quarta-feira, 1 de junho de 2011

Spaceblooks II
Dia 1 Mash-ups de assis
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“Será que há semelhança entre os defensores do cânone literário que atacam os mash-ups e os críticos politicamente corretos que pretendem censurar o racismo na literatura infantil de Monteiro Lobato?”
[Octavio Aragão, curador do SpaceBlooks II]



Deu-se hoje na Livraria Blooks, situada da galeria Unibanco Artplex na Praia de Botafogo a abertura da SpaceBlooks II, com a mesa-redonda “Mash-ups Machadianos”, moderada pelo curador do evento, Octavio Aragão e a participação dos escritores Lúcio Manfredi, autor de Dom Casmurro e os Discos Voadores (Leya, 2010)[1] e Pedro Vieira, autor de Memórias Desmortas de Brás Cubas (Tarja, 2010).

Cheguei à Blooks direto do trabalho com quinze minutos de atraso em relação ao horário oficial de 19:00h.  Já estavam presentes os autores da mesa e, para variar, Lúcio fumava seu “cigarrinho do antes” na entrada da galeria do Artplex para relaxar.  Também presente estava o convidado especial britânico, Robert Shearman, trazido da Grã-Bretanha sob os auspícios da Cultura Inglesa.  Shearman falará amanhã na palestra “Ficção Científica na TV”.  Além disso, estavam lá o escritor e roteirista Max Mallmann e, é claro, o agitador cultural da própria Blooks, Toinho Castro e da gerente da livraria, Elisa Ventura.  Jaciara, responsável pela divulgação do evento por parte da Cultura Inglesa também compareceu.  Graças a ela, a SpaceBlooks II apareceu numa nota no caderno Prosa & Verso do O Globo de sábado passado e em O Dia.

 

Ausências sentidas foram a de Eduardo Torres, atual presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica; da autora e editora de fantasia Ana Cristina Rodrigues, do autor e quadrinista Carlos Eugenio Patati e do fã emérito Ricardo França.

Por falar em fãs eméritos, compareceram também Rafael “Lupo” Monteiro e Daniel Ribas.

A mesa-redonda se iniciou por volta das 19:40h com o curador Octavio apresentando os escritores Pedro Vieira e Lúcio Manfredi à plateia de cerca de vinte e cinco pessoas, público menor do que o presente em eventos anteriores na Blooks, mas surpreendentemente bom para uma segunda-feira.
Pedro Vieira.


Pedro Vieira abriu os trabalhos falando da gênese de seu Memórias Desmortas de Brás Cubas a partir da leitura do mash-up Orgulho, Preconceito e Zumbis, de Grahame-Smith, baseado no clássico Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.  Após comentar que esse romance que deu origem à onda mash-up, é algo monótono, por esgotar a piada original bem antes de concluir a narrativa — talvez pelo fato do autor se ter sentir obrigado a reter boa parte do texto original de Jane Austen — Pedro esclareceu que seu romance não deveria ser classificado como mash-up, uma vez que não emprega trechos extensos do texto original do romance de Machado de Assis, preferindo começar do ponto em que Memórias Póstumas de Brás Cubas parou, à semelhança do que Kim Newman fez em Anno Dracula, em relação ao clássico do horror de Bram Stoker.

Lúcio Manfredi revelou que a produção de Dom Casmurro e os Discos Voadores fez parte de uma estratégia da editora Leya de organizar uma coleção de mash-ups garimpando os clássicos da literatura brasileira, questão já comentada na crônica sobre o lançamento do romance do Lúcio em setembro passado.
Lúcio Manfredi.

Os dois escritores teceram comentários bem-humorados sobre os preconceitos enfrentados e as críticas acerbas recebidas da parte da intelligentzia da literatura brasileira.  De maneira geral, os críticos de plantão se mostraram indignados ante o atrevimento deles em fundir temáticas fantásticas a textos há muito santificados pelo cânone.  Autores e plateia comentaram que diversas narrativas audiovisuais desprovidas de elementos fantásticos que atualizaram temáticas expressas em romances machadianos foram de maneira geral bem acolhidas pela crítica.  Octavio estabeleceu uma comparação dessa atitude tacanha do cânone com a patrulha ideológica exercida há pouco tempo contra a literatura infantojuvenil de Monteiro Lobato, por conta de trechos pretensamente racistas, quando, em verdade, o autor só demonstra seu racismo no romance de ficção científica O Presidente Negro.

Max Mallmann, Rafael Lupo e Daniel Ribas levantaram questões e comentários relevantes para enriquecer o debate que se seguiu após as falas dos escritores.  Ao longo dessa interação animada, um cidadão de cerca de setenta anos sentado na última fileira manifestou-se diversas vezes em voz gutural para cobrar a produção de mash-ups inspirados em Iracema e nas obras de Clarice Lispector e Jorge Amado.  Houve quem insinuasse que tal indivíduo estaria, na verdade, emulando um zumbi para divulgar o evento, versão não confirmada por Jaciara.

Encerrada a mesa-redonda, autografei a coletânea Outros Brasis (Mercuryo, 2006) e o romance de história alternativa Xochiquetzal, uma Princesa Asteca entre os Incas (Draco, 2009) para o Pedro Vieira.  Também autografei meus contos “Eram os Deuses Crononautas?” e “Coleira do Amor”, publicados respectivamente em Intempol (Ano-Luz, 2000) e Vinte Anos de Hiperespaço (Virgo, 2003) para Daniel Ribas.
Octavio Aragão, Curador do SpaceBlooks 2011.


Já mais ou menos de saída, travei contato com o autor britânico Robert Shearman, roteirista da série Doctor Who, sujeito que demonstrou ser a simpatia em pessoa, desejando-me sucesso no lançamento de A Guardiã da Memória (Draco, 2011) depois de amanhã.  Também conversei com a gerente e dona da livraria, Elisa Ventura, sobre as garrafas de Boscato Reserva Merlot que levarei para os lançamentos da quarta-feira.

Rafael "Lupo" Monteiro, Max Mallmann, Lúcio Manfredi, Octavio Aragão e Pedro Vieira.


Após um bate-papo com Max Mallmann e Rafael Lupo, parti da livraria para aguardar a Cláudia, que viria de táxi da ABS para me buscar na entrada da galeria Artplex Unibanco.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 30 de maio de 2011 (segunda-feira).




Participantes:
Daniel Ribas
Elisa Ventura [Blooks]
Gerson Lodi-Ribeiro
Jaciara [Divulgação – Cultura Inglesa]
Lucio Manfredi
Max Mallmann
Octavio Aragão
Rafael “Lupo” Monteiro
Robert Shearman
Toinho Castro [Blooks]



[1].  Lançado em setembro do ano passado na Livraria Travessa do Leblon, junto com outros três mash-ups da editora, todos inspirados em clássicos da literatura brasileira já sob domínio público.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Noveletas selecionadas para a DIESELPUNK

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Dieselpunk: "Because steam was not dirty enough!

 



 
     Segue abaixo, a relação de trabalhos selecionados para a Dieselpunk:
(ordem alfabética do título das noveletas, nada a ver com a ordem de apresentação na antologia)

  • “Ao Perdedor, as Baratas” [Antonio Luiz da Costa];
  • “Auto do Extermínio” [Cirilo Lemos];
  • “Cobra de Fogo” [Sidemar Castro];
  • “O Dia em que Virgulino Cortou o Rabo da Cobra sem Fim com o Chuço Excomungado” [Octavio Aragão];
  • “A Fúria do Escorpião Azul” [Carlos Orsi Martinho];
  • “Grande G” [Tibor Moricz];
  • “Impávido Colosso” [Hugo Vera];
  • “Pais da Aviação” [Gerson Lodi-Ribeiro]; e
  • “Só a Morte te Resgata” [Jorge Candeias].

     Reparem que, ao contrário do que ocorreu no caso da Vaporpunk, agora não há contos ou novelas, apenas noveletas.
     O nível médio elevado dos trabalhos da Dieselpunk foi atingido graças a uma seleção "natural" brutal que procurou triar oito ou nove trabalhos das quarenta e muitas submissões recebidas.
     O lado triste é que fomos obrigados a deixar muito material bom de fora.
     O lado bom é que, com a seleção criteriosa, quem ganha é o leitor.
     Cumpre agora montar o livro, revisar os textos aprovados e passar a bola para o Erick Sama, publisher da Draco.

Enjoy!
Gerson.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Antologia de Contos Eróticos Fantásticos

GUIDELINES



Prezados & talentosos autores de ficção fantástica em língua portuguesa:

    Gostaríamos de convidá-los a submeter textos originais de ficção curta para uma antologia de contos eróticos de ficção científica, horror e fantasia que pretendemos fechar no segundo semestre de 2011 e lançar no primeiro semestre de 2012. O título provisório é Uma Alienígena Gostosa na Minha Cama.

    Estamos interessados em receber trabalhos inéditos de até 8.000 (oito mil) palavras sob forma de arquivos em formato RTF. Por inédito, entendemos trabalhos ainda não publicados em papel. Em caráter excepcional, a nosso critério, poderemos eventualmente aceitar trabalhos já publicados há vários anos, desde que não estejam mais disponíveis ao público-alvo a que nosso produto se destina.

     Nosso deadline é 31 de dezembro de 2011.

    O que nós desejamos? Receber trabalhos com tramas criativas, enredos originais, e carga erótica elevada, do tipo que deixará a maioria dos nossos leitores arrepiada. Um pequeno parênteses aqui: erotismo não significa vulgaridade barata. Missão difícil? Com certeza. Mas temos confiança de que vocês — ou pelo menos alguns de vocês — conseguirão atingir o padrão de qualidade que almejamos.

    Para tornar a brincadeira ainda mais divertida, anunciamos de antemão que pretendemos privilegiar trabalhos inventivos e originais. O que isto quer dizer exatamente? Essencialmente, que clichês surrados, como o do vampiro emo (sem “h”), não serão lidos com bons olhos pelos avaliadores que apreciarão os trabalhos submetidos.

    Em condições ideais, gostaríamos de montar uma antologia equilibrada entre autores, homens e mulheres, das mais diversas orientações sexuais. Aceitaremos trabalhos de autores de qualquer nacionalidade, planeta, raça e espécie, desde que grafados em português correto. Submissões de autores(as) portugueses(as) serão especialmente bem-vindas.

    Mas, afinal, o que escrever?

    A nosso ver as possibilidades temáticas são quase infinitas. Sexo no futuro; quantos sexos as pessoas terão e como esses sexos interagirão entre si; orientações e preferências sexuais; brinquedos eróticos autoconscientes ou não; parceiros artificiais, sobrenaturais ou alienígenas; espécies para as quais o sexo é apenas uma forma de procriar; espécies que respiram sexo o tempo todo; acoplamentos em g-zero ou sob gravitação elevada; relacionamentos com viajantes temporais e muito, muito mais. Sua imaginação poderosa, caro autor criativo, é o único limite. Confiamos que, se você colocar essa criatividade prodigiosa para funcionar, o resultado será maravilhoso.

    Encerramos com um pequeno alerta: O que ensejará rejeição sumária? Pedofiilia; textos homofóbicos ou que denotem preconceito de qualquer natureza; trabalhos mal escritos; contos repletos de clichês e lugares-comuns.

    Aguardamos (ansiosamente!) sua submissão.

    Submissões para glodir@unisys.com.br com cópia para ericksama@gmail.com.

    Boa sorte e até breve.

Erick Sama
Gerson Lodi-Ribeiro
Abril de 2010.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Lançamento Carioca da VaporpunkXochiquetzal, uma Princesa Asteca entre os Incas



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“Eu tenho direito, sim.”

[Daniel Ribas, afirmando que tinha o direito a autógrafos em todos os (muitos) livros trazidos à mesa]



sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Lançamento de Corrente,

Lançamento de Corrente, de Estevão Ribeiro



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“Do jeito que o horário de propaganda política
 anda cheio de baixarias horrorosas, o mundo real
 está dando de dez a zero na ficção de horror...”
[Frase ouvida na plateia durante a mesa-redonda]





Compareci hoje à noite na livraria Blooks, situada na galeria do Unibanco Artplex na Praia de Botafogo para o lançamento do thriller Corrente (Draco, 2010), de Estevão Ribeiro, com direito ao pós-lançamento do mash-up Memórias Desmortas de Brás Cubas (Tarja, 2010), de Pedro Vieira, uma vez que poucos puderam comparecer ao lançamento da véspera por causa do forte temporal que se abateu na Zona Sul da cidade na noite de ontem. Pré ou pós-lançado também foi a coletânea de quadrinhos bilíngue (português-inglês) Pequenos Heróis (Devir, 2010), com roteiros do Estevão, quadrinizados por vários desenhistas diferentes.


Minha presença no lançamento foi do tipo aparição-relâmpago. Como precisava buscar minha filha no curso PH lá em Ipanema às 20:20h, tive que sair do evento em plena mesa-redonda que, por sinal, estava bastante animada. Depois de minha partida, descobri pelos blogs e sites da vida que também apareceram por lá amigos que não cheguei a ver por lá, como Eduardo Torres, Carlos Eugênio Patati e André Vianco. Aliás, pelo sorriso do Edu com a taça de vinho na mão, junto com o Estevão, deduzo que a qualidade do tinto servido após a mesa-redonda foi das melhores... :-)

Cheguei direto do trabalho e desta vez, por incrível que pareça, consegui saltar bem em frente à Artplex Botafogo. Em plena galeria encontrei com a Mariana “Belly” Gouvin, que saía para comprar uma pipoca, mas não consegui papear com ela mais tarde.

Dentro da Blooks, encontrei Ana Cris e o autor. Como sabia que meu tempo era curto, tratei de comprar logo os dois livros do Estevão e o mash-up do Pedro Vieira. Com a mesa-redonda já prestes a começar, aproveitei que os autores se acomodaram em torno da mesa para coletar meus autógrafos. Enquanto Estevão autografava o Corrente, conversei brevemente com Tomaz Adour, antigo publisher e sócio da Papel & Virtual, editora pela qual publiquei a primeira edição da coletânea Outros Brasis em distantes idos de 1999. Lembramos do lançamento num pequeno restaurante do Horto que só deve ter funcionado coisa de dois meses, se tanto.

A mesa-redonda foi integrada por Ana Cristina Rodrigues, Estevão Ribeiro e Pedro Vieira, com apresentação e moderação a cargo de Anny Lucard. O tema da mesa foi a pergunta dirigida aos autores, “Do que você tem medo?”, assunto que, naturalmente, rendeu pano para manga, rendas e babados. No início dos trabalhos, ainda na fase da apresentação dos integrantes, Anny se mostrou um pouco nervosa. Porém, depois que a primeira fila da plateia lhe fez ver que estávamos entre amigos ali, ela se soltou e tudo correu bem.


Estevão Ribeiro, Miguel e Ana Cristina Rodrigues.


Autógrafos na Mesa-Redondaionar legenda

Pedro Vieira e Anny Lucard

 

A boa surpresa de minha breve estada na Blooks foi conhecer pessoalmente Pedro Vieira, o simpático autor do Memórias Desmortas de Brás Cubas. Aliás, não sei por que lapso inexplicável deixei de comprar esse mash-up na Fantasticon 2010. Porém, de qualquer forma, reparei minha falha não só comprando o livro como coligindo o autógrafo do leitor. Depois de ler e apreciar muito o Dom Casmurro e os Discos Voadores do Lúcio Manfredi, atacarei o Memórias Desmortas assim que concluir o excelente Casas de Vampiros (Tarja, 2010), onde Flávio Medeiros dá uma bela turbinada na temática surrada dos vampiros.



Infelizmente, no melhor da festa ou, quiçá, antes do melhor da festa começar, tive que bater em retirada para buscar a Ursulla em seu curso. À porta da livraria, ainda troquei duas ou três palavras com o Toinho Castro antes de correr para o ponto de táxi. Bebemorações pós-lançamentos terão que ficar para a próxima. Desta vez não deu tempo de sequer filar o vinho que a Blooks normalmente serve após a mesa-redonda. :-((( Bem, enfim, fica para a próxima...


Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2010 (quarta-feira).







Participantes (até eu sair...)


Ana Cristina Rodrigues
Anny Lucard
Estevão Ribeiro
Gerson Lodi-Ribeiro
Mariana “Belly” Gouvin
Rafael “Lupo” Monteiro
Toinho Castro
Tomaz Adour

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Lançamento de Dom Casmurro e os Discos Voadores, de Lúcio Manfredi




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“Gerson, é a última chance de retirar o que disse
e nós fingimos que não ouvimos nada...”
[Lúcio Manfredi]





Deu-se hoje à noite na filial Ipanema da Livraria da Travessa o lançamento do romance de ficção alternativa Dom Casmurro e os Discos Voadores, de Lúcio Manfredi, que marca a estréia desse autor como romancista.

Na verdade, foi o lançamento conjunto de quatro romances mash-up ou ficção alternativa (dependendo da quantidade de apropriação e alteração sobre o texto do autor clássico original) dentro do selo Lua de Papel, da editora Leya.* Uma tendência recente, importada do mercado editorial anglo-saxão, a partir do êxito comercial do romance mash-up Orgulho, Preconceito e Zumbis, baseado no texto original de Jane Austen. Felizmente, autores e editoras brasileiras tiveram o bom senso de explorar os clássicos originais brasileiros, em vez de tentar seus congêneres estrangeiros.


Capa do romance.

[*] Respectivamente, Dom Casmurro e os Discos Voadores, de Machado de Assis & Lúcio Manfredi; Senhora, a Bruxa, de José de Alencar & Angélica Lopes; A Escrava Isaura e o Vampiro, de Bernardo Guimarães & Jovane Nunes; e O Alienista Caçador de Mutantes, de Machado de Assis & Natalia Klein.
Ao chegar na Travessa surpreendi o autor fumando um cigarro na calçada da livraria (Ah, o vício...) para relaxar.

— Pô, Lúcio! Você não devia estar autografando? E o seu público? — Reclamei.

— Relaxa, Gerson. Tá todo mundo lá dentro. Só tô aproveitando uma brecha aqui um pouquinho. — Replicou entre tragada e baforada.

Após comprar meu exemplar no caixa, encontrei com o Rafael Lupo Monteiro. Empolgado, Lupo contou que adquiriu os quatro romances lançados hoje. Lúcio logo se reuniu a nós, esclarecendo de bate-pronto a principal dúvida da noite: segundo ele, seu Dom Casmurro e os Discos Voadores é ficção alternativa e não um mash-up. Falou que acrescentou muita coisa sua, mantendo apenas cerca de 30% do texto original do Machado de Assis. Aproveitei para coligir meu autógrafo antes que os outros amigos e fãs chegassem à livraria.

Autor, Obra e eu.
Eduardo Torres chegou cerca de meia hora mais tarde e, após a primeira taça, elogiou o tinto servido no lançamento, que não conseguimos descobrir a procedência. Aliás, o serviço estava com o bom padrão de qualidade habitual da Travessa Ipanema, que eu anteriormente atribuía exclusivamente aos lançamentos da Rocco, uma vez que nosso amigo Max Mallmann sempre lançou seus romances ali. Além do patê de fígado com geleia, do musse de gorgonzola e do frango ao curry, como inovação, tivemos um delicioso caldinho de ervilha servido em copos de plástico do tamanho de cálices de licor.

Conversamos sobre as várias narrativas de Spartacus, do romance do Howard Fast, ao filme clássico homônimo (1960), com roteiro de Dalton Trumbo e direção de Stanley Kubrick, passando pela série estilosa e quadrinística Spartacus — Blood & Sand presentemente exibida na Globosat HD. Esse papo começou quando Edu nos contou que seu sobrinho, entusiasmado com a leitura de O Centésimo em Roma do Max Mallmann, pediu-lhe outro romance histórico ambientado na Roma Antiga. O tio lhe comprou o romance de Fast e, mais tarde, o DVD remasterizado do Spartacus de Trumbo & Kubrick, com direito a entrevistas antigas e recentes de atores, diretor e roteirista, análise de cenas de roteiro mantidas ou mudadas no filme que foi às telas de cinema.

Vez por outra, um Lúcio renitente era arrancado à própria revelia do nosso bate-papo ameno e forçado a se sentar à mesa de autógrafos para cumprir o ritual sagrado de autor. Das vezes em que presenciei tal violência, a única em que esse acedeu de bom grado foi para conversar sobre a capa de seu romance com uma fã mirim de uns sete ou oito anos de idade, faladeirinha e extrovertida que só ela...

Autor e sua mais jovem admiradora.

Pouco mais tarde, chegou Ana Cristina Rodrigues, que teceu elogios ao romance que iniciou toda a voga atual de “parcerias” entre autores mainstream mortos cujos textos já caíram sob domínio público e autores de literatura fantástica atuais, o Pride, Prejudice and Zombies, que leu no original. Segundo Ana, pelo menos esse romance seminal é de fato um mash-up e, em sua opinião, muito divertido. Comentei que o maior problema desse tipo de parceria é que, para que o leitor desfrute devidamente da sutileza do trabalho, em muitos casos, teria que primeiro ler ou reler o romance clássico original que inspirou o parceiro vivo a escrever o mash-up.

Max Mallmann foi o penúltimo a chegar, mas fez questão de reparar uma grande injustiça. Outro grupo de amigos & conhecidos do Lúcio trouxe um exemplar em hardcover do The Big Penis Book lá do outro lado da livraria e o colocou perto da mesa de autógrafos para chocar nosso amigo ou, quem sabe, entusiasmar algum dos outros três autores da mesa. Em desagravo, Max desencavou um hardcover análogo sobre vaginas e o posicionou do lado do livro anterior. Casamento perfeito!

Já que o papo versava sobre sexo, comentei alguns detalhes picantes sobre a série Spartacus — Blood & Sand. Talvez por causa da temática de gladiadores e de certa predisposição anterior ao assunto, meus amigos levaram os comentários para o lado da sacanagem. Ainda tentei me explicar, mas há situações em que quanto mais você explica, mas se complica. Ao perceber que estava numa delas, julguei melhor me calar a fim de preservar os poucos trapos de reputação que me restavam. :-)

Autor & sua Tropa de Choque.

Ainda conversei com ela sobre a proposta do Erick Sama da Draco para que nós dois organizemos os lançamentos da editora aqui no Rio na livraria Blooks. A ideia é fazer uma mesa-redonda para o lançamento da Imaginários 3 (onde também seriam vendidas as Imaginários 1 & 2) e outra para a Vaporpunk (onde também seria vendido o Xochiquetzal). Eu moderaria as duas mesas e a Ana participaria de pelo menos uma delas. Vamos ver como é que vai rolar.

Estevão Ribeiro chegou quase da hora de encerrar a fase oficial do evento. O pessoal estava planejando partir da Travessa para o bar Devassa mais próximo. Não pude esticar com os amigos, pois tive que buscar minha filha no curso pré-vestibular noturno que ela está fazendo às terças e quartas-feiras.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2010 (terça-feira).







Participantes:
Ana Cristina Rodrigues
Eduardo Torres
Estevão Ribeiro
Gerson Lodi-Ribeiro
Lúcio Manfredi
Max Mallmann
Rafael “Lupo” Monteiro

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fantasticon 2010


Dia 2.
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“Garfield, corra por sua vida!”
[Ana Cris]


Embarquei hoje num ônibus da Expresso Brasileiro das 06:00h com chegada prevista à capital paulista por volta do meio-dia para participar dos dois últimos dias da Fantasticon 2010. Felizmente, conseguimos chegar no Terminal Tietê às 11:30h, meia hora antes do previsto.

Com relativo tempo livre, abri mão do táxi em prol do metrô, rumando da estação Tietê-Portuguesa até a estação Vila Mariana, distante meras três quadras da biblioteca municipal Viriato Correa, onde se dava a convenção. Como carregava mais de trinta livros no ombro, foram as três quadras mais longas da minha vida.

Prestes a entrar na biblioteca — mesma instituição onde ocorreram várias HorrorCons e RhodanCons na segunda metade da década de 1990 — encontrei o amigo paulistano Marcelo Galvão, que está publicando um conto na antologia Imaginários 3 (Draco, 2010), também lançada na convenção.

Uma vez dentro da biblioteca encontrei meus amigos Flávio “Garfield” Medeiros, Max Mallmann e Ana Cristina Rodrigues. Assim que cumprimentei os dois, rumei para o estande da Moonshadows para desovar os trinta livros que trouxera e conhecer pessoalmente a Michelle, com quem até então só falara via contatos por e-mail, Skype e telefone.

No estande da livraria encontrei o crítico e autor Antônio Luiz da Costa, a quem pedi que confirmasse se sua coletânea Eclipse ao Pôr do Sol (Draco 2010) seria lançada durante o evento. Ainda no estande encontrei com o autor e pesquisador curitibano Carlos Alberto Machado, que também afirmou estar lançando uma antologia organizada por André Carneiro, no qual ele teria um ou mais contos, a Proibido Ler de Gravata. Como já pretendia comprar outros livros, preocupado em ser traído pela memória, fiz uma listinha e entreguei na mão da Michelle para que fossem separados aos poucos, sem estresse.

Comprei ao todo sete livros neste sábado. Além da coletânea do Antônio Luiz e da antologia organizada pelo André Carneiro, adquiri o romance fix-up “mezzo-mainstream” Neon Azul (Draco 2010) do Eric Novello; o romance de FC juvenil Nômade (Ciranda de Letras, 2010) do Carlos Orsi Martinho; a Imaginários 3; o romance de horror Casas de Vampiro (Tarja, 2010) do Flávio Medeiros e o romance zumbifílico anglo-saxão Guerra Mundial Z (Rocco, 2010) de Max Brooks, a única tradução comprada neste sábado. Além disso, recebi do Sílvio um kit de participante em que constava um crachá e o romance de horror Fome (Tarja 2008) do Tibor Moricz.

Emerso da miríade de livros fantásticos da Moonshadows, cumprimentei os amigos Carlos Eugênio Patati, Bráulio Tavares e Silvio Alexandre, o organizador do evento. Bráulio comentou que, embora residamos no Rio, atualmente só nos encontramos em convenções paulistanas. De fato, acho que a última vez que estive com ele foi na Invisibilidades II, patrocinada pelo Instituto Cultural Itaú em 2008.

Bati um papo rápido com o Tibor Moricz e aproveitei para lhe pedir um autógrafo em seu romance Fome, melhor aquisição do kit de participante.

A primeira atividade do programa oficial que assisti foi a já tradicional mesa-redonda dos editores brasileiros de literatura fantástica, “O Mercado Editorial de Literatura Fantástica no Brasil”, com a participação de Douglas Quintas Reis (Devir); Adriano Piazzi (Aleph); Richard Diegues (Tarja); Ednei Procópio (Giz); Daniela Padilha (Difusão Cultural) e Erick Santos (Draco). Essa mesa-redonda não foi diferente de outras que assisti com editores do fantástico nacional, tanto nas falas dos diretores editoriais quanto nas perguntas dos leitores, autores e autores em potencial presentes na plateia. A novidade foi a participação do Erick da Draco, pois a editora tem menos de um ano de existência e essa é a primeira mesa desse tipo em que comparece. Os editores confirmaram para a plateia algo que muitos de nós já sabíamos, até mesmo pelo número recorde de lançamentos nesta convenção: o fantástico nacional está bombando! Erick aproveitou o ensejo para anunciar o futuro lançamento da antologia de história alternativa Dieselpunk, que organizarei para a Draco em 2011.


Mesa-Redonda dos Editores de Literatura Fantástica Brasileira.

Terminada a mesa-redonda, saí do auditório para bater papo com os amigos e dar mais uma olhada nos livros. Encontrei César R.T. Silva, meu ex-sócio dos tempos da editora Ano-Luz, que já não via há tempos. Também tirei algumas fotos, posei para outras e autografei os primeiros exemplares vendidos da antologia Vaporpunk (Draco, 2010) que organizei com o autor português Luís Filipe Silva para a editora. Modéstia do Erick Santos à parte, o livro está lindo, com capa bela e chamativa e acabamento interno primoroso, da primeira à última página. Junto com a Gostosa!, é meu “filho” mais bonito até hoje.

A Vaporpunk inclui oito trabalhos, dentre conto, novela e noveletas: “Fazenda Relógio” [Octavio Aragão]; “Os Oito Nomes do Deus Sem Nome” [Yves Robert]; “Os Primeiros Aztecas na Lua” [Flávio Medeiros]; “Consciência de Ébano” [Gerson Lodi-Ribeiro]; “Unidade em Chamas” [Jorge Candeias]; “A Extinção das Espécies” [Carlos Orsi]; “O Dia da Besta” [Eric Novello]; e “O Sol é que Alegra o Dia...” [João Ventura].

Vaporpunk
Relatos Steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades.

Aproveitei uma relativa folga na programação para dar um pulo no Formule 1 da Paraíso, para fazer meu check-in. Como o hotel dista duas estações de metrô de Vila Mariana, fui num pé e voltei no outro. Na ida encontrei com o amigo de longa data Carlos Orsi Martinho. Ele afirmou que se planejou para passar o fim de semana na capital. No hotel, adquiri um cartão de acesso à Internet na recepção, mas não o café da manhã, pois, de todo mundo, suspeito que não terei tempo de desfrutar de desjejum amanhã.

Mal tomei posse do quarto 646, exíguo mas adequado, testei a conexão de Internet e regressei à Viriato Correa de metrô.

De volta à Fantasticon, conversei com o Martinho e aproveitei para pedir autógrafo ao livro dele e também no romance vampírico do Flávio Medeiros. Também conversei com o Erick “Draco” Santos e com a Ana Cris sobre a Vaporpunk, elogiando a qualidade do acabamento que já está se tornando uma marca registrada da Draco. Também teci elogios aos trabalhos dos sete outros autores que realmente se esmeraram para escrever trabalhos elaborados e maduros. Ana Cris aproveitou o ensejo para confirmar sua determinação em fazer seu doutorado em história alternativa. Torço para que mantenha o interesse.

Silvio Alexandre veio comentar conosco que as meninas da literatura vampiresca haviam montado um cenário elaborado no palco do auditório para a mesa-redonda “Vozes Femininas na Literatura de Vampiro”. Não resisti e entrei para tirar umas fotos.

Sílvio Alexandre, Mr. Fantasticon.

Outra figura ilustre que nos deu o ar de sua graça foi Alfredo Keppler, ex-presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica que chegou a residir no Rio por uns tempos. Como Keppler anda sem tempo para leituras e só pretendia comprar um livro, recomendei-lhe que adquirisse um Vaporpunk e o autografei para ele. Também autografei exemplares para os membros egrégios do Conselho Steampunk, Cândido Ruiz, Carlos "Karl F." Felipe e José Roberto. Encontrei a autora paulistana Márcia Olivieri, mas, infelizmente, não pude conversar muito com ela.

Eric Novello, Ana Cristina Rodrigues, Max Mallmann, Erick Santos, Flávio Medeiros e eu.

Enquanto eu conversava com o Martinho, Michelle da Moonshadows teve uma crise de pressão baixa e desmaiou por instantes praticamente aos nossos pés. Eu e outras duas ou três pessoas a ajudamos a se pôr de pé e a pusemos sentada numa cadeira próxima. Uma jovem lhe ofereceu água e uma outra biscoitos salgados. Felizmente, não parece ter sido nada sério.

Aliás, minutos mais tarde Michelle afirmou que a Vaporpunk foi o livro mais vendido no estande da Moonshadows: até às 17:00h haviam evaporado mais de trinta exemplares da antologia. Um desempenho para lá de razoável, sobretudo se considerarmos que não se trata de um livro barato (R$ 49,90) e a concorrência das centenas de outros títulos ali vendidos.

1º Esboço da Capa da Vaporpunk.

Após coletar autógrafos dos autores da Vaporpunk presentes para o meu exemplar e o do Sílvio Alexandre, autografar o exemplar do Roberto Causo e pegar o autógrafo do Neon Azul com o Eric Novello, entrei no auditório para assistir a palestra “O Fantástico em Guimarães Rosa”, onde Bráulio Tavares deu um show ao comparar as sagas e estratégias narrativas de Rosa em Grandes Sertões Veredas com Tolkien na trilogia O Senhor dos Anéis. Com sua verve e erudição habitual Bráulio fez dessa participação o ponto alto da Fantasticon 2010. Tirando a mesa-redonda sobre chick-lits vampíricas, a palestra do Bráulio foi o evento que mais encheu o auditório da Viriato Correa.

Palestra de Bráulio Tavares.

Finda a palestra, sob comando de Ana Cris, saímos em comitiva, cerca de trinta pessoas, fora alguns desgarrados que chegaram mais tarde, como Erick Draco e Fernando Trevisan. Após várias idas e vindas ladeira acima Vila Mariana adentro, nossa líder declarou-se definitivamente perdida e amaldiçoou o autor paulistano Alexandre Heredia por nos ter prestado informações cartográficas urbanísticas de todo incorretas. Enfim, quando já começávamos a perder as esperanças, eis que tropeçamos numa espel... ahn, num botequim até então inteiramente às moscas. Comentei com Flávio e Martinho que aquele era um péssimo sinal, mas, ante a falta de opções, ancoramos ali mesmo, para melhor e para pior. O estabelecimento só ofereceu uma funcionária para atender nossa mesa gigantesca e os outros poucos clientes que ainda tentaram, por sua própria conta e risco, adentrar no local. Sentei com Ana Cris à minha direita, Flávio à esquerda, Martinho na frente. Max Mallmann sentou à direita da Ana e Rodolfo Londero à direita do Martinho. Quando chegou meia hora mais tarde, Erick Draco sentou-se à direita do Rodolfo. Erick foi de pronto considerado o homem mais bravo e corajoso da noite pelo fato de ter escapado indomitamente de um casamento para beber com os amigos. Nossa alimentação foi em sua maior parte light e saudável: queijo provolone à milanesa; batata frita; linguiças aperitivo; costelinhas suínas fritas com aipim; e manjubinhas fritas à milanesa. A maioria molhou o rega-bofe com cervejas diversas, enquanto eu, Flávio, Ana e Erick matamos três garrafas de Santa Helena Merlot, porque, afinal de contas, merlot é a casta tinta que desce redonda.

Como in vino veritas, diversas confissões se derramaram à mesa e, curiosamente, não apenas por aqueles que estavam bebendo vinho. O simpático Zero confessou já ter trabalhado como patinador de supermercado, informação rapidamente twittada por Erick para o ciberespaço. Falar sobre o romance A Guardiã da Memória que a Draco deverá lançar nos próximos meses, levou o papo para as síndromes de abstinências como fatores favoráveis ou contrários à criatividade literária, assunto que serviu de pretexto para que um jovem editor confessasse suas predileções zoofílicas felinas em tempos de necessidade, confissão esta que deixou Garfield extremamente preocupado, sobretudo após Ana ter bradado: “Garfield, corra por sua vida!”, ao que rebati, “Ou por sua honra!”

Confraternização na Espelunca.

Eu, Martinho e Flávio trocamos impressões sobre a conduta nem sempre ética de algumas editoras do gênero fantástico, aqui e lá de fora.

Graças aos bons préstimos do Rodolfo, grande pesquisador da FCB e abstêmio que só bebeu água durante toda noitada, logramos fechar a conta pela bagatela de quinhentos e poucos reais o que, dividido por mais de trinta, até que não deu grande coisa.

Heroicamente, Ana, Max, Flávio e outros ficaram para a esticada num outro estabelecimento qualquer. Mais castos e prudentes, eu, Martinho e Rodolfo embarcamos de metrô para nossos respectivos hotéis paulistanos.

Hotel Formule One [Paraíso], São Paulo, 28 de agosto de 2010 (sábado).


Dia 3.
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“Empregar personagens literários à guisa de figuras históricas constitui marca registrada da ficção alternativa e não da história alternativa.”
[Gerson Lodi-Ribeiro]



Fiz o check-out do Formule 1 às 10:30h e rumei para a biblioteca municipal Viriato Correa para o terceiro e último dia de Fantasticon 2010. Ao sair da estação Vila Mariana, encontrei o pesquisador Rodolfo Londero e seguimos papeando até a biblioteca.

Cheguei à biblioteca bem a tempo de iniciar minha palestra, “Histórias Alternativas Lusófonas”. Não tive tempo de ensaiar, mas foi melhor assim, porque o sistema de projeção de PowerPoint do estabelecimento não funcionou. Enquanto aguardava as tentativas de ativar o sistema, bati um papo com Erick Draco e com o editor decano da FC brasileira, Gumercindo Rocha Dorea, que comentou estar redigindo uma carta para mim com comentários de leituras recentes que fez de alguns dos meus textos ficcionais. Também troquei um breve abraço com André Vianco que estava capitaneando uma oficina literária num outro ambiente da Viriato Correa. Após várias tentativas infrutíferas, eu e Sílvio Alexandre desistimos da apresentação em PowerPoint e parti para o velho e confiável gogó mesmo, que esse não dá pau.

Inicialmente, pedi desculpas por não poder fazer a apresentação que planejara, anunciando que teríamos uma palestra alternativa sobre história alternativa em estilo bem steampunk mesmo.

Após umas breves definições iniciais, falei dos precursores do gênero, da relevância dos temas luso-brasileiros e das perspectivas alvissareiras para a história alternativa nacional. Em seguida apresentei um panorama geral dos trabalhos publicados profissionalmente no âmbito das histórias alternativas brasileiras, com certa ênfase nas preferências brasileiras em potencial (Impérios do Brasil Alternativos e Amazônias Alternativas) e então cumpri a promessa de campanha de abordar o subgênero steampunk, falando das duas antologias, a Steampunk da Tarja e a nossa Vaporpunk, com direito a comentários sobre os contos e noveletas mais notáveis. Finalmente, anunciei o lançamento para 2011 da antologia Dieselpunk, uma espécie de steampunk lato sensu.


Encerrada minha fala, passei a palavra à plateia. Ana Cris discordou de que o conto “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas” de Jacques Barcia na antologia da Tarja constituísse história alternativa e acabei concordando com ela. Rodolfo Londero indagou se um conto sobre a sobrevivência de Graciliano Ramos ao cárcere constituiria história alternativa, o que me levou a falar um pouco da subvertente das histórias alternativas de cunho pessoal. Bráulio Tavares comparou as H.A. pessoais aos estudos de micro-história atualmente em voga na academia. Após concluir que eu havia classificado seu conto “Flor do Estrume” como ficção alternativa, Antônio Luiz indagou se a noveleta “A Extinção das Espécies” de Carlos Orsi constituiria história alternativa mesmo propondo aparentemente um universo com leis físicas diferentes daquelas que regem nosso próprio universo. Chamado para dirimir a questão, o autor esclareceu que realmente propôs sua teoria da força vital baseado em leis naturais diferentes, o que descaracterizaria a noveleta como história alternativa, de um ponto de vista purista. Roberto Causo perguntou sobre histórias alternativas inspiradas em teorias científicas e visões de mundo diferentes da nossa. Embora a plateia de cerca de trinta pessoas parecesse disposta a discutir questões relacionadas às histórias alternativas por mais tempo, em virtude da programação esticada, Sílvio foi obrigado a encerrar a sessão.

Fora do auditório, regressei ao estande da Moonshadows para comprar um último livro, a coletânea Anjos, Mutantes e Dragões (Devir, 2010) do Ivanir Calado. Também peguei um autógrafo do Antônio Luiz em sua coletânea Eclipse ao Pôr do Sol, adquirida na véspera.

Ali mesmo, Cândido Ruiz — que à véspera já chamara minha atenção para a existência de fotos dos autores e organizadores ao fim da Vaporpunk — comentou comigo quando eu estava conversando com o Bráulio, que só depois de algum tempo lembrara da origem da terceira estrofe da música “Highwayman” do Jimmy Webb que inseri na abertura de minha noveleta “Consciência de Ébano”. Ele se surpreendeu com o fato de que a letra da música se encaixa com perfeição ao enredo. Expliquei que, realmente, trata-se de uma homenagem ao compositor e que, sim, a letra das três primeiras estrofes correspondem, respectivamente, às histórias, “Capitão Diabo das Geraes”; “Morcego do Mar”; e “Consciência de Ébano”. De bate-pronto, Cândido arrematou:


— Mas, espera aí! E a quarta estrofe? Aquela que ele está na nave espacial...

Com meu melhor sorriso enigmático de autor experiente nos lábios, confessei sem graça:

— Essa quarta história eu ainda não escrevi...

Uma salva de palmas para a perspicácia do Cândido: primeiro leitor da intuir a inspiração desse trio de trabalhos da linha histórica alternativa dos Três Brasis.


Do estande de vendas fomos almoçar numa pastelaria próxima. Uma comitiva menor desta vez, composta por eu, Carlos Orsi, Flávio Medeiros, Antônio Luiz, Erick Draco e sua esposa Janaína, Ana Cris, Max Mallmann, Carlos Patati, Rodolfo Londero e outros. Desde logo, Patati me avisou que os pastéis ali eram enormes. Devidamente alertado, limitei-me a um pastel quatro queijos que cumpriu as honras de lauto almoço. Fingindo ignorar o alerta, Erick pediu dois pastéis e, pior, conseguiu trucidá-los antes que eu terminasse o meu. Durante o almoço, discutimos certas imposturas intelectuais, inclusive da parte de cientistas. Rodolfo contou-nos algumas particularidades de seu estado natal, o Amapá. Segundo ele, a região daria pano para manga em termos de enredos de história alternativa.

Eu, Antônio Luiz, Martinho, Rodolfo, Erick e Janaína demos boas gargalhadas com a postura de alguns críticos em relação à obra de meu pseudônimo Carla Cristina Pereira. Martinho confessou que chegara a suspeitar certa feita de que éramos a mesma pessoa por causa da similaridade de estilos, mas que depois teria arquivado a ideia por implausível. Ante a curiosidade de Rodolfo, confirmei que minha inspiração realmente foi o caso de James Tiptree, Jr., pseudônimo masculino da autora de FC norte-americana Alice Sheldon. Confessei que inicialmente criara Carla em 1995 apenas para escrever artigos e ensaios em fanzines. Contudo, com o advento das antologias temáticas em ambos os lados do Atlântico no fim da década de 1990, não resisti à possibilidade de publicar dois trabalhos por livro, graças ao emprego de meu alter ego feminino...

Carlos Orsi Martinho, Carlos Eugênio Patati e Sérgio Pereira Couto na pastelaria.

De volta à Viriato Correa, fechei minha conta com a Michelle da Moonshadows, que me pagou em cash as Phantasticas e as Gostosas que eu lhe entregara na véspera. Mesmo abatidos os oito livros que eu comprei com a livraria, deu uma graninha legal!

Despedidas efetuadas, caminhei com o Carlos Orsi Martinho até a estação Vila Mariana e dali tomamos o metrô até o terminal rodoviário Tietê, onde ele comprou uma passagem para Jundiaí e eu embarquei no ônibus da Expresso Brasileiro rumo ao Rio de Janeiro. Leitura de viagem: Anjos, Mutantes e Dragões do Ivanir Calado. Sensacional.

De novidades da Fantasticon 2010, a alegria de ter conhecido fãs e autores novos, a satisfação com o sucesso de vendas da Vaporpunk e com a desova de mais alguns exemplares das antologias antigas da Ano-Luz e o alívio de ter proferido mais uma palestra razoavelmente interessante e bem-sucedida sobre histórias alternativas lusófonas. E, claro, prazer por ter trazido para casa mais uma dezena de bons livros, um dos quais, inclusive, ajudei a concretizar. Acabou que só consegui assistir ou participar de três atividades oficiais, a mesa-redonda dos editores, a palestra do Bráulio e a minha própria. Em compensação, pude bater papo e trocar bastante calor com a galera, conhecer melhor a nova geração da FCB e compartilhar de umas poucas fofocas do fandom. Ou seja, o que há de melhor na vida da comunidade da FC brasileira.

Para o ano tem mais!

Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010 (domingo).



Participantes:
Adriano Piazzi (Aleph)
Alexandre Heredia
Alfredo Keppler
Ana Carolina Silveira.
Ana Cristina Rodrigues
André Vianco
Aurisson
Bráulio Tavares
Cândido Ruiz (Conselho Steampunk)
Carlos Alberto Machado
Carlos Eugênio Patati
Carlos "Karl F." Felipe (Conselho Steampunk)
Carlos Orsi Martinho
César R.T. Silva
Cláudio Villa
Daniela Padilha (Difusão Cultural)
Douglas MCT
Douglas Quintas Reis (Devir)
Edgard "Garapa" Refinetti
Ednei Procópio (Giz)
Eric Novello
Erick “Draco” Santos & Janaína dos Santos.
Fernando Trevisan
Flávio “Garfield” Medeiros
Gerson Lodi-Ribeiro
Giampaollo Celli
Giulia Moon
Gumercindo Rocha Dorea.
Hugo Vera
Leandro Reis
Marcelo Galvão
Marcia Olivieri
Martha Argel
Max Mallmann
Michelle (Moonshadows)
Nazarethe Fonseca
Richard Diegues
Roberto de Sousa Causo
Rodolfo Londero
Sérgio Pereira Couto
Sílvio Alexandre
Tibor Moricz