quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Fantasticon 2012 (Primeira Semana)


FANTASTICON 2012
(primeira semana)

 

“Na literatura fantástica brasileira, às vezes parece que há mais autores do que leitores.” [Marcia Olivieri]

          DIA 1
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Começou hoje a maratona de dois fins de semana seguidos que constituirá a épica Fantasticon 2012, VI Simpósio de Literatura Fantástica, realizado na Biblioteca Viriato Correa, Vila Mariana, São Paulo, capital.  Este formato de dois fins de semana em vez de um é novidade.  Torço para que funcione a contento.  Imagino que seja melhor para o público paulistano.  Quanto ao pessoal que vem de fora, com poucas exceções, deverá se concentrar num ou noutro fim de semana.

*     *      *
 
Cartaz do Simpósio.
 

Deixei a Cidade Maravilhosa pela rodoviária Novo Rio no ônibus da Expresso do Sul que partiu às 06:30h e, mesmo com a tradicional meia hora de parada, conseguiu chegar ao Terminal Rodoviário do Tietê ao meio-dia cravado, desempenho mais do que satisfatório que me fez reavaliar minha opção padrão de sempre optar pela Viação 1001, cujas viagens vêm durando, em média, uma hora a mais do que a de hoje.

Durante essa viagem de ida, revisei o original de um romance ambientado no universo ficcional de Ahapooka.  Encerrada a revisão do original, retornei à leitura da Space-Opera II (Draco 2012) que, como a antologia anterior, foi organizada por Hugo Vera e Larissa Caruso.  Até agora os textos de que mais gostei foram “Obliterati” do Fábio Fernandes e “Inferno de Dantè” do Marcelo Galvão, cuja leitura concluí à chegada no Terminal Tietê.

Segui de táxi da rodoviária até o Mercure Paraíso, para fazer check-in e deixar a mochila.  Não foi uma decisão das mais inteligentes, pois acabei vítima de mais um dos engarrafamentos de sábado em Sampa e levei mais de quarenta minutos, do terminal ao hotel.  Enfim no quarto 14, cumpridos os rituais dos bedroom acceptance tests, tomei o metrô na estação Paraíso, bem próxima ao hotel e saltei na estação de Vila Mariana, a cinco minutos a pé da biblioteca municipal.

Cheguei à Viriato Correa por volta das 13:20h.  Infelizmente, não a tempo de dar uma conferida na oficina “Como Fugir de Arquétipos de Bom & Mau em sua História”, ministrada por Gianpaolo Celli, com o qual tive oportunidade de papear mais tarde, no intervalo entre uma mesa-redonda e outra.

O stand de vendas de livros — agora sob controle da Devir e não mais da Moonshadows — estava praticamente vazio, a não ser pela presença de Marcello Simão Branco e Roberto de Sousa Causo, velhos amigos de outras convenções, várias das quais anteriores ao advento das Fantasticons.  Aproveitei o ensejo e adquiri os romances O Alienado (Draco, 2012), de Cirilo S. Lemos, Mortal Engines (Novo Século, 2011) de Philip Reeve, e a antologia Imaginários 5 (Draco, 2012), organizada por Erick Sama.  Constatei que a antologia Erótica Fantástica 1 (Draco, 2012) já se encontrava à venda na banca de lançamentos.  Nas prateleiras, outros frutos da minha lavra, A Guardiã da Memória, finalista do Argos 2012 na categoria melhor romance; a história alternativa Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas; a coletânea Taikodom: Crônicas e outras duas antologias que organizei para a Draco no âmbito do projeto da triantologia punk, Vaporpunk (2010) e Dieselpunk (2011).

Erótica Fantástica 1.

 
Missão aquisitiva concluída com êxito (bem ao contrário do malogro da Fantasticon 2011...), entrei no auditório a tempo de assistir o fim do bate-papo “Editoras sem Papas na Língua”, com Gabriela Nascimento (Gutenberg), Fabiana Andrade (Underworld) e Júlia Schwarcz (Companhia das Letras).  Pelo pouco que vi, tratou-se de mais do mesmo em relação aos bate-papos e mesas-redondas dos anos anteriores entre editores engajados com literatura fantástica nacional e/ou publicação de títulos estrangeiros do gênero no país.

Saindo do auditório, conversei com Gumercindo Rocha Dorea, editor da famosa coleção de ficção científica GRD e lenda-viva do fantástico nacional.  Também revi outro velha-guarda do Clube de Leitores de Ficção Científica, Sergio Lins da Costa, recém-recuperado de uma cirurgia bem-sucedida.
 
Gumercindo Rocha Dorea e Marcello Simão Branco.

No intervalo, conheci Gustavo Vícola, autor do conto “Roda-Viva”, que eu e Luiz Felipe Vasques selecionamos para integrar a antologia Super-Heróis, a ser lançada em breve pela Draco.

Às 14:30h começou o bate-papo “Alta Literatura vs. Literatura de Entretenimento”, com a participação do crítico Manuel da Costa Pinto e dos autores Luiz Brás e Andréa del Fogo.  Para quem não sabe, Luiz Brás é o pseudônimo adotado por Nelson de Oliveira para escrever literatura fantástica.  A troca de ideias entre os três transmitiu à plateia a conclusão, um tanto óbvia, de que existem bons e maus textos na literatura dita séria; e bons e maus textos na literatura de entretenimento.  Outra conclusão óbvia, mas menos óbvia que a anterior, foi a de que o leitor perspicaz pode extrair prazer de textos literários que não foram escritos com o propósito precípuo de entreter.

No intervalo seguinte, travei contato com Kyanja Lee, revisora de textos de literatura fantástica cujo trabalho tenho mais ou menos acompanhado via Facebook.

Às 16:00h começou a mesa-redonda “Multimeios: Mídias Alternativas para a Literatura Fantástica”, com Ednei Procópio, Douglas MCT, Marcos Inoue e um quarto participante, cujo nome não ficou registrado.  Não consegui perceber a diferença entre bate-papo e mesa-redonda.  No início, pensei que ao contrário do bate-papo, mais informal, a mesa-redonda teria um moderador ou mediador.  De fato, Procópio em alguns pontos pareceu atuar como moderador.  Contudo, na mesa-redonda seguinte, não tive certeza de quem era a moderadora ou de se havia uma moderadora...

No intervalo que se seguiu à mesa-redonda das mídias alternativas, conheci João Batista Melo, autor da coletânea As Baleias de Saguenay (Rocco, 1995) que já havia lido há muito, muito tempo.  Aproveitei o ensejo para lhe autografar meus contos na antologia Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998), “Pátrias de Chuteiras” e “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, enquanto César R.T. Silva me explicava as nuances da decisão de Nelson de Oliveira, que agora só publicará ficção sob a pena de Luiz Brás.  Nesta mesma ocasião, reencontrei Christopher Kastensmidt, recém-chegado da Chicon 2012, convenção mundial de ficção científica e gêneros correlatos em Chicago.  Também conversei com Eric Novello sobre a qualidade do ensaio fotográfico erótico de fino trato que o xará dele, Erick Sama, encartou no fim da Erótica Fantástica 1.

Cesar R.T. Silva, GL-R, Marcello e João Batista Melo.
 

Também aproveitei esse intervalo para apreciar os belos painéis do projeto que Estevão Ribeiro está desenvolvendo junto à Ediouro de uma graphic novel fundindo as visões vitorianas de viagens à Lua de Jules Verne e H.G. Wells, com pinceladas de Georges Miéliès.

Exposição "Da Terra à Lua", de Estevão Ribeiro.

 
A última atividade oficial da tarde foi a mesa-redonda “O Imaginário Medieval: Origem e Continuidade dos Seres Fantásticos”, com a editora Karin Thrall e as autoras e editoras Ana Cristina Rodrigues e Simone Marques.  Naquela que considerei a melhor atividade formal da tarde, as três discorreram sobre os bestiários da Antiguidade Clássica e Celta, bem como da Idade Média, com forte ênfase nos dragões.  Também foi a mesa ou papo em que as participantes melhor interagiram com a plateia.


Simone Marques, Karin Thrall e Ana Cristina Rodrigues:
"O Imaginário Medieval: Origem e Continuidade dos Seres Fantásticos".
 

Nesta Fantasticon, no início de cada bate-papo ou mesa-redonda, uma jovem vestida em trajes steampunks subiu ao palco para ler uma poesia de André Carneiro, como parte das comemorações pelo nonagésimo aniversário do decano da ficção científica brasileira.  Pouco mais tarde, conversando com o pesquisador Carlos Alberto Machado, soube que o André ainda está saudável e inteiramente lúcido e que, em princípio, poderia topar participar de atividades em convenções em Sampa ou no Rio.

Sílvio Alexandre: Leitura dos poemas de André Carneiro.

 
Após o fim dos trabalhos, enquanto aguardava que o casal Erick Sama & Janaína Chervezan me buscassem para jantar, conversei um pouco com Anderson Santos, Estevão Ribeiro, Ana Cristina Rodrigues, Marcello Simão Branco e César R.T. Silva.

Uma boa novidade é que Ana Cris retomará o papel de responsável pelo selo fantástico Llyr da editora Vermelho Marinho, reassumindo a coordenação da área de literatura fantástica da editora.

Erick e Janaína me buscaram à porta da biblioteca e, após breve bate-papo com os amigos ali remanescentes e um não tão breve engarrafamento, felizmente regado a bom papo a bordo do carro do casal, chegamos ao restaurante onde me haviam prometido uma pizza espetacular.  De fato, a pizza de javali deliciosa superou minhas expectativas otimistas!  O Agnus Merlot da Lídio Carraro que acompanhou a pizza constituiu uma bela surpresa.  Com companhias e papos tão agradáveis, pizzas e vinhos que harmonizaram com perfeição, quando olhei para o relógio já era quase uma hora da manhã.  As conversas giraram em torno de gravidez e filhos, uma vez que Janaína está no último mês da gestação de Eduardo; educação e colégios; mercado editorial e, como não podia deixar de ser, ficção científica e fantástico.  Conversamos um bocado sobre e-books e, sob insistência do casal e os efeitos do álcool, acabei revelando alguns spoilers sobre os romances da saga Canção e Gelo e Fogo, do George R.R. Martin, com direito a insights sobre o mistério da verdadeira ascendência de Jon Snow.  Uma noite memorável.


Jantar com Erick Sama & Janaína Chervezan.
 

Mercure Paraíso, São Paulo, 15 de setembro de 2012 (sábado).

 

           DIA 2
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Hoje de manhã, após a quentinha de pizza de ontem à noite por desjejum, enquanto escrevia esta crônica, consegui conversar com a Cláudia via Skype.  Em seguida, fechei a mochila e fiz check-out no Mercure.

GL-R, Mushi, Marcelo Amaral, Ana Cris e Sid Castro.
Almoço: pastel, pastel, pastel...
 

Fui de metrô até Vila Mariana e da estação a pé até a Biblioteca Viriato Correa.  Lá chegando, encontrei Ana Cristina Rodrigues e Sid Castro no estande de vendas da Devir.  Convidei-os para almoçar o tradicionalíssimo pastel da Fantasticon.  Após resolver algumas pendengas envolvendo o atraso do recebimento dos exemplares do romance infanto-juvenil que Marcelo Amaral lançou pela Llyr, Ana Cris conseguiu sair para almoçar o pastel conosco.  Além de eu, Ana e do autor-órfão de livros, acompanharam-nos Marcelo Pereira, o popular Mushi, e Sid Castro.  O estabelecimento afirma que os pastéis da casa vêm com trinta centímetros de comprimento.  Conferimos mais uma vez que não se trata de propaganda enganosa.  Nove em cada dez participantes de Fantasticons anteriores admitem que as convenções de literatura fantástica abrigadas na Viriato Correa não seriam as mesmas sem o fabuloso pastel desse estabelecimento próximo à biblioteca municipal.  Depois de quase uma hora de bate-papo e fofocas do fandom, degustando um pastel de calabresa com catupiry regado por duas latas de coca zero, eis que chegam os amigos gaúchos, Duda Falcão, Cesar Alcázar e André Cordenonsi.  Como editora desalmada que é, Ana sussurrou ao meu ouvido:

— Quer ver como se faz um autor gelar?

E, em seguida, comentou casualmente com Duda Falcão:

— Comecei a ler seu livro e parei na página cem... — Malvada, deixou o comentário pelo meio.

Após alguns segundos de tensão, um Duda nervoso retrucou:

— Sim, tchê, mas, e daí?

Ana Cris permaneceu calada, apenas encarando Duda até que o rapaz começasse a suar frio.  Piedoso que sou, encerrei a sessão de tortura:

— Tudo bem, Ana.  Você ganhou a aposta.

*     *     *

 

Da pastelaria regressamos à biblioteca.  Antes de começar a cerimônia de entrega de certificados do Concurso Hydra, num golpe de sorte, logrei descolar a chave para um armário no guarda-volumes, desovando então minha mochila pesada.

O criador do prêmio, Christopher Kastensmidt, e um dos juízes, Tiago Castro (a outra juíza, Ana Carolina Silveira, não pôde comparecer) detalharam a gênese e a mecânica da premiação.  Explicaram que coube aos próprios autores inscrever seus trabalhos de até 10.000 palavras publicados, profissionalmente ou não, nos dois anos anteriores.  O triunvirato (Chris, Ana e Tiago) escolhe os melhores trabalhos e os direcionam ao autor norte-americano Orson Scott Card que estabelece a seleção final e, se for o caso, recomenda a publicação na revista que leva seu nome.  Nesta primeira edição os vencedores foram:

1º lugar — “História com Desenho e Diálogo”, de Brontops Baruq (Portal Fundação, Projeto Portal);

2º lugar — “Por um Fio”, de Flávio Medeiros, Jr. (Steampunk, Tarja Editorial); e

3º lugar — “Eu, a Sogra”, de Giulia Moon (Imaginários 1, Draco).

Tanto o primeiro colocado quanto o segundo tiveram sua publicação aprovada na revista Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show (www.intergalacticmedicineshow.com).

Concurso Hydra: Tiago Castro (juiz); Ana Cristina Rodrigues (por Flávio Medeiros Jr.);
Giulia Moon; Brontops Baruq; Christopher KAstensmidt (juiz).
 

Ao longo do bate-bola informal entre os dois juízes presentes, Christopher se confessou surpreso pelo fato de que vários autores brasileiros importantes publicados em 2009 e 2010 não terem submetido trabalhos ao Hydra.  Não sei se me qualifico nessa categoria, mas, no que me concerne, informo que não submeti meus contos porque o certame é patrocinado por Scott Card.  Reparem, não tenho nada contra o autor, sujeito afável e simpático que tive o prazer de conhecer em 1990, por ocasião de sua vinda ao Brasil como convidado de honra da InteriorCon I.  A questão é a pletora de ideias que ele defende e eu combato, desde o proselitismo religioso até a discriminação contra os direitos de minorias, sexuais e outras, para não falar no conservadorismo político extremo.  Seria hipocrisia de minha parte defender determinados ideais e, ao mesmo tempo, movido por interesses, digamos, ahn, literários, transigir a ponto de me alinhar com alguém que comunga de ideais tão contrários.  Não pretendo tecer juízo de valor sobre a conduta moral alheia, pois, cada um sabe onde seus calos apertam e, de mais a mais, é bem possível que essas questões de me incomodam não sejam em absoluto relevantes para os autores que submeteram seus trabalhos ou, quiçá, eles ignoram o perfil político do patrocinador, vá lá saber.  De todo modo, é possível que outros autores tenham pensado mais ou menos por essas mesmas linhas, daí, a relativa ausência de algumas submissões mais ou menos esperadas pelos organizadores.  Claro que isto não passa de uma teoria fosfórica da minha parte...

De volta à cerimônia, Tiago e Chris exibiram o certificado e em seguida convocaram Giulia Moon ao palco para receber o Hydra por seu divertido e inspiradíssimo “Eu, a Sogra”.  Como Flávio Medeiros não pôde comparecer, Ana Cristina Rodrigues recebeu o certificado em seu nome, pela noveleta de ficção alternativa “Por um Fio”, onde o autor antepõe o gênio de Jules Verne ao de H.G. Wells de uma forma inusitada e original.  Enfim, o vencedor tímido, Brontops Baruq, foi chamado para receber seu certificado pelo conto “História com Desenho e Diálogo”, originalmente publicada no Portal Fundação.

Considero o Concurso Hydra uma iniciativa valorosa para divulgar a literatura fantástica brasileira no exterior.  Daí, apesar das ressalvas expressas acima, torço para que o projeto frutifique em edições futuras, propiciando a disponibilização de mais e mais histórias brasileiras de ficção científica, horror e fantasia para o público internacional.

No intervalo que se seguiu à cerimônia de entrega de certificados do Hydra, conversei com Marcelo Galvão e agradeci a homenagem bem-humorada de batizar um planeta com meu nome na noveleta “Inferno de Dantè”.  Um mundo reputado em toda a esfera de influência humana por seus vinhos tintos notáveis...

Também conversei brevemente com Antonio Luiz M.C. da Costa, trajado de bermudas, e com Marcia Olivieri, algo nervosa por estar prestes a entrar no auditório para participar da mesa-redonda “Caminhos do Fantástico na Literatura Brasileira”.  Marcia estreou como romancista com o lançamento de seu juvenil, O Portal de Capricórnio.

A mesa-redonda supracitada foi moderada por Cláudio Brites.  Além de Marcia, participaram os autores André de Leones e Dynion Golau, ambos com experiência predominantemente mainstream (inclusive, com premiações) e incursões esporádicas na literatura fantástica.  Não sei se o efeito esteve o tempo todo nos planos de nosso mestre-organizador Sílvio Alexandre, ou se tudo não passou de uma coincidência feliz, mas o fato é que esta mesa-redonda constituiu um contraponto interessantíssimo ao bate-papo de ontem à tarde, “Alta Literatura vs. Literatura de Entretenimento”.  Pessoalmente, apreciei mais a mesa de hoje.  Os participantes me passaram a impressão de estarem mais soltos e mais interessados em transmitir suas experiências e motivações à plateia.  Sei lá.  De repente, foi só impressão...J

André de Leones, Marcia Olivieri, Dynion Golau e Cláudio Brites:
"Caminhos do Fantástico na Literatura Brasileira".
 

No intervalo seguinte, Camila Fernandes, autora do conto “A Melhor Trepada da Cidade”, que abre a antologia Erótica Fantástica 1, à semelhança do que já havia ocorrido com outros autores com quem encontrei nesta primeira semana da Fantasticon 2012 — Ana Cristina Rodrigues (“A Ilha dos Amores”); Felipe Castilho (o bem-humorado “Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias”) e Sid Castro (que fecha o livro com sua noveleta “Fêmea Humana”) — cobrou-me seu exemplar do dito livro.  Mais uma vez, humildemente, expliquei que não passo de um antologista inocente e que eventuais reclamações, cartas-bomba e ovos podres devem ser encaminhados ao nosso publisher, Erick Sama.

Não obstante seu título bombástico (literalmente), a última mesa-redonda desta primeira semana, “Mulheres & Fantasia: uma Combinação Explosiva” foi de longe a mais interessante e divertida de todas.  Rolou uma química muito positiva entre as quatro participantes, a fotógrafa Nathalie Gingold e as escritoras Camila Fernandes, Cristina Lasaitis e Carol Chiovatto.  O quarteto parecia jogar por música, numa sinergia de dar gosto, de repente, advinda do fato de serem amigas e mais ou menos compartilharem das mesmas opiniões sobre as falhas na abordagem de personagens femininas na narrativa fantástica.  A mesa centrou suas baterias energéticas contra a clicherização das personagens femininas na literatura e no cinema (mas não só).  Camila reclamou que as personagens femininas aparecem geralmente mais sexualizadas do que os masculinos.  Falou-se um bocado de personagens que eram sem graça ou até feias nos textos fantásticos, como a Hermione do universo ficcional Harry Potter, que se tornaram beldades quando transpostas para as telas.  Quando Cristina comentou que o termo adotado para robôs humanoides é “androide”, independentemente do gênero da inteligência artificial em questão, lembrei-me das ginoides da noveleta “A Mulher Imperfeita”, do Daniel Dutra, publicada na Erótica Fantástica 1.

Cristina Lasaitis, Nathalie Gingold, Camila Fernandes e Carol Chiovatto:
"Mulheres & Fantasia: uma Combinação Explosiva.
 
Quando a mesa pediu exemplos de robôs ou androides com caracteres sexuais masculinos que, sem constituírem meros objetos de prazer, estabelecem vínculos sexoafetivos com parceiras orgânicas, mencionei o mentor artificial da viajante do tempo no romance Millennium, do John Varley, mais tarde transformado em filme.  Lembro que no romance rolava uma relação S&M em que o androide assumia o papel dominante.  No filme não houve nada disso, talvez para não impedir o acesso do público infantojuvenil.

Já na fase das perguntas da plateia, meu amigo Silvio Alexandre me jogou na fogueira ao lembrar que havia um autor presente que escrevera durante mais de uma década (mentira, foram só nove anos) sob pseudônimo feminino, conquistando vários prêmios literários e, pior, partindo vários corações.  Acuado, aceitei o microfone e narrei minhas motivações para criar Carla Cristina Pereira, minha personagem mais verossímil, tão convincente que logrou persuadir boa parte do fandom de sua existência física durante quase uma década.  Ao longo desse tempo, ela amealhou mais prêmios literários do que eu, dentre esses, o Simetria 2000 com “Longa Viagem para Casa”, a premiação no concurso patrocinado pelo site Na Toca do Hobbit com “Estigma da Morte Anunciada” e, sobretudo, a classificação como finalista do Sidewise Awards 2000 pela versão em inglês de “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança”.  Aos interessados em mais detalhes, escrevi uma crônica metaliterária breve sobre a lucubração dessa autora, “Os anos em que fui Carla”, que pode ser baixado no endereço:
http://www.4shared.com/office/lax02Gsf/Os_anos_em_que_fui_Carla.htm

Encerrada a mesa-redonda, enquanto esperávamos alguns amigos para jantar num pezinho-sujo simpático das redondezas, conversei com o André Cordenonsi e o Duda Falcão sobre comédias francesas com temática homoerótica, indo desde O Closet (2001) até o clássico Meu Marido de Batom (1986).  Curiosamente, as duas comédias foram estreladas por Gérard Depardieu.  Ou, não tão curiosamente assim, considerando que o Obelix protagonizou boa parte dos filmes franceses de sucesso nas últimas décadas.

Um papo que rolou na caminhada da Viriato Correa até o tal pezinho-sujo, foi o da perspectiva (agora concreta, visto haver patrocinador) da realização de uma Fantasticon Rio 2013, a se dar em janeiro próximo em algum lugar do espaço sideral na Barra da Tijuca.  Espero que aconteça na segunda quinzena de janeiro para que eu possa participar.  O Sílvio Alexandre carioca oficial será a Ana Cristina Rodrigues.  Convenção de literatura fantástica na Cidade Maravilhosa, em pleno verão, é tudo de bom!

Tivemos nosso já tradicional jantar de encerramento (lembrando que semana que vem tem mais!) naquele mesmo pé-sujo de sempre.  Imagino que os funcionários do estabelecimento devem estranhar um bocado o assédio anual desse bando de gente esquisita, que só fala de livros e filmes de que eles nunca ouviram falar, mas que eleva significativamente a receita do mês de setembro durante o único fim de semana do ano em que aparece por lá.

Como o forte da casa são os espetinhos de carne, pedi um de costela suína e o outro de linguiça calabresa, regadas a coca-zero e capivodka de morango (fraquinha), pois, com Ana Cris ainda combalida, fiquei sem parceiro para dividir um Santa Helena Cabernet Sauvignon ausente do cardápio, mas presente numa prateleira próxima.


Pezinho-Sujo simpático - Tomada 1.


O bate-papo do jantar rolou animado, como é hábito nas confraternizações pós-Fantasticon.  Comparou-se a vida nas cidades grandes em relação às médias e pequenas.  Falamos de preferências quanto à pelagem corporal feminina e masculina, assunto trazido à baila pelo trabalho de Nathalie com nus naturais (i.e., não retocados) e pelo ensaio fotográfico da Erótica Fantástica 1, que tanto Ana Cris quanto Cristina Lasaitis consideraram de bom gosto.  Encerramos a noitada com outra grande tradição do nosso meio, a revelação de algumas fofocas escabrosas do fandom carioca e paulistano, com ênfase especial aos membros ausentes.

Pezinho-Sujo simpático - Tomada 2.
 
 
Quitamos a conta baratinha, despedimo-nos dos amigos, saímos do pé-sujo a pé e caminhamos, eu, Ana, Max e Andrea Alves rumo à estação de metrô de Vila Mariana.  Eu e Ana embarcamos ali em direção à estação Tietê, enquanto Max acompanhou Andrea até o ponto de ônibus, pois só regressaria para o Rio amanhã.

Na rodoviária, Ana embarcou num ônibus-leito da Viação 1001 que partiu às 23:30h com destino a Niterói, ao passo que eu parti às 23:59h num leito da Expresso do Sul rumo ao Rio de Janeiro.

Semana que vem tem mais.

Terminal Rodoviário Tietê, São Paulo, 16 de setembro de 2012 (domingo).

 

Postscriptum:

Dotado de propulsão relativística, esse ônibus-leito da Expresso do Sul estabeleceu um novo recorde, pois chegou à Rodoviária Novo Rio às 05:00h, mesmo considerando a parada de meia hora no meio da madrugada.  Dormi bem a viagem inteira.  Bem mal.

Participantes:
Amanda Reznor
Ana Cristina Rodrigues
Anderson Santos
André de Leones
Andre Zanki Cordenonsi
Andrea Alves
Antonio Luiz M.C. Costa
Camila Fernandes
Carlos Alberto Machado
Carol Chiovatto
Cesar Alcázar
Cesar R.T. Silva
Christopher Kastensmidt
Cláudio Brites
Cristina Lasaitis
Douglas MCT
Duda Falcão
Dynion Golau
Ednei Procópio
Eric Novello
Erick Sama
Estevão Ribeiro
Felipe Castilho
Finisia Fideli
Gerson Lodi-Ribeiro
Giampaollo Celli
Giseli Ramos
Giulia Moon
Gumercindo Rocha Dorea
Janaina Chervezan
José Roberto Vieira (Zero)
João Batista Melo
Kyanja Lee
Luiz Brás
Marcello Simão Branco
Marcelo Amaral
Marcelo Rodrigo Pereira (Mushi)
Márcia Olivieri
Martha Argel
Max Mallmann
Nathalie Gingold
Roberta Nunes
Roberto de Sousa Causo
Sergio Lins da Costa
Sid Castro
Sílvio Alexandre
Simone O. Marques
Tiago Castro

domingo, 29 de abril de 2012


1ª odisseia fantástica
de porto Alegre
2012


201204290742P1    18.923 D.V.

“O fator que mais me motivou a me tornar escritora foi a preguiça.” [Simone Saueressig]



“O mais importante para escrever bem é ter prazer em escrever.  Porque, se você não gostar do que está criando, como esperar que o leitor goste?” [Giulia Moon]



“Revise sempre seu texto, revise muito” [Georgette Silen]



Regressei hoje de um sábado memorável vivido na cidade de Porto Alegre, pela qual já havia passado diversas rumo a Bento Gonçalves ou à Serra Gaúcha, mas onde nunca havia permanecido mais do que o tempo necessário para embarcar num ônibus, van ou avião.

Desta vez foi diferente.  O motivo foi a Primeira Odisseia de Literatura Fantástica, organizada por Cesar Alcázar, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão.  O evento se desenrolou no Memorial do Rio Grande do Sul, um belo prédio histórico situado no centro de Porto Alegre.

*     *      *



Deixei o Rio no voo 1452 da Gol que decolou pontualmente às 09:52h do Aeroporto Internacional Galeão Tom Jobim com míseros 28 minutos de atraso.  Aproveitei o tempo no aeroporto e durante o voo para revisar alguns contos da antologia Erótica Fantástica 1, que estou organizando para a editora Draco.  Trabalho produtivo: para o livro ficar pronto só falta escrever o prefácio.  Assim que o fizer, atacarei sua irmã gêmea, a Erótica Fantástica 2.

Felizmente, o voo não sofreu maiores atrasos, pois minha participação como mediador de uma mesa-redonda se daria às 13:00h.  De todo modo, julguei prudente ir direto para o Memorial sem passar no Hotel Lido para efetuar o check-in.

Saí pelo portão de desembarque do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre às 11:50h.  Quinze minutos mais tarde, descia do táxi na Sete de Setembro, a um quarteirão do Memorial, com a recomendação de uma churrascaria tipicamente gaúcha, a Galpão Crioulo.

Já à entrada do Memorial, travei conhecimento com Cesar Alcázar, um dos organizadores do evento.  Cesar me conduziu à área de vendas de livros, bem mais extensa que a da Fantasticon.  Ali, no estande dos livros independentes, descarreguei cinco exemplares da Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002), antologia de contos eróticos fantásticos que organizei há uma década e que hoje serve de benchmarking para as Eróticas Fantásticas.

Encontrei minha amiga Ana Cristina Rodrigues no estande em frente, que a Editorial Llyr dividia com a Ornitorrinco, editora que lançou a 2013: Ano Um, antologia de contos pós-apocalípticos organizada por Alicia Azevedo e Daniel Borba, que abre com meu “Terra Brasilis”, minha humilde resposta aos romances Choice of Gods, de Clifford D. Simak, e Darwinia, de Robert Charles Wilson.  Como a 2013: Ano Um já estava à venda no estande, aproveitei e dei uma folheada no livro: está bonito e bem acabado.  Aproveitei o ensejo e comprei, da mesma editora, a antologia Bestiário, organizado pela Ana Cristina e pela Ana Lúcia Merege.  Conheci também o Henrique de Lima, publisher da Ornitorrinco.

Nessa área de vendas também encontrei os editores Samir Machado de Machado e Douglas Quintas Reis, além dos autores Rober Pinheiro, Mustafá Ali Kanso, Roberto Sousa Causo e Douglas MCT.  Revi minha amiga Simone Saueressig, que já não via desde sua visita ao Rio oito ou dez anos atrás.  Apresentei Simone ao Erick Sama, que apareceu com seu new look careca de futuro papai, e travei contato com o autor Felipe Castilho, que ainda não conhecia pessoalmente.  Felipe constará da Erótica Fantástica 1 com o divertido “Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias” onde o narrador é um motel que assiste uma cópula fatídica de uma gostosa com um batedor alienígena; ecos do “Saving the World at the New Moon Motel”, da Roberta Lannes, só que mais hilário.


Estevão Ribeiro, GL-R e Simone Saueressig.


Outros sujeitos simpáticos que adorei conhecer foram Daniel Borba e Roberto Belli, ambos bastantes ativos nos Facebooks e listas de discussão da vida, mas que ainda não havia visto nas convenções presenciais.  A outra coantologista da 2013: Ano Um, Alícia Azevedo, eu já conhecera na Fantasticon passada, mas o Daniel foi agora na Odisseia.

Roberto Belli, GL-R e Daniel Borba.


Daniel Borba, Suzy Hekamiah e Amanda Reznor.

Mais tarde também conheceria Daniel Dutra e Estevan Lutz, outros dois autores que participam da Erótica Fantástica 1 com trabalhos interessantíssimos.  Daniel submeteu quatro trabalhos ambientados no mesmo universo ficcional, todos dignos de ingressar na antologia.  Acabei optando por “A Mulher Imperfeita”, noveleta que discute discriminação contra minorias sexuais e o impacto social da adoção da prática de sexo com robôs.  Já “A Cópula dos Devoradores de Mundos” do Estevan trata do acasalamento e da reprodução de entidades autoconscientes de dimensões cósmicas que habitariam o espaço interestelar.  Tive oportunidade de conversar bastante com os dois autores.  Daniel contou que começou a escrever ficção há relativamente pouco tempo.  Pelo pouco que li dele, foi um começo com o pé direito.  Estevan Lutz confessou preferir FC hard clássica de Asimov e Clarke nos tempos áureos desses autores.  Falou de sua ideia de um romance de história alternativa e eu lhe contei sobre o filme de história alternativa Nação do Medo, baseado no romance Pátria Amada, do Robert Harris.  No original, romance e filme são homônimos, sob o título Fatherland.  Aproveitei o ensejo da presença do autor para adquirir um exemplar autografado de O Voo de Icarus (Novo Século, 2010), de Estevan Lutz.

GL-R e Estevan Lutz.


Também conheci pessoalmente o sócio do CLFC Leo Carrion, que atuava como gerente do estande de livros independentes.  Leo me contou os detalhes da aquisição da vasta biblioteca da família de um sócio fundador do CLFC paulistano.  A manobra incluiu o aluguel de um caminhão de mudança para trazer os 40.000 itens do acervo desde São Paulo até Porto Alegre.  Segundo ele, uma pechincha.

Pouco antes de nossa mesa-redonda, Estevão Ribeiro me autorizou a divulgar seu projeto de reinterpretação quadrinizada do romance Da Terra à Lua, de Jules Verne, em que ele pretende misturar elementos do filme clássico de George Méliès e de Os Primeiros Homens na Lua, do H.G. Wells.  Estevão me convidou para prefaciar o livro, que sairá por uma editora do Grupo Ediouro (Agir ou Nova Fronteira).

Da Terra à Lua, de Estevão Ribeiro & Jules Verne.


Esta Primeira Odisseia de Literatura Fantástica decorreu em dois dias: anteontem e ontem.  A programação abriu às 19:00h de sexta-feira com a palestra “Simões Lopes e o Fantástico em Lendas do Sul”, de Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, que não tive oportunidade de assistir.  Após essa palestra houve um jantar de gala com cerca de quarenta presentes.

A abertura oficial do evento deu-se no sábado às 10:30h com a participação dos três organizadores, Alcázar, Kastensmidt e Falcão.  Em seguida, às 11:00h, houve uma mesa-redonda, “Fantastchê!  Escritores Gaúchos de Fantasia”.


Às 13:00h deu-se a atividade seguinte, a mesa-redonda que moderei: “Literatura Fantástica Além dos Livros”.  Originalmente, a mesa seria composta por Estevão Ribeiro, Max Mallmann e pelo cineasta Pedro Zimmermann.  No entanto, Max nos desfalcou ao receber o convite para participar de uma feira do livro em Bogotá com despesas pagas.  Daí, os organizadores convidaram o escritor e especialista em RPG, Bruno Schlatter.  Embora tal convite tenha chegado meio de última hora, Bruno pegou o touro pelos chifres, discorrendo com propriedade sobre os RPG com argumentos fantásticos, com direito a um apanhado histórico resumido sobre o desenvolvimento desse tipo de jogo.  Após as apresentações iniciais efetuadas pelo Christopher, tomei a palavra para discorrer brevemente sobre a presença prevalente da literatura em outras mídias, como fontes de inspiração nos roteiros de filmes, jogos e novelas.  Em seguida, passei a palavra a Estevão, que discorreu sobre a inserção dos super-heróis nas HQ e da evolução nas explicações científicas fantásticas para seus superpoderes ao longo do século XX.  Pedro Zimmermann falou sobre o cinema fantástico brasileiro com ênfase na ficção científica, subgênero cinematográfico do qual ele é um dos poucos cultores no Brasil.  Em seguida debatemos a presença, normalmente incidental, da ficção científica nas novelas da Globo, citando como exemplos O Clone e Morde e Assopra (cujo título provisório chegou a ser Robôs e Dinossauros).  Observei que, de maneira geral, os elementos de FC aparecem inseridos nas novelas globais como uma espécie de balão de ensaio.  À menor suspeita de rejeição dos telespectadores, os elementos são atenuados ou até mesmo varridos para fora do enredo.  Comentou-se também a ousadia temática do ciclo de novelas da Record iniciado com Os Mutantes.  Daí, abrimos para as produções dessa emissora calcadas em épicos do Antigo Testamento.  Enfim, roubando dois minutinhos do tempo que pretendia dedicar às perguntas e comentários da plateia, falei um pouco sobre a experiência de criar o universo ficcional de um projeto multimídia como o Taikodom da Hoplon Infotainment e dos tipos de compromissos que é necessário estabelecer quando o consumidor final se torna personagem do enredo.  Quando passamos a palavra à plateia, Ana Carolina Silveira comentou sobre as temáticas bíblicas da dramaturgia da Record, afirmando tratar-se mais de épico do que religião.  Faz sentido, porque, no fundo, muito do Antigo Testamento constitui mitologia hebraica, semelhante às mitologias nórdica, greco-romana e hindu em sua capacidade de atuar como gerador perpétuo de tramas épicas.


Momento de Epifania: "São Verne, iluminai nossas palavras!"


Mesa-Redonda: Literatura Fantástica Além dos Livros.
GL-R, Estevão Ribeiro, Bruno Schllatter e Pedro Zimmermann.

Mesa em Ação I: Prolegômenos.
Mesa em Ação II: FC nas telenovelas.

Encerrada nossa mesa-redonda, eu e Estevão nos dirigimos à nossa mesa de autógrafos, onde contamos com a companhia agradável da escritora Gislene Vieira de Lima.  Os pontos brilhantes dessa sessão foram os bate-papos com Pedro Zimmermann e com o Christopher sobre minha participação no Projeto Taikodom, bem como poder ouvir em primeira mão do Estevão, o detalhamento do Da Terra à Lua.  O lado chato foi que perdemos o painel das 14:00h sobre o mercado editorial da literatura fantástica no Brasil, com a participação dos publishers Guilherme Dei Svaldi, Cesar Alcázar, Erick Sama, Samir Machado de Machado e Douglas Quintas Reis.  Aliás, esse é o mais problema dessas convenções: às vezes há duas atividades legais rolando em simultâneo e o fã se vê obrigado a escolher uma em detrimento da outra.  Durante nossa permanência à mesa de autógrafos, várias pessoas sorridentes — não sabemos se curiosos ou fãs — passaram em frente e tiraram nossas fotos, sem falar conosco.  Direto da seção, “em breve num Facebook perto de você...”

Mesa de Autógrafos: Gislene Vieira de Lima, GL-R e Estevão Ribeiro.



Sentei para assistir a mesa-redonda “Crítica Literária e o Fantástico”, mas daí lembrei que ainda não havia feito o check-in no Lido e, o pior, nem sequer tinha certeza de que sabia chegar lá.  Felizmente, Ana Cris se dispôs a ir até lá comigo, uma vez que estávamos hospedados no mesmo hotel e ela precisava deixar algum material e buscar outro em seu quarto.

Realmente, o Lido é bem próximo do Memorial.  O Google Maps afirma que se trata de uma caminhada de cerca de 350 metros.  Porém, mesmo sob chuva fina (ambos estávamos sem guarda-chuvas), não pareceram mais do que duzentos metros.  O quarto 901 era amplo, limpo, com uma boa cama, uma televisão de tela grande que não liguei e um frigobar à disposição do hóspede que nem sequer tive tempo de examinar.  Com diária inferior a cem reais, já foi eleito como favorito para as próximas Odisseias Literárias.

De volta ao Memorial do Rio Grande do Sul, sentei para assistir o painel “Brasil Fantástico”, moderado por Roberto de Sousa Causo, com a participação de Simone Saueressig, Ana Lúcia Merege e Rober Pinheiro.  Antes de abrir a palavra para os outros fantasistas, Causo apresentou um apanhado histórico sobre os enredos de fantasia na literatura brasileira.  Em seguida passou a palavra a Simone, que discorreu sobre sua carreira e sua motivação para escrever fantasia.  Então, Ana Cristina falou sobre os tipos de fantasia que ela costuma escrever e, enfim, Rober delineou seu principal universo ficcional, definitivo por ele próprio como uma fusão de elementos de folclore e fantasia brasileiros e estrangeiros, estabelecendo um amálgama consistente.  Embora fantasia não seja a minha praia, estou curioso para conhecer esse universo ficcional.

Painel "Brasil Fantástico": Roberto Sousa Causo (mediador),
Ana Lúcia Merege, Rober Pinheiro e Simone Saueressig.

Brasil Fantástico - Rober e Simone pensativa.


Antes da mesa-redonda das 17:00h saí para trocar uma ideia rápida com o Silvio Alexandre.  Não encontrei meu amigo, incidi em bate-papos interessantes com Daniel Dutra, Estevan Lutz e Roberto Belli, e, em consequência, acabei perdendo uns dois terços da atividade, um dos temas mais instigantes e recorrentes dos nossos congressos literários fantásticos, “Quero Escrever Meu Livro, Quero Escrever Meu Conto”, moderado pela Giulia Moon, com a participação dos autores Rosana Rios, Douglas MCT, Chico Medina e Eddie Van Feu.  Como costuma acontecer nesse tipo de mesa ou debate, as dicas motivacionais dos autores mais experientes aos mais jovens não se limitou à parte formal de suas falas, estendendo-se também à sessão de perguntas & respostas do fim da mesa.  Neste sentido, a frase mais emblemática e lapidar da Odisseia foi proferida pela Giulia Moon: “para escrever bem é preciso ter prazer com o que se está escrevendo.  Porque, se o autor não estiver gostando do que escreve, como esperar que o leitor goste?”

A mesa-redonda das 18:00h, a última da Odisseia, constituiu uma espécie de gêmea siamesa da anterior.  Sob o título de “Quero Publicar Meu Livro, Quero Publicar Meu Conto”, versou essencialmente sobre submissão de originais de ficção fantástica a editores e antologistas.  A mesa contou com a participação da antologista Georgette Silen, o publisher Marcelo D. Amado, o promotor de evento e parecerista Silvio Alexandre.  A mediação foi exercida com mão de ferro por Ana Cristina Rodrigues.  A participação do Silvio foi importante também porque ele já foi organizador de várias coleções de ficção científica publicadas no Brasil.  Amado, por sua vez, é dublê de antologista e publisher na Estronho.  Já Georgette atua mais ou menos como eu: autora e antologista, especialista, portanto, na análise e seleção de textos de ficção curta, ao passo que Sílvio e Ana Cris estão mais acostumados a analisar e selecionar romances de literatura fantástica.  No entanto, os conselhos desses selecionadores aos jovens autores foram essencialmente semelhantes, não importando se falavam de ficção curta ou romances.  Todos os quatro dedilharam as mesmas teclas: revise sempre e revise muito; mantenha um mínimo aceitável de apuro ortográfico; observe as recomendações constantes das guidelines (antologias) e as políticas editoriais (submissão de romances); não julgue que se tornará a próxima J.K. Rowling ou André Vianco, pois fenômenos editoriais como esses constituem a exceção da exceção; não se preocupem em lucubrar a narrativa mais original do mundo: é de todo provável que a roda só tenha sido inventada uma vez, mas ela vem sendo aperfeiçoada até hoje.  A título de brincadeira, a mesa sugeriu que o autor inexperiente evite tentar subornar o editor ou antologista com bombons, chocolates e outros que tais.  Os chocolates serão apreciados, mas os trabalhos serão rejeitados.  Mais sérios, pontificaram: não tentem impressionar o editor/antologista: ele(a) provavelmente tem muito mais experiência de leitura que você e, a menos que você seja um autêntico gênio literário, daqueles que só surgem século sim, século não, você só logrará deixá-lo(a) mal impressionado.  Após ter sido identificado na plateia pela mediadora, comentei brevemente sobre o esforço para organizar antologias sob regime de submissões abertas.  Falou-se muito da necessidade de um bom começo, o primeiro capítulo do romance seria fundamental para o leitor decidir se prossegue ou não na leitura.  Daí, nos dez minutinhos dedicados a perguntas e comentários, sugeri o recurso surrado, mas sempre efetivo, do prólogo, quando a autor iniciante não dispõe de um primeiro capítulo matador.

Mesa-Redonda: "Quero Publicar Meu Livro/Meu Conto" -
M.D. Amado, Ana Cristina Rodrigues (mediadora), Georgette Silen e Silvio Alexandre.

Erick Sama, Organizadores e participantes da última mesa-redonda.


Daniel Borba com Comissão Organizadora: Christopher Kastensmidt, Cesar Alcázar e Duda Falcão.

Christopher Kastensmidt e GL-R.


Ao fim dessa última mesa-redonda, tive oportunidade de conversar melhor com Roberto Belli, que havia conhecido horas antes.  Belli tendo sido um dos principais apoiadores de Clinton Davisson na proposta de ressuscitar o Prêmio Argos e, como já havia feito anteriormente com o presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, parabenizei o Belli pela iniciativa corajosa.  Falei um pouco sobre a experiência dos velhas-guardas na organização do Prêmio Nova e, mais tarde, do Argos em sua primeira encarnação.  Roberto Belli me presenteou com um exemplar autografado de sua coletânea, Farol do Espaço Profundo (Nova Letra, 2012).

 
Também aproveitei o ensejo para conversar com Georgette Silen, que também não conhecia pessoalmente.  Naturalmente, nosso bate-papo animado girou em torno de antologias em geral e ficção erótica fantástica em particular.  Falei da experiência pretérita com a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! e da atual com as Eróticas Fantásticas, nas quais, enfim, logrei obter ficções homoafetivas de qualidade.  Georgette Silen fará parte da Erótica Fantástica 2, com o conto “Negócios são Negócios”.

Ao fim da Odisseia Fantástica, saímos para jantar na churrascaria Galpão Crioulo, aquela mesma que o motorista de táxi havia recomendado quando me trouxe do aeroporto ao Memorial.  O casal Christopher e Fernanda Kastensmidt me deu carona até a churrascaria, situada dentro de um parque municipal.  Fernanda é doutora professora universitária na área de informática.  O jantar encerrou com chave de ouro esse sábado fantástico em Porto Alegre.  Buffet de saladas e frios pra lá de generoso; carnes bem temperadas e saborosas; tintos da vinícola Boscato; show de danças típicas: não precisava mais nada para que votássemos a favor de realizar todas as próximas cinquenta e sete convenções brasileiras de literatura fantástica naquela cidade.

Após 24 horas redondas de jejum, travando o bom combate
contra cortes de carnes nobres, escoltado pelo bom e leal Boscato.


Nosso grupo possuía trinta e poucas pessoas, divididas numa mesa de vinte e poucas e outra com umas sete ou oito.  Sentei em frente ao Erick Sama e guardei dois lugares à minha direita para Ana Cris & Estevão.  À minha esquerda sentou-se o autor gaúcho Andre Zanki Cordenonsi, que eu ainda não conhecia pessoalmente.  Andre é meu companheiro na antologia 2013: Ano Um com um conto pós-apocalíptico enxuto, “A Rapineira”.  Feijão com arroz, bem temperado.

Como eu e Erick precisávamos relaxar e comemorar, não necessariamente nesta ordem, abrimos os serviços enoetílicos com um Boscato Cabernet Sauvignon.  Acho que foi a primeira experiência de meu amigo com a Boscato e posso afirmar que se tratou de uma experiência extremamente bem sucedida!  O cabernet combinou muito bem com a carne vermelha do churrasco.  Sentada à direita do Erick, a autora Amanda Reznor se aliou a nós a partir da segunda garrafa, um Pinot Noir, novo lançamento da Boscato — rótulo que o próprio gerente do estabelecimento julgou não dispor, embora constasse da carta de vinho.  No fim, a Pinot apareceu e a considerei mais estruturada e mais gostosa do que a Cabernet simples.  Erick ficou em dúvida.  Para dirimir a questão, uma terceira garrafa, outra Boscato Pinot Noir.  Havíamos pedido uma de cabernet, mas como o garçom que fazia as vezes de sommelier trouxe o rótulo errado, deixamos por isto mesmo.  Contrariando os conselhos de Ana Cris, preocupada com o teor alcoólico elevado do comportamento do Erick, partimos para a quarta garrafa, essa sim, outra Boscato Cabernet Sauvignon.



Nossa Mesa no Galpão Crioulo.


Ana Cris, GL-R, Andre Cordenonsi, Amanda Reznor e Erick Sama,
ao fundo, o show de danças folclóricas.

Após o 4º Boscato: Erick equilibrado por um fio ou, no caso, pelo dedo da Simone.

Amanda Reznor e Simone Saueressig.


Amanda nos brindou com o relato bizarro de um paciente atendido num hospital público mato-grossense por sua mãe, que é médica.  O rapaz teria chegado entalado com uma abobrinha de dimensões avantajadas no reto.  Após várias tentativas frustradas de remover o invasor oblongo, primeiro com pinças e mais tarde com fórceps, a mãe da Amanda vestiu luvas lubrificadas e se obrigou a remover o objeto a unha.  Literalmente.  Dos cinco dedos.  Impressionados com a narrativa, incentivamos a jovem autora a transformar a experiência hospitalar de sua mãe em narrativa ficcional.  Sugeri que, se ela colocasse o médico como um doutor alienígena atendendo num hospital poliespecífico, espantado com as idiossincrasias da conduta sexual humana, poderia submeter o conto resultante para a Erótica Fantástica 3.  Entusiasmada, Amanda sacou um guardanapo, pediu uma caneta emprestado e começou a rascunhar uma sinopse ali mesmo.

Além dos cortes de carne sensacionais e da profusão de Boscatos em sua carta de vinhos, o Galpão Crioulo proporciona a seus clientes um show de danças folclóricas gaúchas, com direito a cruzamento de facas e boleadeiras.  O boleador deu um show a parte, convidando ao palco Rober Pinheiro e a editora Simone Mateus.  Devidamente vendados, nossos heróis foram submetidos ao estranho poder da boleadeira.  Primeiro, Simone teve seus longos cabelos louros “escovados” pelo vento produzido pelas bolas que giravam em alta velocidade a milímetros de seu crânio.  Em seguida, foi a vez do Rober, que teve um cigarro primeiro apagado e então arrancado de seus lábios pelas bolas da morte.  Então, num grand finale, o boleador arrancou uma guimba de cigarro minúscula de sua boca.  Nem é preciso dizer que aplaudimos de pé, não o boleador, mas o Rober, que arriscou a vida pela nossa diversão.

El Boleador!

Simone Mateus atemorizada em "O Desafio Mortal".


A Grande Hora de Rober Pinheiro.

Ana Cris & Estevão com os Artistas.



Enfim, como tudo que é bom se acaba, por volta da meia-noite fechamos nossas contas e nos despedimos.  Acabou que eu, Estevão e Ana Cris rachamos um táxi até o Lido.  De volta a meu quarto, consideravelmente bêbado mas insone, fiquei até uma da matina namorando a 2013: Ano Um.  Li o prefácio do Cesar R.T. Silva e o posfácio dos organizadores, arrematando com a leitura preocupada de meu próprio conto à caça de erros.  Cisma de autor paranoico...

De manhã, deu tempo para tomar uma ducha, mas o café da manhã ficou para a próxima Odisseia, pois meu voo partia cedo para o Rio e aproveitei o tempo livre, primeiro no Salgado Filho e depois no voo 1453 da Gol para começar a escrever esta crônica.

Tomara que esta Odisseia Fantástica seja a primeira de muitas!

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 29 de abril de 2012 (domingo).




Participantes:

Alicia Azevedo
Amanda Reznor
Ana Carolina Silveira
Ana Cristina Rodrigues
Ana Lucia Merege
Andre Zanki Cordenonsi
Bruno Schlatter
Cesar Alcázar
Christopher Kastensmidt
Daniel Borba
Daniel Dutra
Douglas MCT
Douglas Quintas Reis
Duda Falcão
Erick Sama
Estevan Lutz
Estevão Ribeiro
Felipe Castilho
Fernanda Lima Kastensmidt
Georgette Silen
Gerson Lodi-Ribeiro
Gislene Vieira de Lima
Giulia Moon
Hanny Saraiva
Henrique de Lima
Leo Carrion
M.D. Amado
Marcelo Paschoalin
Mariana Albuquerque
Mustafá Ali Kanso
Pedro Zimmermann
Rober Pinheiro
Roberto Belli
Roberto de Sousa Causo
Samir Machado de Machado
Sheila Liz
Sílvio Alexandre
Simone Mateus
Simone O. Marques
Simone Saueressig
Suzy M. Hekamiah