daniel Borba com Comissão Organizadora: Christopher Kastensmidt, Cesar Alcázar e Duda Falcão.

Christopher Kastensmidt e GL-R.


Ao fim dessa última mesa-redonda, tive oportunidade de conversar melhor com Roberto Belli, que havia conhecido horas antes.  Belli tendo sido um dos principais apoiadores de Clinton Davisson na proposta de ressuscitar o Prêmio Argos e, como já havia feito anteriormente com o presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, parabenizei o Belli pela iniciativa corajosa.  Falei um pouco sobre a experiência dos velhas-guardas na organização do Prêmio Nova e, mais tarde, do Argos em sua primeira encarnação.  Roberto Belli me presenteou com um exemplar autografado de sua coletânea, Farol do Espaço Profundo (Nova Letra, 2012).

 
Também aproveitei o ensejo para conversar com Georgette Silen, que também não conhecia pessoalmente.  Naturalmente, nosso bate-papo animado girou em torno de antologias em geral e ficção erótica fantástica em particular.  Falei da experiência pretérita com a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! e da atual com as Eróticas Fantásticas, nas quais, enfim, logrei obter ficções homoafetivas de qualidade.  Georgette Silen fará parte da Erótica Fantástica 2, com o conto “Negócios são Negócios”.

Ao fim da Odisseia Fantástica, saímos para jantar na churrascaria Galpão Crioulo, aquela mesma que o motorista de táxi havia recomendado quando me trouxe do aeroporto ao Memorial.  O casal Christopher e Fernanda Kastensmidt me deu carona até a churrascaria, situada dentro de um parque municipal.  Fernanda é doutora professora universitária na área de informática.  O jantar encerrou com chave de ouro esse sábado fantástico em Porto Alegre.  Buffet de saladas e frios pra lá de generoso; carnes bem temperadas e saborosas; tintos da vinícola Boscato; show de danças típicas: não precisava mais nada para que votássemos a favor de realizar todas as próximas cinquenta e sete convenções brasileiras de literatura fantástica naquela cidade.

Após 24 horas redondas de jejum, travando o bom combate
contra cortes de carnes nobres, escoltado pelo bom e leal Boscato.


Nosso grupo possuía trinta e poucas pessoas, divididas numa mesa de vinte e poucas e outra com umas sete ou oito.  Sentei em frente ao Erick Sama e guardei dois lugares à minha direita para Ana Cris & Estevão.  À minha esquerda sentou-se o autor gaúcho Andre Zanki Cordenonsi, que eu ainda não conhecia pessoalmente.  Andre é meu companheiro na antologia 2013: Ano Um com um conto pós-apocalíptico enxuto, “A Rapineira”.  Feijão com arroz, bem temperado.

Como eu e Erick precisávamos relaxar e comemorar, não necessariamente nesta ordem, abrimos os serviços enoetílicos com um Boscato Cabernet Sauvignon.  Acho que foi a primeira experiência de meu amigo com a Boscato e posso afirmar que se tratou de uma experiência extremamente bem sucedida!  O cabernet combinou muito bem com a carne vermelha do churrasco.  Sentada à direita do Erick, a autora Amanda Reznor se aliou a nós a partir da segunda garrafa, um Pinot Noir, novo lançamento da Boscato — rótulo que o próprio gerente do estabelecimento julgou não dispor, embora constasse da carta de vinho.  No fim, a Pinot apareceu e a considerei mais estruturada e mais gostosa do que a Cabernet simples.  Erick ficou em dúvida.  Para dirimir a questão, uma terceira garrafa, outra Boscato Pinot Noir.  Havíamos pedido uma de cabernet, mas como o garçom que fazia as vezes de sommelier trouxe o rótulo errado, deixamos por isto mesmo.  Contrariando os conselhos de Ana Cris, preocupada com o teor alcoólico elevado do comportamento do Erick, partimos para a quarta garrafa, essa sim, outra Boscato Cabernet Sauvignon.



Nossa Mesa no Galpão Crioulo.


Ana Cris, GL-R, Andre Cordenonsi, Amanda Reznor e Erick Sama,
ao fundo, o show de danças folclóricas.

Após o 4º Boscato: Erick equilibrado por um fio ou, no caso, pelo dedo da Simone.

Amanda Reznor e Simone Saueressig.


Amanda nos brindou com o relato bizarro de um paciente atendido num hospital público mato-grossense por sua mãe, que é médica.  O rapaz teria chegado entalado com uma abobrinha de dimensões avantajadas no reto.  Após várias tentativas frustradas de remover o invasor oblongo, primeiro com pinças e mais tarde com fórceps, a mãe da Amanda vestiu luvas lubrificadas e se obrigou a remover o objeto a unha.  Literalmente.  Dos cinco dedos.  Impressionados com a narrativa, incentivamos a jovem autora a transformar a experiência hospitalar de sua mãe em narrativa ficcional.  Sugeri que, se ela colocasse o médico como um doutor alienígena atendendo num hospital poliespecífico, espantado com as idiossincrasias da conduta sexual humana, poderia submeter o conto resultante para a Erótica Fantástica 3.  Entusiasmada, Amanda sacou um guardanapo, pediu uma caneta emprestado e começou a rascunhar uma sinopse ali mesmo.

Além dos cortes de carne sensacionais e da profusão de Boscatos em sua carta de vinhos, o Galpão Crioulo proporciona a seus clientes um show de danças folclóricas gaúchas, com direito a cruzamento de facas e boleadeiras.  O boleador deu um show a parte, convidando ao palco Rober Pinheiro e a editora Simone Mateus.  Devidamente vendados, nossos heróis foram submetidos ao estranho poder da boleadeira.  Primeiro, Simone teve seus longos cabelos louros “escovados” pelo vento produzido pelas bolas que giravam em alta velocidade a milímetros de seu crânio.  Em seguida, foi a vez do Rober, que teve um cigarro primeiro apagado e então arrancado de seus lábios pelas bolas da morte.  Então, num grand finale, o boleador arrancou uma guimba de cigarro minúscula de sua boca.  Nem é preciso dizer que aplaudimos de pé, não o boleador, mas o Rober, que arriscou a vida pela nossa diversão.

El Boleador!

Simone Mateus atemorizada em "O Desafio Mortal".


A Grande Hora de Rober Pinheiro.

Ana Cris & Estevão com os Artistas.



Enfim, como tudo que é bom se acaba, por volta da meia-noite fechamos nossas contas e nos despedimos.  Acabou que eu, Estevão e Ana Cris rachamos um táxi até o Lido.  De volta a meu quarto, consideravelmente bêbado mas insone, fiquei até uma da matina namorando a 2013: Ano Um.  Li o prefácio do Cesar R.T. Silva e o posfácio dos organizadores, arrematando com a leitura preocupada de meu próprio conto à caça de erros.  Cisma de autor paranoico...

De manhã, deu tempo para tomar uma ducha, mas o café da manhã ficou para a próxima Odisseia, pois meu voo partia cedo para o Rio e aproveitei o tempo livre, primeiro no Salgado Filho e depois no voo 1453 da Gol para começar a escrever esta crônica.

Tomara que esta Odisseia Fantástica seja a primeira de muitas!

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 29 de abril de 2012 (domingo).




Participantes:

Alicia Azevedo
Amanda Reznor
Ana Carolina Silveira
Ana Cristina Rodrigues
Ana Lucia Merege
Andre Zanki Cordenonsi
Bruno Schlatter
Cesar Alcázar
Christopher Kastensmidt
Daniel Borba
Daniel Dutra
Douglas MCT
Douglas Quintas Reis
Duda Falcão
Erick Sama
Estevan Lutz
Estevão Ribeiro
Felipe Castilho
Fernanda Lima Kastensmidt
Georgette Silen
Gerson Lodi-Ribeiro
Gislene Vieira de Lima
Giulia Moon
Hanny Saraiva
Henrique de Lima
Leo Carrion
M.D. Amado
Marcelo Paschoalin
Mariana Albuquerque
Mustafá Ali Kanso
Pedro Zimmermann
Rober Pinheiro
Roberto Belli
Roberto de Sousa Causo
Samir Machado de Machado
Sheila Liz
Sílvio Alexandre
Simone Mateus
Simone O. Marques
Simone Saueressig
Suzy M. Hekamiah

domingo, 22 de abril de 2012


Mostra de ficção científica de Macaé 2012


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“Puta-que-pariu, estou acordado desde às cinco da manhã.  Ninguém me falou que eu ia ficar dirigindo até às sete da noite...”
[Rogério, malabarista do volante macaense]



No início da tarde de ontem saí da Prefeitura mais cedo num périplo estadual que me fazia chegar — muitas aventuras e alguns cabelos brancos mais tarde — à próspera cidade de Macaé para participar de mais um lançamento da antologia Space-Opera (Draco, 2011), no bojo da Primeira Mostra de Ficção Científica de Macaé, abrigada no Solar dos Melos.

*     *      *



Conforme combinado, encontrei o antologista Hugo Vera na Rodoviária Novo Rio.  Seu ônibus se atrasou quase meia hora em relação ao horário previsto das 13:00h, por conta de uma blitz da Polícia Rodoviária Federal.  A se crer em meu amigo, os agentes estavam atrás de uma remessa de armamento pesado despachado pelo Presidente Clinton em nome do Comando de Stormtroopers Imperiais.  Embora naturalmente não tivesse nada a ver com o contrabando de armas de destruição em massa de tecnologia galáctica, nosso herói Huguinho foi severa e entusiasticamente vasculhado em todos os seus orifícios por agentes ávidos por encontrar o tal armamento nos recônditos das anatomias dos passageiros.

Antes do ônibus do Hugo chegar, estabeleci contato com o motorista Rogério e as passageiras Flávia e Ana Luiza, esta última trazida de Macaé até o Rio para uma consulta com um oftalmologista.  Quando Huguinho desembarcou, fomos os cinco para a van da Prefeitura de Macaé, rumando da Novo Rio para o Aeroporto Internacional do Galeão, a fim de buscar Marcelo Jacinto Ribeiro, outro autor participante da antologia.  Ainda na rodoviária, ao perceber que Huguinho esquecera de trazer o banner da Space-Opera que esteve presente no lançamento carioca, lembrei que também esqueci os oito exemplares da antologia Como Era Gostosa a Minha Alienígena! que havia prometido ao Clinton.  Enfim... maldito alemão!

Quase chegando ao Galeão, recebi uma ligação do Clinton Davisson, organizador da mostra de FC, para informar que o voo do Marcelo iria atrasar em pelo menos uma hora.  Uma vez no aeroporto, cumpriu convencer Rogério a parar sua van no estacionamento pago.  Alegando não ter dinheiro, ele insistia em parar o veículo debaixo de um viaduto próximo.  Prevendo o desencontro quase certo que implicaria em atraso ainda maior, sobretudo porque celular não costuma ter sinal debaixo de viaduto, falei que parasse no estacionamento, comprometendo-me a pagar a despesa.  Subindo de elevador do estacionamento para o setor de desembarque, deparamo-nos com um pavilhão deserto, inteiramente desprovido de lojas, mobiliário e pessoas, com um tremendo ar de aeroporto-fantasma que nos lembrou bastante do The Langoliers, inspirado na noveleta de Stephen King.  Enfim, para alívio geral, atingimos um setor habitado do Galeão.

Com aterragem prevista para 14:43h, o voo da Azul procedente de Campinas pousou no Rio de Janeiro por volta das 16:00h.  Felizmente, Marcelo trouxe apenas bagagem de mão, de forma que não precisou aguardar a liberação das malas na esteira de bagagem.  Tal prova de vivacidade não o livrou dos apupos gerais, pela insistência em vir de avião e pelo atraso que nos impôs.  Quando descemos ao estacionamento, as duas garotas macaenses já pareciam impacientes e nosso motorista francamente desesperado.  A situação não melhorou nem um pouco quando nossa van entalou na guarita do estacionamento, lá permanecendo por cerca de quinze minutos perdida numa série de manobras infrutíferas, com Rogério mostrando seu lado General Urko, até que finalmente logramos nos evadir do aeroporto.  Conforme combinado, eu, Huguinho e Marcelo fizemos uma vaquinha para pagar o estacionamento.

Do Galeão, seguimos pela Linha Vermelha até a Ponte Rio-Niterói que, em virtude do adiantado da hora, começava a engarrafar.  Ao longo de toda a manobra de guerra da Novo Rio até Macaé, troquei coisa de trinta ligações de celular com Clinton para informar nossas posições.  As contas de nossas operadoras vão arder no mês que vem.

Cruzada a ponte, seguimos para Macaé via BR-101, com uma última parada em Manilha para pegar Alessandro Tuze e outros três membros do Império Comando Rio de Janeiro, um fã-clube uniformizado de Star Wars.  Já anoitecia quando partimos de Manilha, enfim direto para Macaé.  Esse último e mais longo trecho da viagem foi sem dúvida o mais emocionante, no mau sentido.  Inteiramente furioso com os atrasos sucessivos e, portanto, já convertido de Urko em Incrível Hulk, nosso motorista-psicopata tentava compensar o avançado da hora com barbeiragens dignas de filme de ação norte-americana.  A única coisa chata é que, por questão de orçamento, não dispúnhamos de dublês.  Essa corrida maluca atingiu seu auge quando Rogério empreendeu a ultrapassagem de um caminhão pela contramão numa curva fechada.  Quando emparelhamos com o caminhão fomos iluminados pelos faróis altos de outro caminhão que avançava a toda em sentido contrário.  Ana Luiza gritou, uma voz feminina baliu um trecho de oração lá atrás, enquanto eu me limitei a me agarrar no encosto do banco da frente com todas as minhas forças.  Nosso energúmeno ao volante freou no último instante possível e guinou como um louco para a traseira do caminhão que tentara ultrapassar um segundo antes.  Tudo se deu tão rápido que nem houve tempo de prestar atenção nas cenas de nossas vidas que passaram diante dos nossos olhos.  Rogério não se dignou a nos dirigir um pedido de desculpas e nós, de cabelos em pé, não encontramos energia para repreendê-lo.

Contudo, nem tudo foi choro, suor e ranger de dentes nesta expedição de ida a Macaé.  Ao longo das horas de viagem, falamos sobre as diversas antologias de literatura fantástica lançadas e por lançar nos próximos meses, bem como das boas e más submissões para seus respectivos projetos.  Em Manilha, Huguinho finalmente deu o braço a torcer, confessando o que todos nós já sabíamos: Letícia Velásquez, autora do conto “Temos que Cumprir a Cota”, publicado na Space-Opera, não passa de um pseudônimo seu, criado, segundo ele, para tapar o buraco deixado por um autor que desistiu à última hora, para o livro não ficar demasiadamente fino.  À guisa de desculpa adicional, acrescentou que apenas se inspirou em Carla Cristina Pereira, pseudônimo que mantive por quinze anos e que logrou faturar mais prêmios literários do que eu.

Enfim, por volta das 19:30h chegávamos milagrosamente vivos ao Solar dos Mellos, onde funciona o museu da cidade de Macaé e onde se dava a mostra de ficção científica.  Fomos recepcionados por Clinton Davisson e Osmarco Valladão, ambos com fisionomias preocupadas em função do nosso atraso de várias horas.

Hugo Vera, eu, Marcelo J. Ribeiro e Osmarco Valladão.


Mal chegamos ao prédio histórico (vide www.museusdorio.com.br), fomos levamos aos fundos da instituição, para trocar de roupa no toalete.  Clinton providenciou salgadinhos e refrigerantes.  Alessandro e seus comandados aproveitaram o ensejo para vestir seus uniformes, cuja fabricação no Brasil é autorizada pela própria Lucasfilm.  Alessandro se caracterizou como Darth Vader.  Havia ainda um Cavaleiro Jedi, uma Princesa Leia e um membro daquela raça de comerciantes-assaltantes encapuzados que habitam os desertos de Tatooine.  O público presente de cento e tantas pessoas foi ao delírio: dezenas insistiam em tirar fotos e tocar os uniformes dos cosplayers, sobretudo o do Darth Vader.  Uma vez que os dois salões disponibilizados para o evento no andar térreo do museu, bem como o vestíbulo, estavam repletos de gente, boa parte da apresentação do Império Comando Rio de Janeiro foi executada na área externa do solar.  Do ponto de vista do público presente, a apresentação dos cosplayers constituiu de longe o ponto alto da noite.


Darth Vader em Macaé.

Apresentação na área externa do Solar dos Mellos.


No salão da frente do museu (à esquerda de quem entra pelo vestíbulo) rolava a mostra de ficção científica em si, com montes de livros clássicos do gênero protegidos no interior de expositores de vidro, memorabilia do universo Star Wars e outros, com destaque para aquela máscara do Senador Palpatine com que Clinton já nos brindara na reunião carioca do sábado passado e que, aliás, no que atribuo a um dos mistérios insondáveis da fé, guarda semelhança incrível com o papa católico atual, Bento XVI.

Controvérsia da noite: Senador Palpatine ou Bento XVI?


No salão dos fundos situa-se nossa mesa de autógrafos e um telão onde eram exibidos alguns clipes com Clinton falando de seu romance de FC Hegemonia.  Nas primeiras duas horas desde nossa chegada não houve muito trabalho para os quatro autores presentes, pois quase não se vendeu livros.

O posto de venda de livros foi instalado no vestíbulo sob o comando de Grazielle de Marco e Fernanda Galheigo, essa última, esposa de nosso presidente e, portanto, primeira-dama do Clube de Leitores de Ficção Científica.  Aproveitei a relativa falta do que fazer como autor para adquirir um exemplar da antologia Imaginários 4 (Draco, 2011), já que meu amigo Erick Sama se esqueceu de mandar o que me prometera até hoje.

Área de vendas: Clinton, Fernanda Galheigo, Hugo e Gazielle de Marco.

Farto de esperar, adquiro minha Imaginários 4... ;-D



Clinton prestando reverência à Guardiã da Memória.


Huguinho & as Belas.
(Vai apanhar em casa, moleque!)


Para mim a parte mais divertida do evento foi o bom papo que pudemos desfrutar com Osmarco Valladão, sobre ficção científica, processo criativo, quadrinhos, cinema brasileiro e muitas coisas mais.  Por insistência do Huguinho, Osmarco nos confidenciou detalhes da gênese do famoso Rainha das Estrelas, segredos que, naturalmente, não será possível reproduzir no âmbito desta crônica.J  Em companhia de um poeta macaense, meu xará Gerson Dudus, Osmarco falou sobre o projeto de uma superprodução cinematográfica baseada na condenação injusta do fazendeiro macaense Manuel da Mota Coqueiro, caso que culminou na extinção da pena de morte no Império.  Como a megacaptação de recursos junto à Petrobras e à própria Prefeitura de Macaé não decolou, a ideia da superprodução foi arquivada e, em seu lugar surgiu o filme Sem Controle (2007) — dirigido por Cris D’Amato, com roteiro de meu amigo e afilhado, Sylvio Gonçalves — em que a encenação histórica caprichada foi transformada num filme contemporâneo, em que um diretor obcecado pela injustiça sofrida por Mota Coqueiro, escreve uma peça de teatro a respeito e a encena com pacientes de uma instituição psiquiátrica.

Por volta das 21:30h, deu-se um fenômeno inexplicável.  Não havíamos concedido autógrafos até aquele momento.  Então, eis que de repente começam a surgir do nada pessoas com exemplares da antologia em mãos avançando a passos decididos para a mesa dos autores.  Até agora nos perguntamos onde diabos todos aqueles leitores em potencial se esconderam até aquela hora avançada...  Dentre os adquirentes da Space-Opera estavam Ricardo Meirelles, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico de Macaé; e Jacira Braga, jornalista que se afirma discípula do escritor de ficção científica Jorge Luiz Calife.  Estimo que tenhamos assinado cerca de dez exemplares.  Mestre renomado das promoções improváveis de grande sucesso, o inspirado Clinton Davisson sacou uma vez mais do sabre Jedi aceso e facultou a farta manipulação de sua vara de luz a todos os fãs que adquiriram um exemplar da antologia.


Vara cortada!

Autores da Space-Opera: Clinton, eu, Huguinho e Marcelo.

Autores com Jacira Braga.

Autores com Fernanda Galheigo.


Do Solar dos Mellos seguimos para jantar no Mariscos Bar, restaurante à beira-mar, em verdade situado à Avenida Atlântica, não a da Praia de Copacabana, no Rio, é claro, mas a da Praia dos Cavaleiros.  Embora o Mariscos seja especializado em frutos do mar, a maioria dos presentes optou por pratos de carne ou, no caso dos paulistas inveterados, Marcelo e Huguinho, por uma pizza.  Aproveitei para conversar com Alessandro, do Império Comando.  Ele detalhou o perfil de seu grupo de cosplayers.  Os membros desse grupo não cobram cachê para as apresentações, apenas cestas básicas, uma por participante uniformizado, mais tarde doadas para orfanatos e outras instituições de caridade.  Se todos os fãs de ficção científica se possuíssem consciência social dessa ordem, tais instituições não estariam no estado atual de desamparo.


Mariscos Bar.


Para acompanhar a picanha completa, após o sinal verde de Mr. President, — afinal, estávamos por conta da generosa municipalidade de Macaé — pedi uma garrafa do tinto australiano Matilda, que degustei com o apoio de Alessandro, Clinton e Fernanda.  Ao longo desse ágape memorável, o casal Clinton & Fernanda analisou os erros e acertos dessa primeira mostra de ficção científica, análise auxiliada por Alessandro e sua esposa, possuidores de boa cancha no que concerne a eventos multimídia capazes de congregar centenas de fãs e/ou expectadores.

Alessandro & esposa.


Mr. President & his First Lady, Fernanda.

Dois paulistas inveterados.


Ao fim de nosso lauto jantar, a van da prefeitura nos conduziu até o hotel onde eu, Huguinho e Marcelo pernoitaríamos e ao simpático grupo de cosplayers para um ponto de baldeação com outra van, que os conduzia de volta para Manilha naquela mesma noite.

Chegamos ao hotel por volta de uma da manhã, para acordar às cinco.  Como só havia dois quartos disponíveis, fiquei com um deles e meus dois amigos dividiram o outro.  O quarto não era lá essas coisas em termos de conforto, mas, àquela altura do campeonato, eu só precisava de uma cama.  Neste sentido, não direi que foi uma noite bem-dormida, mas deu pro gasto.

Às 05:10 desta quinta-feira fui acordado pelo motorista Carlos que ligou da portaria do hotel, frustrando meu firme propósito de locupletar de sono até às 06:00h.  Partimos de Macaé sem café da manhã rumo à Cidade Maravilhosa no Gol de Carlos, um motorista seguro, cordato e simpático, em tudo diferente das experiências assustadoras que sofremos durante a viagem de ida.  Durante a viagem, Marcelo e Carlos papearam sobre suas experiências de vida como residentes nos E.U.A., enquanto eu aproveitei o tempo livre para revisar os contos da antologia Erótica Fantástica 1, que estou organizando para a editora Draco.

Erótica Fantástica 1 na viagem de volta ao Rio.


Apesar do bruto engarrafamento em que mergulhamos na altura de São Gonçalo, por volta das 09:30h Carlos nos deixava em plena segurança na Rodoviária Novo Rio.  Acompanhei o amigo Hugo até o guichê da 1001, onde ele compraria a passagem de volta para Sampa e tomei um ônibus para casa.

No todo, essa experiência inusitada de participar de um evento de ficção científica no interior do estado de Rio de Janeiro se revelou extenuante, mas compensadora.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 19 de abril de 2012 (quinta-feira).




Participantes:
Alessandro Tuze
Clinton Davisson
Fernanda Galheigo
Gerson Dudus
Gerson Lodi-Ribeiro
Grazielle de Marco
Hugo Vera
Jacira Braga
Marcelo Jacinto Ribeiro
Osmarco Valladão
Ricardo Meirelles

domingo, 15 de abril de 2012

Clinton in rio 2012



201204151055P1    18.909 D.V.

 “Passo ao seu poder as atas originais redigidas pelas mãos sagradas de nossos Pais Fundadores.”
[Presidente Eduardo Torres, entregando a documentação do CLFC ao Lord Protector Clinton Davisson]


“O CLFC espera que cada um cumpra o seu dever.”
[Capitão Mallmann, em franca inferioridade numérica, prestes a engajar contra o inimigo]



Diversos membros ativos e notórios da velha guarda da FC carioca se reuniram ontem à noite no Estação Gourmet, na esquina de Mena Barreto com Rua da Passagem em Botafogo para comemorar a primeira visita mais ou menos oficial de Clinton Davisson ao Rio após sua eleição para presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica.

Neste sentido, o ex-presidente Eduardo Torres fez questão de guardar um lugar a seu lado para o Presidente Clinton (não o Bill), pois planejava promover a transferência oficial da documentação da instituição para as mãos do novo hierarca.

Edu Torres e Clinton Davisson - Passagem das Atas Sagradas.


Claro que a efeméride da visita desse líder carismático serviu de pretexto para mais uma noitada de revelações etílicas, algumas impublicáveis, que terei a honra de divulgar aqui.

*     *      *



Quando cheguei ao Estação Gourmet com pontualidade carioca (cinco a dez minutos de atraso em relação ao horário marcado das 19:00h), já estavam em nossa mesa tradicional Eduardo Torres e Carlos Eugênio Patati.  Conversamos por alguns minutos sobre as vicissitudes de se organizar antologias de literatura fantástica no esquema de submissão pública.

Quinze minutos mais tarde, chegaram praticamente juntos Max Mallmann, Miguel Carqueija e Raul Avelar.  Esse último chegou munido e animado com os subsídios para a palestra que deverá ministrar em breve sobre o arquifamoso Simpósio de Ficção Científica que se deu aqui no Rio em 1969, que ele assistiu integralmente, inclusive, coligindo autógrafos de diversos monstros sagrados do gênero, como Arthur C. Clarke, Poul Anderson, A.E. van Vogt, Robert A. Heinlein e outros menos cotados.  A fim de fornecer apoio de pesquisa para a palestra, emprestei a nosso decano a edição bilíngue dos anais do simpósio.  Raul nos contou que logrou adquirir seu próprio exemplar através de um sebo virtual, mas que ainda não o tem em mãos.

Em seguida, chegaram o casal Ana Cristina Rodrigues e Estevão Ribeiro e, logo depois, Sylvio Gonçalves.  Clinton Davisson assustou os clientes do restaurante ao adentrar no recinto bradando palavras de ordem e empunhando um sabre de luz de dimensões avantajadas e, ainda por cima, aceso e barulhento.  Repleta de vergonha alheia, Ana Cris cogitou se esconder sob a mesa, mas, no fim, cerrou os maxilares e resistiu condignamente como uma boa menina.  Mais tarde, vestindo uma camisa vermelha do The Big Bang Theory (Bazinga!), Max Mallmann posou para fotos brandindo o vigoroso sabre Jedi.

Sheldon Max Cooper, Cavaleiro Jedi.


Bem mais tarde apareceram Jorge Pereira, Ricardo França e Rafael “Lupo” Monteiro.

Aproveitando a presença motorizada de Clinton, vários sócios trouxeram livros e demais memorabilia para a mostra que rolará em paralelo com o lançamento da antologia Space-Opera em Macaé na próxima quarta-feira.  Sem a menor intenção de fazer trocadilho, prometi ao presidente que levaria oito Gostosas comigo para o evento.  Segundo Mr. President, o lançamento macaense seria prestigiado pela elite política local, com direito a jantar de gala em restaurante chique e presença da vice-prefeita.  Como dizem nossos amigos do fandom português, “a ver vamos”.

Desta vez, à bem de um esboço de dieta, abri mão do quase irresistível rodízio de pizzas e crepes do Estação, resistência heróica bebemorada com duas garrafas de um carmenère chileno honesto que dividi com o Edu, como parte de nossa contribuição ao boicote aos vinhos gaúchos por causa de seu projeto de lei espúrio de sobretaxar os vinhos importados — uma espécie de reserva de mercado, à semelhança daquela que prejudicou tremendamente a indústria de microcomputadores no país.  A propósito, a jovem lourinha que faz as vezes de maître no estabelecimento veio à nossa mesa e nos prometeu que a qualidade e a variedade da carta de vinhos do Estação Gourmet está prestes a sofrer uma melhora substancial.  Como diria o Ancelmo Góis, “vamos torcer, vamos cobrar”.

Muito mais tarde, à guisa de saideira, degustei duas doses de Cointreau.  Ainda convalescente de sua cirurgia, desta vez nossa heroína Ana Cris não pôde nos acompanhar em nossa aventura enoetílica.

Aproveitei a presença de meu afilhado e guru para questões cinéfilas, Sylvio Gonçalves para me aconselhar quanto às novas tecnologias de gravação e armazenamento de mídias audiovisuais, uma vez que os dois gravadores de DVD aqui de casa estão começando a dar de si e devemos visitar New York nas próximas férias.  A ideia básica é comprar um aparelho com disco rígido parrudo capaz de armazenar e editar filmes e séries.  Sylvio ficou de fazer uma pesquisa para mim.

Mais ou menos por essa hora, sem abandonar a temática Star Wars, nosso presidente pândego nos surpreendeu com uma máscara do Senador Palpatine, bastante realista, artifício que levou seus súditos atemorizados a aclamá-lo como Lord Protector do CLFC.  Aliás, Clinton revelou que o lançamento macaense da próxima quarta-feira contará com a presença de um grupo de fãs performáticos com fantasias de stormtroopers imperiais.

Presidente Clinton, Lord Protector do CLFC.


Ante a exibição dos clássicos autografados de Raul Avelar, lembrei de contar para meus amigos uma novidade velha de quinze anos: Stella Alves de Souza, tradutora de clássicos da ficção científica anglo-saxã publicada pela Expressão e Cultura na década de 1970 — como, por exemplo, O Enigma de Andrômeda de Michael Crichton; 2001, Odisseia no Espaço de Arthur C. Clarke; Poeira de Estrelas e Os Nove Amanhãs, ambos de Isaac Asimov — é minha clínica geral há quase um quarto de século.  Após a descrença inicial e os elogios pela qualidade das traduções, tomei um esporro dos amigos por não ter revelado o assunto há mais tempo.  Em realidade, já estava para falar disso há anos, quiçá décadas, mas sempre me esquecia...

Quando o novo presidente do CLFC aventou a possibilidade de escalar a palestra de nosso decano sobre o Simpósio de Ficção Científica ser ministrada em Rio das Ostras, uma cidadezinha simpática do interior fluminense, Edu replicou que o evento devia se dar no Rio de Janeiro.  Daí ativamos Miguel Carqueija para sondar a direção do SESC-Tijuca sob a possibilidade de fazermos a palestra lá, à semelhança de vários eventos lá realizados há coisa de dez anos, como o lançamento carioca da antologia erótica Como Era Gostosa a Minha Alienígena! e a cerimônia de entrega do Prêmio Argos 2003.  Mais tarde, depois da partida de Carqueija, Ana Cris aventou a hipótese de levar a palestra para a Casa da Leitura de Laranjeiras, um novo espaço que se abre para as tertúlias fantásticas cariocas.

Carlos Patati, Raul Avelar, Miguel Carqueija.


Edu Torres, Clinton, Ricardo França, Jorge Pereira, Max Mallmann.


Por falar em Argos, destrinchamos impiedosamente a proposta de ressuscitar a premiação pela diretoria atual do CLFC.  Os três ex-presidentes presentes à mesa foram unânimes em louvar a ideia em conteúdo e criticá-la em sua forma.  Julgamos o número de categorias excessivo, inclusive, com excrescências desnecessárias, como, por exemplo, a categoria de HQ, uma vez que o Argos — pelo menos em sua formulação original — foi concebido como premiação literária e também pela existência de outras premiações e certames que contemplam especificamente as HQ.  Alertei o presidente quanto à necessidade de combater a prática dos lobbies, sob risco de desmoralizar esta nova versão da premiação.  Já Ana Cris alertou-o para tomar cuidado com os conselheiros que ela apelidou “engenheiros de obras prontas”, sempre prontos & ávidos em apresentar centenas de sugestões aparentemente úteis, mas que, na hora de se apresentarem como voluntários para concretizá-las, são céleres em dar o celebre “passo atrás” e não tardam a correr do pau.  Ana citou os respectivos bois e vacas, cujos nomes declinarei de registrar aqui por questões óbvias.

Confirmei com a editora Ana Cris que meu romance de ficção científica Quando Deus Morreu deverá sair ainda este ano pela Llyr Editorial, provavelmente na Fantasticon 2012.  Informei oficialmente ao Edu que o protagonista é seu homônimo, deixando-o deveras preocupado com o que tramei para o adolescente terrestre em meio às beldades asteroidais.  De todo modo, prometi-lhe que seu alter ego não seria seviciado com requintes de crueldade barreirianas.

Lá pelas tantas, com o teor alcoólico médio já bastante elevado nas correntes sanguíneas dos presentes, eis que Estevão Ribeiro recebe um convite para comparecer a uma festa dançante de sexagenárias que rolava no segundo andar do Estação Gourmet.  Considerando o risco severo de assédio sexual, na ausência temporária de nosso Lord Protector — que manobrou em frenética retirada estratégica, ocultando-se no toalete — fui forçado a assumir o comando, nomeando os operativos voluntários Capitão Mallmann e Tenente Ribeiro para uma expedição autopunitiva ao segundo piso do estabelecimento.  A missão consistiu em executar um rápido reconhecimento do terreno.  Alertei-os para que evitassem atos heróicos desnecessários capazes de resultar no sacrifício de suas vidas e/ou virtudes.  Despachei também o Alferes Monteiro como observador, determinando que operasse a partir de uma posição recuada segura e que batesse em retirada imediatamente se o pior acontecesse os nossos bravos combatentes que avançaram de peito aberto e braguilhas cerradas para confrontar o desconhecido.  Lamentei muitíssimo não dispormos àquela hora fatídica das tais armaduras stormtroopers cuja aquisição fora promessa de campanha de nosso antigo presidente e atual Lord Protector.  Após um alarme falso, acabou que não sofremos baixas.  Primeiro regressou o Alferes Monteiro, reportando ter avistado nossos oficiais engajados com as forças inimigas.  Contudo, ao que parece, tudo não passou de uma sagaz manobra desviacionista empreendida pelo Capitão Mallmann, que logrou recuar para as nossas linhas em segurança e com sua honra intacta.  Mais uma missão cumprida por nossos jovens heróis, com honra e bravura acima e além do dever.

Por volta de quinze para meia-noite deixamos o estabelecimento.  Embora algo tardio, tal hora não chega perto de nossos recordes.  Ao que parece, não somos mais os mesmos...J

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 15 de abril de 2012 (domingo).




Participantes:

Ana Cristina Rodrigues
Carlos Eugênio Patati
Eduardo Torres
Estevão Ribeiro
Gerson Lodi-Ribeiro
Jorge Pereira
Max Mallmann
Miguel Carqueija
Rafael “Lupo” Monteiro
Raul Avelar
Ricardo França
Sylvio Gonçalves